Notas iniciais
Tô tão feliz de ter conseguido terminar ♥ Vou responder os comentários agora hahahaha Obrigada todo mundo que acompanhou! Vcs são demais!! Para quem gostar dessa história e quiser ler mais do que eu escrevo, me seguindo vcs recebem todas as notificações ♥ É isso, obrigada mesmo :D Boa Leitura!

Curiosidade 15 — Quando duas pessoas apaixonadas fixam seus olhares, as batidas do coração entram em sincronia, batendo ao mesmo tempo.

Sexta-feira chegou com lindos raios de sol que iluminavam a cidade toda, os prédios mais altos servindo como refletores para os menores. A felicidade pelo fim de semana era geral, pois estudar e trabalhar naquele calor era quase insuportável e muito desgastante. Para Hinata, cujas mangas da camiseta estavam enroladas, apesar de já serem curtas, o sol não a importava muito no momento.

Ela estava encostada à grade do terraço do colégio, olhando para Gaara, esse sentado e apoiado na parede do pequeno depósito.

— Você tem certeza que não quer suco…? – perguntou, batendo levemente os dedos na caixinha num claro sinal de nervosismo. Não ter gaguejando foi surpreendente. – É de laranja – continuou, desviando os olhos das pequenas gotas de suor que escorriam do maxilar dele, até o pescoço, e sumiam na gola da camiseta. Fez ela se sentir ainda mais calorenta.

— É a terceira vez que você me oferece. – E o ruivo revirou os olhos, puxando a camiseta que insistia em grudar em seu abdômen suado. Como o terraço era aberto, o sol ficava torrando o lugar como um grande forno; no caso, Hinata e ele eram os assados. – E eu já recusei – murmurou, fechando os olhos e desejando um ventilador gigante. Ou uma piscina cheia de cubos de gelo.

Depois disso, tudo o que eles podiam ouvir era o barulho que Hinata fazia ao sugar o líquido pelo canudinho – e, céus, como isso era irritante. Estar alí em cima não tinha sido, exatamente, uma decisão espontânea e divertida; era necessário, no entanto, pois precisavam disfarçar o namoro. Se estivessem no meio de todo mundo, teriam que agir como um casal apaixonado e grudento durante longos – e quentes, tão quentes! – 30 minutos. Isso incluía, é claro, mãos dadas e abraços constrangedores.

Embora Gaara preferisse isso à tostar no sol, como uma torrada, naquele dia Hinata estava muito mais do que a palavra "tímida" poderia expressar.

Olhando de baixo, ele conseguia ver o ponto exato onde as coxas dela se uniam e a saia terminava, o ponto mais vermelho de suas pernas brancas, pois era onde a pele se encontrava mais frequentemente. O Sabaku desviou os olhos rapidamente; se ele tivesse erguido só um pouco mais seu queixo, teria visto bem além da saia… Obviamente, ele retornou ao pensamento que estava tendo, sabia que a culpa de todo aquele acanhamento era dele próprio. Mas bem que Hinata poderia colaborar, né? Tudo aquilo por causa de um selinho? Um mísero selinho?!

Ele nem queria imaginar se de repente tivesse deslizado sua língu…

— Gaara – ela o interrompeu, chamando-o devagar. Gaara ergueu a cabeça para encará-la; o cabelo azulado, preso num rabo de cavalo, brilhava impressionantemente sob a luz do sol. – É amanhã que, hm, vamos encontrar sua família… – disse, mordendo o lábio inferior.

Gaara suspirou alto, tendo vontade de bater na própria testa. Tinha pensado muito sobre Hinata naqueles dias, mas tinha se esquecido de pensar na festa – mesmo esse sendo o motivo para tudo ter começado! Droga.

— Tem razão. Acho que preciso te dizer algumas coisas sobre eles – comentou, ficando de pé e mais perto dela. Hinata acenou com a cabeça, concordando.

— Sim, eu ia te pedir isso – murmurou, olhando para todos os cantos possíveis, menos para ele. Estava apertando a caixinha, agora vazia, com tanta força que seria capaz de rasgar o papelão. Gaara franziu os lábios.

— Hinata, sobre ontem...

— Gaara, sobre ontem...

