Namoro por Aluguel
2 O dia da proposta
Notas iniciais
Chego ao ponto de ônibus atrasada. No caminho até aqui eu o vi passando, teria que esperar o próximo.
Melissa saiu mais cedo hoje,estava passando mal, então estou só no ponto até que a condução chegue.
Sento-me no banco e começo a mexer no celular, checando as notificações e mensagens.
Quarenta minutos e nada do ônibus chegar. Checo minha carteira, não tenho dinheiro para pegar um táxi, terei que esperar de qualquer forma. O céu dá trovoadas, em breve começara a chover.
Os minutos se arrastam em um tédio absoluto, começo a sentir frio por conta do vento que varre as ruas, vasculho a bolsa procurando uma blusa, mas não encontro.
Após alguns minutos, um carro preto de marca para e buzina para mim.
– Idiotas – Murmuro.
O vidro do carro se abre, mostrando um garoto atrás dele.
– Entra aí.
Ignoro-o.
– Entra logo, Anne. É o Miguel.
– Não me chamo Anne.
– Que seja. Entra no carro, eu te dou uma carona.
– Não, o ônibus deve estar chegando.
– Passei aqui há quarenta minutos e te vi no ponto, voltei e ainda está aqui. Se eu fosse você, aceitaria a carona.
Viro a cabeça para o lado. Aquilo era uma cilada, eu era uma das únicas da faculdade com quem ele ainda não tinha dormido.
– Não, obrigada.
– Qual é, você me conhece, não vou te assaltar, estuprar ou assassinar.
Bufo.
– Não perca seu tempo. Além do mais, tenho certeza de que minha casa e o condomínio no qual você reside ficam bem longe.
– Pode ir pra minha casa se quiser. – Fala, dando uma risadinha – Brincadeira. Eu tenho combustível de sobra, e não me incomodaria em te levar. Além de tudo, vai chover.
Olho para o céu, bem a tempo de ver um relâmpago. Ele estava certo.
– Tá, mas não tente nenhuma gracinha.
Abro a porta e entro no carro. Uma música toca em um volume baixo, coloco o cinto de segurança e me deixo apreciar a maciez do couro do banco.
O carro é cheiroso.
– Onde fica sua casa? – Indaga
– Lá nos Jardins Altos, mas se me deixar na avenida principal já está de bom tamanho.
– Nem pensar. Coloque o endereço certinho no GPS.
Ele estica o aparelho e eu digito o endereço. Fico quieta por um longo tempo, observando as gotinhas de água no vidro do carro.
O telefone de Miguel toca,mas ele deixa tocar até que a ligação pare. Observo o visor, é de Cora.
– Ela já está enchendo o saco. – Fala.
– Já enjoou?
– Ela é pegajosa.
Volto a encarar as gotinhas.
– Sabe, eu nunca te vi com ninguém no Campus, você é gay? – Ele indaga
– O que?
– Desculpe, deve ser complicado.
– Eu Não sou lésbica, só tenho pouco tempo para dedicar para um relacionamento.
– Ah, seu negócio é ficar.
– Não, meu negócio é estudar para ser alguém na vida, pois diferentemente de você eu não tenho uma família rica.
Ele fica quieto. O telefone toca novamente, dessa vez o visor aponta o nome “Mirna”. Depois continua a tocar por um bom tempo, todas as vezes com nomes diferentes.
– Você estava no trabalho? – Ele pergunta
– Sim.
– Onde é?
– Por que quer saber?
– Sei lá, para puxar assunto talvez?
Respiro profundamente.
– Mocca Café.
– Aquele perto da faculdade?
– Esse mesmo.
– Meu pai conhece a dona de lá.
– Que bom.
Ele faz uma pausa, depois continua:
– Você leva os estudos bem a sério, não?
– Levo,assim como todos deveriam levar.
– Bom,pelo preço da faculdade e pelo o que deduzo ser seu salário no Mocca eu posso ter uma idéia de que quase todo o seu dinheiro vai para a faculdade. Estou errado?
