Namorada de Natal
7 Capítulo 7: O grupo da família e algumas verdades.
Eu estava estranhamente inspirado naquela quarta-feira, após um café da manhã simples e rápido corri para escrever, a inspiração para continuar o capítulo empacado havia me dominado de forma surpreendente e ansioso me apressei em colocar tudo o que vinha no papel.
O ventilador pouco potente estava ligado e direcionado a mim, mantendo-me o mais fresco possível. Aquele dia 19 trouxe consigo um calor mais violento que os dias anteriores, obrigando-me a usar uma regata e shot; um estilo que sempre recusei a aderir à minha pessoa. A garrafa de dois litros onde anteriormente carregava como conteúdo um de meus refringentes preferidos agora carregava a água gelada necessária, o copo pela metade ao lado completava o cenário de um escritor passando calor antes mesmo da chegada do verão.
Digitava sem perder minha concentração, as palavras fluíam mais facilmente neste dia, dando-me até uma história melhor e mais elaborada para minha nova protagonista do novo terror que escrevia; uma atriz de grande sucesso com seus trinta e cinco anos que, passou a ser perseguida por um fanático. Fazia pausas curtas para apenas beber alguns goles gelados da água e então retornava à minha tarefa, mentamente me deixando o lembrete de tentar terminar logo a história.
— A fotografia revelava um particular seu que mais ninguém tinha conhecimento, nem mesmo sua família ou amigos próximos. O desconhecido de nome algum ultrapassou todo e qualquer limite que poderia existir naquela perseguição doentia e sem sentido, se a única regra era a proibição de contactar a polícia, com o recebimento da foto, ela já não existia mais. — Li o último trecho escrito que encerraria o capítulo em voz alta, fazendo uma revisão rápida em busca de algum erro cometido ou qualquer detalhe que possa ser modificado.
Encarei o trecho final pensativo, meus dedos tremelicavam sobre as teclas com as letras marcadas, minha mente trabalhava agitada. Como se quisesse que eu escreve um algo a mais para completar e fechar o capítulo de vez, contudo avancei de capítulo. Temendo que se escrevesse mais alguma coisa acabaria estragando o capítulo já pronto.
Estalei meus dedos antes de nomear o próximo capítulo que começaria a escrever, primeiro penso em como iniciaria, olho para o teclado imaginado inúmeras maneiras de um bom começo. Algo que mantivesse o leitor curioso sobre o que aconteceria em seguida com minha personagem.
Tomo mais um gole de água antes de começar a digitar, com os olhos fixos na tela vejo as palavras se formarem e logo montando um parágrafo. Faço uma pausa que não mais do que cinco segundos e continuo a escrita, logo preenchendo toda a página com pelo menos mil palavras que formavam uma parte pequena do capítulo.
Decido parar outra vez, havia passado tempo demais sentado numa mesma posição e o calor na sala onde estava fazia-me suar mais que o normal. Levanto-me caminhando até a pequena sacada, olho para a paisagem do bairro onde morava.
Vejo outras janelas de prédios já com a decoração natalina de sempre, na praça mais adiante um grupo numeroso se organizava para fazer toda a decoração do lugar; enquanto outro grupo montava a árvore gigante que ficaria no centro da praça.
Aquela era a semana onde não teria nenhum contato com Jéssica, pois como ela me pediu na semana passada, passaria o tempo com sua família antes de vir passar com a minha. Considerava aquilo um tipo de folga, havíamos passado quase quatro dias seguidos se conhecendo melhor, descobrindo bem mais sobre ela do que esperava. Jéssica fazia faculdade, contudo não sabia ao certo qual era o curso escolhido e também descobri que ela possuía uma paixão por cachorros... Ao meu ver, essa segunda não parecia lá algo tão relevante assim. Dentre outras coisas que não se diziam para qualquer desconhecido.
Ela também soube um pouco mais sobre mim, estava me conhecendo mais do que qualquer um. Havia lhe contado sobre minha primeira e única relação amorosa que tive, mesmo não sabendo se poderia de fato considerar as poucas horas vividas com a garota como uma relação.
Jéssica mostrou-se surpresa ao saber disso, principalmente quando mencionei que a beijei. Ela não parecia esperar por tal detalhe e eu não esperava revelar algo assim.
— Você é bem estranho sabia disso? — Ela disse-me enquanto aproveitamos o dia na lanchonete local, nos servindo de suco gelado e lanches leves. — Além de ser bem sistemático, rei das cantadas é um ótimo escritor. Já sei como elogiar quando estivermos com sua família.
