Nas batidas do Sangue

4 Dançando até o fim


Notas iniciais
Voltei com mais um! Curiosos para saber o que vai acontecer com a nossa Hinata depois do telefonema urgente no meio da apresentação da sobrinha dela? Eu estava muito, até que consegui terminar de escrever o capítulo! Espero que se divirtam! Boa leitura~

“Ir ao teatro é como ir à vida sem nos comprometer” — Carlos Drummond de Andrade

O táxi não foi tão rápido quanto Hinata gostaria que tivesse sido. A verdade é que a detetive não poderia culpar o motorista, já que as ruas caóticas de Manhattan não recebiam o apelido de “caóticas” sem motivo. Além disso, todas as ruas que circundavam o teatro estavam cheias de repórteres e curiosos que queriam ver e saber o que havia acontecido.

Estava tudo tão cheio que ela pagou ao motorista e desceu uma quadra antes, optando por andar o resto do caminho, já que sentia seu corpo suar frio e completamente tenso pela expectativa que começava a criar. Ela estava mais que alerta no momento que tirou o distintivo do bolso do casaco e passou pelas fitas amarelas que circundavam a entrada do teatro.

— Detetive Hyuuga. — Saudou um dos policiais que impedia os passantes e curiosos de entrarem no espaço. — O detetive Hatake a espera perto do palco. Mandou avisar que não mexeram em nada.

— Ótimo, muito obrigada. — Agradeceu passando por ele e entrando no teatro sem cerimônias.

A entrada tinha lindas escadarias acarpetadas, rodeadas por enfeites de madeira dourados que pareciam brilhar, que levavam para os andares superiores, para os lugares mais distantes do palco. Além disso, um balcão para informações se exibia majestoso no meio, em frente ao par de portas de madeira enormes que estava abertas, dando quase uma visão completa do interior do teatro. Hinata apenas precisou continuar em frente, seguindo diretamente para a porta de madeira, que levava para o piso mais baixo, perto do palco.

Sem precisar pensar muito, a detetive deixou que seus olhos analisassem cada pedaço do teatro. O palco se estendia majestoso com suas cortinas vermelhas abertas e o chão de madeira clara reluzente. Bem no centro, Hinata avistou uma forma contorcida e comprida, mas não era isso que ela queria ver no momento. Sua atenção se voltou para as cadeiras do anfiteatro, onde os lugares marcados permitiriam que o público assistisse ao espetáculo. As mais próximas continham mochilas e uma prancheta, as mais distantes estavam vazias.

A detetive anotou aquilo mentalmente e conforme seus passos a levavam para mais próximo do palco seu olhar subia para os lugares mais altos. As paredes tinham detalhes pintados a mão em meio às cores verde e amarelo. Quatro balcões arredondados saíam delas, de ambos os lados do teatro, e provavelmente serviam para espectadores VIPs. Hinata tentou forçar os olhos para enxergar além dos muros de proteção, mas nada pode ver do andar superior além dos estofados esverdeados das cadeiras mais distantes.

Satisfeita com os primeiros momentos perto do lugar do assassinato, ela seguiu em frente, finalmente atravessando todo o caminho para subir as escadinhas e ir ao palco. O ambiente possuía um clima ameno, não tão frio quanto o lado de fora, o que era um indicativo de que o teatro tinha aquecedores espalhados por suas paredes. Hinata foi impedida de ver o falecido pelo corpo protuberante de Hatake, que se apressou para recebê-la.

— Hyuuga. — Cumprimentou-a de forma simples.

Hinata acenou para ele, mas não respondeu, sua atenção voltada completamente para o caso e a cena do crime. Qualquer pista que pudesse encontrar seria de muita valia para a solução e ela não podia se dar ao luxo de perder o assassino mais uma vez.

Logo ao lado do corpo havia cinco pessoas rodeadas por policiais e mais algumas atrás das cortinas, como se esperassem para serem interrogadas. Isso fez com que a detetive quisesse fazer uma careta, já que deixar testemunhas não era algo comum para um serial killer.

— Quem são esses? — Perguntou baixo, analisando cada um dos presentes. A última coisa que faria seria analisar o corpo enquanto tentava montar a cena em sua cabeça. — E cadê o legista? — Continuou, seu tom de voz já mal-humorado por notar a falta do outro responsável.

