Narcótico
7 Deixe Queimar
Notas iniciais
[...]
Eu sinto algo tão certo
Fazendo a coisa errada
Eu sinto algo tão errado
Fazendo a coisa certa
Eu não poderia mentir, não poderia mentir, não poderia mentir
Tudo que me mata me faz sentir vivo
[...]
Veja ele queimar
[...]
Counting Stars – OneRepublic
I
Sentiu o material frio e elíptico em contato com a pele em mesmo estado. Os dedos escorriam pelo objeto sustentado em pouca altura, não exigindo grande elevação da mão antes posicionada em repouso; paralela ao quadril. Pouco pensou de imediato, tão pouco se atentou a qualquer coisa que o cercava – nada além do silêncio de um corredor vazio e de pouco comprimento.
A porta permanecia fechada a sua frente.
Seu reflexo era notado entre os dedos – ainda em contato com a maçaneta. Uma representação distorcida de um homem não tão diferente à imagem refletiva. Deformado. Uma sombra do que nunca fora; do que nunca será. Um projeto falho de homem – imensamente perverso, não pelo que fez, mas sim por não saber como faz e como fez. Justamente por não poder limitar seus demônios e temores.
Ele não tinha o controle; apercebeu-se disto.
Há exatos poucos dias se encontrava no outro lado, não tão diferente fisicamente no espaço além da porta: palmo sobre a maceta. Perpendicular a esta singularidade estava o contraste emocional e psicológico o quais ambas as situações proporcionavam – extremos que se encaixavam em poucos, e cruciais, pontos, mesmos os quais ainda não possibilitavam integral semelhança entre as circunstancias.
Desta vez lúcido, pôde pensar o que antes negligenciou naquela manhã tempestuosa. Maquiada estava a gravidade de tais condições; abrandadas pelas pálpebras até então congestionadas de sono e pela cabeça pesada de cansaço e frustração.
Mesmo ainda não se recordando de todos os detalhes, podia sentir novamente as mesmas sensações – palpitava. Subentendido estava este pensamento; e suas derivadas conclusões.
Emergiu em uma corrente constante de devaneio.
Nas narinas queimava uma essência quente e fétida de putrefação; vermelha estava à pele ao redor. Feria a carne ao passo que invadia seu corpo de forma ininterrupta, proporcionando-lhe imenso mal-estar e insatisfação. Como bebida barata, rasgava suas entranhas.
Atordoado estava por um instante.
Os olhos ardiam com o ar pesado que tornava aquilo uma grande esfera de recordações. Podia senti-los saltarem das órbitas por meio de uma dor contínua e irremediável – julgou. Piscou demoradamente a procura de uma estabilização.
Respirou.
Abriu novamente os olhos, permitindo que a luz – agora com maior presença no ambiente até então pouco alumbrado – iluminasse suas pupilas, clareando suas ideias. Sentiu os pés firmes em um chão agora sólido, o que, sem dúvidas, assegurou-lhe certa segurança.
Inspirou preenchendo seus pulmões com um ar tangível, não mais duvidoso.
Sentiu-se vivo. De certa forma.
Escorregou a mão pela maçaneta e pôde vê-la inclinar-se levemente para a direita.
Parou.
O tilintar da maçaneta fora interrompido instantaneamente. O objeto voltou a sua posição habitual; refazendo o trajeto anterior inversamente, levando consigo os dedos inertes de Ruy.
Distanciou levemente os lábios, deixando passar entre eles um sopro de ar quente. Encarou a porta e distanciou os pés. Transcorria no ambiente, antes tomado por um silencio nada condizente com o Homem ou qualquer gama de sons comuns aos ouvidos do mesmo, um soar contínuo – e deveras irritante – do bater das asas de um inseto. Pousou sobre sua mão em desuso, na qual pendia entre o indicador e o polegar um pequeno bloco de anotações – objeto convencional, prático, no entanto sem qualquer importância circunstancialmente. Ruy sabia aquilo que precisava saber; sem anotações, sem observações. Impresso estava em sua mente.
Inclinou a cabeça em um ângulo inferior, possibilitando observar na linha de sua mandíbula pequenos acúmulos de pele, evidenciados pela barba por fazer. Os olhos focaram no animal repulsivo, estranhamente descomunal.
Moveu involuntariamente o braço, fazendo-o balançar como pêndulo. Pouco incomodou o inseto. Junto a sua pele, andava ziguezagueando, a procura do inimaginável. A mosca prendia-se a essência de Ruy, alimentando-se de sua soturnidade. Deterioração.
