Namorada de Natal

6 Capítulo 6: Minhas confusões internas.


Eram quase dez da noite quando Jéssica me ligou e por mais estranho que minha atitude possa ter parecido para mim, havia notado que existia certa ansiedade em meu íntimo no aguardo dessa chamada. Estranhei. Julgando que poderia vir a ser por conta do tempo curto que tínhamos para resolvermos as coisas.

Nossa conversa foi longa, apesar de eu preferir fazer isso pessoalmente que seria bem melhor e também mais fácil, ajeitarmos nosso novo acordo acabou tornando-se a tarefa mais fácil desde que nos esbarramos. Eu tinha em mente que uma semana inteira comigo resultaria em um valor altíssimo em dinheiro, principalmente depois do valor que ela pediu por dia e dei graças quando ela se mostrou bem flexível para dialogar a respeito.

Percebi que parecíamos dois criminosos bolando algum plano, a maneira como toda a conversação fluiu e nossas novas pautas para deixamos a situação melhor era bem semelhante a de uma gangue planejando algum grande assalto.

Tudo acabou se resultando em algo mais vantajoso para ela, mesmo que tivesse acontecido uma leve insistência da minha parte, depois de muito acabei aceitando. Eu iria pagá-la, de um jeito ou de outro acho que não conseguiria fugir disso, porém não seria os três mil e quinhentos que seria o real total de uma semana fingindo. Concordei em dar metade do valor, o que já seria uma boa quantia e acho que seria o justo, depois de muito avaliar percebi que ela parecia merecer mais a vantagem nessa mentira.

Ela não precisou me convencer ou mostrar que estava largando mão de uma semana inteira para passar com sua família a troco de me ajudar com uma confusão que eu mesmo criei, a visita bem inesperada de minha mãe e tudo o que conversamos fez-me ver bem mais o seu lado nessa história toda.

Diogo? — Ela me chama, tirando-me de meus pensamentos, sua voz do outro lado da linha soa mais baixa que antes. — Agora é a sua vez de responder.

Me cobra. Depois de arrumarmos nosso estanho acordo passamos a conversar amigavelmente, como se fôssemos amigos de longa data. Em meio a tantas palavras ditas acabei soltando algo mais pessoal sobre mim e isso pareceu motiva-la a fazer o mesmo.

Como se estivéssemos jogando algum tipo de jogo de conte-me sobre você e eu conto sobre mim seguimos o longo diálogo por telefone. Jéssica também revelou algo sobre si que eu desconhecia como seu nome do meio, Frederico. Eu evitei rir disso, mentalmente juntava seus dois nomes tentando fazê-lo parecer como o de qualquer pessoa, contudo não consegui tal façanha e acabei rindo.

Felizmente ela não pareceu se importar muito com isso, mas agora seria a minha vez de soltar mais alguma coisa sobre mim.

Ainda está aí? — Ela pergunta de repente, trazendo-me de volta mais uma vez para a conversa.

— Estou eu... Me distrai um pouco. — Falei, ajeitando-me em minha cama. Aproveitei para olhar o horário e já estava próximo da meia noite; Jéssica e eu conversávamos por quase duas horas! — Está ficando tarde...

Sem que eu perceba solto o comentário em voz alta.

É, acho que é melhor irmos. — Ela diz após alguns segundos em silêncio. — Então, tudo ficou mesmo resolvido?

Ela faz outra pergunta, sua voz do outro lado da linha parecia bem mais calma e gentil do que costumava ser pessoalmente. Era como se eu estivesse falando com outra pessoa completamente diferente.

Até porque você parece ter ficado com um acordo bem furado. — Estanho sua fala; ela parecia preocupada?

Dou com os ombros.

— Está tudo certo, será melhor assim. — Respondo. Acho que havíamos avançado alguns passos para algo mais civilizado. Franzi minha testa com a leve preocupação de Jéssica sobre a minha parte do acordo, momentos antes de sua saída de minha casa estava certo de fazê-lo mais vantajoso para mim. Algo do qual realmente fosse me ajudar, porém tudo mudou.

E honestamente, acho que foi melhor assim.

E teremos outra sessão de conhecendo a sua família nessa semana? — Questiona fazendo graça, contudo nenhum de nós realmente ri. — Vou ter mais tempo livre agora, se quiser.

