Namorada de Natal
4 Capítulo 4: Recusas e surpresas.
Era dia 10 de dezembro, uma semana se passou desde que Jéssica milagrosamente cruzou meu caminho, concordou em me ajudar com minha mentira e tornou-se minha falsa namorada. Uns dias a mais em que sentia-me ser consumido pelas futuras consequências que uma atitude como aquela poderia me trazer já me sufocava de todas as maneiras possíveis.
Os dias que se seguiram após nosso encontro incomum foram exaustivos e corridos para mim como nunca visto antes, passava a maior parte do meu tempo escrevendo, buscando ideias novas para melhor desenvolver o último livro que escrevia e tinha de finalizar antes que o mês se encerrasse. O que antes era uma tarefa incrivelmente fácil para mim, após a mentira, tornou-se um grande desafio do qual cada palavra que digitava para formar uma única frase, vinha com uma grande luta para tirar de mim o bloqueio criativo. Um mal que todo escritor passava quando se menos esperava.
Estava na metade do livro, já tinha todo o enredo pronto e seus principais pontos para contar a história narrada, porém escrevê-la e transformar em apenas trinta capítulos era dificultoso. O quarto da bagunça, ou como apelidei: Canto para escrever, estava tomado por folhas de papéis amassadas jogadas ao chão. Rascunhava em um caderno velho algumas ideias e vez e outra escrevia um pouco do capítulo a mão mesmo; como nos tempos de escola.
Contudo a história não saia do que eu já tinha pronto, conseguia escrever algumas frases avulsas e sem sentido que não formavam o que de fato queria e tão pouco deixava-me cem por cento satisfeito com o resultado obtido. Eu tinha vinte capítulos prontos, porém para um escritor, não passada de nada além de uma história inconclusiva e com muitas pontas soltas que precisavam ser amarradas o quanto antes.
Meu único momento para distrair-me do livro era o dia marcado para ensinar Camila sobre minha família, quem era quem e como lidar com a variação tão incomum de personalidades. Se continuar um livro já estava mostrando-se uma batalha árdua, apresentar cada membro da minha família que estaria naquele jantar para ela seria com toda certeza uma luta entre gigantes do qual eu não possuía ideia alguma do vitorioso.
— Eu acho que me perdi, você poderia falar um pouco mais devagar? — Ela me interrompe, ainda que houvesse certa gentileza em sua voz, a maneira como ela fez o pedido soou impaciente e levemente irritado. Perceptível para qualquer um que estivesse em alerta. — De novo?
Suspirei, já havia pedido a conta das vezes que Jéssica fizera o mesmo pedido. Logo, seria eu a estar impaciente.
Voltei com as apresentações, mostrando um por um e suas fotos e sentando-me na beirada do segundos sofá. Se ela quisesse que fizéssemos tudo certinho e bem feito, então teria de conhecê-los um a um.
Minha família era composta por um total de cinquenta e sete pessoas se ajuntasse ambos os lados, isso levando em conta filhos e maridos. Exclui meus irmãos com filhos e companheiros, pois sabia que o número se multiplicaria.
— Espera um segundo — Jéssica novamente me interrompe, seus olhos arregalados de forma quase preocupante. — Você quer que eu saiba os nomes e outros detalhes de todos da sua família, isso incluindo você?
Aceno positivamente com minha cabeça.
— Sim. Qual o problema? — Após respondê-la com outra pergunta, dou-me conta de como minha fala soou, contudo sequer tenho tempo de me corrigir. Jéssica arqueia uma sobrancelha e sua face se transforma. Eu estava aos poucos percebendo uma das principais razões para ter continuado sozinho até o momento, Jéssica, mesmo que fosse apenas uma... Conhecida ao acaso, revelou-me algo que eu mesmo não sabia sobre mim e pude entender a escolha de esperar pela pessoa ideal para mim.
— Perdeu a merda do teu cérebro?! — Gritou, assustando-me com sua atitude inesperada, não estava preparado para uma reação como aquela. Histérica, era assim que eu a definia naquele exato momento. — Tem noção de que são cinquenta e sete pessoas!? Puta merda!
