Narrativas de uma vida Medíocre
1 O Funeral do Corpo Morto
Notas iniciais
Esfreguei meu nariz mais uma vez. Acredito ter pego um resfriado por ter ficado com a cara na janela a viajem toda. Minha prima, que me pediu pra segurar minha mão a uns segundos atrás tirou seus olhos do cadáver a nossa frente ao som que fiz e analisou meu rosto atenciosamente a procura de qualquer sinal de lágrimas ou tristeza. Ela não achou nada, claro. Eu não chorava pelos mortos a anos, graças a meu pai.
Até hoje me pergunto de quem foi a idea de jerico de deixar uma garotinha de sete anos que acabou de sair chorando do velório de seu bisavô aos cuidados de um homem que não derramava sequer uma gota de seus olhos nem pela morte de sua própria mãe. Isso faz dez anos, mas em compensação a falta de palavras de condolência, a meu velho não faltavam deboches e discursos bem elaborados sobre a efemeridade da vida e em como os lamentos por sua perda lhe pareciam desnecessários e até hilariantes.
Não me entenda errado. Eu fico grata por muitas das coisas que meu querido pai me ensinou. Ele fez de tudo para que eu aprendesse tudo que era necessário para chegar aonde eu quisesse. Ele foi, mesmo que muitas vezes de forma indelicada e outras decididamente abstratas para minha mente medíocre, um excelente professor. Ainda é na verdade. Mas as vezes me pergunto se talvez tivesse sido diferente se eu não absorvesse tanto de sua personalidade e ensinamentos ao decorrer de todos esses anos. Se talvez tivesse sido melhor. E se talvez assim eu pudesse entender o por que de todas as cento e vinte e três pessoas, hoje aqui presentes, estarem chorando em cima de um corpo gelado e já sem vida.
Cento e vinte e três pessoas. Tenho quase certeza de que há mais pessoas aqui do que na última festa em que compareci. Coisa que eu detestava quase tanto quanto funerais. Outra coisa herdada de meu pai, imagino. E a coisa mais irônica da situação era de que, de todas elas, eu era a única vestida inteiramente de preto. É engraçado por que eu mais acho que isso tenha sido um efeito da minha falta de conhecimento mais do que qualquer outra coisa, deixei até escapar um sorrisinho em meio àquela orquestra lúgubre ao meu redor ao pensar nisso.
Ah, esses sons, outra coisa que eu odiava, mais até do que as festas e funerais. De todas essas pessoas ocupando as duas esquinas em frente ao pequeno salão a única que me parecia ter o real direito de chorar pela morte de meu avô era sua esposa. Se meus olhos chegaram a ficar marejados em algum momento mesmo que levemente — o que duvido — não foi por meu avô, nem por meu irmão, muito menos por meu tio, tias e primos e nem sequer por minha própria mãe. Foi por ela.
Ah os olhos de minha avó, mesmo quando não estavam mais a chorar eram mais dolorosos e verdadeiros do que qualquer um dentre aquele mar de lágrimas que se espalhava pelo chão. Não que as de seus filhos e netos não tenham sido verdadeiras também. Mas de alguma forma, aquelas que me acertavam no coração como uma adaga, eram os dela. Ao contrário de todos os cento e vinte e três pares de olhos que se espalhavam pelo lugar, os dela não possuíam nada. Não havia culpa como muito de seus colegas de bar, não havia arrependimento como em de seus netos, não havia compaixão como naqueles que estavam ali por outros que não o defunto, e não havia amor como em de seus filhos. Não havia nada, só a mais pura tristeza.
Finalmente o homem que faria toda a cerimônia chegou. Deu um olá para minha avó que mal pôs seus olhos no recém chegado direito e logo voltou a olhar para o corpo. O homem então pôs seu pequeno uniforme. Um jaleco branco de poliéster que mal lhe batia na cintura. As pessoas então começaram a se aglomerar ao redor do caixão. Mais lamentos, mais lágrimas, mas sussurros e palavras que a meus ouvidos não soavam nada mais que desnecessárias.
Pediram que eu lesse uma passagem da bíblia em homenagem ao velho. Mas eu recusei. Primeiro por não ser cristã, segundo por que não vi sentido algum. Tudo aquilo que tinha que ter lhe dito já lhe disse em vida. Todas as boas coisas e as ruins também. Nunca fui conhecida por saber segurar a língua.
Me retirei do local, deixando que meus primos e irmão mais velho fizessem as honras ao corpo gélido. Saí do salão para encontrar mais pessoas chorando, e estranhamente algumas rindo, como o irmão de minha avó, apelidado de "gordo" que estava a conversar com alguém que não conhecia. Era de certa forma bom ver que nem tudo era lamentação dentre os infinitos borbulhos que se formavam do lado de fora. Não era um dia exatamente "típico" de funeral se me perguntarem. Estava ensolarado com um céu extremamente azul e poucas nuvens espalhadas por ele. Estava quente como sempre. Afinal estávamos no interior de São Paulo.
