Nana
1 Introdução
Notas iniciais
– ... resumindo, o álbum é excelente. Um dos melhores do ano, com certeza. E olha que estamos em janeiro ainda! Como as favoritas do disco, elejo... é... ah, esquece, '...Like Clockwork' tem canções com letras tão perfeitas que fica difícil.
– Já a melhor do disco, em minha opinião, é 'I Appear Missing'. Completamente viciante.
– A maioria das músicas deles são, certo?
– Verdade. E vamos encerrando o 'Confissão Musical' por aqui. No próximo vídeo, com o quadro 'Voodoo', falaremos de um assunto que estão pedindo faz tempo: jogos de terror psicológico. Vamos discutir qual seria o melhor game de todos os tempos, além de outras pequenas surpresas. Não é recomendado para quem tem o coração fraco. Como convidados, teremos meu caro irmão, Luke. A Nana estará aqui de novo, certo?
– Claro, você sabe que é sempre um prazer gravar com você. Obrigada Ethan pelo convite, e obrigada a todos que acompanham o trabalho dele.
– Eu que agradeço, Nana. E agradeço a toda essa repercussão maravilhosa que o canal está tendo ultimamente. Sem vocês, eu não seria nada. E se esse é o primeiro vídeo que está vendo, por favor confira os outros. Pra encerrar mesmo, confira o cover da nossa banda, Red Army, de 'My God Is The Sun'. Obrigado gente.
Ethan desligou a câmera. Sorri satisfeita com o que tínhamos gravado. Queens Of The Stone Age era minha banda favorita, então estava sempre animada quando o assunto era o conjunto.
– Gostei de ver, Nana! – ele disse sorrindo – Quero você empolgada assim das próximas vezes.
– Pode deixar!
Ethan era o típico metidinho a bad boy. Cabelo idêntico ao de Josh Homme, no armário, só camisetas de bandas de rock e heavy metal, jaquetas de couro e jeans surrados. Era alto e forte. Tinha lindos olhos azuis e cara de malandro. Mas por trás dessa aparência, existia um cara doce, calmo, extremamente carismático e engraçado, de deixar qualquer garota suspirando.
– Nana-chan, parabéns! Não esperava que você fosse tão bem. – falou Misaki. — Pelo que me contou, sempre teve medo de câmeras. Não me leve a mal, ok? Sobre o Ethan, não preciso falar nada. Ele sabe que tem talento.
– Obrigada! Ah não, relaxe. Eu também me surpreendi.
Eu recebi muitos elogios pela gravação, o que eu achei que deixaria o Ethan meio com ciúmes, afinal era o vlog dele. Por isso, ficava sem jeito muitas vezes e acabava olhando para ele, mas ele sempre ria quando isso acontecia.
– Gente, tá muito divertido tudo isso, mas eu preciso ir – disse Marco apressado – Não quero levar chinelada hoje. Vamos logo, Miguel!
– Vamos então – Miguel se levantou. – Até amanhã, eu acho. Boa sorte pra vocês...
– Boa volta às aulas pra todo mundo!
– Eu acompanho vocês até lá embaixo – disse Misaki quando abriram a porta.
Marco era descrito pelo irmão como um “anão estressado”. Tinha pavio curto e quando irritado, se tornava extremamente violento. Normalmente era gentil, simpático e até meio tímido e delicado. Existiam questionamentos sobre sua sexualidade, mas ninguém tinha coragem de falar sobre isso com ele. Tinha o cabelo preto com corte normal e grandes olhos claros, o que o deixava com cara de criança.
Já Miguel era ao contrário de seu irmão. Um cara pacífico, de poucas palavras. Nunca tinha o visto sorrir. Tinha piercings, olhos azuis frios e o cabelo bagunçado. Era considerado o badass do grupo, por suas grandes habilidades em artes marciais e por nunca ser pego quando matava aula.
– E agora, o que a gente faz? – perguntou Takashi.
– Que tal assistirmos um filme de terror? – perguntei animada.
– Você sempre usa o clube como desculpa para suas atividades sádicas...
– Ah, por favor! – fiz um biquinho – Um anime então, vai.
