Nas batidas do Sangue
3 Assassinos não descansam
Notas iniciais
“Esse teatro da vida real é sempre surpreendente. Pena que a surpresa quase sempre é negativa”. – Fabiana Batista.
Ser um detetive, principalmente um que investiga assassinatos traz muitas consequências, inclusive pesadelos macabros de tempos em tempos. Hinata não sabia o que era ter um sono profundo há semanas, porque o fantasma da cena do assassinato de Chouji a assombrava todas as noites desde o arquivamento do caso.
Ele queria ser vingado, mas ela não podia fazer isso. Não com tão pouco.
Dessa vez, ela acordou enxergando apenas vermelho. O vermelho-sangue que pode dar pavor em muitos adultos. Levou algum tempo até que sentisse vontade de se levantar. Estava cansada, sentia a cabeça pesada e os pensamentos fluíam com força. O apartamento ensanguentado de Chouji ainda assombrava seus sonhos com todos os detalhes possíveis.
Hinata piscou com força para se livrar das imagens do corpo sem vida do jovem e levantou da cama, quase meia hora antes do despertador tocar. Precisava se livrar das lembranças e nada melhor do que um banho bem gelado. Ela logo se livrou do pijama, sentindo a temperatura fria do inverno adentrar as paredes de pedra do prédio. A água do banho estava quente, quase causando um choque térmico contra a pele fria da detetive.
Era uma manhã de sábado normal, ainda mais porque estava com o dia livre. Normalmente, passaria a maior parte do tempo descansando enquanto assistia a séries de comédia sitcom e brincava com Francesco, no entanto, dessa vez seria diferente.
— Preciso ver Melody dançar — falou para si mesma, assim que saiu do banho enrolada em uma toalha.
Hinata rumou para seu quarto, indo procurar uma roupa apropriada para uma apresentação de balé de uma criança de cinco anos no meio do inverno. O que não foi fácil. Além das roupas que normalmente usava para o trabalho, como o sobretudo marrom, blusas batidas simples e os jeans já surrados, ela só tinha um vestido e o antigo uniforme da polícia. Teve que procurar muito até desistir e apenas pegar um de seus jeans mais novos e uma blusa de mangas compridas. Nada novo para seu visual. E calçou um par de botas de cano longo.
A única coisa que ela manteve das roupas do dia a dia como detetive foi a pistola P320, deixando o coldre do lado direito de seu corpo. Ela pegou a arma que guardava seguramente em seu armário, verificou se estava carregada e travada antes de colocar na cintura e saiu do quarto às dez horas da manhã.
Francesco estava sentado perto de seu pote de comida, esperando. Hinata sorriu para ele e fez o que precisava antes de ir procurar algo na geladeira para fazer seu próprio café da manhã.
— O que acha, Francesco, ovos mexidos ou cozidos? — Perguntou para o gato, que apenas miou incomodado, como se não quisesse parar de comer para responder a uma pergunta tão trivial. Ela riu daquilo. — Ovos mexidos então! Eu só posso contar com você para questionamentos mais profundos, não é?
A mania de falar com o gato existia desde que o adotara. Por passar muito tempo sozinha no apartamento e por enfrentar muitos “vilões” em seus dias, ele era a única alma viva em quem ela confiava para conversar.
Sentou-se para comer assim que terminou de cozinhar. Nunca fora a melhor cozinheira do mundo e nem pretendia ser, por isso mantinha suas refeições simples e rápidas – e mesmo assim ela se negava a comer congelados, preferindo arriscar o pouco que arriscava em frente ao fogão. Hinata não quis ligar a televisão, se recusando a ver todos os noticiários que passavam àquela hora, e apenas comeu em silêncio e devagar, olhando para a frente.
Sua rotina em casa era tão calma e sem aventuras que a detetive realmente preferia estar no trabalho, caçando assassinos e resolvendo mistérios. Não tinha grandes amigos da época da escola, tendo em vista que crescera focada em passar na faculdade que seu pai havia escolhido para ela. Os poucos amigos que fizera em seu tempo na polícia foram se espalhando pelo país e muitos acabaram em instituições como a SWAT, o FBI e, até mesmo, na CIA.
