Namoro por Aluguel
16 Tarde chuvosa
Notas iniciais
– Ana, tire os olhos desse celular. – Advertiu minha mãe. – Aproveite o almoço de domingo em família.
Desliguei a tela do aparelho, baixando-o para o colo.
– Desculpe, mãe.
– Com que estava conversando? – Meu pai indagou.
– Ninguém. — Disse eu.
– Pare de mentir. – Ele disse, bravo. – Com quem falava?
– Tobias.
– O japinha?
– Ele não é japinha, pai. É descendente de asiáticos.
– Tanto faz. – Disse meu pai, apresentando indiferença. — Pode me passar o macarrão?
Entreguei a travessa de macarrão para ele. Minha cabeça doía por conta da festa, mas eu fazia o meu melhor para esconder a dor. Passar o dia em família seria bom, sem precisar fingir ser alguém que não sou. Estávamos agora na casa da minha vó, almoçando ao redor de uma enorme mesa de mármore que ela comprara com o dinheiro da aposentadoria.
A mulher de cabelos brancos estava fazendo mais arroz, já que meu tio aparecera de surpresa com o resto da família dele. Encarei as paredes brancas da cozinha de minha avó, havia algo nostálgico ali, já que essa casa abrigou três gerações de crianças e ainda está em pé.
– Ana? – Chamou minha avó. – Pode fazer um suco para mim?
– Claro. – Respondi, deixando o celular sob a mesa.
Quando terminei de fazer o suco, flagrei Lucas tentando desbloquear meu celular. '
– Lucas! – Exclamei. – Pare de ser enxerido.
– Eu queria um joguinho. – Respondeu ele, fingindo.
– Você queria ver minhas conversas, isso sim.
Mamãe voltou do banheiro, e ele se levantou correndo para contar para ela.
– Mãe. – Disse, agarrando a blusa dela. – A Ana Clara brigou comigo!
Ela revirou os olhos.
– O que você ele fez? – Indagou minha mãe para mim.
– Queria mexer no meu celular.
– Só isso?
– Ele iria ver minhas coisas confidenciais.
Mamãe afagou a cabeça de Lucas.
– Francamente, Ana, você é a filha mais velha, deveria saber tolerar. Tome, querido, brinque no meu celular. – Disse, estendendo o aparelho dela para o pequeno loiro. Ele correu pelo corredor, até chegar à cozinha novamente.
– Mas... – Comecei a protestar, porém parei. “Uma vez irmão mais novo, sempre irmão mais novo” Pensei. Por que os caçulas sempre tinham razão?
Voltei para a cozinha, sentando-me no meu lugar. Vovó havia terminado de cozinhar e agora comia ao lado de meu tio e de sua esposa. Meu primo não estava lá, havia saído com a namorada. Peguei o meu prato e recomecei a comer, o gostinho de infância invadindo meu paladar. Realmente, nada se igualava à comida de vó.
* * *
– Acorda. – Era Lucas, balançando minha cabeça. – Você tem visita.
Meio sonolenta, mandei ele ir embora de meu quarto, porém o pequeno continuou ali.
– Acorda, Aninha.
Bocejando, sentei-me na cama.
– Vai embora, Lucas. Não vê que eu quero dormir? Amanhã tenho faculdade de novo e ainda nem descansei.
– Um amigo seu veio aqui. – Ele disse, ignorando totalmente o que eu tinha dito.
– Sai daqui! – Falei, jogando meu travesseiro nele.
– OH MÃE! A ANA ME BATEU! – Berrou Lucas.
– MANDA ESSE MENINO SAIR DAQUI! – Berrei, ainda mais alto. Mamãe nada respondeu. Mas outra voz respondeu.
– Ana?
Droga, eu conhecia aquela voz. Havia pagado um mico desnecessário.
– Tobias? – Perguntei, por via das dúvidas.
