Naruhina: Quando os mortos amam
4 Frio como a morte
Notas iniciais
Senti a luz do sol batendo diretamente em meus olhos, através das barras de aço da janela. Esfrego minhas pálpebras, incomodadas com a claridade, despertando e me dando conta que ainda estou naquele lugar horrendo. Fui dominada pelo medo novamente ao lembrar da noite anterior; sendo mais específica, estava ouvindo uma frase que não saia da minha cabeça: “Você será útil”. Ecoava em meus pensamentos sem cessar. Sentia calafrios toda vez que lembrava da voz daquele homem intimidador e das possibilidades sobre o que ele referia.
Tentei encontrar refúgio. Mas, para minha angústia, admirando a limitada visão que eu tinha do lado de fora através da janela, o céu estava azul e o sol raiava. Ao menos, o frio deixou de me fazer companhia. Talvez isso fosse Deus, ouvindo minhas orações.
Ao pensar em Deus, me lembrei do convento e me encolhi ao me dar conta do quanto eu serei castigada por ter me separado das outras irmãs. As mãos da madre Tsunade são pesadas e não possuem a menor piedade; há tempos que eu não recebo chibatadas da mesma, mas a lembrança das poucas vezes já faz minhas cicatrizes pulsarem. E quanto ao meu pai? Céus, ele vai morrer de desgosto, provavelmente pensará que eu tentei fugir assim como muitas noviças costumam fazer na minha idade. Aonde eu estava com a cabeça ao cogitar a ideia de que alguém normal me receberia em um castelo como esse?
Me agarro as minhas pernas, à procura de conforto, e tento segurar as lágrimas, mas involuntariamente elas começam a escorrer pela minha face, iniciando assim um choro silencioso.
Eu não sei dizer do que tenho mais medo no momento. Se é a volta para o convento, ou a permanência nesse calabouço. Eu estou totalmente perdida. Só conseguia pensar em qual teria sido meu pecado para merecer um castigo tão grande, mas afastei esses pensamentos, pois isso não passa de blasfêmia, e nessa hora, mais do que nunca, eu não devo irritar a superioridade divina. Deus sabe o que faz e tenho fé de que ele vai me livrar dessa tortura, de que ele fará tanto a madre quanto meu pai entenderem o que estou passando.
O castelo está ainda mais silencioso do que ontem, sem música, passos ou vozes, como se aqueles homens assustadores tivessem ido embora junto com a noite fria, deixando aquele enorme local aparentemente abandonado. Isso me deixou mais calma, assim como observar o raiar do sol; porém, esse sentimento não vai durar muito, pois sei que a qualquer momento eles podem entrar aqui e me atacar, torturar ou abusar. Mas por que haviam de demorar tanto? Não que eu cogitasse tal ideia, mas se são tão ruins, por que toda essa espera? Será que desejam apenas me manter nesse cativeiro, e me verem morrer de fome, como talvez seja o caso dessas caveiras ao meu redor? Seria isso talvez um plano de Deus? Me levar para o céu dessa forma? Testar a minha fé? Eu não sei. Talvez seja melhor deixar de questionar, e apenas permanecer rezando e suplicando por misericórdia.
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Hinata estava sentada, abraçando os próprios joelhos e derramando leves lágrimas. Ela começou a sentir um pouco de frio, e, pela primeira vez em anos, soltou os longos cabelos, que de tão longos, cobriam completamente as suas costas, como um cobertor natural. Ela sabia controlar bem seus acessos de fome devido aos jejuns que era obrigada a passar; suas roupas, durante o decorrer da madrugada, haviam ficado menos úmidas que outrora.
Repentinamente, ela ouviu o ranger de um molho de chaves em direção à fechadura. Havia a morena desmaiado? Ela não ouviu ninguém se aproximando. Aquele homem assustador, ainda vestido da mesma maneira, entrou no calabouço, mas não se aproximou.
— Levante-se. Milorde estará aqui para vê-la.
— Mi-Milorde?
— Ele deseja falar-te.