Aquela roupa toda preta e coturno estavam me matando. Mas eu me recusava a tira-los. No fundo acredito que me sentia um tanto culpada, por não ser capaz de chorar como o restante da família. Então decidi compensar com simbolismo. Felizmente eu não era a única que não chorou uma vez sequer durante a coisa toda. Minha tia mais nova também manteve-se firme e inafetada o velório todo. Seu semblante não mostrava qualquer sinal de tristeza. No entanto eu sabia que era o contrário. Ela assim como suas irmãs mais velhas e seu irmão caçula estavam profundamente angustiados. Decidi então que sua reação era devido ao cansaço que os cuidados ao filho recém nascido a causavam.
Quando saí do salão vi meu tio sentado em uma banco de concreto com sua esposa, de quem eu era bem chegada, o confortando. Ele de longe era o filho mais afetado. Ele assim como minha tia mais nova não eram filhos de sangue de meus avós, mas ninguém poderia dizer que não eram legítimos.
Meus avós o adotaram quando ainda era um bebê, depois que seu pai biológico tirou a vida de sua mãe na frente de seus recém abertos olhos. Eles o acolheram, deram a ele um novo nome e uma nova vida. Já minha tia foi adotada de uma das primas de minha avó que era prostituta. Ela era muito pobre pra cuidar da menina, então a entregou a meus avós, que a aceitaram mais do que felizes. Os dois deviam muito a meus avós, e sabiam. Por isso a imensa dor nos olhos de meu tio não me surpreendia nem um pouco.
Desde que me lembro meu tio tem sido companheiro de brincadeiras de mim e meu irmão. Mesmo com a pouca diferença de idade, por ser o mais velho era sempre o líder. Junto a nós sempre brincavam o filho de sua madrinha — que estavam também no velório — e mais dois ou três garotos da vizinhança. Eu era a única garota, isso gerava alguns atritos de vez em quando, é claro, mas em resumo várias de minhas melhores memórias eram a seu lado.
Ele era um tanto mimado, muito arrogante e cheio de si, mas era uma das melhores pessoas que conheci em toda a minha vida. Eu o abracei mais uma vez assim como fiz quando chegamos aqui direto da estrada, disse-lhe algumas palavras de conforto e saí. Não era boa com esse tipo de coisa, então deixei que sua esposa fizesse o resto do trabalho. Alguns momentos depois foi anunciado que o caixão seria erguido e levado ao cemitério. E que aqueles que não se despediram deveriam fazer agora, pois seria sua última chance. Eu discordava, mas decidi ficar em silêncio enquanto muitos dos cento e vite e três entravam no pequeno salão.
Minha última chance foi algumas semanas antes, estava assistindo televisão quando meu avô me ligou. Ele nunca me ligava. Eu sabia o que aquela ligação significava, e acredito que meu avô também. Era hora de dizer adeus.
Estava na varanda de meu pai, seu apartamento era no nono andar, então a vista era ótima. Já estava entardecendo, e ventava de leve, mas o suficiente para deixar meus cabelos um tanto bagunçados, estava tudo muito lindo, lindo até demais para a situação. Mas agora que penso nisso, não foi um cenário inapropriado no final das contas, fez com que não parecesse tão triste quanto realmente era.
Nós falamos bastante, não lembro de tudo que me disse, nem de tudo que eu disse. Só lembro de ele ter me perguntado se eu seria uma desenhista profissional, uma designer ou até arquiteta depois de ter comentado sobre meus desenhos. Eu disse que não, mas que eu ainda lhe mostraria muitos de meus trabalhos, e que ainda ouviria muito sobre mim. Era uma mentira, Doce porém ainda uma mentira. Eu sabia disso, e ele também. Depois disso entreguei o telefone a meu pai para que conversassem e essa foi a última vez que ouvi sua voz.
Logo depois disso minha mãe pediu a meu irmão que levasse o caixão junto aos outros. Que nosso avô ficaria feliz com isso, já que ele era o primeiro neto. Não fazia muito sentido em minha cabeça, mas novamente restringi-me a falar apenas em meus próprios pensamentos. Relutante meu irmão concordou com o pedido.