Lembro-me de que acabamos nos divertindo durante esses dias, ainda que tivéssemos mantendo tudo o mais profissional possível, foi inevitável que não acabássemos levando um papo mais amigável com o outro. Jéssica aos poucos se mostrava uma pessoa menos ranzinza da qual imaginei que seria.
Quatro dias. Pensei em minha mente, o tão esperado acontecimento estava chegando. A ansiedade em mim crescia sempre que contava mentalmente os dias para que o fingimento real enfim começasse. A véspera de natal estava se aproximando muito rápido e com ela, o nervosismo de ter que mentir diante de toda uma família. Eu poderia ou não acabar estragando a melhor época do ano por causa de uma birra interna.
Imaginei o que estaria se passando na mente de Jéssica, em poucos dias ela teria de passar uma semana inteira comigo e minha família, fingindo ser uma pessoa inventada. Estaria mentindo se dissesse que o pensamento de perguntar a ela se queria desistir não passou por minha mente, entenderia se ela quisesse e com toda certeza inventaria uma nova desculpa. Diante do que já inventei, faltar na ceia de natal não seria algo difícil assim.
Contudo a ideia se perdeu em outras ocupações, ainda tinha o livro incompleto para terminar logo; algo que aos poucos eu já me contentava em saber que poderia não acontecer.
Sou retirado de meus pensamentos quando ouço o toque do meu celular, olho para o aparelho pensando em quem seria. A opção mais viável e certa seria em Eduardo, meu editor, querendo saber sobre o avanço do livro e quando o entregaria pronto. Para isso eu já estava preparado.
— Diogo? — Ela me chama do outro lado, a voz soando como se estivesse em dúvida de algo.
— Pode falar Jéssica. — Respondo, um tanto surpreso com sua ligação inesperada naquela quarta tão quente.
Há uma pausa muito breve, consigo ouvi-la respirar fundo antes de dizer o que queria e já imagino um monte de situações que podem tê-la levado a me ligar.
— Como e por que sua mãe me adicionou no grupo da sua família? — Ela pergunta de forma muito direta. Pagando-me de surpresa.
Fico estático por alguns segundos, afasto meu celular de minha orelha e olho para a tela, enfim dando atenção para o monte de notificação que havia se acumulado. A coloco no viva voz e clico no monte de mensagens acumuladas que vinham do grupo da minha família.
Ao entrar no grupo vejo o momento exato em que mostra quando minha mãe a adicionou ao grupo, o que veio em seguida foi ainda pior de quando a notícia do meu namoro se espalhou. Foi como se isso já estivesse sendo esperado por todos, em segundos uma jornada de mensagens vieram, dando a Jéssica as boas vindas e outras piadas relacionadas a nós. Algumas perguntas também foram feitas, mas não obtiveram respostas.
— Diogo? — Ela me chama, assusto-me, pois estava distraído demais lendo as mensagens e sequer lembrei-me dela.
Se o futuro encontro com minha família já seria algo ruim, ver o que minha mãe fez só fez piorar nossa situação. Eu não sabia o que dizer a ela, se eu começasse a pedir desculpas ou se pedia para que entrássemos na farsa. Mas uma coisa era certa, a ação de Marli pegou a nós dois desprevenidos.
— E-eu... — Sai de onde estava e comecei a caminhar por meu apartamento, minhas palavras não se completavam em minha boca. Afinal, o que eu iria dizer? Tinha as mesmas perguntas que Jéssica. — Acho que minha mãe deve ter mexido em meu celular quando a acompanhei até a porta...
Comecei a procurar por alguma justificativa para ela ter conseguido seu número de telefone, fui esperto em salvar seu contato como Camila em vez de seu real nome.
— Imaginei que você quem passou meu número — Admiriu mais baixo, não havia muito humor em sua voz. — Mas agora que isso aconteceu sabe bem o que significa não é?
Balanço minha cabeça positivamente. Como uma simples ação de adiciona-la ao grupo fez com que nossa mentira tomasse um rumo inesperado? Permitindo que a tarefa fácil de fingir por uma semana se tornasse mais difícil para ser feita. O gesto para qualquer um pode parecer bobo até, porém para minha mãe e o restante da família, Camila já era merecedora de estar por dentro das palhaçadas que aconteciam no grupo de whatsapp.
— E o que faço? Se eu não conversar já vão me odiar antes mesmo de me conhecer, se eu responder... — Ela não termina a frase, pois assim como eu sabe muito bem o que poderia vir a acontecer.