E tinham seus irmãos. Hanabi e Gaara.
Hinata sempre fora próxima de sua família, contudo, depois que a mãe se afastou da família, ela seguiu por um caminho diferente. Distanciando-se até mesmo dos parentes. A detetive acabou se voltando para os estudos e, em seguida, para o trabalho como policial. Querendo ou não, acabou seguindo os passos do pai.
O celular a despertou dos devaneios. O toque alto, típico alarme comum do aparelho, ecoou pela sala, quase a assustando. Ela esticou o braço para pegá-lo e levou o celular até o ouvido.
— Detetive Black. — Falou muito séria. Não era normal receber telefonemas particulares naquela linha.
— Sempre detetive Black... — resmungou a voz do outro lado da linha antes de continuar. — Hinata Hyuuga, espero mesmo que esteja acordada e arrumada!
A voz de Hanabi ecoou exasperada do outro lado da linha. Hinata sorriu e relaxou ao perceber que era a irmã mais nova. Só havia um motivo para ela estar ligando àquela hora.
— Não se preocupe, Hanabi, eu já estou pronta para sair e ir assistir à apresentação de Melody — respondeu prontamente. Não queria desapontar a sobrinha daquela vez. No entanto, não pode deixar de perguntar. — Quem mais vai?
Por alguns instantes, Hanabi ficou em silêncio, como se pensasse se seria bom ou não responder àquela pergunta. Hinata engoliu em seco e segurou a respiração, apreensiva.
— Você, papai, Caroline e eu, obviamente. — A enumeração dela quase fez a detetive soltar um suspiro aliviado. — Meu marido está ocupado no consultório e Gaara não respondeu às minhas ligações...
Aquela última afirmação não surpreendeu em nada à detetive. Gaara nunca respondia às ligações das irmãs desde que se mudara para a Califórnia. As duas sabiam o motivo, mas era quase impossível explicar para Melody que o tio não podia participar de suas apresentações da escola.
— De qualquer maneira, será na escola de Shayla em duas horas, então não se atrase! — Continuou Hanabi ao perceber que Hinata ficara em silêncio por muito tempo.
— Tudo bem! Já estou quase saindo, não se preocupe! — Garantiu a detetive com um tom de voz mais animado. Não iria deixar que o irmão estragasse o dia da família.
Elas se despediram e a detetive se apressou para terminar de comer e sair. A apresentação de Melody aconteceria na escola de dança dela, em Manhattan, ou seja, ela tinha que sair logo para poder chegar a tempo. Hinata correu para lavar a louça, colocar mais água e comida para Francesco e limpar a caixinha de areia.
— Nos vemos mais tarde, amigo — falou passando a mão entre as orelhas do felino, que apenas ronronou e continuou deitado perto do telefone.
Assim que pegou os documentos e o celular que estavam em cima do balcão e seu sobretudo pendurado perto atrás da porta, Hinata parou um segundo para respirar fundo e deixar os pensamentos negativos para trás. Não iria pensar em Chouji, ou Gaara, ou em seu trabalho. Estaria focada completamente em Melody.
E foi com essa decisão que ela saiu de casa.
***
Uma hora e meia depois, Hinata parou em frente a porta da escola onde encontrou a família à sua espera. Seu pai já estava muito velho e usava uma bengala, mas não perdia a postura rígida de quando trabalhava como policial. Hanabi se abaixou assim que a viu atravessar a rua e fez com que a filha se virasse. Assim que viu a tia, Melody correu na direção dela, toda sorrisos e soltando gritinhos alegres.
— Tia Hina! — Chamou pulando no colo da detetive, que a elevou sem pensar duas vezes.
— Oi, minha querida! — Respondeu Hinata a abraçando com carinho.
Não via a sobrinha pessoalmente há, pelo menos, dois meses por causa do trabalho e sentia como se fizesse ainda mais tempo, porque a pequena havia crescido demais. Melody, assim como toda a família Hyuuga, tinha os cabelos escuros e lisos, mas os fios longos não podiam ser vistos já que estavam presos em um coque perfeito. Seus olhinhos perolados brilhavam com a animação normal de uma criança de cinco anos e ela não parava de se mover nos braços da tia.
