Naquela Densa Floresta
1 Naquela densa floresta
Notas iniciais
Voltava ali, depois de muito tempo longe. Era um cenário totalmente diferente do que se lembrava, de como havia deixado. As ruínas do que um dia fora um grande reino agora eram usados apenas como sustentação de trepadeiras e outras plantas. Uma floresta imensa se ergueu ali, quase já não se via mais as pedras que restaram de casas e castelos. E no fundo daquela densa floresta apenas uma certeza existia: o coração que havia deixado para trás ainda se escondia ali.
Uma guerra há muito terminada e da qual ele acreditava ter sido o único a vencer. Muito pelo contrário, de todos os outros, fora o único perdedor; carregava apenas o título de “sobrevivente”.
Quantas vezes já presenciara tal cena? Uma floresta fria engolindo o que um dia chamou de lar… Tão fria e tão profunda que até o sol era intimidado a penetrar ali. Jaziam pedras, encobertas por vegetação, representando lápides, e embora soubesse que não haviam corpos soterrados ali, agia como se houvesse. Todos haviam desaparecido naquela quase escuridão.
Sieghart ainda tinha em sua memória, sobre cada uma das pedras que ele mesmo implantou, a imagem dos corpos inertes daqueles que um dia se atreveu a chamar de “companheiros”. Tinha certeza absoluta que os perderia um dia, então, por que sentir-se tão vazio agora?
Migrava, de lápide em lápide, acariciando o topo como se fosse a cabeça de um deles, sorrindo e dizendo as coisas de antes enquanto deixava nascer nos lábios um sorriso derrotado. Foi de uma em uma até ter tocado todas e então se afastou e encarou tudo de longe.
“Quando mais me arrisco a viver, mais coisas perco aos poucos. Preso a eternas promessas quebradas e sem sequer o direto de lamentar por isso”.
Deu de ombros durante um suspiro longo. Por mais tristeza que sentisse nenhuma lágrima havia de lhe escapar. Talvez por já ter gastado todas em perdas anteriores. “Eu já não tinha aprendido a conviver com isso?” dizia para si mesmo.
Por fim, virou as costas para as ruínas, hesitando a caminhada por alguns segundos. Para onde rumaria agora? Viver mais alguns de seus eternos anos em isolamento novamente até que se arriscasse a encontrar outros “amigos”? Plausível.
Caminhou então, acenando de costas, prometendo vagamente voltar a vê-los algum dia. Uma promessa que certamente não iria cumprir.
Uma vez afastado daquela densa floresta, mirou o olhar no céu e seu azul indiferente e alheio a tudo que acontecia abaixo de si. Voltou a moldar aquele sorriso cansado ao abaixar o rosto e seguir em frente a passos pesados.
“É o que eu posso fazer: viver a vagar até os confins da terra, fechando meu caminho de volta. Trilhando o caminho da eternidade que eu mesmo escolhi.”
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