Imaginou o quão mais poderiam estar além daquela porta.
Sobre o corpo de Sara: colônias, imaginou. Correndo pela gelidez de sua aparência em decomposição, respirando o ardor de sua jazida. Reproduzindo-se em sua carne deplorável, explorando os fios escuros de seu cabelo, repousados sobre o colchão que recebe em si os seus tecidos.
Apertou a maçaneta, mantendo-a como ponto de apoio e sobriedade.
Não mais sentiu o andar em sua mão esquerda. Tão pouco a textura das páginas do objeto negligenciado, caído sobre o chão com as folhas frontais amaçadas pelo próprio peso. Reconheceu o pousar de uma mecha de cabelo em sua testa úmida e franzida; arqueou a sobrancelha direita.
Não mais queria estar ali. Aquilo já era o bastante, tinha o preciso. Desconfiou que, ao estar novamente ali, poderia reviver velhas lembranças, despertando um discernimento esquecido e entendendo o entorpecido. Talvez, ao retornar a noite passada, o temor e o anseio poderiam lhe proporcionar as respostas tanto desejadas.
Mas não era capaz de abrir a porta.
Amaldiçoou Álvaro na privacidade de seus pensamentos, culpando-o pela vivacidade de suas limitações. Balbuciou ainda mais, encorajado pela solidão vigente, a qual lhe assegurava uma confissão que jamais seria ouvida; nem por ele, nem por terceiros. Como o despejar de orações desconexas em uma mesa de bar, aqueles fedendo a urina e uísque de estrada, ou a entrega de culpas e sentimentos em um confessionário, daqueles de paróquia interiorana. Este último pouco mantinha qualquer verossimilhança com suas condições atuais.
Tateou a procura de uma forma retangular presente no bolso da calça. Não havia qualquer possibilidade de este não estar presente junto a Ruy; ele nunca se esquecia do essencial, julgava excluindo suas memórias. Era como um remédio rápido para sua asma narcótica.
Apertou a relevo no jeans escuro, escorrendo verticalmente a mão até a cavidade um pouco acima. Adentrou com os dedos, sentido o tecido mais vulnerável do revestimento. Tocou a caixa uniforme e plastificada.
Levou consigo o objeto ao exterior, observando a embalagem de Marlboro refletindo a luz vinda dos vitrais nas laterais do corredor, evidenciando o seu envoltório incolor. Apanhou ao acaso uma cigarrilha, levando-a até os lábios secos e levemente ressecados.
Retornou a caixa ao seu bolso.
Esfregou os dedos compulsivamente, ignorando ainda a caderneta sobre o piso branco. Levou novamente a mão ao bolso, desta vez ao outro, a procura do recipiente. Desesperou-se quando não apercebeu qualquer sinal do mesmo.
– Quer um isqueiro? – Ecoou um ruído masculino. A amplitude da voz grave e incisiva evidenciava uma virilidade não sentida em Ruy.
II
Palpou a áspera mortalha com seu polegar e indicador. Pôde ver em sua extremidade o avançar vagaroso e prazeroso da linha tênue alaranjada, esta que consumia a extremidade cilíndrica do objeto, deixando um rastro crescente de cinzas que aos poucos cairiam sobre os sapatos opacos de Ruy.
Em sua outra mão figurava a chama remanescente no isqueiro. Quente e palpável. Como fogo, causava-lhe a admiração; atribuía-lhe sensações desconexas e indescritíveis. Algo entorno do instintivo, além da compreensão – não qualquer parecer concreto e consciente. São como aquelas coisas, ou momentos, os quais poucos se atentam – onde aqueles que redirecionam seus olhos a estas estranhas perspectivas integram-se meio a loucuras, deslocamentos e perdas.
Ruy atento estava ao ardor. Clamava pelo calor.
Instantaneamente orava pela combustão.
Abaixou a mão aquecida, levando-a com o movimento de toda a extensão de seu braço. A energia agora era também sentida próxima a coxa – por pouco desejou incendiar o pano podre que trajava.
Assim como fez anteriormente, deixou sua outra mão livre do palpar de um terceiro objeto. Abandonou o cigarro entre os lábios, suspenso. Em sua extremidade já era perceptível o seu consumo; a sua finalidade e limitação. A superfície uniforme dava lugar a matéria quebradiça, de cor deveras mais corpulenta – dois, três tons acima em pequenos fragmentos. Os olhos do jornalista deixaram o chão, focando-se então no corpo fino e tremulo logo abaixo do nariz – deixando ao ver do espectador uma rápida visão do encontrar de suas íris, próximas as linhas iniciais de suas pálpebras.