— Que bom que você veio! Mamãe prometeu que faria você vir, mas eu sei que trabalha muito e que sempre precisa estar na delegacia, então eu só estava torcendo para que viesse, porque ensaiei bastante para você ver! — Exclamou em um fôlego só.
— Estou mais do que ansiosa para te ver dançar, princesa — garantiu Hinata sorrindo para a sobrinha.
Mesmo com os problemas familiares que tinham, Melody havia sido uma luz entregue a eles. Depois de passarem anos afastados por diversos motivos, a família se reuniu pela nova integrante. E vinha funcionando como podia.
— Vamos vocês duas? A apresentação irá começar em instantes! — Avisou Hanabi batendo o pé para a enrolação da irmã e da filha.
Hinata e Melody sorriram para a mais nova dos irmãos Hyuuga, seu tom de voz irritadiço era só um disfarce, já que um dos prazeres de Hanabi era ver a família reunida. Ainda carregando a pequena, a detetive foi caminhando atrás dos outros para o interior da escola.
O espaço estava enfeitado com formas de dançarinos pretas e rosas, além dos desenhos feitos pelas próprias crianças. A professora de dança terminava de arrumar tudo no backstage, acompanhada por seu assistente, que foi para onde Hinata seguiu com Melody no colo. A professora sorriu quando viu a pequena e estendeu os braços para recebê-la, no entanto, Melody se agarrou ao pescoço da tia.
— Você vai assistir à apresentação, não é, tia? — Perguntou baixo e muito séria.
A detetive olhou preocupada para a menina, que parecia ansiosa com alguma coisa. Fazendo um leve carinho nas costas da pequena, Hinata sorriu para a sobrinha com tranquilidade.
— Com certeza, vá com a sua professora que eu estarei na plateia para te aplaudir de pé — garantiu com a voz suave. Era difícil para ela ver Melody chateada, a pequena tendia a ter uma força extraordinária para fazer bem aos outros, por isso Hinata acreditava que devia protegê-la de qualquer coisa que a deixasse ansiosa. — Vou ser a primeira a te dar um abraço quando descer do palco!
— Promete? — Insistiu Melody, sem largar o pescoço da mulher. No entanto, ela sabia que a tia não responderia, porque Hinata sempre dissera que não faria promessas que não podia cumprir e seu trabalho de detetive quase sempre surgia com imprevistos que a faziam não participar diariamente da vida da menina. Com um sorriso animado, para esconder a pequena desanimação por se lembrar disso, Melody beijou a bochecha de Hinata. — Não precisa. Eu te amo, tia Hina! Até mais tarde.
Fazendo um pouquinho de força, Melody se sentiu ser deixada no chão e foi até a professora, segurando a mão estendida e disparando a falar sobre como estava ansiosa para a apresentação. Hinata suspirou baixo antes de se virar para ir para a plateia. Ela sabia o que a sobrinha queria, mas não podia prometer nada. No entanto, tinha certeza que durante esse dia nada aconteceria e ela poderia ficar até o fim. Com passos tranquilos, a detetive fez seu caminho até o ginásio para encontrar o resto da família.
***
— ... ela aprendeu muito e pretende continuar estudando!
— É um exemplo de garota, não?
Hanabi e Caroline conversavam sobre Melody, obviamente, e Hinata pode deduzir que falavam sobre a escola e as notas excepcionais da garota. A menina era o orgulho dos pais, por isso que a detetive apenas ficou quieta e sentou ao lado do pai.
— Essas duas deixam aquela menina mimada — sussurrou o senhor Hyuuga para a filha mais nova.
Hinata olhou para ele brevemente e sem nenhuma surpresa percebeu que ele sorria para cada palavra que saia da boca de Hanabi. A detetive apenas soltou um suspiro fraco e sorriu para o patriarca da família.
— E o senhor não vai ficar atrás, não é? — Perguntou com um tom divertido.
