Namorada de Natal
8 Capítulo 8: Nossa chegada.
Notas iniciais
A mãe de Jéssica encarava-me como se me julgasse por algum pecado oculto, ela se apresentou como Luíza e era uma mulher beirando aos seus quarenta e tantos. Os olhos eram azuis e a pele clara, algo que não condizia com a aparência de Jéssica que, era uma morena de olhos negros. Possivelmente puxou a aparência do pai.
Nossa apresentação foi curta demais, sua mãe não trocou muitas palavras comigo. Fizera apenas algumas perguntas típicas que uma mãe preocupada com a filha faria a um estranho. Imaginei que Jéssica teria falado com ela sobre nosso estranho acordo e vi que estava errado.
— Escritor não é? — Após longos minutos ela quebra o silêncio. — Quantos livros já quem publicado?
— Sim... Hã uns dez. Por enquanto. — Digo, estava caminhando para ter meu décimo primeiro livro publicado; isso se eu o terminasse logo.
A mulher mais velha se cala e continuar com seu estranho silêncio enquanto fitava-me, esperávamos juntos por Jéssica, seu olhar sob mim já começara a deixar-me desconfortável e desconcentrado após alguns minutos. Engoli seco quando ela cruzou os braços, a postura mudando muito sutilmente; nesse momento eu já tinha certeza de que ela conseguia ler todos os meus pensamentos.
— Mãe pelo amor de Deus pare com isso. Tá assustando ele! — A voz dela enfim fez-se presente em protesto para que a mais velha parecesse o que fazia comigo. Que não era absolutamente nada de muito grave, apenas me olhava muito séria e profundamente.
Refaço o movimento que Luíza faz e movimento meu rosto em direção a escada que levava para outro andar da casa, Jéssica estava descendo às pressas com uma mochila em mãos, algo que pedi para que ela levasse já que passaríamos uma semana longe de casa.
— Estou apenas tentando conhecer seu... Amigo. — Responde ainda muito firme, dizendo a palavra amigo como se estivesse suspeitando de alguma coisa.
Pisco inerte ao olha para Jéssica e vê-la já arrumada para a ceia. A morena usava um vestido preto simples onde a estampa era flores pequenas, dando a ela um ar daquelas garotas blogueiras das redes sociais. O cabelo preso num rabo de cavalo simples deixou seu rosto mais visível; ela estava muito bonita e isso seria impossível de negar.
Querendo evitar que o olhar de sua mãe continuasse sobre mim, coloquei-me de pé e fingi ajudá-la com a mochila, eu mesmo a retirando de sua mão para carregá-la.
— Nossa! — Exclama ela ao me ver na sua frente, arqueando uma sobrancelha como se me avaliasse também. Havia escolhido algo simples, uma camisa social azul e calça jeans. Nada demais, mas que para ela pareceu fazer certa diferença em meu estilo. — Está muito estiloso.
— Você também, Jéssica. — A elogio de volta e a vejo sorrir mais largamente, mostrando os dentes brancos e retos. Ao retornarmos para a sala Luíza já estava de pé também e agora olhava para nós dois.
— Melhor cuidar da minha filha durante essa semana rapaz, não ligo se é escritor nem nada disso. Ela está indo inteira e quero que volte inteira. — Pediu em um tom levemente ameaçador, geralmente quem falava isso era os pais.
— É claro. — Respondo firme, não iria acontecer nada demais durante esses sete dias, porém compreendia a preocupação de sua mãe.
Seguimos para fora, o clima ainda quente nos recebeu assim que pisamos do lado de fora da casa de Jéssica, mesmo que fosse apenas cinco e meia da tarde, o sol continuava forte e castigava a todos.
— Espera um segundo — Jéssica para de repente, estende o braço na minha frente fazendo com que eu parasse também. — Me dê o seu celular, por favor.
— Por que? — A questiono, unindo minhas sobrancelhas em dúvida.
Ela revira os olhos.