Aspirou um pouco da fumaça para dentro de si, sentindo-a preencher gradativamente o interior de sua boca, aquecendo a parede interna de suas bochechas levemente coradas devido ao tempo frio e chuvoso. Imaginava a substancia ansiada transcorrendo seus tecidos, encontrando seu com sua arcada; transmutando seu hálito em um odor comum à um homem de quase meia idade acometido por um cancro no pulmão. Só carecia do cheiro plastificado de hospital impresso em sua pele. Inspirou logo acima o que era ejetada pela brasa presente no cilindro, apreciando seu típico, único e irremediavelmente reconhecível cheiro de tabaco. Pouco notou a queda da primeira quantia de cinzas; como imaginado, sobre a lateral do sapato. Levou a mão novamente próxima aos lábios, programada para dar fim aquela rodada de fumo; descanso aos finos lábios rosados em um tom apático e preocupante. Deixou fluir entre estes uma fumaça densa e expansiva que tomou por instantes o seu campo de visão; por entre pequenas brechas pôde ver traços de seu rosto.
Em traços fortes e demarcados por uma luminosidade tanto quanto abatida, sobreposta por uma limitação condensada em formas lúdicas, encarava algo que parecia estar além dos olhos abatidos de Ruy. Por meio dele, através de sua pele. Por trás de seu físico. Era como julgava o olhar recíproco. Os ângulos de seu rosto figuravam em uma harmonia exata, seguindo linhas sem grandes contrastes. Em destaque, a mandíbula firmava sua identidade como homem. Em contrapartida, o maxilar antagonizava mais suave, permitindo a observação de uma pequena depressão da pele próxima a boca, no que certamente tendia a ser charmoso à olhares femininos.
A barba era pouco aparente, porém uniforme. Seguia pelas fronteiras do rosto em tons variantes de castanho escuro. O cabelo, curto e ralo, seguia os mesmos nuances. A sobrancelha arqueava discretamente logo após um início falho, descendo junto aos contornos dos olhos levemente caídos. A íris destacava-se com pupilas contraídas devido a incidência de luz. Seu redor era preenchido com uma cor clara, próxima daquela observada no mel: amarelo amarronzado em consistência – ao subconsciente de Ruy não cabia qualquer outra descrição. Seu olhar era fundo e penetrante, as pálpebras de distinguiam da coloração do rosto por serem um pouco mais escuras. Os cílios eram compridos e robustos, no entanto não se destacavam devido a seu comprimento retilíneo. As maçãs eram discretas e o nariz sutilmente arrebitado na ponta, em contrapartida, descia reto desde próximo ao final da testa. A boca era pequena e possuía um formato delimitado por linhas bem marcadas que se diferenciavam diante do limite com a pele.
A estatura não fugia à de Ruy, a não ser por uma pequena diferença para menos – o que sequer o fazia regular o ângulo de seu pescoço para se dirigir ao desconhecido. Tão pouco o impedir de olhar nos olhos daquele que fumava um cigarro. A quem emprestara o isqueiro.
– Obrigado. – Rompeu as camadas que geriam um mal-estar para Ruy. O Silêncio não deve perecer diante de mentes em potencial, pensava Ruy. Mesmo sem saber sobre aquele à sua frente, julgava-o capaz de tal.
Calado, envolto de uma atmosfera discreta, guardou o objeto no bolso do jeans claro e desgastado. Poucas linhas denotavam um abuso próximo aos sapatos. Na parte superior do corpo, a jaqueta jambo cobria por extenso o braço. Os ombros largos se ajustavam ao corte do tecido.
Encararam-se de imediato e Ruy pôde ver as mãos do homem penderem paralelas ao corpo. As mãos entreabertas moviam-se em ritmo de pêndulo em uma desaceleração visível.
Ruy desviou o olhar.
Levou a mão direta à boca onde, mecanicamente, limitou a cigarrilha entre os dedos indicador e médio. Retirou o objeto do contato com os lábios, causando a queda de uma boa parte da cinza acumulada no limite do cilindro branco – o restante despejou com o bater do anelar. Próximo ao sapato acumulou-se uma minúscula pilha das mesmas.
– Não há muito o que se fazer aqui. – Era a segunda vez que Ruy ouvia aquela voz e em nada distinguiu em comparação com a precedente. A primeira impressão se estendia até então.