Coço minha cabeça, pensando em algo.
— Responde algumas delas, mas sem deixar brecha para que eles puxem assunto com você, vai por mim depois vai ser difícil fazê-los parar. — Tento ajudá-la, ainda tenho toda a conversa do grupo aberta em meu celular e então logo a vejo digitar.
Em poucos segundos Jéssica envia o tão esperado “oi” para o grupo e o que vem depois são mais uma jornada de mensagens. Todos animados, eufóricos e ansiosos para conversar com minha namorada. Para não deixá-la passar por isso sozinha, participo um pouco da conversa, ajudando-a em alguns momentos, desviando o assunto em outros... Eu queria prepará-la para conhecer a personalidade de todos os meus familiares, mas não a preparei para o principal por não achar que poderia acabar acontecendo.
O grupo da família.
— Okay, eu acho que eles já pararam com as perguntas — Ela volta a falar de repente, havia me focado tanto na conversa por mensagens que sequer dei-me conta de que ainda estávamos na linha com o outro.
— Sinto muito por isso... — Ao ver a chance de me desculpar pela atitude de minha mãe o faço, porém do outro lado da linha, Jéssica começa a rir.
— Está tudo bem. Só não esperava que fossem fazer isso tão rápido — Diz, agora sim existia humor em sua voz. — Imaginava que ela fosse esperar passar as festas para fazer isso.
Concordo outra vez.
— Ela pode ser bem impulsiva quando quer. — Respondo, a situação referente ao grupo já parecia menos ruim do que realmente era.
A ouço também concordar.
— Posso te fazer uma pergunta? — Ela me questiona, visivelmente curiosa. Confesso que travo, geralmente quando ela queria fazer-me alguma pergunta Jéssica simplesmente a soltava. Mas dessa vez foi diferente.
Ela realmente queria a minha permissão.
— Claro. — Respondo, também curioso sobre qual seria a pergunta que ela queria fazer a mim ao ponto dela pedir para que eu a deixasse fazê-la.
— Por que está fazendo isso? Mentindo para sua família sobre estar namorando? De verdade. — Pede. Indo direto ao ponto como sempre faz desde o momento em que nos conhecemos.
Passo minha mão por meu cabelo desgrenhado, ando novamente voltando para o lugar mais fresco de meu apartamento. Por essa pergunta eu não esperava.
Ela queria a verdade.
— Digamos que eu sempre fui do tipo que espera a pessoa certa para deixá-la entrar em minha vida, não sou de sair sempre em busca de uma ficante ou de alguém para beijar. Sempre fui mais reservado quanto a este assunto e minha família não entende muito bem que eu não tenho pressa com isso. — Começar a dizer toda a verdade, o real motivo para estar fazendo tudo aquilo ao ser dito em voz alta fez-me ver como parecia bobo. Estava deixando que um mero detalhe de minha vida, uma escolha que eu mesmo fizera acabasse me obrigando a agir de forma impulsiva. — Obviamente acabei virando alvo de piadas quando sou o único adulto presente na família que continua solteiro. Todo encontro em que nos juntamos, não importa qual seja, sempre ouço a mesma pergunta “e as namoradinhas, Diogo?” e simplesmente cansei disso.
— Inventou Camila para cala-los de vez? — Perguntou pela segunda vez, conseguia imaginar seu rosto levemente confuso conforme eu lhe explicava tudo.
— Sim. E dizer isso em voz alta faz com que eu pareça um adolescente, é um motivo bobo. Eu sei. — Continuo, talvez ela quisesse desistir enfim.
— Todo mundo passa por isso, claro que até hoje você foi o primeiro que soube que decidiu calar a boca dos parentes, mas não acho que isso seja bobo. Precisa ter coragem de fazer o que fez e ainda estar disposto a pagar por isso. — Ela responde, surpreendendo a mim com sua fala. Jéssica nada mais diz por um tempo e é inevitável que eu contenha os pensamentos do motivo de sua questão.
— Quer desistir? — Foi a minha vez de fazer uma pergunta direta, como dito antes, eu a entenderia se aceitasse.
— Não. — Ela responde logo em seguida. — Agora que sei a verdadeira razão para você estar fazendo isso, eu vou te ajudar nisso e todos vão parar de te atazanar.
Meu coração bate em alívio. Mesmo dizendo que aceitaria sua escolha saber que ela ainda queria seguir em frente com a história do namoro deixou-me bem mais aliviado.
— 24 de dezembro será um dia inesquecível para sua família, Diogo.
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