Hinata viu-se confusa. Esse milorde, seria aquele outro homem, aquele que possuía os olhos azuis? O que ele faria com ela? Ela estremeceu; quis fugir de alguma maneira, tentou se encostar em algum lugar; acabou tropeçando num dos ossos espalhados pelo calabouço e não teve nem mesmo força para se levantar. Lá ficou, até escutar a porta de ferro se abrindo novamente. Ela não virou o rosto, mas pode escutar uma voz grave e melodiosa, que a ela se dirigia.
— O meu servo pediu para que você se levantasse.
Nenhuma resposta por parte dela.
— Se você não irá fazer isso por conta própria, eu mesmo terei de fazer.
— N-Não en-encoste em mim!! — Se encolheu amedrontada, tentando afastar-se dele.
— Tarde demais.
Hinata sentiu duas mãos incrivelmente fortes suspendê-la, mas com uma delicadeza que ela jamais havia sentido antes. O que isso significava? Ela imaginou que pereceria, ou que seria violada ali mesmo. Um arrepio tomou conta de seus braços e espinha.
— Vire-se para mim. Quero ver o seu rosto novamente.
Hinata tinha a voz entalada na garganta. Mas não queria contrariá-lo, e vagarosamente, virou-se, com os olhos fechados.
— Abra-os – ele começava a perder a paciência.
— Não posso! — Sua voz estava hesitante de tanto medo.
— Abra-os de uma vez!
Ao perceber o tom mais agressivo, Hinata os abriu, não por vontade própria, mas sim por uma reação involuntária, e lá estavam aqueles dois olhos azuis incrivelmente belos, acompanhados de um homem de estatura normal, com cabelos loiros e frisados, de pele extraordinariamente branca, que tomava um tom amarelado como girassóis e margaridas à luz dos poucos raios de sol que ali se refletiam. Ele estava vestido com uma capa semelhante à do servo, entretanto, cor de vinho, e com alguns detalhes em ouro na gola alta. Ela notou, durante um breve movimento o que ele havia feito, em seus pés estavam calçados coturnos longos, que iam até a parte superior dos tornozelos, e desbotados, como se houvessem sido usados exaustivamente por anos; uma calça em estado semelhante, cuja qual a cor ela não conseguiu definir muito bem, mas que lembrava o cinza dos céus em períodos de nevasca; e uma camisa negra. Ela observou que as unhas nos dedos da mão dele eram redondas e aparentavam ser frequentemente cortadas; os seus lábios eram esbranquiçados como a pele, de um aspecto cadavérico.
Ele a olhou com uma expressão estupefata. Não pela beleza; inegavelmente, Hinata era uma jovem atraente e sedutora, mesmo usando aqueles trapos, que se esfarraparam com as últimas ocorrências. Mas os olhos... aqueles olhos o tiraram do sério. Eram perolados e delgados como o de uma verdadeira dama; mas não foi isso que o espantou. A inocência e a bondade que eles expeliam eram particularmente notáveis, e o atingiram em cheio. Algo assim, ele jamais tivera a chance de presenciar em outro momento.
Ele tentou desviar o foco várias vezes, mas era inevitável que a fitasse de novo. Após um longo suspiro, ele a observou suavemente, com elegância em certo ponto; mas por dentro, ele estava inquieto. O cheiro dela também era um problema; ainda mais tentador do que imaginara. Ele adoraria provar o sabor que dela emanava. Mas ele não encostaria um dedo nela. Tamanha bonomia e ingenuidade jamais poderiam ser infringidas por mãos sujas como a dele. Hinata estava toda suada; o medo que ela possuía naquela hora poderia facilmente comparar-se ao de um soldado que se aproxima do campo de batalha. O loiro observava o busto dela, onde havia um crucifixo. Seu semblante, agora, era triste.
— Por que m-me prendeste aqui? — Mesmo estando com muito medo, ousou perguntar.
— Por que invadiste meu castelo?
— Essa não era minha intenção. – Naruto não respondeu. – O que aconteceu aqui? – Hinata apontava para o cadáver.
— Eu os trucidei.
— Co-como vo-você pôde fazer isso? – Se horripilou ainda mais tentando mantê-lo longe.
