Narcisos
9 Teorias da conspiração
Foi mais uma impactante reviravolta em minha vida que eu precisava absorver. Não havia como mudar o meu futuro. A minha linha do tempo continuaria intacta para o bem ou para o mal, mais precisamente para o meu desespero. Eu estava agora em uma segunda linha temporal que até então acreditava que foi criada por mim, onde falei tudo o que tinha que falar a Thomas e que só o futuro dele não seria deprimente.
Não saímos da casa da árvore desde que raciocinamos sobre a minha situação. Ele notava um claro pânico em meu rosto. Eu suava frio e não apenas por causa da brisa gelada que entrava pelas janelinhas. Senti meu mundo desabar mais uma vez por um instante, pois vi uma luz no fim do túnel, mas ela se apagou rápido demais.
Eu sentia revolta também e me culpava em meus pensamentos. Eu me coloquei nessa situação. Eu ainda estava na minha primeira noite em 2019 e parecia que eu havia ido do céu ao inferno em poucas horas.
Eu tinha esperança, mas não achei que ela morreria tão rápido.
— O que pensa em fazer? — Thomas perguntou.
Eu não sabia. Fiquei calado e ele não insistiu em mais perguntas. Sempre odiei responder perguntas quando não estava bem. Eu só queria um momento para mim. Talvez dormir e tudo magicamente voltar a ser como era há um ano. Ou apenas dormir e... dormir. Apenas dormir... Seria a verdadeira solução para todos os meus problemas.
Eu odiava raciocinar dessa forma, mas não conseguia ver outra saída. Então, cabisbaixo, compartilhei esse pensamento com Thomas:
— Eu queria acordar amanhã e vê tudo exatamente do jeitinho que era há um ano. Tudo seria tão fácil.
— Mas você pode! — disse ele arqueando as sobrancelhas como se dissesse o óbvio. — Amanhã eu estarei aqui tomando café com mamãe. Você poderá ver tudo isso de novo. Se não pode consertar o seu futuro, então observe o que você tanto quer ver, pelo menos uma vez. Você queria essa chance, Tom. Você a tem agora, não do jeito que quer, mas a tem.
Eu me arrepiei com sua fala. Modéstia parte eu sempre fui bom em dar conselhos, mesmo não tendo experiência com o problema de quem os recebia. Eu estava “tomando do meu próprio veneno”.
Thomas estava certo, eu tinha uma oportunidade em mãos e a possibilidade de vê-la todos os dias me fazia questionar se queria voltar ao meu futuro.
Pensei em como poderia voltar, mesmo não querendo tanto.
— Acho que havia algum tipo de portal naquele abismo — sugeri. Eu não acreditava que pudesse ter ido ao passado magicamente. — E acho que foi ele quem me trouxe aqui.
— O que você foi fazer lá?
— Não importa. Talvez o portal ainda esteja lá. Eu preciso ir. Vou pegar a bicicleta. Você fica aqui.
— Não faz isso, está tarde. Tem seguranças na rua. Além de tudo está frio, Tom. Podemos ir de manhã. É domingo e não tenho aula. Mamãe chega quando amanhecer e dorme logo em seguida. Será a nossa chance. Digo “nossa” porque vou com você.
— Não. Você pode passar por acidente. Não sei se é porquê estava escurecendo, mas não consegui ver o portal e nem onde estava exatamente. Por causa de um centímetro você poder ir ao meu futuro.
— E está tudo bem! — Ele sorriu. Eu sabia que ele fazia aquilo para me deixar um pouco para cima. — É só eu passar por ele de novo e voltar para cá. Bem simples, na verdade.
— E se o portal não estiver mais lá de manhã? É por isso que preciso ir agora. E tento ir me escondendo daqueles seguranças. Afinal, quem são eles? Eu lembraria se no meu 2019 tivesse um bocado deles pela rua interceptando um a um.
Thomas estranhou, eu percebi.
— Eles não existem no seu futuro?
— Deveriam?
— Tom, eles estão aqui há mais ou menos dez anos. São agentes do governo do estado que vieram para a cidade com o apoio da prefeitura. Eles combatem o crime daqui junto aos policiais. Todo ano, nesse mesmo dia 09, eles fazem uma varredura pela cidade e ninguém sabe um porquê exato. Apenas dizem que é confidencial. Só existem teorias que me lembram você...