Penso por um tempo, lembrava-me com perfeição de seu surto de horas mais cedo, admitia que seria algo dificultoso e também importante. Queria deixá-la a par de tudo e todos, mas acho que estaríamos perdendo um tempo do qual não era realmente necessário.

— Não, acho que estava certa sobre isso. — Minha resposta a faz ficar em completo silêncio, consigo apenas ouvir sua respiração do outro lado. — Temos um pouco mais de duas semanas antes do natal para melhorarmos nossa história e deixá-la mais real.

Pude visualizar o rosto de Jéssica na minha frente após dizer tais palavras, desde o levantar de uma sobrancelha apenas até a expressão de dúvida.

Okay isso foi estranho, mas finalmente caiu em si. — Disse. Era óbvio que ela não deixaria de soltar algo que parecesse uma crítica ou reclamação. — Por mim tudo bem, mas só peço de me deixe livre na próxima semana, já que vou ficar o final do mês todo com você acho justo que eu tenha um tempinho com a minha família. Pode ser?

— Claro. Sem problema. — Digo. Coço meus olhos, sentindo que o sono e o cansaço já estavam vindo sobre mim, estava deitado em minha cama olhando para o teto de meu quarto enquanto tinha aquela estranha conversa com Jéssica.

Quem olhasse para aquela cena poderia dizer que éramos um casal comum como qualquer outro.

Ótimo! Vou avisar que passarei uma semana inteira com eles. — Havia animação em sua voz. Apesar do horário mostrar-nos que já deveríamos encerrar o falatório. — Uma pergunta, vocês fazem a clássica cena da troca de presentes?

Deitado, levo meu braço livre para abaixo de minha cabeça, apoiando-a nele.

— Fazem sim. — Respondi, recordando-me das cenas em que tal momento acontecia, de toda a cerimônia ensaiada e ao mesmo tempo imprevisível que ocorria quando meus pais pediam para que nos ajuntássemos na sala.

Quer dizer então, que eu terei de comprar alguma coisa? Imagina o micão de chegar lá de mãos abanando — Troçou ela, pude ouvir um som baixíssimo de sua risada, até mesmo eu acabei soltando um muxoxo risonho com sua fala.

Penso por um instante, obviamente ela chegar de mãos vazias na festa seria compreensível por ser nova na família, mas se ela viesse com algum presente já seria bem querida por todos. Mas não faria isso com ela; pelo menos não quando não tínhamos nada um com o outro.

— Não é necessário, vou poupa-lá disso. — Enfim consigo uma resposta, nada que me deixasse muito satisfeito.

Okay. — Ela se interrompe e boceja do outro lado, claramente já cansada. — Melhor pararmos por aqui, está ficando tarde e eu preciso dormir.

Concordo, olho novamente para o horário marcado, meia noite e quarenta quase. Não reparei que nossa conversa se prolongou desde a última vez que verifiquei a hora.

— É, já passa de meia noite. — É tudo o que respondo, contudo nenhum de nós realmente o faz. Fico esperando por algo, não sei ao certo o que seria, logo percebo que ela também não desliga. O silêncio entre nós se estabelecendo aos poucos assim que nossa conversa deu-se por encerrada.

Sua respiração do outro lado é audível, calma e lenta demais. Condizendo com a pesssoa com quem falava ao celular. Podia dizer o mesmo sobre mim, apesar de estarmos correndo praticamente contra o tempo para deixar o mais real possível nossa falsa relação, a horas que ficamos ao telefone de maneira curiosa deixou-me mais tranquilo referente ao assunto.

Penso em dizer algo, a despedida para enfim desligarmos, entretanto não encontro a vontade de fazer isso. Mesmo que existisse uma pequena parte de mim que odiava a maneira como Jéssica agia e até um pouco sua personalidade sempre tão extrovertida, havia gostado da conversa mais leve que tivera com ela.

Então... Tchau. — Ela diz de supetão, a frase muito breve e curta. — Beijos.

— Tchau. Durma bem. — Respondo, me despedindo dela também, ainda que já estivéssemos mais de bem um com outro não há qualquer sinal de gentileza em nossa despedida. Provavelmente as coisas seguiriam assim até que tudo acabasse.