— Já assistiu aquele filme com a Sandra Bullock e o bonitão do Ryan Reynolds? — Pergunta e continuo a olhando sem entender, não sabia de qual filme ela estaria falando e ela percebe isso. — Okay, ela está para ser deportada então finge que ele é seu noivo, a situação é quase parecida com a nossa, mas sem o casamento. Então, eles precisam fazer um monte de coisa para que todos acreditem nisso porque caso contrário ela será deportada do país.
Explica com certo entusiasmo, talvez ela gostasse do filme que mencionou.
— Tudo bem, mas o que isso tem a ver com o meu celular e a gente? — Torno a perguntar, se ela queria chegar a algum ponto continuava sem entender qual seria.
Jéssica bufa.
— Só me dá o celular e você vai ver o que eu quero dizer. — Novamente ela pede meu celular, hesitante o tiro de meu bolso, o desbloqueio e lhe entrego. Temendo o que ela faria com ele.
Não demora muito e ela inesperadamente se aproxima de mim, colando nossos corpos de uma forma que nunca esteve antes. Nossa grande diferença de alturas ficou visível naquele momento, o topo de sua cabeça batia na altura do meu queixo.
— Agora vamos fugir que somos um casal feliz e apaixonado prestes a ir para a ceia de natal da família — Sua mão se move e logo vejo a câmera frontal do celular nos mostrar na tela.
Pacientemente ela aguarda até que enfim entendo sua intenção e o que queria fazer, ajeito-me ao seu lado e ela faz o mesmo. Sua cabeça pende para o lado e seus lábios se abrem num sorriso largo e até contagiante, faço o mesmo, mesmo sabendo que não passava de um belo fingimento dou o meu melhor sorriso até que ela enfim bate a foto.
— E o que vai fazer agora? — Faço outra pergunta, curioso ao vê-la continuar mexendo em meu celular. Algo que não permitia que outros fizessem.
Alguns segundos se passam e logo Jéssica me mostra o que fez.
— Isso aqui. Eles precisavam acreditar nisso não é? — A tela de meu celular mostrava a conversa do grupo da minha família, a última mensagem enviada era do meu número. Onde a fotografia que havíamos acabado de tirar fora enviada com a legenda:
Estamos a caminho.
Olho por mais alguns segundos nossa foto e gosto dela, olhando-a pareciam que realmente éramos um casal. Principalmente na maneira como sorríamos, o fingimento existido para que ela saísse passou longe de ser notado.
— Já viu um casal que não tem uma única foto juntos? Porque eu nunca vi — Ela comenta, novamente tira outra foto, tirando proveito de meu momento de distração. E diferente da anterior, ela não a envia para o grupo da família.
— Okay já chega. — Digo. Conseguindo tirar meu celular de sua mão antes que ela o enchesse de fotos falsas de um namoro mais falso ainda. — Pegou tudo?
— Peguei sim senhor. — Responde dando as costas para mim. Segundos depois nossos celulares tocam ao mesmo tempo, recebendo diversas mensagens que vieram após o envio da foto no grupo, porém decidimos simplesmente ignora-las. Por um tempo ao menos.
Jéssica se despede da mãe que continuava a me encarar como se eu tivesse feito algo de errado e não sairia impune disso, seguimos para o carro.
— Eu não sabia que tinha um carro. Não parece alguém muito adepto a direção. — Faz a observação levemente surpresa.
— Não costumo dirigir muito, só quando vou para a editora. — Respondo, havia comprado o carro assim que meu primeiro livro fora publicado e fez um bom dinheiro, contudo a caminhada a pé para alguns lugares continuava sendo minha opção mais usada.
— Hum, ajudando o meio ambiente — Me parabenizou em um tom claro de brincadeira.
Entramos e assim seguimos caminho para a chácara onde passaríamos uma semana inteira e longa com minha família. Era o tão esperado dia 24 de dezembro, ou como Jéssica havia dito antes, o grande dia. Praticamente virei a noite em claro pensando no dia em questão, ansioso não conseguia dormir direito.