– Digamos que está suficiente para mim. – Minto – Por que o interesse em tocar nesse assunto? Vai me cadastrar no Bolsa família?
Ele para no acostamento, depois desliga o carro.
– Não, só por curiosidade.’
– Vi uma pesquisa que os filhos de família rica tem interesse em saber como é a vida dou outros pobres mortais , eu não tinha acreditado, mas agora vou até enviar um e-mail parabenizando o site.
– Eu poderia fazer isso ser melhor, Anne.
– Primeiramente, meu nome é Ana, não Anne. E depois, eu não preciso de você para nada, seja o que for que pedir em troca, eu não vou dar.
– Escute minha oferta.
– Eu desço aqui. – Falo
Ele não destranca a porta.
– Eu disse que desço aqui.
– Não mesmo, precisamos conversar.
– Não precisamos, mas se quiser conversar comigo eu acho melhor que seja na delegacia.
Ele bufa.
– Agora abre logo a merda da porta.
Ele destranca a porta. Saio rapidamente, batendo a porta com violência. Sinto a chuva caindo sobre mim, mas ando rapidamente. Daqui até minha casa São cerca de cinco minutos se eu me mantiver nessa velocidade.
Eu não deveria ter aceitado a carona.
* *
Chego em casa ensopada da cabeça aos pés.
– Ana! – Grita Lucas, meu irmão.
O garoto loiro me abraça, sem se importar com a água.
– Oi. – Falo
Meu pai se levanta do sofá.
– Por que demorou tanto?
– Eu perdi o ônibus.
Ele me dá um beijo na testa e volta a ver o jornal na TV. Vou andando até a cozinha, cumprimento minha mãe e vou até o banheiro para tomar banho.
Assim que termino, pego um prato de comida e enquanto envio uma mensagem para Melissa.
“Oi , tudo bem? “
A resposta vem alguns segundos depois.
Tudo,já fiquei melhor. E você?
Não mesmo.
Ué, o que aconteceu?
Conto para ela toda a situação ocorrida.
Ah, ia acontecer uma hora ou outra mesmo. Ele só não ficou comigo, com você e mais umas três na faculdade inteira.
Eu sei , mas deu uma raiva...
Depois de um tempo o assunto se encerra e vou dormir.
* *
Chego cansada à faculdade, já que hoje Melissa não conseguiu guardar um lugar e tive que ficar em pé.
Chego na sala, deparando-me com a mesma quase vazia. Somente dois alunos estão sentados. Um deles é Miguel. Praguejo mentalmente.
Vou até minha carteira e sento-me, organizando o material.
– Desculpe por ontem – Ele fala em meu ouvido.
O ignoro e continuo mexendo no material.
Olho ao redor, agora estamos a sós na sala.
– Me desculpe de verdade se te assustei. Mas eu preciso fazer a oferta.
Olho para ele.
– Por incrível que pareça, meu pai não gosta das meninas que arrumo. Gosta menos ainda por saber que eu só “fico”com elas, sem relacionamentos duradouros e tal. Acontece estamos em época de festas e negociações, e ele disse que preciso de uma namorada. Eu não tenho nenhuma que possa ser apresentada para os amigos do meu pai. Então eu reparei em você, exatamente o tipo de garota que ele aprova, o tipo de garota que o faria ter uma visão diferente de mim.
Ele pega uma mecha de meu cabelo, mas eu a retiro bruscamente.
– Então – Ele continua – Eu gostaria de propor para que seja minha namorada – falsa. Eu te pagava uma quantia que te ajudaria com a faculdade e, em troca, você iria a esses eventos comigo ,fingindo me namorar .
– Não – Falo.
– Não vai ser namoro de verdade. Não vai precisar me beijar ou abrir mão de nada. Poderá namorar qualquer um durante esse tempo, contanto que meus pais e seus amigos não descubram.
– Não.
– Você não está pensando direito. Raciocine um pouco, não estou pedindo muito.
Alguns alunos entram na sala, ele então se levanta e, indo para o seu lugar, fala para mim:
– Pense melhor sobre isso.
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