Namorada de Natal
3 Capítulo 3: Pedido de namoro correto.
O pedido para ter um nome falso poderia parecer ainda mais estranho do que fingir ser minha namorada e por isso não importei-me muito quando voltei meus olhos para a antes desconhecida Jéssica e assisti sua reação acontecer após minhas palavras serem ditas. Como num filme em câmera lenta, pude ver com atenção seu rosto mudar em apenas um único segundo.
— O que?... — Jéssica pisca algumas vezes, as palavras se confundem ao saírem de seus lábios e logo ela ri. Dessa vez um pouco mais alto, atraindo a atenção de um casal na mesa próxima a nossa que olhou-nos com claro descaso e repreensão pelo ato chamativo. — Preciso fingir o nome também?!
Perguntou espantada, seus lábios tremelicaram levemente como se quisesse rir outra vez, porém ela manteve-se firme. Não me irritaria se ela começasse a rir quanto a isso, se fosse esperta bastaria ligar os pontos e entender o motivo do nome também ser falso.
— Deixa ver se eu entendi direito, você, um autor muito conhecido e olha só: famoso. Inventou uma namorada, contou para toda a sua família e agora ela... Camila e está querendo a minha ajuda nisso? — Ouvi-la dizer tudo em voz novamente veio como outra confirmação do quão ridícula e desesperada aquela atitude era. — Você é um doido mesmo.
Eu só pude concordar. Doido. Doido para livrar-me de constantes piadas sobre mim. O pensamento fez-me parecer como um adolescente e se eu fosse parar por um breve momento e repensar em tudo o que estava fazendo desde o dia anterior, de fato estava agindo como um. Impulsivo e sem controle de minhas ações.
— Um doido de pedra. — Riu brevemente, seguindo com a zombaria.
Era estranho perceber como Jéssica tratava-me como mais um, esquecendo-se de que quem estava bem diante dela, pedindo para fingir ser minha namorada era o autor do livro que tinha em mãos. Tal detalhe não parecia ser muito importante a ela e conforme conversávamos, a leve timidez sentida quando aproximei-me desapareceu por completo.
Se estivesse tendo a mesma conversa com outra pessoa, possivelmente seria da maneira maneira. Talvez viesse a ser bajulado é elogiado diversas vezes e sinceramente, eu não sabia se iria suportar tal coisa.
— Então beleza, eu serei Camila. — Ela enfim concorda, consigo perceber sua mente trabalhar em algo. Claramente pensativa enquanto me respondia e temi pelo que pudesse vir pela frente. — E como vai fazer pra que eles acreditem que estamos mesmo juntos?
A morena larga o livro outra vez, desistindo de novo de sua leitura. O estender daquela conversa logo passa a trazer-me uma grande insegurança, como se a cada passo dado mais adiante daquela mentira estivesse me levando a um caminho estranho e sem volta.
— Como assim? — Pergunto unindo minhas sobrancelhas.
Jéssica da com os ombros.
— Ué, não acha que vai convencer toda a sua família se só me levar para jantar com eles e beleza, eles farão perguntas... Muitas perguntas. Como toda família... — Respondeu. Fui burro em não pensar sobre essa questão antes. — Pensou nisso já, não é?
Fecho minha boca, soaria ridículo da minha parte se confessasse que isso sequer se passou por minha mente. Havia me ocupado demais na mentira e esqueci-me por completo do principal.
— Tudo bem já entendi — Ela suspira, endireitando o corpo sobre a cadeira, tomando uma postura mais ereta. — Eu posso pensar sobre esse detalhe e você se concentre em inventar o restante da nossa história, se quiser que eles acreditem nisso faça parecer o mais convincente possível.
Ela parecia saber muito sobre tal assunto.
— E você fará o quê? — Pergunto outra vez, coçando meu queixo sentindo que logo mais já teria de raspar os pelos de minha barba que continuavam na persistência em crescer por meu rosto.
— Vou inventar a história principal, de como nos conhecemos e nos apaixonamos um pelo outro. — Ela sorriu com o canto dos lábios e arqueou uma sobrancelha, um gesto que causou-me grande desconfiança e incerteza. Temendo em como essa história acabaria sendo criada.
— Já quer desistir? Porque a sua cara está mostrando isso com clareza. — Ela observa, seu comentário não me surpreende. Algo em mim gritava para que eu cancelasse tudo. — Se quiser por mim tudo bem, vou fingir que você nunca pediu para que eu fingisse ser sua namorada e que eu não cobrei por isso. Você só deixa uma dedicatória no meu livro e eu simplesmente sumo.