— É muito simples, ora. Pode-se matar uma pessoa estrangulando-a, sufocando-a, espancando-a. Mas eu jamais fiz isso. Mato para dar-me sobrevida. E você seria...
— Vo-você é um louco! Um monstro!! – Em um acesso de coragem, ela o interrompeu, atirando nele um dos crânios que estavam no chão e correndo, em pânico, para o canto do cômodo. – O seu lugar é no inferno!! Fique longe de mim!!
Se a fisionomia dele já possuía um arcabouço triste, agora, representava uma angústia sem igual.
— Eu não sou um monstro. Porque eu tenho de aguentar esse peso em minhas costas?
“Vivo nesse castelo a tantos anos que nem posso me lembrar. Nada muda ao meu redor. Eu não mudo. O tempo não me surte efeito. É o preço que pago; as flores nascem ao início da primavera, crescem ao meio, e murcham ao final. E eu já vi tantas primaveras que não posso contar. Porque minha hora de murchar também não chega? Por que minha primavera não acaba?
Sou obrigado a estar aqui, mesmo que eu não queira. Me sinto confinado nesses muros, nesse castelo. Tenho de olhar para as mesmas paredes caindo aos pedaços, que eu não possuo vontade de limpar, para os mesmos quadros que comprei quando eu ainda possuía alguma dignidade. Tenho de tocar as mesmas músicas, pois não tenho algum interesse pelas artes que não as da minha época. Minha fortuna... ela é fruto de longos anos de trabalho honesto; mas de nada me serve. Sim, sou conhecido por quem eu fui e por quem ainda tento ser, e por isso, sou temido. E durante todos esses anos, tudo que inspiro é temor. É o preço que eu pago...
Para mim, o momento atual jamais será o último.
E sou a personificação de um dilema: a morte se alimenta da vida. Mas não da vida de inocentes. E todos aqueles que caíram em minhas mãos, se houvessem escapado, muito em breve conheceriam, de igual maneira, um destino ainda mais fatídico. Não me julgues, pois nunca corrompi inocentes. A minha maldição não é culpa deles...”
— Eu não estou entendendo nada do que você está falando. Você não é velho! Parece ter a minha idade!
— Você não me deixou terminar.
— Eu não quero ouvir! Me tire daqui! Em nome de Deus!! – Hinata colocava as mãos nos ouvidos.
— Deus? Ele não me ajudou. Por que ele te ajudaria?
Hinata não respondeu.
O loiro avançou, segurando-a violentamente pela batina e levando-a contra a parede.
— Responda!
— Po-porque ele é bom e justo!! Largue-me, estás me machucando!
Ele a largou no chão. Ela tossia, pois havia se sufocado com a força dele.
— Quem você acha que é para me falar de justiça e bondade?
— Sou uma serva de Deus! – Ela ainda tossia.
— Uma serva de Deus? E o que ele já fez por você?
— Ele me permitiu estar viva até agora. Ele me dá forças para olhar em seu rosto e saber que nada de mal me acontecerá.
— Sua vida está em minhas mãos.
— Minha vida está nas mãos dele, e você não pode contra isso.
— Não me faças irar contra ti.
— Não tenho medo das suas investidas! Apenas deixe-me ir!
— Infelizmente, nada posso fazer com você. Me sentirei culpado em tirar a vida de algo tão belo, tão inspirador. Tão...
— Você é insano! Um profano, homicida!
— Eu não mato porquê quero matar. Mato porque esse é meu triste destino.
— Que raios de pessoa mata por destino?
— Não sou uma pessoa.
Hinata arregalou os olhos. Do que ele estava falando? Numa fração de segundos, ele já a apanhava. Ela se debatia para sair, mas debalde; ele era muito forte; ela não poderia se pôr em igualdade.
— Não sentes o quão gelado eu sou? – Sussurrou com uma voz rouca. – Eu estou morto! – E empurrou Hinata no chão, após ela lhe acertar um golpe considerável no queixo.
— Quem é você? Ela perguntou, trêmula.
— Eu sou... um vampiro.
Hinata não pôde acreditar no que ouviu. Aterrorizada, ela ainda tentou sair correndo, mas não havia saído. Ao vê-lo se aproximando, desmaiou instantaneamente.