— São pessoas da companhia de dança do falecido — explicou Hatake rápido e direto. Depois de tanto tempo trabalhando com a detetive, ele sabia que não adiantaria puxar qualquer tipo de conversa alheia ao caso. Ela não o ouviria. — Ele está atrasado... Teve problemas com a mãe, mas já está a caminho.

Hinata soltou um muxoxo incomodado com o atraso, mas não disse nada, já que era um problema de família. Ela colocou a mão no ombro de Hatake e o afastou do caminho, indo direto para o corpo. O outro detetive a seguiu alguns passos atrás, nem um pouco animado com a perspectiva de ver o corpo mais uma vez.

— Esse é Sai. Ele nasceu na Alemanha, mas veio morar com a família da mãe ano passado, para tentar a sorte na Broadway como dançarino — começou Hatake, parando alguns passos atrás de Hinata, que havia se abaixado para analisar o falecido.

O corpo de Sai tinha várias lacerações espalhadas pelo dorso e estava caído de lado, como se tivesse caído daquele jeito. A detetive ficou ainda mais séria, porque não fazia sentido que ele realmente tivesse caído daquele jeito. Sangue tinha escorrido pelos ferimentos e uma pequena poça havia se formado sob ele, escorrendo levemente pelos vãos da madeira polida.

— Ele se juntou à companhia Masters of Rhythm um mês depois de ter se mudado e vinha trabalhando nela como coadjuvante até que apontaram seu talento um mês atrás e ele ganhou o tão sonhado papel principal — continuou Hatake retirando o bloquinho de notas que guardava no bolso do sobretudo velho preto.

— As luvas, por favor. — Pediu Hinata quando o outro detetive parou para respirar. — Vocês já tiraram as fotos do corpo?

— Já sim. — Confirmou breve o detetive depois de entregar uma luva branca para Hinata, que logo a colocou, tomando cuidado para não mexer em nada da cena do crime. Precisava que o legista a visse intacta. — Estava para ser o Alladin, da famosa peça que está vai voltar a ser apresentada aqui no teatro como foco principal, e acabou morto um pouco antes dos ensaios.

A detetive colocou a luva e tocou suavemente no corpo. Sai estava gelado, seus lábios quase sem cor alguma, indicando que ele não havia morrido no tempo que Hatake afirmava, mas ela ainda não tinha como confirmar a suspeita. Pegou um dos antebraços dele, encontrou escoriações e cortes.

— São ferimentos de defesa, está vendo? — Perguntou para Hatake, o impedindo de continuar a história de Sai. O homem se curvou para ser o que ela apontava e notando que tinha sua atenção, ela continuou. — Sai lutou até o final, tenho certeza.

Assim que terminou a frase, ela se levantou. Não havia nada em volta do corpo que pudesse dar alguma pista do que acontecera ali. Não havia a arma. Não havia objetos ou sujeiras. O palco brilhava de tão limpo, com a exceção dos respingos de sangue ocasionados pelo ataque violento. Hinata sentiu um frio na espinha ao comparar a cena do crime com a de Chouji. Era quase idêntica por estar tão vazia de pistas.

— Hm, Hyuuga, acho que preciso te falar mais uma coisa... — sussurrou Hatake atrás dela.

A detetive se virou para ele com uma expressão muito incomodada estampando seu rosto: — Devo acreditar que não tem nada a ver com um pedido para ir embora, não é?

— Não tem. — Respondeu ele, hesitante. — Você lembra das ordens do comissário Redmont depois que arquivamos o caso de Akamichi? Eu precisei ligar para ele...

O rosto de Hinata ficou completamente vazio quando o companheiro terminou de falar. Ela estava liberada para trabalhar sozinha sempre que quisesse com uma pequena exceção: o caso de Chouji. Ou melhor, caso o assassino de Chouji reaparecesse. O comissário havia sido muito direto em suas ordens e ela sabia que teria problemas se recusasse. No entanto, ainda havia uma questão.

— E quem é que eu vou ser obrigada a aguentar? — Questionou direta.

A expressão que ela usou fez Hatake suar frio. A seriedade e o cansaço se misturavam em seu olhar, passando uma mensagem nada agradável sobre sua infelicidade. O detetive agradeceu por não ser um interrogado e estar preso em uma sala sozinho com ela.

— Para ser justo com você, e deixar que o caso continue sendo seu — começou Hatake como se fosse um texto ensaiado. O que provavelmente era, já que deveria ter vindo do próprio Redmont. — Em vez de pedir para que ficasse com um parceiro que também é detetive, ele pediu a ajuda de um agente da SWAT.