Ergo meu rosto encarando-a em silêncio por um longo tempo, seria fácil desistir. O caminho mais fácil e humilhante também. Não sentia-me preparado para enfrentar uma família toda troçando de mim após eu revelar que menti sobre Camila.
— Eu vou continuar com isso. — Falei convicto, levando em conta tudo o que poderia vir a acontecer depois. — Vou precisar do seu número.
— Pra que?
— Porque se é para fazermos isso direito vou precisar te deixar por dentro de quem é quem da minha família — Dizer isso a deixou confusa e seu rosto mostrou com clareza a dúvida, Jéssica nem mesmo precisou falar para que eu já soubesse disso. — Você precisa estar ciente de como todo mundo é, será melhor de passar uma noite com eles.
Ela riu suavemente.
— Você é um pouco sistemático não acha? — Pergunta esticando a mão em minha direção. Dessa vez eu quem não entendi seu gesto. — O seu celular. — Respondeu com um leve tom de deboche e riu.
Engole seco, pegando meu celular com lentidão. A tela se acendeu e o número de mensagens recebidas haviam se multiplicado de forma assustadora. Rapidamente tiro as inúmeras notificações e lhe entrego, ela faz o mesmo com o seu. Torcendo para que nenhuma mensagem nova fosse recebida.
— Só mais uma coisa: — Ela devolve meu celular e lhe entrego o seu. Volto meus olhos para ela outra vez, Jéssica não estava mais sorrindo e isso me preocupou. — Pode escrever uma dedicatória no meu livro?
Pisco rapidamente algumas vezes, meu corpo de forma imediata relaxa de uma só vez. Achando-me um grande bobo por ter me preocupado sem motivo. Tal situação fez com que eu me tornasse uma verdadeira confusão de sentimentos, não tinha noção de que uma mentira poderia possuir tal poder.
— É claro. — Estendo minha mão para pegar o livro, Jéssica logo entrega-me uma caneta. Sinto o peso de seu olhar sobre mim enquanto escrevo na contra capa de seu livro, algo breve, mas que para todo fã faria uma grande diferença. — Só isso?
— Na verdade não. — Ela diz, pegando seu celular outra vez. — Você precisa me pedir em namoro, para oficializar a nossa relação.
Arqueio uma sobrancelha, consigo reparar na forma pouco irônica com que ela diz relação e não ligo muito, contudo sua última fala me deixa um tanto confuso.
— Eu já pedi. — Falei, minha voz soando levemente alterada; mas mais pela supresa do pedido.
Jéssica ergue o indicador e o move de um lado para o outro fazendo um não silencioso para mim.
— Não. Você pediu para que eu fingisse ser sua namorada, é bem diferente. — Argumentou. O fato de que ela estava mesmo certa me irrita por dentro.
Ajeito-me na cadeira, olho ao redor pela primeira vez desde que entrei na cafeteria e me espanto quando vejo que o estabelecimento estava mais cheio que antes. Meu olhar se volta para a moça morena na minha frente, arrumo minha blusa de lã em meu corpo e limpo a garganta antes de dizer qualquer coisa.
— Jéssica, quer ser minha namorada? — Peço, buscando em mim toda a gentileza que poderia existir em alguém.
— Não. — Responde firme. Mexendo em seu celular e colocando-se de pé. — Se quiser que isso pareça real, faça com que seja real.
Ousada ela se dirige até o casal ao lado, o mesmo que a repreendeu com o olhar pela risada alta de antes. Não ouço o que ela estava dizendo a eles, mas assim que a vejo entregar o celular para os dois desconhecidos e agradecendo, percebo o que ela estava fazendo.
— Agora me peça em namoro direito, eu sei que existe um grande cavalheiro romântico aí dentro então solte ele — Pediu, picando-me para ficar de pé enquanto ela senta outra vez.
A câmera de seu celular está focada em nós, apenas esperando para o momento acontecer. Aos poucos algumas pessoas começaram a olhar para nós também e ao me reconhecerem, mais câmeras e celulares estavam focados em mim e em Jéssica.
Ah a exposição de ser uma pessoa pública e conhecida. Bufo, reunindo toda coragem que foi usada para abordar Jéssica sem ao menos conhecê-la e fazer-lhe um pedido absurdo. Respiro fundo e me aproximo, seguro suas mãos, porém não ajoelho, não chegaria a este ponto.
— Camila — Uso o nome falso para chamá-la, se eu precisava fazer parecer real, então teria de aderir ao nome falso também. — Você quer namorar comigo, oficialmente?