Dessa vez sou eu quem arregala os olhos, surpreso pelo palavrão que fora solto por ela. Podia-me considerar um tipo de pessoa que não apreciava tal força de expressão; mesmo que alguns dos personagens que criava para minhas histórias geralmente fossem grandes bocas sujas.
— Espera, não é para tanto né, não diga palavrões em minha casa. — A repreendo, como um pai faz e calo-me de imediato quando dou-me conta de que minha atitude somente faz com que tal situação saia ainda mais do controle; se é que existisse algum naquele momento.
— Eu estou nervosa e por isso solto palavrão sim! E se não gostou reclama com o juiz! — Ela se levanta do sofá de uma só vez e da as costas para mim ainda gritando, as mãos estavam em sua cabeça; como uma pessoa que está prestes a surtar por alguma coisa. — Meu Deus, você é maluco!
Finjo ignorar a ofensa. Tinha sorte de estarmos no meio da tarde, os síndico estabeleceu uma ordem de silêncio após nove e meia da noite e eram quase cinco e quarenta, Jéssica podia gritar mais que não teria muito problema; teria apenas de explicar para alguns curiosos o motivo de alguns gritos em minha residência.
Cruzo meus braços esperando que ela voltasse a se acalmar e parasse com sua atitude exagerada. Entendia parte de seu momento de surto, quer dizer, às vezes eu mesmo não acreditava que minha família era de fato pudesse ser tão numerosa, porém não esperava que ela desse aquele show todo por causa de algo simples.
— Já acabou Jéssica? — Pergunto já impaciente e cansado de ouvir suas reclamações sobre a quantidade de parentes que eu tinha. — Precisamos continuar, sabia disso?
Como o esperado ela se calou muito brevemente, virou-se para mim e piscou algumas vezes seguidas muito rápido. A morena respirou fundo, uma, duas, três vezes e então se aproximou do sofá novamente, parando antes mesmo de completar seu último passo.
— Eu não vou fazer isso. — Anunciou, a voz firme em sua decisão já tomada.
— O que? — Questiono espantado, sem que eu perceba acabo me levantando do sofá também ficando de frente a ela, deixando que uma distância pequena nos separasse. — Disse que participaria disso!
— Exatamente, eu disse. Só que ter de saber sobre cada um da família antes de conhecê-lo não só é bizarro, como não faz sentido algum! — Exclamou, já me preparava mentalmente para um novo surto que pudesse vir a acontecer, porém ela apenas mudou por completo seu tom de voz; não vou mentir em dizer que não estranhei. — Esse tempo que temos antes do dia vinte e quatro deveria ser para melhorarmos essa história toda de namorada e namorado. Tipo, nos conhecermos melhor.
Passo minha mão por meus cabelos que eu sabia que estavam desgrenhados, sinto uma ansiedade incomum fazer-se presente em meu interior. Dando-me uma sensação de frio na barriga, o motivo para isso era desconhecido por mim.
— E você novamente encontra uma oportunidade para tirar proveito dessa situação — A acuso já irritado, perdendo o pouco de paciência que ainda me restava. Já estava arrependido por ter enfiado Jéssica nessa história maluca. — Isso é uma habilidade e tanto.
A ideia de voltar a trás, cancelar tudo e procurar por outra pessoa passa por minha mente provavelmente seria o melhor a ser feito. Poderia assim escolher alguém que realmente colaborasse comigo.
— Okay, eu vou ignorar o que você acabou de dizer, mesmo que minha vontade maior seja enfiar minha mão na sua cara adorável e maligna — Falou. Mostrando um dom assustador de mesmo me ofendendo e ameaçando-me ainda fazer um elogio no meio de tanta brutalidade. — Na verdade você deveria estar aprendo sobre mim isso sim, porque se bem me lembro é você quem precisa de uma namorada falsa aqui.
Jéssica senta-se na beirada do sofá, os olhos negros fixos em meu rosto. A maneira como ela passa a me encarar parece pressionar-me a falar tudo o que tinha preso em minha garganta, cogitei o pensamento de que isso poderia ser uma de suas habilidades também.