E percebi que eu não era o único a estar daquele jeito, um dia antes tivemos uma longa conversa sobre a véspera de natal e o que de fato faríamos. Conforme a conversa se estendia e ela comentava sobre o assunto, seus olhos demonstravam aquele brilho peculiar de uma pessoa também ansiosa. Algo em comum que compartilhávamos.
Naquele momento não era diferente, assim que dei partida no carro não tocamos no assunto, na verdade não estávamos trocando palavra alguma durante uma parte do caminho que seguia. Em minha mente o único pensamento a fazer-se presente era de como seria a noite, havíamos nos preparado para perguntas óbvias que com toda certeza seriam feitas por meus parentes, mas eu bem os conhecia e sabia o quanto poderiam ser imprevisíveis quando queriam.
— Então, onde fica mesmo a chácara? — Jéssica pergunta quando o silêncio entre nós já torna-se algo bem incômodo e estranho.
— Ribeirão Pires. Não é muito longe daqui. — Respondo tentando uma resposta mais longa, acho que era essencial que tentássemos acalmar um ao outro.
A vejo balançar a cabeça devagar e volto minha atenção para a rua.
— Deixei minha mãe avisada sobre o lugar, vai que ela ache que estou indo para o outro lado do estado — Soltou o comentário rindo muito brevemente. Chegamos ao centro e muitas das longas ainda estavam abertas.
A loucura de uma véspera de natal era a cena que predominava ali, muitas pessoas andavam de loja em loja, a rua principal onde a maior concentração de comércio estava, parecia um formigueiro. Muitas pessoas com sacolas de suas compras natalinas se locomoviam, até mesmo os pontos de ônibus estavam cheios.
A decoração da rua era chamativa como todos os anos, as cores costumeiras do natal faziam parte dos enfeites grandes e nada discretos que sempre mudavam todos os anos. Dessa vez escolheram guirlandas e sinos, nem mesmo os postes escaparam de toda a decoração.
— Nada melhor do que o natal para nos deixar loucos e endividados até a cabeça — Ela diz bem humorada. Olhando para o lado das lojas, apontando para a aglomeração de pessoas.
Considerava o Natal uma das melhores épocas do ano, não apenas pela união em família, mas pela magia que a data carregava consigo; a falsidade era deixada de lado, — em algumas famílias ao menos — a alegria dominava o ambiente. Dependendo de como essa noite terminasse, tal data poderia voltar a ser uma das minhas preferidas. Ou não.
Passar pelo centro não foi um problema como imaginei que seria, felizmente não havia muito trânsito naquele horário, contudo após passar da cidade e enfim entrar em Ribeirão Pires, tivemos um pequeno problema com a passeata que a cidade fazia na véspera. Isso gerou trânsito, pois muitos gostavam de parar no meio da rua para acompanhar o senhor Noel em seu caminhão desejando um Feliz Natal para todos.
Isso nos atrasou bastante, por conta da festa que tal atração gerava, quando chegamos na estrada de terra já era quase sete horas. A festa organizada por minha mãe estava marcada para começar exatamente às sete e meia. O cenário ao nosso redor mudou, éramos agora cercados por árvores de todos os tamanhos com suas folhagens grossas e volumosas, prédios e casas foram deixados para trás dando lugar para o verde.
Ao meu lado Jéssica se remexeu no banco do carona, sentando-se mais ereta e olhando sempre para os lados. A iluminação vinha apenas os pisca alerta de meu carro e nada mais, víamos apenas o caminho à frente.
— Não tinha como pegar uma estrada mais iluminada? — Ela pergunta, reparo que ela parecia aflita por conta da escuridão predominante ali.
— Poderíamos pegar a balsa, mas preferi o caminho mais curto — Respondi, tomando mais cuidado ao fazer duas curvas seguidas. Jéssica segurou-se em seu banco com força.
— Deveria ter escolhido a balsa — Ela me repreendeu, segurando-se novamente quando foi necessário fazer uma terceira curva; esta sendo um tanto mais longa que as duas anteriores. — A gente já tá chegando?
