Nas Areias da Projeção
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Adiante as quentes e úmidas matas do oeste, aquelas em que torrenciais chuvas regavam constantemente o verde manto fértil durante o repousar da estrela máxima e o chegar das sombras da noite, e um pouco antes dos rochedos tortuosos em que profundas fendas abrigavam as mais raras criaturas, estas jamais vistas pelos homens que não se arriscam em desbravar cenários enriquecidos de aventura e incertezas, vagava calmamente, já sem seu companheiro alado de jornada, um poeta sem versos ou estrofes.
Guiado pelo instinto e abandonado pela razão, deixou-se levar pela passividade em seu rumar pelas estradas em que seguia e pelos trechos nos quais atravessava. A mercê do desconexo, desvairado e com fome vagou desnorteado até encontrar-se em meio a areia escaldante. Com sede, murmurava lamentações e devaneios a pelo menos três dias sob sol imponente e castigador e duas noites envolto pelo soprar gélido da brisa noturna em meio as dunas e ao cansaço. Ali estava desde quando atravessara a mancha verde, onde manteve-se bem por boa parte de sua jornada, até perder o animal em uma luta contra a serpente. Picou-o nas patas enquanto pastava por entre árvores espaçadas, longe do olhar de quem adormecido estava sobre os galhos de uma figueira. O pobre coitado relinchou, seja em dor, desespero ou clamor, não conseguindo despertar do sono seu guia imerso em sonhos e projeções do subconsciente exaurido. Deitou-se sobre sua carrasca, a qual rastejou sobre o próprio ventre para longe do leito de morte do desafortunado infeliz. Desde então, os calejados pés do poeta os guiaram até seu destino incerto.
Mechas de cabelo grisalho fugiam por entre brechas na costura de seu turbante, encharcadas de suor. A roupa surrada, testemunha de desgastante caminhada, grudava no seu corpo em uma sensação incômoda já não mais apercebida por ele. Abaixo, em sua cintura, envolto em couro de animal abatido durante sua passada pelas pastagens anteriores ao solo infértil, mantidas estavam suas poucas anotações e leituras há muito tempo abandonadas. Não era tão bom poeta, julgava, mas não considerava-se mau escritor. O resquício de sua criatividade e disposição para expressar os mais íntimos sentimentos o abandonou junto ao prolongar do caminho que tomara. Sua caneta tinteiro, há muito tempo já seca, não poderia escrever sequer rabiscos impensados. Além do mais, nada o inspirava naquele lugar desolador e solitário, fazendo o luto o inibidor de sua vontade.
Fraquejou sobre os próprios pés e, como resultado de desgastante jornada, caiu de joelhos diante da imensidão do deserto. Fechou os olhos por um instante e tentou lembrar-se de onde deveria estar. Despejou as escrituras mantidas em sua bolsa de couro, caindo junto a elas uma bússola não confiável e de metal desgastado. Procurou em meio a meia dúzia de papéis amarelados aquilo que o aguçou a caminhar.
O mapa trazia em si um tracejado bem marcado indicando um caminho que se iniciava nos Morros Uivantes de Mouva, a sudoeste de onde estava, imaginava, seguindo em curvas fechadas pelos vilarejos de Oula e Sudaieb, esta ponto de encontro de mercadores onde o poeta comprou tal registo por cem contos de mauros. Seguia, quase em linha reta, pelas planícies do rio Cauve — de águas tomadas por sereias que perseguiam pescadores e mercadores, principalmente na altura do porto de Mirates, ponto evitado pelo viajante -, sendo as depressões do caminho surpresas ao poeta escondidas pelo mapa. A floresta de Glauir, dominada por ingênuas fadas e pretensiosas ninfas, vinha logo adiante com seus Pinheiros altos e distantes uns dos outros, antecedente a verdejante mata de Muiaeb, rica em fauna — com compridas serpentes rasteiras e grandes sapos hostis — e flora — cogumelos abundantes aos pés de grandes figueiras e grossos troncos, abrigando em seu interior pequenos e traiçoeiros meninos. Foi lá a última parada em que pôde reabastecer-se de boa água. Ao fim da realçada linha, em meio a uma área definida como O Grande Deserto Maraj, havia uma marcação que findava o tracejo, tendo logo acima uma ilustração com símbolos confusos indo desde a formas geométricas a caracteres não identificados. A pequena arca de traços finos, quase apagados pela intolerância do tempo, parecia indicar aquilo a que ele tanto ansiava desde que partiu.