Pergunto-me o motivo e obtenho minha resposta segundos depois, deveríamos evitar criar um vínculo maior entre nós. Seria bem mais fácil de seguir com nossas vidas quando a semana de festas passasse. Contudo não deixo de perceber e estranhar no que acabara de acontecer.

Coloco meu celular no criado mudo ao lado, estava fazendo um calor de quase trinta e dois graus, o que não era tão incomum assim naquela época do ano. Por estarmos nos aproximando do verão era de se esperar que o clima aos poucos começasse a esquentar, mas a alta temperatura em questão de uma semana já estava mostrando-se incômoda para muitos.

A dificuldade para conseguir dormir tornava-se maior conforme demorava para pegar no sono. Fecho meus olhos tentando dormir, mesmo que o ambiente abafado de meu quarto simplesmente não permitia que isso fosse possível.

Relaxo o corpo quente, logo recebendo uma resposta positiva do mesmo, mentalmente conto que fiquei longos minutos daquela maneira até que sou desperto pelo som de meu celular; alertando-me de que uma nova notificação chegou.

Abro meus olhos de repente, encaro o teto por pelo menos dez segundos. Olho para o celular ao meu lado, o ergo acendendo sua tela, ansioso. O alerta de que levantaria cedo pela manhã ocupada uma parte da tela onde o papel de parede escuro estava, destacando o lembrete.

Ignoro a notificação por completo, virando-me para o outro lado, internamente parecia torcer para que recebesse algo realmente interessante. Minha atitude me causa grande estranheza, eu vivia na era tecnológica onde celulares, tablets e smartphones fossem quem dominava o século isso não fazia de mim um grande apegado a celulares ou novas mensagens. Não ao ponto de fazer-me um apressado para ler a notificação, geralmente deixava para o dia seguinte ou simplesmente esquecia-me disso.

E não foi o que aconteceu segundos atrás.

Percebo-me decepcionado não é pela falta de alguma notificação realmente importante, mas sim por não receber nada que tivesse relação a ela?

Não entendo a expectativa criada de que o toque tenha sido algo dela, já era tarde da noite. Por qual razão Jéssica mandaria algo? Por qual motivo eu estava decepcionado com isso?

— O quê?... — Me coloco sentado em minha cama num movimento muito rápido, sinto meu coração acelerado e torço para que seja por causa do levantar tão de repente.

Meus pensamentos, sem permissão alguma levam-me de volta para quando aconteceu nossa estranha despedida, quando ela mandou-me beijos e eu lhe pedi para que dormisse bem. Nosso tom não foi como o de dois amigos ou de alguém que tinha algum tipo de relação com o outro, tanto dela quanto de mim fora algo seco; impedindo que criássemos qualquer tipo de vínculo mais íntimo entre nós.

Algo que deixava claro que nossa relação se estabelecia entre nós dois era apenas em algo muito profissional e nada mais.

Talvez ainda estivesse balançado com o que minha mãe dissera a mim mais cedo e com a cena dela conhecendo Camila. Fingir algo desse tipo claramente era uma grande novidade para mim, o garoto sempre tão certinho e nerd jamais faria algo parecido; especialmente mentir sobre um namoro. Ter conversado sobre Camila e como era tal relacionamento provavelmente mexera comigo, até porque jamais tive este tipo de diálogo com minha mãe.

Deito-me novamente, ainda pensativo sobre tudo e o que viria depois. Ainda me restava duas semanas até o dia 24 daquele mês e a sensação que tinha era de que eu não estava cem por cento preparado para isso. Não fazia a mínima ideia de como seria a noite do jantar fingindo estar me relacionando com Jéssica e muito menos o que seria uma semana inteira seguindo com essa farsa.

Perguntei-me se Jéssica também pensava nisso, de certa forma muito iria mudar. Ela passaria sete dias inteiros com minha família, comigo. Conheceria-me melhor do que as páginas das redes sociais diziam sobre mim e mais do que tinha escrito no verso de meus livros.

Jéssica Frederico veria o verdadeiro Diogo Barbosa que os leitores e fãs de meus livros jamais veriam.

Notas finais
Sintomas da paixão chegando...