Preciso me inclinar para frente quando entro em um caminho mais estreito, aquela não era a primeira vez que dirigia para a chácara em questão, porém todas as vezes que fui para o lugar, estava claro o suficiente para que eu conseguisse ver o caminho sem precisar forçar minha vista.
— Eu acho que sim — Respondo sem dar muita atenção a ela, precisava manter-me mais centrado na estrada, para evitar qualquer incidente que poderia vir a ocorrer.
— Como assim acho que sim? Não sabe onde está!? — Jéssica questiona mais alto, se eu não estivesse mais atento na estrada poderia afirmar que ela estaria com medo. — Está arriscando duas vidas aqui!
De repente ela começa a falar de uma só vez, soltando diversos comentários desesperados e sem nexo algum. Tirando minha concentração da estrada.
— Jéssica! — Grito, passamos por um buraco que fez o carro sacudir fortemente, se não estivéssemos com o cinto de segurança, algo teria acontecido.
— O quê?!
— Pare de falar por um momento! Por favor! — Pedi impaciente, evitando olhá-la para que eu não perdesse o controle no meio da estrada. Ela parece querer falar outra vez e felizmente consigo prever sua ação. — Eu estou dirigindo, não me desconcentre.
Mesmo com os olhos fixos na estrada eu consigo sentir o peso do olhar da morena sobre mim, o silêncio necessário dentro do carro logo se estabelece como pedido e logo consigo seguir estrada sem me preocupar com seus surtos fora de hora.
Ao passarmos por mais alguns buracos a ouço resmungar mais baixo, não soube dizer se seria resmungos de reclamação ou medo de nos perdemos no caminho; o que seria algo impossível de se acontecer, pois ou seguíamos adiante ou fazíamos o retorno para voltar. Não existia mais nenhum outro caminho ali, além de todo o mato que nos cercava.
— Só me responda se a gente já está chegando, por favor — Ela pediu pela segunda vez, mais calma. Apesar de deixar claro seu desconforto.
— Estamos — Avisei, encontrando o portão que nos levaria para o conjunto de chácaras. — Vamos passar por três portões iguais a este de agora, então vou precisar que fique de olho.
— Okay. — Responde, ajeitando-se no banco, parecendo bem mais aliviada com a notícia dada.
Juntos contamos os portões, aquela parte do caminho já continha alguns postes de luz pelo caminho, o suficiente para deixar apenas uma pequena parte do caminho iluminada lara termos uma noção melhor de onde estávamos. Assim que os três portões foram deixados para trás encontrei a chácara onde ficaríamos, a música alta e festiva podendo ser escutada mesmo na distância que estávamos.
— Pelo visto eles já entraram no clima festivo — Comento ansioso, não quis olhar o horário, pois sabia que estávamos atrasados.
Parei o carro atrás dos outros carros, em frente ao caminho de cimento que levava para o salão, pude ver toda a decoração sempre exagerada e chamativa que minha mãe fazia na data. A árvore grande de natal enfeitada dos pés a cabeça já cheia de presentes ao seu redor; uma mistura de caixas grandes e pequenas.
— Caramba, chegamos mesmo. — Jéssica fez o comentário com um leve tom preocupado. A olhei e a vi com os olhos mais abertos, a postura ereta de forma tensa.
Suspiro. O tão esperado momento enfim chegou e com ele uma bagunça de sensações e sentimentos; nossa mentira estava prestes a começar na frente de todos. A ansiedade sentida não chegava nem perto do sentimento que tinha quando estava prestes a publicar um novo livro, sentia que poderia vomitar a qualquer momento.
Virei meu rosto novamente para Jéssica e como se adivinhasse o que faria, ela fez o mesmo. Estávamos nos encarando agora, a morena ao meu lado se mostrando tão tensa e nervosa quanto eu.
— É agora. — Dizemos juntos, segurando na mão do outro como uma tentativa falha de acalmarmos nossos nervos.
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