Julgava estar perto de seu objetivo, mas, ao olhar para trás e não ver mais no horizonte a linha verde cortando a paisagem, achava estar perdido nas areias do despreparo. No mapa, em suas anotações e ilustrações, não deixava dúvidas de que a faixa desértica não seria tão longa quanto a que ele parecia estar enfrentando. Abaixo, próximo ao índice que indicava poucas classificações das áreas registradas e já no fim do deserto representado por finas linhas amarronzadas, o tempo de travessia era de, no máximo, dois dias e duas noites aos passos de um homem. O poeta, por sua vez, mesmo mantendo constante, a duras penas, o ritmo de sua caminhada, já perdurava naquele cenário a três dias.
Ergueu a cabeça e semicerrou os olhos devido a luz forte do sol, o qual já deveria estar no meio exato da imensidão do céu. A areia já era abundante em seus sapatos. Encarou o nada, ou melhor, aquilo que via desde que deixou seu cavalo a mercê do fim natural dos mortos. A água trazida consigo já não mais o satisfazia, sequer matava verdadeiramente sua sede, fazendo-o sentir falta das bebidas maltadas as quais estava acostumado a beber. Passou a mão na testa queimada, fazendo-a arder e avermelhar. Não desviou o olhar da imensidão da areia, vislumbrando uma silhueta distante. Ergueu-se com devida dificuldade apoiando as palmas calejadas sobre os joelhos bem lubrificados. Firmou os pés no solo inconstante e caminhou até o que lhe deixou curioso.
Tardou a desconfiar que aquilo seria a marcação final de sua jornada. Pelo menos em relação ao itinerário que seguia junto ao mapa.
A sua frente uma rocha mediana surgia da areia maleável. Não projetava grande sombra e sequer possuía companheiras semelhantes pelas redondezas. Tirando os arbustos rasteiros e de verde opaco observados na fronteira com o solo rico, o poeta não vira qualquer outra coisa além de dunas e abutres a procura de azarados viajantes ou desinformados comerciantes que encontravam no amarelão da paisagem o fim caloroso de seus dias. Cortava-a uma espada de curto corte que, para mais bem informados, poderia parecer uma adaga alongada. O punhal refletia a luminosidade exacerbada do ambiente e por um momento cegou-lhe os olhos, fazendo-o levar as mãos e tapar a visão por um breve momento. Cristais foram cravejados no lugar onde quem a pegava segurava, com uma sequência curta — que não lhe era estranha — de três pedras poligonais.
Tardou a procura do mapa em sua bolsa. Não encontrando-o despejou seus pertences na areia novamente, deixando a vista escrituras nomeadas como “Poesias de Outrora”, “Fenômenos & Subjetividades” e “dEUS Nova” e uma pequena coletânea de contos e poemas britânicos. Esparramou os papéis frente a pedra e, sem muita demora, encontrou aquele enrolado com linha de crina. Desamarrou-o e desenrolou-o, colocando o mapa sobre os outros papéis. Abaixo da última marcação do trajeto havia três formas poligonais semelhantes a aquelas encontradas na espada.
Espantou-se com a simplicidade do tesouro a tanto tempo buscado. Um simples utensílio de corte facilmente encontrado nas barracas de Sudaieb. Objeto de homens covardes, estes que matavam por meio dela para não sujarem as mãos ou se equivalerem aos combatentes com palmas limpas e de forma justa, homens que subjugaram como bárbaros aqueles que não lutavam por intermédio de metais tão bem trabalhados mesmo que por debaixo dos mesmos ou até mais nobres motivos. Olhou-a novamente com ar de desdém.
Cuspiu no chão seco encarando o mapa, incrédulo. A decepção era nítida em sua feição e postura. Com as mãos na cintura revezava o encarar entre a espada e os papéis, atentando-se tanto a seus poemas quanto aos contos que lia antes de seguir seu trajeto.
Gargalhou a medida que fixou o olhar na coletânea de contos britânicos.