Ouço ao fundo uma junção de suspiros apaixonados, a antes desconhecida abre um sorriso enorme. Mostrando uma beleza que não reparei antes, entrando na onda com maestria.
— Mas é claro que sim! — Sua resposta gera alegria nas pessoas que nos assistia e assim que ela praticamente saltou em mim, agarrando-me com seus braços, ouvi palmas. Alguns assobiaram e gritaram um “uhu” com a cena. Um perfeito teatro.
Inesperadamente ela beijar-me na bochecha e me solta, pega seu celular do casal que nos filmou e retorna ao seu assento. Não demorou muito para que tudo a nossa volta logo voltasse ao mesmo de antes, o ambiente calmo onde conversas aleatórias aconteciam.
— O pulo foi um pouco exagerado não acha? — A repreendo num sussurro, para que apenas ela o escutasse. Ajeito pela segunda vez minha blusa e me sento diante dela.
Jéssica apenas da com os ombros.
— Como eu disse, tem que parecer o mais real possível, Diogo. — Aquela era a segunda vez que meu nome era dito por ela. — Também vamos precisar tirar fotos como um casal, imagina seus parentes vendo que não temos uma única foto juntos... — Ela fez um ts com os lábios enquanto acenava negativamente. — Fiasco...
Semicerro meus olhos quando enfim percebo o que ela está fazendo com a situação, tirando o maior proveito de tudo. Não poderia culpá-la, se estivesse em seu lugar estaria fazendo o mesmo; ainda mais se tratando de alguém cujo nome era conhecido. Mas sem abusar demais; diferente do que ela fazia.
— Okay eu já entendi — Meneio minha cabeça coçando meu queixo novamente. Penso em bebericar o café que pedi antes, porém ao tocar no copo o sinto frio sem ao menos tê-lo experimentado. Desistido da ideia no mesmo segundo.
— Tudo bem então, namorado. — Ela diz, arruma o livro para guarda-lo em sua bolsa e se levanta. Sigo cada ação que a morena fazia, esperando por algo que eu mesmo não sabia ao certo o que seria. — Eu vou precisar ir agora, então até mais.
— Eu vou ligar para marcamos um horário, para ensiná-la sobre minha família — Digo muito rápido, pude visualizar sua mente mostrando a palavra sistemático após minha fala.
Jéssica acena com a cabeça.
— Como quiser. — Responde, jogando a alça de sua bolsa por seu ombro. Estava pronta para partir. — Vou esperar pela ligação.
Ao dizer isso ela se despediu, fazendo um gesto curto com a mão e então deixou-me a sós. Quando enfim vi que ali estaria somente eu e meus tantos pensamentos, pude melhor organizá-los.
Desconfiado, percebo em como pareceu fácil convencer Jéssica a entrar nessa loucura, apesar de sua parte do acordo exigir que eu lhe desse quinhentos reais a cada dia que estivesse comigo, não pude deixar de lado que ela aceitou fazer parte de uma mentira muito facilmente. Seus motivos poderiam ser pelo fato de eu ser conhecido no mundo literário, contudo sua única ação que possuía algum tipo de relação com minha profissão fora para apenas pedir uma dedicatória em seu livro.
Poderia ter um interesse secreto, afinal, ela não só passaria uma noite inteira comigo como também conheceria toda a minha família. Se talvez fosse como aquelas fãs isso seria um prato cheio, além é claro de conseguir dinheiro de forma fácil e um tanto... Inusitada.
A mesma facilidade também poderia vir a ser relacionada a minha pessoa, como o simples ato de contar uma mentira poderia acarretar em alguém uma ousadia da qual não era possuidora. Se minha situação não fosse a atual, jamais abordaria uma completa desconhecida para algo tão incomum.
Apoio meu rosto em minha mão, meus olhos voltando-se rapidamente para meu celular na mesa quando mais algumas centenas de mensagens são recebidas. O grupo de minha família tornou-se estranhamente mais movimentado no quesito assunto ao tratar-se de apenas um.
Reparo que uma das tantas mensagens citava com clareza meu nome, cobrando-me por algum parecer visto que desde que a notícia de meu namoro fora solta eu não havia dado as caras.
A tela do meu aparelho telefônico acende de novo, dessa vez não se tratava do grupo de família ou de alguma mensagem particular que algum parente estivesse me enviando. Era Jéssica.
— Essa foi rápida — Comento, desbloqueando meu celular para visualizar a mensagem recebida. Era um vídeo de dois minutos, gravado momentos atrás quando me filmaram a pedindo em namoro; da maneira correta.
Use com sabedoria, mô.
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