Hinata não ficou muito animada com aquilo, mas ainda era melhor do que ter outro detetive metido em seu caso. Nunca dava certo quando dois egos batiam de frente e ela conhecia bem cada um dos colegas da homicídios para saber que um trabalho em equipe não terminaria de uma forma agradável.

— E quem vai ser?

— Adivinha, Hyuuga!

Uma voz grossa ressoou pelo teatro, aproveitando-se do isolamento acústico para ficar ainda mais clara e chegar aos ouvidos dos dois detetives em cima do palco sem problemas. Hianta se levantou no mesmo instante em que Kakashi se virou, dois pares de olhos pousaram sobre a figura bronzeada e sorridente do velho conhecido.

— Kiba? — Perguntou Kakashi, surpreso.

A detetive desviou o olhar para a pessoa que vinha atrás do policial sorridente, que estava com uma atitude muito diferente do que o local pedia. Os saltos agulhas batiam contra o piso fazendo um barulho alto, constante e incômodo. Hinata arregalou os olhos de forma surpresa para os dois recém-chegados.

— Há quanto tempo, meu amigo — falou Kiba subindo os degraus e indo apertar a mão de Kakashi, o sorriso não deixando seus lábios. Ele puxou um assunto agradável com o detetive, como se nada estivesse acontecendo.

Diferente dele, a mulher subiu as escadas e se dirigiu até o corpo, seu olhar sério desviou do cadáver para Hinata, de quem tinha parado ao lado.

— Temos uma cena e tanto aqui, mas não vejo muito mais sangue pelo palco. — Disse enquanto olhava ao redor.

— Ele tem alguns ferimentos de defesa nos antebraços, não acho que o ataque tenha começado aqui — explicou Hinata completamente profissional antes de se virar para a mulher com uma sobrancelha arqueada e uma expressão curiosa. — Doutora Senju, a que devo a ilustre presença?

— Seu legista, hã...

— Aburame. — Ajudou Hinata.

— Isso. Aburame está com a mãe muito doente e a irmã viajando, o próprio comissário pediu para que eu viesse ajudar no caso. — Explicou Senju, de maneira sucinta.

“Uma espiã”. Pensou a detetive de maneira breve e rápida. O boato de que poderia ser o mesmo assassino de Chouji Akimichi deve ter espalhado pela homicídios como fogo em um palheiro e o comissário quis garantir que o culpado fosse preso. Hinata não sentiu nem vontade de discutir, já que Tsunade Senju era reconhecidamente a melhor legista de Nova Iorque.

— Preciso levar esse jovem para o laboratório — pediu Senju, recebendo um aceno imediato de Hinata. — E as fotos do local?

— Tudo já foi feito. — Garantiu Hatake que só naquele momento parara de conversar com Kiba. — E a equipe já está pronta para levar o senhor Sai para o laboratório.

Todos se viraram para Hinata, que ainda era a detetive do caso. Ignorando os olhares, ela analisou uma última vez a cena do crime, que ela tinha certeza ter sido apenas o local final de descanso de Sai, que provavelmente fora perseguido até o centro do palco. Além disso, ela não encontrava outros detalhes que indicariam o mesmo modus operandi do assassino de Chouji, o que era um grande problema.

— Pode chamar a equipe e mandar que levem Sai e a doutora Senju para o laboratório.

Hatake acenou com a cabeça e saiu para chamar o resto da equipe da perícia. Tsunade pareceu satisfeita o suficiente depois de olhar rapidamente para o corpo e deixou o teatro, já preparada para ir direto ao laboratório encontrar as respostas que Sai estivesse disposto a dar. Finalmente deixada quase sozinha, Hinata podia voltar a se focar na cena.

— Acha que foi a mesma pessoa?

A pergunta a pegou desprevenida. Kiba tinha terminado de cruzar o palco e ido parar ao lado dela, mantendo uma distância segura do corpo para que não comprometesse qualquer prova que pudesse haver ali. O sorriso havia sumido do rosto do policial, que agora parecia uma pessoa completamente diferente. A detetive conhecia bem aquela expressão.

— Ainda não tenho certeza... Ainda mais porquê eu sei que não foi aqui que tudo começou. — Afirmou Hinata olhando para as cortinas e os caminhos que levavam aos camarins. — Você vem comigo? Preciso olhar o lado de dentro.