Naquelas linhas outro jovem, de nome Arthur, passou por uma situação parecida. Claro, de forma bem mais lúdica e literária do que um velho caçador de quinquilharias no deserto de chão sem fim. Indagou-se, em voz alta, o quão poderia a vida brincar com parágrafos e frases a sua maneira, fazendo com que enredos e histórias se reproduzam em seu roteiro desconhecido.
Guiou-se até a espada e, já não mais movido somente pela decepção, empunhou-a sentindo-a em sua pele quente e pulsante. Viu-se refletido no metal com um sorriso desconfortável que permitia ver a falta de seus dentes frontais e o manchar de sua pele por queimaduras do sol. Encantado pela coincidência com suas leituras segurou firme no punhal forçando a retirada das espada da rocha onde estava fincada. Tentou uma e duas vezes, sem sucesso.
Talvez não fosse tão capaz quanto o desinteressado rei inglês.
O riso desapareceu de seu rosto quando se deparou com a realidade nada semelhante a sua imaginação fértil. Nutrindo a ideia de que tamanho esforço fora atoa, apoiou-se no objeto despejando seu peso nele. O choque tomou-lhe a vivacidade e, pela primeira vez, sentiu o cansaço em toda a sua plenitude fraquejar suas pernas. Encostou a testa sobre o punhal e levantou-a assim que ouviu um baixo som a frente de si.
Procurou ao seu redor, não encontrando qualquer origem para tal barulho até o notar novamente. Olhou para seus pés seguindo até a fenda que ligava a espada à pedra. Apercebeu-se de uma intensificação singela dá rachadura. Moveu a espada atentando-se a fenda e vendo-a abrir com sua ação. Não demorou a perceber que desgastada estava por dentro a rocha.
Enrijeceu-se e apoiou a planta dos pés de forma firme no chão. Aproximou os braços de seu corpo e, com as mãos no punhal forçou a entrada do metal na rachadura. Pouco a pouco a espada adentrou naquele espaço causando pequenos estalos e esfarelando o exterior da entrada explorada. O poeta se empenhou em levar o punhal até a superfície da rocha empregando mais força em seu movimento. Pouco antes de conseguir tal feito ouviu o maior dos barulhos até então.
Antes mesmo de pensar que a espada havia se partido no interior da pedra notou o desprender das duas metades desta, as quais caíram simultaneamente, cada uma em seu respectivo lado, deixando livre o corte brilhante da espada a muito escondido.
Com o objeto em mãos, fascinado pelo intenso brilho da lâmina, bem diferente daquele opaco visto no que antes era visível, levou a ponta até seus olhos para avaliar seu corte. Em seus pés sentiu o fluir fresco de um líquido a muito não sentido. Atentou-se a aquilo e, surpreso, pulou para trás em desconfiança. Da metade direita da rocha, próxima aos papéis que esparramou, jorrava o elixir da vida. A água cristalina era abundante, mesmo que seguindo uma não muito grossa corrente, parecia não findar tão cedo. No outro lado, na metade esquerda, leite escorria com menor fluidez da pedra, formando seu trajeto por entre a areia. Fitou assustado e, em alegria ajoelhou-se diante da água, bebendo-a em surpresa. Jogou a espada próxima a fonte de leite, não vendo-a ser carregada pela areia que a cobriu lentamente até desaparecer.
Ao passo que sua espada submergia, uma imensidão emergia das areias próximas. O poeta, sentindo o tremor, deixou de bebericar a água em procura da espada. Em sua frente, nas areias abundantes no seco mar, colunas erguiam-se e construções surgiam movimentando os grãos que, pouco a pouco, cobriram as anotações e obras do escritor.
Não tardou para que, abismado, aquele homem visse surgir diante de si a cidade a muito tempo perdida nas dunas dos séculos e nas lendas de ouro e prosperidade.
No entanto, sua seca caneta tinteiro não o deixou descrever com palavras aquilo que via. Sem testemunhas, estava fadado a ficar, junto a solidão do lugar e ao egoísmo em ter seu eu só pra si, ou partir de volta para a casa e enfrentar a maldição do descrédito e menção de loucura.
Como não tão bom poeta, escolheu partir.
Fale com o autor