Mais alguns minutos se passaram e nos pusemos a andar. Minha mãe ia a frente de todo mundo, segurando firme na mão de minha avó, minha tia mais velha tinha seus dois filhos um de cada lado enganchados em seus braços e meu tio agarrado a sua esposa chorando sem parar. E a frente de minha mãe, junto ao marido de minha tia mais nova, meu irmão segurava uma das extremidades do caixão. Ele parecia deslocado com seus braços e pernas magricelas comparado a todos os outros homens maiores e mais robustos que levavam o corpo junto a ele.
Eu estava bem mais afastada, minha tia mais nova estava sozinha também. Decidi fazer-lhe companhia já que seus três filhos não puderam comparecer devido a idade. Ela enganchou-se em meu braço e me lançou um pequeno sorriso de gratidão. E assim andamos em silêncio rua abaixo.
Haviam alguns pedreiros na rua cavando buracos perto a calçada. Dois deles levantaram as cabeças para ver o que se passava, e um fez o sinal da cruz ao ver que era um caixão seguido por uma multidão que estava a sua frente. Não sei se o fez em respeito ao defunto, por medo de ser o próximo ou por que achou que o defunto ia se levantar e correr atrás dele se não o fizesse. De qualquer forma não importava, pois sua imagem foi substituída pelos portões do cemitério logo após termos virado a esquina onde se encontrava um colégio. Ótimo lugar para se por um, aliás.
Os portões do cemitério haviam sido abertos para que se desse passagem ao defunto. Era um lugar bonito, até. Cheio de árvores altas e flores em toda a parte. Mas não escolheria passar a eternidade rodeada de tantas lápides e pedras.
As cento e vinte e três pessoas dispersaram-se entre os estreitos caminhos entre as lápides a medida em que fomos entrando no pequeno cemitério. E então chegamos em frente a um buraco já cavado no chão. Havia uma moldura de cimento cor salmão em volta dele. Não entendi o motivo. O coveiro já estava lá a espera, com pá em mãos e um semblante que dizia já estar acostumado ou até mesmo cansado de tudo aquilo.
Sem muita cerimônia o caixão foi abaixado e coberto de terra. Minha avó então começou a pedir que parassem, algo que eu não esperava que fizesse. Dizia que estavam colocando-o lá e que ele não iria gostar. Que o tirassem de lá pois era muito escuro e frio. Aquilo deu-me uma pontada no coração. Soava como as palavras que eu mesma disse anos atrás, antes dos discursos de meu pai, quando ainda era uma criança inocente.
Eu não sabia se ria ou chorava. Queria dizer-lhe que não era meu avô que estava ali, e sim só um casca vazia e sem vida enfeitada com roupas limpas e maquiagem para que ainda parecesse vivo, para que parecesse estar apenas em um sono profundo. Mas ao mesmo tempo queria acreditar nela, queria que suas palavras fossem verdadeiras, não por mim, mas por ela. Quem sabe se fosse verdade, seria menos doloroso, por que significaria pra ela que ele ainda estava ali de alguma forma. Mas não estava, e nunca mais estaria.
Minha mãe então pediu que retirassem minha avó de lá. Eu não vi quem a levou, mas logo depois disso outros muitos começaram a se retirar. Me soltei de minha tia que estava vidrada no buraco ainda sendo enchido e segui minha mãe em direção a saída do cemitério.
Ao sair vi um dos irmãos de meu avô, que sequer sei o nome, sentado em um banco de concreto embaixo de um salgueiro. Ele olhava para suas mãos em choque. Parecia ainda não compreender ou aceitar que seu irmão estava morto e que seu corpo estava no momento sendo enterrado abaixo de sete palmos de terra. Olhei para aquilo com uma certa confusão interna. Não era como se meu avô tivesse sofrido uma morte súbita, sequer sentiu dor ao morrer, pois partiu em meio ao sono. Estava doente a muito tempo, todos o viram definhar lentamente ao passar do tempo. Estavam todos apenas aguardando o inevitável. E mesmo assim quando o inevitável aconteceu todas aquelas cento e vite e três pessoas pareciam não acreditar.
Não os culpava, não os chamava de ingênuos, ignorantes ou qualquer outra coisa. Não os julgo, ao contrário, de forma alguma acredito estarem equivocados em suas ações. Estavam apenas sendo aquilo que pareço nunca compreender ou fazer jus ao título. Estavam apenas sendo humanos.
As cento e vinte e três pessoas agora estavam dispersas por toda a rua em frente ao cemitério, alguns entrando em seus carros e outros indo a pé em várias direções diferentes. Minha mãe, seu namorado e meu irmão seguiam para a rua que acabamos de percorrer, onde o carro estava estacionado.
Olhei novamente para o cemitério, onde o corpo gelado e sem vida de alguém que costumava ser meu avô agora estava escondido de olhos humanos para sempre, dei as costas e um adeus silencioso apenas em meus pensamenos e continuei a seguir minha família rua a cima.
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