– Pelo que vejo, não há. – Concordou meticulosamente. Dirigiu a visão ao assoalho onde, intercalando com a realidade, imaginou Sara em diferentes ângulos em uma escuridão parcial em conjunto com uma narração imponderada e incisiva de Álvaro.
Morta está diante da vida. Vivaz tortura o amante; o vagabundo e inconsistente a quem lhe deve súplicas não merecidas.
Com toda a razão. Finalizou Ruy após o cessar da voz de Álvaro.
– Então com que perde seu tempo? – Questionou. Deu-se um sorriso de lado pouco evidente – ao menos não reparado por Ruy. Algo variante entre a malícia, o saber e a desconfiança.
Diante da intermissão do desconhecido, Ruy pouco pôde pensar acerca de qualquer desculpa. Surpreso, optou por omitir calando-se perante a pertinente pergunta. Temia qualquer constrangimento oriundo de sua negativa em responder – constrangido estava sob a inexpressão de seu rosto. Divergente estava o questionador, perspicaz com olhar predatório, deixava escapar pela boca um filete de ar quente, este que Ruy pôde sentir mesmo à distância. Perante a falta de posicionamentos e escassez de qualquer esclarecimento, tão pouco qualquer resposta, instalou-se mais uma vez o desconforto.
Novamente olhou o piso. Pouco se atentou a qualquer visão, tomado estava por uma autonegligência comum à reflexão ou falta de atenção. Piscou pesadamente, sentindo as pálpebras descerem em um tiro único que o fez ansiar por um descanso verdadeiro e proveitoso. Insistentemente se negavam a deixar a posição de conforto. Abriu os olhos em resistência, incomodando-se com a incidência a luz agora mais presente. Em decorrência da mesma, percebeu a chegada vagarosa de lágrimas como remedeio para ardência vigente em seus olhos. Virou-se ao homem à sua frente, endireitando a coluna brandamente curvada, firmando os pés.
Observou-o com suas duas mãos protegendo a chama – esta que iluminava suas palmas protegidas da luminosidade do local. Em sua boca, figurava único um cigarro – talvez da mesma marca daquele de Ruy – o qual recebia em si o fogo consumidor. Logo sentiu-se comum àquele a quem devia um favor.
– Seu silêncio evidencia minha intromissão. – O cigarro já queimava entre os lábios. A mão se posicionava próxima ao bolso onde o relevo do isqueiro era evidente. A densa fumaça vinda em conjunto com a fala os rodeou, juntando-se com a mais contida de Ruy. Quente, ele a pôde sentir juntamente com as palavras diretas do homem. Os olhos irritadiços de Ruy fecharam-se em contato com a fumaça, abrindo-se em um ardor gritante denunciado pela vermelhidão abundante. Visualizou-o com os olhos semicerrados, encarando-o através da visão turvada que ambos tinham meio ao corredor. A mão direita em contato com a cigarrilha enquanto Ruy apenas mantinha a sua pendida entre os lábios secos. As narinas daquele mais baixo abriram-se como um farejar e aquele enigmático sorriso instalou-se novamente em seu rosto belo e instigador. Desta vez fora apercebido por Ruy e ele se perguntou o porquê. Atentou-se ao outro retirando o objeto ainda entre os dedos e despejando, claramente propositalmente, uma grande quantia da espessa fumaça.
Ruy fechou os olhos.
Sorriu meio as lágrimas.
Os olhos ardiam.
Em tempo indeterminado reagiu. Abriu os olhos umedecidos e pôde ver com maior clareza o ambiente. O homem diante de si, com o cigarro ainda em mãos, já sem o sorriso inexplicável. Por entre os lábios uma quantia bem menor da substância buscava o céu.
– Raul. – Estendeu a mão.
Ruy encarou-o buscando algo que nem mesmo sabia. Algo em comum. Havia uma ligação.
Raul. Repetiu
Lembrou-se de tê-lo visto ao sair do apartamento de Sara. Ele fumava um cigarro.
Apoiado em uma pilastra. Uma pilha de tombamentos. Concreto. Semicerrou os olhos. Não era isso. No entanto, não era sua pessoa que lhe chamava a atenção. Era algo além da aparência, algo antes da essência.
Talvez o nome.
– Ruy. – Respondeu tardiamente. Estendeu a mão em resposta, apertando a daquele com o cigarro resistente entre os dedos. Tragou.