Kiba apenas concordou, se erguendo. Os dois apenas se afastaram quando a equipe de perícia se aproximou para retirar o corpo.

***

O lado de dentro do teatro não era tão glamouroso quanto a parte do palco ou da plateia. Era mais funcional. A construção detalhada e os enfeites continuavam espalhados pelas paredes, mas as araras cheias de roupas e os biombos que separavam alguns espaços específicos, mais todos os espelhos nas paredes rodeados por lâmpadas redondas e as pequenas estantes penduradas com maquiagens espelhadas, acabavam com a magia que o teatro trazia.

— Hatake disse que o grupo não viu nada, acha que podemos confiar neles?

A pergunta de KIba preencheu o espaço do camarim por sua força e seriedade, aquele não era um caso qualquer, mas Hinata precisava saber com quais peças estava jogando antes de tomar qualquer decisão.

— Ainda não sei, vou falar com eles pessoalmente quando chegar à delegacia — respondeu séria antes de se virar para ele. — É um espião também?

Normalmente, ela teria sido mais sutil, já que nunca começava um interrogatório de forma tão direta. Contudo, Kiba não era qualquer um e a expressão amigável que ele apresentara para Hatake quando chegara não era algo comum para ele. Já o suspiro longo e cansado que soltou depois que ouviu a pergunta dela já era esperado.

— Deveria ser, mas vamos dizer que vou jogar do seu lado, Hina. Sabe muito bem que eu não gosto do comissário Redmont. — Respondeu simples, mas o cruzar de braços da detetive foi o suficiente para ele soltar outro suspiro longo. — Pense que era muito melhor eu do que um desconhecido seguidor cego do Redmont. Estou aqui para te ajudar, é sério.

Todos os colegas de trabalho e policiais de Nova Iorque souberam como havia sido um baque, tanto pessoal quanto profissional, para Hinata ter que arquivar o caso de Chouji. Além disso, a cobrança do comissário apenas tinha dobrado sobre os ombros dela, mesmo depois de tantos anos de serviços prestados com excelência. Se fosse o mesmo assassino, ela precisava capturá-lo ou sua carreira estaria em risco.

— Pelos velhos tempos, vamos pegar esse assassino. — Completou Kiba, determinado.

Hinata o observou durante todo o tempo, garantindo que nada passasse despercebido. Nenhum sinal de mentira ou de hesitação, mas ele continuava o mesmo tipo de pessoa fiel, determinada e teimosa que ela conhecera quando entrara para a academia de polícia.

— Okay, vamos pegar esse desgraçado. — Concordou Hinata com a voz mais firma do que pretendia, voltando a caminhar pelo camarim com passos decididos.

Em vez de continuar a observar a sala, procurando por evidências, Kiba analisou as costas de Hinata com cuidado. Desde que se mudara para a Califórnia para trabalhar com o FBI, onde passara quatro anos, ele não havia mantido contato com a jovem policial, que agora havia se tornado uma detetive extremamente competente.

No entanto, ele também sabia o peso que ela deveria estar carregando. Desistir da carreira no FBI tinha sido um movimento que muitos dos seus amigos julgara como burro e impensado, mas vendo a detetive, Kiba teve certeza da decisão que tomou. O peso de investigar assassinatos, lidar com assassinos e ter que encontrar cenas macabras quase todos os dias podia acabar com o psicológico de qualquer pessoa normal. Ele mesmo tivera sérios problemas com seu último caso.

Optar por se tornar um SWAT o mantivera na vida que amava, protegendo as pessoas e com a carreira com a qual escolhera passar a vida, e ainda assim protegia muito sua saúde mental. No entanto, dessa vez, não era ele que precisava de ajuda. Kiba decidiu que iria ajudar Hinata porque não desejava que ela naufragasse como um navio abandonado, mesmo que ela não confiasse o suficiente em ninguém para ter um parceiro.

— Acho que não tem nada por aqui — avisou a detetive saindo de trás de um biombo com uma expressão neutra no rosto. Ela sempre fora ótima em esconder sua própria frustração ou simplesmente estava determinada a não deixar que nada a derrubasse. — Vamos voltar para a delegacia e conversar com aquelas pessoas.

Notas finais
Não se esqueçam que os comentários fazem o autor feliz! Então, espero por suas considerações, meus caros, bolinhos~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.