– É. Olhei para Lucas, dizendo com o olhar que era para ele sair correndo do quarto e ir conversar com o garoto. Assim que ele saiu do meu quarto, fechei a porta e fui trocar de roupa (afinal, não ia atender o crush de pijamas). Corri para o banheiro, dei um jeito no cabelo e escovei os dentes, depois dei o meu melhor para tentar passar maquiagem sem parecer artificial. Tinha a plena consciência de que eu estava demorando séculos, mas era melhor do que ele me ver babada, com o cabelo bagunçado e com cara de sono. Assim que achei que eu estivesse decentemente arrumada, fui para a sala.
– Oi. – Falei. – Demorei muito?
– Não, imagina. – Ele disse, sorrindo. – Está linda.
– Obrigada. – Disse, corando. Percebendo que Lucas ainda estava ali, pedi: — Lucas, poderia ir procurar a mamãe?
– Ela está lá no fundo...
Lancei um olhar fulminante para ele.
– Ah, acho que vou jogar alguma coisa no meu quarto. – Ele disse, saindo rapidamente.
– Seu irmão é muito legal. – Elogiou Tobias.
– Eu não acho. – Respondi, brincando. – Brincadeirinha, eu amo Lucas, ele é o melhor irmão que eu poderia ter, embora às vezes me irrite.
– Principalmente quando te acorda em uma tarde chuvosa de domingo. – Ele disse.
– Eu não estava dormindo, apenas descasando um pouco...
– Desculpe se te acordei, é que eu não tinha nada para fazer. Por isso, resolvi vir até sua casa, ainda lembrava o caminho.
– Ah, tudo bem, eu também não tinha nada para fazer. – Respondi, dando de ombros.
Sentei-me no sofá, ao lado dele. Fiquei esperando que ele citasse o incidente do encontro no condomínio, mas ele não o fez, apenas ficou olhando para mim, esperando que eu conversasse com ele.
– Mal dá para acreditar que está chovendo. – Comecei.
– Sério? Esse é o tipo de assunto que você tem com um cara com quem teve um encontro? – Ele disse, rindo. — Você é doidinha, Ana.
– O tempo é legal, de manhã estava um sol insuportável e agora chove. Isso merece destaque. Ele riu novamente.
– Doidinha, como eu disse.
– Sou completamente normal. – Defendi-me.
Ele riu, depois continuou a conversar. Eu só queria que aquilo durasse para sempre, que Tobias mantivesse os olhos fixos nos mês enquanto contava alguma coisa. A essa altura, mamãe já trouxera comida (sério, ela não pode ver visita que já a entope de comida). Continuamos a conversar sobre vários assuntos.
– Mostrei uma foto sua para minha irmã. – Ele disse, despreocupado. Havia algo de apaixonante naquele jeito, como se o deixasse mais leve e juvenil. Adorava isso. – Ela disse que você parecia ser muito legal, além de ser bonita.
– Sua irmã precisa de óculos. – Falei, rindo. – Legal posso até ser, mas bonita...
– Por que não seria bonita? – Indagou ele, fazendo-me corar novamente. Eu odiava ficar corada.
Não respondi. Ele olhou no relógio rapidamente, se assustando.
– Caramba, está muito tarde. Preciso ir.
– Não, fique. – Pedi. – Pode jantar aqui se quiser.
– Não posso, mas adoraria ficar mais um pouco. Pode abrir o portão para mim?
– Claro. – Respondi.
Caminhamos até o portão, abrindo-o. Tobias chamou-me para ver algo em seu carro e fui lá.
– Coloquei um rádio novo. – Falou ele.
Rádio novo? Sinceramente, aquele pretexto era muito ruim.
– Estou vendo. Parece-me ser bem tecnológico.
– Pode ver com seus próprios olhos se sair comigo sábado. – Ele disse, sorrindo. – Caramba, sou horrível nisso.
Ri.
– É mesmo, mas funcionou. Para onde iremos?
– Pensei naquela lanchonete perto da faculdade, sabe? Dizem que é bel legal.
– Ok, nos encontramos lá. Mas que horas?
– Que tal às sete?
– Fechado.
Ele sorriu, deu-me um abraço e um beijo (infelizmente, foi na bochecha), depois partiu com o carro.
Eu tinha um segundo encontro.
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