Nara.
1 Capítulo único.
O ar tinha cheiro de ferrugem e a boca da menina nipônica parecia estar repleta de cinzas quando a beijei.
Seus cabelos curtos eram tão escorregadios quanto seu próprio ser – não conseguia me agarrar a eles tanto quanto não conseguia me agarrar a ela.
Beijei-a de olhos abertos, observando a aurora, a deusa Eos que subia aos céus, colorindo o azul anil com tons que variavam do cor-de-rosa ao laranja escuro. Era um espetáculo. Não apenas porque eu estava fodidamente chapado beijando Nara, mas porque a própria natureza parecia reconhecer aquele momento épico e esforçava-se para torná-lo inolvidável.
Nara enrolou os dedos – unhas sujas de terra e coloridas com um esmalte verde neon extremamente lascado – nos cabelos curtos de minha nuca, e puxou-os com anseio. Ela usava sombra roxa nos olhos e o rímel estava aglomerado em alguns poucos cílios. Eu estava tão feliz que poderia morrer.
A garota de olhos caliginosos se afastou tão rapidamente quanto veio. Repentinamente, era apenas um borrão de curtas cortinas negras e glitter laranja nas bochechas, batom rosa borrado e uma presilha de plástico no cabelo, vestido amarelo rodado e uma mancha purpúrea na coxa direita. Observei-a correr para longe de mim, inepto.
Nara era um animal indefeso e arisco, que observava carinhos banais com olhos turbulentos e desconfiados. Desde que a vira pela primeira vez, desejei-a com todo o meu ser. Ela gostava tanto de ser desejada quanto gostava de se entregar a quem quer que fosse – e dessa vez havia sido eu. Antes de virar a esquina, ela se virou para me olhar. Estava chorando – a maquiagem estava escorrida até o queixo –, dobrou os joelhos e me soprou um beijo. Não soprei outro de volta, mas mastiguei seus beijos e os engoli, guardando-os em meu mais profundo âmago.
Sabia que depois daquele momento – depois das minhas mãos em sua cintura roliça, de seu cabelo que cheirava a cigarro e shampoo barato, depois de ver de perto sua pele coberta de maquiagem –, tal como a colisão de dois corpos celestes, eu jamais seria o mesmo. Partículas dela estariam acopladas em minha pele até que eu voltasse a ser pó de estrelas, e isso tanto me assustava quanto me deslumbrava.
Amanhã, ao acordar com a cabeça dolorida e a garganta seca, Nara não mais se lembraria de mim. Mas aquele momento – aqueles poucos segundos onde seus lábios eram unicamente meus e eu podia fingir que assim o seriam para todo o sempre – valia a paixão não correspondida. E, diabos, sem brechas a qualquer tipo de dúvida, valia toda a dor que só um adolescente terrivelmente apaixonado pode sentir – e eu sentiria.
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