Fiquei pensando a respeito. Era muita informação para uma única noite e toda essa adição desses agentes no passado não me parecia coisa boa. Por que eles não estavam no meu futuro? E mal haviam crimes na cidade para haver qualquer segurança além dos poucos policiais locais.
— Talvez eles saibam que pessoas voltam no tempo. E se você falou que é sempre nesse dia 09, é porquê...
— Tom... — Thomas me interrompeu. — Acho que as coisas estão se encaixando aqui. — Ele encostou a ponta do dedo indicador na cabeça. — Você conhece o senhor Levi?
— Não conhecia, mas sei quem é. Ele está desaparecido. Quer dizer, então eu o conheço, só não lembro de ter o visto na vida. Eu era criança quando sumiu.
— O quê? — Ele riu, mesmo demonstrando espanto. — Tudo faz sentido com você aqui, bonitão! Claro que não há como ter certeza de nada, mas há teorias sobre o porquê desses agentes virem tanto para cá nesse dia, porque poucos ficam por aqui desde o aparecimento do irmão gêmeo do senhor Levi.
— Irmão gêmeo? Não lembro dele ter irmão. Acha que o desaparecimento dele o trouxe para cá?
— É o que dizem as teorias. No mês de novembro de 2010 o senhor Levi falou que ele mesmo chegou em sua própria casa, vindo do futuro. Os dois se apresentaram para todo mundo. A notícia viralizou, é claro. E para os que não acreditavam, ele dizia que iria a público fazer um teste de DNA com a versão futura dele e os dois seriam iguais. Acontece que foram poucos os que acreditaram. A maioria achou que era tudo falácia e que na verdade o senhor Levi e seu outro eu eram gêmeos, acredita?
— E depois? Por favor, não enrola, estou muito nervoso e não preciso de suspense agora. — Eu sentia minhas mãos suarem.
— Depois ele afirmou que realmente se tratava de um irmão gêmeo. Hoje ele mora em outro país e sem esse irmão. A casa onde morava está ocupada pelo Rafael, um açougueiro.
Me lembrei de quando vi um homem estranho na casa do senhor Levi que, em meu futuro, estava vazia.
— E você não sabe a melhor parte! — dizia Thomas entusiasmado. Ele estava amando me contar tudo aquilo e a cada revelação que ele fazia eu não conseguia esconder a minha expressão cada vez mais eufórica. — Houveram denúncias de viajantes do tempo em todo o mundo, antes e depois do “caso Levi”. Eles diziam ser o que você falou, viajantes do tempo vindos de um portal. Viam a público logo depois desmentir e dizer que eram irmãos gêmeos. Sites que noticiavam essas coisas e que faziam teorias eram derrubados, até que pararam de cair. Então surgiram mais teorias, afinal porquê derrubaram os sites se tudo isso era mentira, certo? E que para manter as aparências o governo deixava os sites no ar, porque apesar de perigosos, eles não passavam de supostas mentiras, então não teriam com o quê se preocupar. Meu Deus, eu tô arrepiado! Dizem que existem agentes por todo o mundo, simplesmente como agentes, como policiais, como guardas de trânsitos, como qualquer coisa, vigiando cada um de nós. É surreal. Agora eu acredito mais do que nunca. E eu sou um viajante do tempo!
Minha mente parecia que ia colapsar. Eu sentia medo e adrenalina. Eu estava assustado demais com toda a informação recebida, ao mesmo tempo que me encontrava entusiasmado. A cada frase dita por Thomas eu esquecia por um segundo a minha tristeza e botava um sorriso no rosto, achando surreal toda a situação. No segundo seguinte eu já me sentia triste.
Era muita coisa.
Voltei ao passado, vi outro eu, descobri que mamãe estava viva, descobri que meu futuro não iria melhorar, descobri que há agentes governamentais atrás de pessoas como eu e que, provavelmente, estavam suspeitando de mim, porque quando me pararam na rua eu cheguei a perguntar quem eles eram quando eu, o Thomas Benson, deveria saber.
— E se eles vieram atrás de mim? Não posso colocar você em risco, tenho mesmo que sair daqui. Se eles fizerem experimentos e todo esse tipo de coisa?
— Calma, Tom. Acho que temos como descobrir como é o processo apenas caso te descubram. Vamos tentar nos comunicar com o senhor Levi.
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