– Não! De jeito nenhum! – disse Aline – Eu odeio sangue, tripas e essas coisas do gênero.
– Fresca... – resmunguei.
– E se a gente só ligasse o som e ficasse conversando? – sugeriu Luke.
– Boa ideia, Luke – disse sorrindo. – Todo mundo concorda, né?
Misaki voltou e se juntou a nós. Conversamos sobre tudo, principalmente sobre coisas nada a ver. Eu me sentia contente de verdade quando eu estava junto a eles. Não tinha amigos assim naquele inferno... quer dizer, colégio. Preguiça de socializar com gente imbecil.
Foi extremamente sem noção como nos conhecemos. No começo das férias de verão, convidei Carolina, minha melhor amiga, para passar uns dias na minha casa. Morava num condomínio de prédios gigante, então logo que ela chegou, saímos para dar uma volta enquanto o almoço não ficava pronto. A gente estava falando sobre mangás e animes. Queria viciá-la em cultura japonesa. Era chato não ter nenhum amigo sequer que gostasse dessas coisas.
De repente, uma menina aponta pra mim e grita:
– Olha lá outra Tomie Kawakami!
Olhei para ela com cara de quem não estava entendendo a brincadeira e voltei a conversar com Carol como se nada tivesse acontecido. Mas a mesma garota vem até mim correndo.
– Oi, qual é o seu nome? – ela me perguntou sorrindo.
– Com certeza não é Tomie Kawakami... – respondi baixinho.
– Ah, me desculpe por isso! – ela riu – É que eu tinha feito uma aposta com meus irmãos. Desculpa mesmo, mas eles iam me pagar 50 reais se eu fizesse isso com você. E eu tô precisando de dinheiro, então...
Misaki era muito parecida comigo. Tínhamos o cabelo com o mesmo tom de castanho, uma franja quase cobrindo os olhos e feições similares. Era bem magra, e sorria o tempo todo.
– Hm, entendo. Cuidado pra não te passarem a perna.
– Ah, mas eles não vão mesmo – ela sorriu novamente – Mas você sabe quem é Tomie, né?
– Ah, sei sim. Eu li o mangá.
– Nossa, que demais! Eu só tenho amigas que gostam de cultura americana, e isso me irrita muito. Bem, meu nome é Misaki, e o de vocês?
– O meu é Carolina – ela disse e sorriu.
– O meu é Nana...
Misaki foi chamar os irmãos para cumprimentarmos. “Devem ser uns boçais”, pensei.
– Gente, essas são Nana e Carol. Meninas, esses são Ethan, Luke e Hiroshi.
Ethan e Luke eram gêmeos idênticos. O que os diferenciava era o fato de que Luke usava óculos e fazia o estilo certinho.
– Oi... – eu e Carol ficamos meio sem jeito.
Ethan e Hiroshi cumprimentaram-nos dando um beijo na bochecha de cada uma. Luke deu um tímido “oi” e ficou na dele.
– Vocês são novas por aqui também? – perguntou Ethan.
– Eu moro aqui há dez anos – disse. – A Carol vai passar uns dias na minha casa só.
– Dez anos? Uau! – exclamou Hiroshi. – Você deve ter uma porção de amigos aqui.
– Na verdade não. Eu não desço muito, só quando vem alguém em casa. Eu sou meio antissocial e preguiçosa. Eu até queria ser hikikomori. Só não sou porque eu quero estudar pra um dia ser cineasta, e meus pais nunca permitiriam.
– O quê? –Carol ficou confusa.
– Tipo, eu queria ser uma pessoa isolada dentro de casa.
Todos se entreolharam. Carolina ficou com uma cara de decepcionada.
– Você parece ser uma pessoa legal! – disse Hiroshi.
– Só pareço...
– Confesso que também queria ficar o tempo todo dentro de casa – ele sorriu.
– Vamos socializar a Nana? – Ethan perguntou animado. — Ela precisa parar de ser antissocial!
– Sou feliz desse jeito, mas obrigada.
– Mas você não tem interesse em fazer novos amigos?