A pele fria de Ruy acomodou-se com a palma quente de Raul em opostos discerníveis. O contato social buscava o equilíbrio térmico entre o desconhecido vigente em ambos. Olharam-se durante o cumprimentar. Aquele com o cigarro entre os lábios pôde sentir o contato com o filtro daquele na mão do desconhecido e então se deu fim ao gesto. Raul deixou suspensa no ar a mão ainda semiaberta de Ruy, dirigindo a sua até a boca onde deu descanso a cigarrilha.
Ruy recolheu a sua em seguida, dirigindo-a a coxa onde buscou pelo entrar do bolso direito.
A sua frente, o recém-conhecido apanhava algo além do isqueiro em seu bolso. O som – tilintar de poucas chaves – permeou o ambiente. Logo o pequeno molho tornou-se visível aos olhos de Ruy. Antes mesmo de este confirmar se Raul era vizinho de Sara – não citando para isto o nome da mesma – Observou-o desviar de si enquanto se dirigia a porta do apartamento no qual despertou naquela manhã. Virou-se em poucos graus e pôde ouvir, mais claramente com o ouvido esquerdo, o destrancar da porta a qual pensava em abrir sem mesmo considerar estar trancada. Temeroso e instigado, virou-se completamente a procura de entendimentos acerca daquela atitude de Raul, este que sequer se atentou ao nervosismo repentino de Ruy.
Escancarou a porta em uma presença imponente, permitindo ao ambiente escuro desfrutar da abundante clareza daquele corredor logo a frente – paralelo à confusão emitida pelo olhar de Ruy pelas costas de Raul, ainda com a mão sobre a maçaneta.
Deixou, pela terceira vez, a fumaça espaçar de seus lábios – não afetando em nada os olhos já acostumados de Ruy.
III
Chamou-o.
Sem resposta, bateu.
Chamou-o por uma quarta vez. Contou com batidas no chão o tempo que perdera diante da porta fechada do apartamento de Ruy. A boca respirava sem o brilho exagerado comumente usado, esbanjando naturalidade em um tom de rosa opaco. Impaciente estava Bárbara perante a falta de Ruy. A mão pousava sobre a cintura desnuda – a camisa se estendia até um pouco abaixo dos seios, rosa bebê em um contraste cafona e ou infantil com os lábios. Logo abaixo, uma calça jeans escura semelhante aquela jogada na cozinha durante o sexo com Ruy.
O qual ela buscava por mais.
Na outra mão figurava única a camiseta com a estampa do Sepultura. Esta que julgava estar sendo cobrada em silencio por Ruy – peça única, aliás. As pernas eram torneadas devido ao auxílio do sapato aberto que lhe atribua alguns centímetros.
Bufou à medida que os segundos naquele corredor se acumulavam no decorrer da espera. Desde aquela noite desejava por ele. Animais estavam seus sentimentos – não era amor, era além da paixão. A calcinha se umedecia ao se lembrar dele. Seus mistérios a instigavam e, mesmo não gozando de qualquer ligação ou conhecimento, buscava por sua presença.
Ela entendia o por que, mesmo que não quisesse prender-se apenas a realidade.
Os prazeres eram seu subterfúgio.
Ela os conseguiria até Ruy querer saber o porquê. E ele nunca iria chegar a resposta. Por que estava preocupado demais com outras coisas.
Coisas além de si. Além de Bárbara.
Apertou decisivamente a maçaneta, girando-a em um movimento único e preciso. Deu-se um barulho reconhecido e o abrir da porta. Destrancada estava inocentemente perante qualquer perigo em potencial. Abriu-a lentamente, deixando primeiramente sua cabeça intrusa na escuridão da sala de estar. Os fios loiros eram iluminados pelo adentrar da luz vinda do corredor.
Colocou sua mão esquerda para trás onde pôde sentir a camisa que segurava em contato com a parte traseira da coxa.
Afastou um pouco mais a porta, deixando uma passagem maior para o corredor. Adentrou com passos calmos e firmes evidenciados pelo barulho sedutor dos sapatos essencialmente femininos – ninfa. Com um passo sobre o outro, logo estava em meio à sala do apartamento de Ruy, envolta por escuridão. Fechou a porta e descartou a camiseta – com um perceptível cheiro de lavanda – sobre a poltrona única. Seguiu ao quarto onde atirou-se sobre o lençol devidamente esticado.
Fitou o teto sentindo os pés suspensos além do colchão. As pernas modeladas pela calça apertada sexualizava sua imagem. O cabelo espalhou-se pelo travesseiro. Pousou a mão sobre os seios.
Perguntou-se onde estaria Ruy paralelamente ao sentir do próprio sexo.
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