— Só quero prepará-la para o que virá assim que pisar no mesmo ambiente que eles, acredite em mim quando digo que estou apenas te prevenindo — Respondo, o que não parece deixá-la muito satisfeita ou convencida.— Entenderá quando o dia chegar e ainda irá me agradecer por isso.
Estava pronto para voltar com a apresentação quando ela solta um muxoxo desdenhoso, os braços cruzados na altura do peito e a postura ereta faziam-a ficar como uma daquelas estátuas que foram esculpidas erradas, poderia rir da cena se o seu olhar estivesse assustando-me.
— Eu acho que você consegue ser mais convincente do que isso— Seu tom saiu pareceu semelhante ao de minha irmã Roberta quando conversou comigo um dia antes de esbarrar com Jéssica. — E se tudo isso for uma desculpa terrível só para fazer com que eu desista dessa loucura é melhor falar logo, assim não perco mais meu tempo e volto para minha rotina comum que tinha antes que você me abordasse.
— Isso não é... — Tento começar a me explicar, porém sou interrompido. Outra vez.
— Quer saber? Tudo bem. Eu já estou ficando cansada dessa palhaçada então pode continuar com sua apresentação educativa — Ela cedeu assim que me interrompeu, suspirou como alguém que está controlando a si mesma para não fazer algo do qual possa se arrepender depois e então senta em meu sofá. Totalmente calada, esperando que eu continuasse com o que fazia antes de vê-la surtar.
Por um momento eu realmente penso em retomar de onde parei, continuar com as apresentações. Chego até mesmo a dar as costas para Jéssica, algo que dura poucos segundos antes de encarar todo o esquema que fiz no computador para melhor situá-la, encaro o sistema que fiz durante um dia e meio mais pensativo, sentindo o peso do olhar da morena que estavam bem atrás de mim esperando que eu voltasse a falar. Como se eu tivesse recebido um tique em meu eu interior, volto a conversa de momentos atrás, revendo tudo o que fora dito por mim e por ela.
Fecho meus olhos brevemente, respirando profundamente antes de voltar a encarar a tela acesa de meu computador, ao fundo pude ouvir meu celular tocando algumas vezes com as notificações de mensagens recebidas e ignoro o som, centrando-me no que iria fazer. Após quase dois minutos pensando, minha mente continuava ainda mais bagunçada que antes e vejo que Jéssica ainda esperava que eu continuasse, mesmo que sua face estivesse mostrando uma expressão emburrada e quase infantil.
Preparo-me para voltar a falar quando ouço baterem, as duas batidas feitas fazem com que eu e ela olhemos ao mesmo tempo para a porta fechada. Ficamos daquele jeito por rápidos segundos antes que ela voltasse o rosto para mim e me encarasse sem entender, eu mesmo não entendia, pois não esperava por nenhuma visita naquele dia.
— Filho?— A voz da minha mão me pega desprevenido, arregalo meus olhos quando vejo que Jéssica está sentada no meu sofá, meu notebook está aberto com um esquema completo da minha família e os principais detalhes e quando a ouço bater novamente.— Diogo eu sei que está em casa, seu José me falou que está.
Vejo-me travado sem condições alguma de conseguir mover-me, não entendo o motivo para aquele tipo de reação e sou tirado de meu transe quando Jéssica estala os dedos no meu rosto como se me despertasse. Os olhos mais arregalados do que nunca, também mostrando-se ansiosa pela situação inesperada, porém não tanto quanto eu estava.
— Atende a sua mãe!— Ela grita sussurrando, gesticulando com força em direção a entrada dando-me a ordem. Consigo apenas assentir com a cabeça, avançando alguns passos e logo recuando quando recordo-me do conteúdo exibido na tela de meu computador e corro para fechá-lo e desliga-lo; não saberia que minha mãe entenderia o que eu estava fazendo com tudo aquilo.— Vai logo!