Hiashi Hyuuga não tinha sido o mais presente dos pais. A verdade era que, como policial, ele tinha passado muito tempo fora de casa, com turnos malucos e pouco tempo para a família. Depois de ser abandonado pela esposa, ele se tornara um viciado em trabalho ainda maior e deixou que os irmãos tomassem conta um dos outros. O fato de ser um avô tão presente e participativo dava a chance de Melody ter uma vida normal, coisa que Hinata, Gaara e Hanabi não tiveram.
— Sabe como é... Mel acaba merecendo toda essa atenção — disse de forma afetuosa.
A detetive não olhou para ele em nenhum momento, já que ainda tinha muitas diferenças com o pai. No entanto, ela sentia o amor que ele tinha em sua voz, o mesmo sentimento que expressava quando falava dos próprios filhos, mesmo ausente. Hiashi Hyuuga podia ser tudo, mas sempre dera seu melhor para cuidar da família que tinha.
— Com certeza ela merece...
A murmúrio de Hinata se perdeu no momento em que a professora subiu ao palco, para fazer os seus agradecimentos e apresentar as turmas de dançarinos. Segundos depois, uma música clássica, que a detetive não conhecia, começou a tocar e algumas crianças subiram ao palco.
Havia uma história, ela tinha certeza, e aos poucos o enredo começou a se desenrolar. Quando Melody subiu apareceu, como uma fadinha, com as asinhas penduradas nas costas, a família aplaudiu, fazendo a menina quase sair do papel. A peça seria a coisa mais adorável que Hinata veria em dias, caso seu celular não tivesse começado a tocar baixinho.
— Hina, desliga isso! — Ralhou Hanabi aos sussurros, olhando de cara feia para o celular da irmã mais velha.
A detetive concordou, mas apenas colocou o celular no mudo e o atendeu, curvando o corpo para frente para que ninguém mais visse o que estava fazendo.
— Detetive Hyuu...
— Você precisa vir até o teatro New Amsterdan agora mesmo — a voz agitada de Hatake soou pelo aparelho. — Eu não estou brincando, você precisa vir.
— Mas Kakashi, hoje é meu dia de folga, eu não posso...
— Escute aqui, Hyuuga, ele voltou, está me ouvindo? — A forma como a frase “ele voltou” ecoou pelo telefone fez com que ela sentisse um arrepio de ansiedade passar pelo corpo. Hanabi pediu para que ela desligasse o telefone de novo, mas a voz de Hatake ecoou, dessa vez ainda mais firme. — Você não vai querer que eu passe esse caso para mais ninguém, é o mesmo modus operandi, Hyuuga. Eu tenho quase certeza. O assassino de Chouji voltou.
Foi como tomar um choque. Hinata sentiu o corpo todo reagir àquela afirmação de uma maneira forte, como quando sentia quando fazia um interrogatório com a pessoa que sabia que era culpada. Só que três vezes maior dessa vez. Seu instinto de caçadora pulsou com força em sua garganta. Ele estava de volta e ela iria pegá-lo. Iria vingar Chouji.
— Eu já estou indo, feche a cena do crime. Reúna as testemunhas.
— Sim, Hyuuga.
A ligação terminou ali e ela começou a se levantar, já se dirigindo ao lado oposto do caminho que estava a família, para sair. Hinata ainda pode ouvir Hanabi soltar um suspiro, provavelmente decepcionada com a decisão dela de sair no meio da apresentação, mas a detetive não olhou para trás e deixou o ginásio rapidamente, porque precisava arranjar um táxi e chegar imediatamente ao teatro.
Enquanto via a irmã deixar a escola, Hanabi olhou para o palco e sentiu o coração apertar ao ver o brilho triste nos olhos da filha. Melody tinha visto a tia sair, como já esperava que acontecesse, e ficou visível se sentira muito mal com aquilo. A mais nova sabia que era quase impossível Hinata não ser chamada pelo trabalho, porque essa era a rotina do que acontecia com o pai quando ainda trabalhava. Hanabi apenas torcia para que a irmã ficasse bem e não terminasse como seu pai. Ou Gaara.
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