– Mais ou menos.
– Ela precisa sim socializar um pouco – disse Carol. – Se vocês quiserem apresentar os amigos de vocês pra ela, eu ia ficar bastante agradecida.
– Eu ia ficar bastante agradecida se você parasse de tentar ser minha segunda mãe.
– Ignorem o comportamento azedo dela. Na verdade, ela é muito fofa e simpática. Só tá fazendo doce porque...
– “Fazendo doce” um cacete.
Os cinco ficaram discutindo sobre a minha vida social durante um tempo. Pensei em dar uma desculpa esfarrapada qualquer e sair correndo, mas tinha certeza que Carol iria atrás de mim e me arrastaria de volta pra lá. “Não, espera, e se eu disser que...”
– Ah, Carol, minha mãe mandou uma mensagem dizendo que o almoço tá pronto. Vamos?
Misaki pediu nossos números. “Desculpa, não dou meu celular a pessoas que acabei de conhecer”, pensei em responder. “Ah, mas... que raios de desculpa é essa? Que motivos há para não se dar o número do celular pra alguém? Prevenção contra um Ghostface da vida?”
– Tudo bem... – e falei o meu, por educação.
Carol passou o número dela, assim como Misaki. Então nos despedimos e subimos. Carolina tentou me matar quando percebeu que eu tinha mentido, mas eu fiz cara de cínica e ignorei-a. Ela disse alguma coisa sobre meu jeito de ser, mas eu nem estava prestando atenção direito.
Misaki, daquele dia em diante, passou a falar comigo no Whatsapp todo dia, tanto que realmente ficamos amigas. Nós duas e Carol encontramos mais vezes. Consequentemente, vi Hiroshi, Luke e Ethan novamente. Me dei conta de que estava julgando-os muito mal, pois eram os caras mais simpáticos que já havia conhecido em toda minha vida. Me senti extremamente culpada.
Os quatro logo me apresentaram a seus amigos. No começo, fiquei insegura e tímida diante deles, mas depois que me senti inserida no grupo, mostrei minha verdadeira personalidade: uma pessoa idiota, louca e cabeça de vento.
Nesse meio tempo, um clube e uma banda se formaram.
O clube foi batizado de 'Clube do Entretenimento'. Fazíamos todo tipo de atividades, desde jogar Mario Kart até fazer a brincadeira do copo. Ethan resolveu criar um vlog, no qual falava sobre tudo o que tínhamos assistido ou jogado. Às vezes ele chamava uma ou duas pessoas pra participar dos vídeos.
A banda, Red Army, foi ideia do Hiroshi. Era composta por sete pessoas. A ideia era ser um Arcade Fire da vida, mas o resultado foi bem abaixo do esperado. As composições eram medianas, e quase ninguém sabia tocar nada direito. Os gêmeos eram os únicos com talento de verdade, então foi decidido que, enquanto o resto dos membros não tomassem vergonha na cara e praticassem mais, suas funções seriam apenas dar apoio moral aos meninos. Depois de muito treino, um cover bom de ‘My God Is The Sun’ saiu. E só.
– ... Nana, consegui adivinhar a senha do seu celular! La la la la...
– Quê? Me devolve!
Saí tão de repente de transe que fiquei até tonta. Ouvi Takashi rir.
– Me dá meu celular, por favor! Me fala o que você viu. Agora.
– Relaxa, eu não vi nada. Tá aí no seu colo.
– O que aconteceu com você? – ele perguntou.
– Nada, nada. Eu só tava pensando um pouco na vida.
– Claro, pensando na vida... – ele disse ironicamente. – Acho que era em alguém especial...
– Ah, que droga Takashi! Vai pastar que você ganha mais.
Ignorei seus risinhos e olhei em volta. Hiroshi estava mostrando pra Aline o jogo do Slenderman. Ethan, Carol e Misaki estavam no meio de uma animada partida de Mario Kart. Anna e Luke estavam conversando. Takashi desistiu de me irritar e se juntou a conversa. Fiquei sozinha, pensando em como seria bom se as férias continuassem.
“Bem-vinda ao inferno novamente.”
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