Jéssica praticamente me bate para que eu me apresse, para muitos que pudessem ver tal cena seria algo cômico, um rapaz andando perdido em seu próprio apartamento e confuso por causa da mãe que esperava por ele na porta de seu apartamento. Algo estava acontecendo comigo, não sabia exatamente o que seria, mas percebia que isso vinha piorando aos poucos; conforme a mentira se prolongava cada vez mais.
Contei mais três batidas na porta antes que eu enfim chegasse, firmei minha mão na maçaneta fria, tentando achar em mim o controle que em algum momento acabei perdendo. Fecho meus olhos contando mentalmente até cinco antes de tomar qualquer atitude ou fazer qualquer movimento, consigo ouvir a respiração apressada e já impaciente de minha mãe do outro lado, esperando que eu a recebesse logo e finalmente a abro a figura feminina mais velha diante de mim. Dando-me um susto ao vê-la tão próxima a entrada de meu apartamento.
— Deus!— Exclamo parando bruscamente antes que eu a atropelasse. Marli, minha mãe praticamente saltou para trás ao ver-me apressado, levou uma mão para o coração enrugando o rosto prestes a reclamar do susto que ela também levou.
— Não me mate assim do coração, Di!— Reclamou. — Sabe que não tenho mais a sua idade para brincadeiras imbecis como essa.
— É... Desculpe.— Falei quase num sussurro, tomado por uma ansiedade que não me era comum. Bloqueio toda a porta, evitando assim qualquer e toda intenção que pudesse existir na mulher na minha frente de querer entrar. Não sentia-me totalmente preparado para apresentá-la a Camila... Jéssica. — Então, o que faz aqui? Por que veio?
— Não se faça de bobo, eu disse que viria para passar algumas horinhas com você. Saberia se lesse suas mensagens.— Ao meu cobrar ela tenta passagem para entrar e consegue, não sei em qual momento que ela conseguiu passar por mim, fora algo tão rápido que minha única reação foi fechar a porta. Torcendo para que Jéssica ou estivesse escondida ou simplesmente tivesse desaparecido por completo da minha sala.— Di, quem é ela?
Ouvir minha mãe chamar-me faz com que eu volte para a sala, ela já estava próxima ao segundo sofá, porém parou assim que viu Jéssica sentada no outro. Ambas se olhavam, os olhos negros e pesados da morena encaravam Marli com um tipo de olhar que eu não pude descrever de primeiro momento, fui tomado pela mesma sensação que havia me travado antes ao me ver na situação da qual eu não havia me preparado. Isso não era comum para mim, sempre ouvi reclamações de meus irmãos e amigos por esse "defeito" que eu tinha de sempre planejar cada detalhe por mais insignificante que ele fosse, mas diante dos últimos acontecimentos, acho que a distração dominava-me e se sobressaia por todas minhas qualidades e defeitos.
— Essa?...— As palavras não se completam para que saiam de minha boca. A situação na qual me encontro me lembra daquelas crianças que aprontam algo do qual vai deixar seus pais furiosos e que o levará para um castigo ruim, no caso eu sou a criança que acabara de aprontar e precisa enfrentar a mãe furiosa e pronta para castigar-me, pois bem sei que jamais seria capaz de olhar nos olhos de minha mãe e mentir com a mesma facilidade que fiz com Roberta. Diferente da mais nova, havia o que ela sempre chamava de sexto sentido para mentiras de seus filhos e, desde que me entendo por gente, tal intuição nunca se mostrou errada. Por mais mirabolante que a história inventada poderia ter sido feita.
Não deixo de pensar em suas mensagens deixadas, talvez o texto estivesse dizendo que já sabia que era tudo mentira e por isso sua visita inesperada em plena segunda-feira; para que pudêssemos conversar e eu enfim me livrasse do peso de uma simples mentira tinha sobre mim.
— Eu sou Camila, a namorada do Diogo e é um prazer finalmente conhecê-la.
E assim Jéssica descaradamente se levanta, aproxima-se de minha mãe e estende a mão em sua direção para que pudessem se cumprimentar, sorrindo com os cantos dos lábios da forma mais forçada e gentil que conseguia. Mentindo em sua maior cara de pau. Algo que se dependesse de mim, não aconteceria.
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