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Hinata aos poucos começava a despertar, sentindo que estava sobre a cama mais aconchegante que já havia experimentado. Começou a se mexer, apreciando a maciez do travesseiro abaixo de sua cabeça e o edredom grosso que a esquentava. Abriu os olhos pausadamente, tendo, primeiramente, uma visão distorcida, mas que logo se fez nítida. Era um quarto enorme e todo decorado com cores fortes, com uma predominância de preto e vinho. Alguns quadros herméticos e chapéus pendurados serviam como decoração, e haviam duas janelas grandes, que eram cobertas por uma extensa cortina de cor bege. Ela se ergueu da cama, notando que este móvel também era enorme; ela nunca vira uma cama tão grande e aconchegante quanto essa. Parecia até ter sido feita para um rei.
Seu corpo, que antes doía por ter dormido no chão gelado do calabouço, agora parecia estar 100% recuperado. Entretanto, a fome que sentia já a estava deixando fraca. Logo ao lado da cama, havia uma bandeja elegante com diversos alimentos e sobremesas, e não demorou muito para que Hinata sentisse o cheiro das frutas frescas, que exalava por todo o quarto. Ao se virar para pegar uma delas, a morena encontrou o mesmo par de olhos azuis, que a intimidava, a olhando fixamente. Tomou um leve susto, poderia jurar que estava sozinha, mas logo se recompôs, esperando alguma ação daquele homem. Ele, no entanto, estava sereno, e a olhava sem qualquer intenção. Ele deu um passo à frente, e ela se afastou.
— Não há o que temer, não lhe farei mal algum.
Não recebeu resposta. Ele avançou um pouco mais em sua direção, notando que ela tentava se afastar, ficando na beirada oposta da cama. Ele achou essa reação engraçada, e arqueou um pequeno sorriso. Sentou-se em uma cadeira próxima e voltou a olhá-la.
— Coma. – Direcionou as frutas com o olhar e fez sinal de quem se levantaria para oferecê-las.
— Não comerei nada deste lugar, por favor me deixe ir.
— Não se ignora presentes ofertados pelo anfitrião. Estás limpa e vestida dignamente; e faço questão de que se sirva da maneira que preferir.
Hinata não havia percebido até então, de que usava roupas diferentes, já que ela estava coberta pela colcha. Ela sentou-se na cama, e percebeu que usava um vestido branco, recatado, com pequenas listas pretas horizontais na parte superior, mais justa, que realçava as curvas do seu torso e da sua cintura. Ela também usava meias de seda, que de tão finas e delicadas, eram quase que imperceptíveis. Seu crucifixo estava ao lado dela, no mesmo lugar que dava suporte à bandeja com a refeição.
— O-o q-que você fez comigo?
— Tirei-lhe daqueles andrajos, te banhei e te coloquei nesse aposento. Podes ficar aqui o tempo que quiser. A bolsa que estava com você, está ao lado do armário.
Hinata ficou ainda mais perplexa; ele a viu despida? O medo que ela estava, momentaneamente, deu lugar à vergonha; homem nenhum a havia visto dessa maneira antes.
— Coma, e não te atormentes. Eu não poderia atentar contra ti.
— Deixe-me ir!
Ele pôde notar que ela era um tanto birrenta, coisa que ele não era acostumado a lidar e muito menos a tolerar; mas decidiu relevar desta vez.
— De nada – Ele a olhou com sarcasmo. – Qual é o seu nome?
Ela desviou o olhar, frustrada por ele mudar de assunto. O loiro se inclinou para chamar a atenção dela, e a cravou com um olhar sério.
— Eu te fiz uma pergunta. Não vamos começar tudo novamente. — Seu tom ficou mais agressivo, fazendo-a estremecer.
— H-Hinata Hyuuga.
Ele pôs um leve sorriso no rosto, e voltou a se recostar na cadeira.
— Hinata Hyuuga. É um belo nome. Eu me chamo Naruto. Naruto Uzumaki. Se me permites, irei lhe contar uma história, Hinata. A minha história...
Continua...
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