Os dois ficaram quietos, se encarando. Ela respirou fundo, corada; para todos os efeitos, que Gaara pensasse que era só de calor. Enquanto isso, ele passava a mão pelos fios ruivos, se sentindo ansioso. Já estava arrependido pelo dia anterior. Bem, o que mais ele poderia ter feito? Se não tivesse a beijado, eles ficariam plantados na porta da casa dela por um tempão, só esperando que a Uzumaki resolvesse deixar de ser enxerida e fosse embora, o que aconteceria, sei lá, no dia de são nunca. Ou, pior ainda, Karin poderia espalhar por aí sobre a fria relação que eles mantinham, o que faria todos os amigos deles – tirando, talvez, Ino, cuja a inteligência não era uma das maiores qualidades – juntarem A+B e perceberem que, ei, eles estavam mentindo todo esse tempo.

Que ótimo final!

— Pode falar primeiro!

— Pode falar primeiro!

Outra vez, se encararam em silêncio e envergonhados. Só que, depois de alguns segundos, Hinata soltou um risinho anasalado, que combinava perfeitamente com suas bochechas infladas. Gaara, gostando do sorriso dela, sorriu involuntariamente em resposta.

— Estava pensando em dizer "peguei no verde", mas não achei nada verde – ela explicou, olhando tontamente para os lados, em busca de algo verde, mas realmente não havia nada. Gaara balançou a cabeça.

— Me desculpe.

— Hã? Por não pegar no verde? Não, não tem probl…

— Por te beijar – ele explicou, antes que ela começasse a falar demais, e Hinata se calou imediatamente, voltando a ficar vermelhinha. Gaara não tirou os olhos dela. – Eu não deveria ter feito isso tão… repentinamente.

Hinata acenou a cabeça de forma que seu rabo de cavalo mexeu de um ombro para o outro.

— "Repentinamente"? – murmurou, achando a palavra engraçada.

— De repente?

— De surpresa.

— Então se eu tivesse te avisado, estaria tudo bem?

— Eu estaria mais preparada…

— Isso faria com que você não estivesse tão tímida ao falar comigo?

A voz de Hinata travou, envergonhada outra vez. Bom, é claro que ele tinha notado como ela estava nervosa durante aquelas horas, desde que a buscou em casa, mais cedo. Mas o que ela podia fazer? Não é todo dia que perdemos um primeiro beijo; na realidade, é um dia só! Mexendo a ponta do nariz, ela decidiu que, definitivamente, Gaara não precisava daquela informação – que era seu primeiro beijo. Ok que ele sabia que ela não era nem um pouco experiente em assuntos românticos, mas talvez esperasse que pelo menos um toque de lábios ela já tivesse tido, certo?

— Sobre o b-beijo… – ela respirou fundo, incomodada. – Não foi nada. E-Eu entendo, de verdade, que foi necessário.

Colocando as duas mãos nos bolsos da calça, o Sabaku deu de ombros.

— Ah, não se preocupa. O máximo que pode acontecer agora é você odiar completamente a ideia de beijar alguém de novo e se recusar a ter contato humano por alguns anos… – Gaara dizia, com um pequeno sorriso de canto, mas ao ver o rosto dela, deixou de falar. – É uma brincadeira.

Hinata tinha ficado pálida por alguns segundos e a cor só voltou quando ela respirou fundo.

— Meu Deus! Por que alguém teria essa reação depois de um beijo?

— Era só uma piada, sobre ter sido ruim…

— Não foi ruim! – Ela se viu dizendo, quase que imediatamente depois. Ao perceber, arregalou os olhos, mas tinha sido tarde demais, pois Gaara tinha uma expressão risonha e uma sobrancelha levantada.

— Uau, obrigado. Não foi ruim te beijar, também, mas você poderia ter inclinado um pouco mais a cabeça para a direita… – E Hinata fez uma expressão ofendida que fez com que Gaara sorrisse. – Outra vez, estou brincando.

Ali estava uma expressão divertida de ser vista, ele pensou. Hinata Hyuuga ofendida; era diferente, mas ficava bem nela. Considerando tudo o que tinha visto até agora, na verdade, era difícil achar algo que não ficasse bem nela.

— Não brinca assim… – sussurrou, emburrada, mas o Sabaku ainda sorria.

Ele então apontou para o chão e os dois se sentaram, agora encostados à grande e de lado um para o outro.

— Então, minha família. Eu vou tentar resumir, tudo bem? – Hinata balançou a cabeça, concordando. Estava curiosa. – Então, o churrasco vai ser na casa de um dos meus tios, não na minha, pois é pequena para isso. Moramos só eu e meus irmãos; meus pais faleceram, então somos só nós três.

— Sinto muito.

Gaara deu de ombros, como se dissesse que não importava.

— Meus parentes gostam de fazer esse tipo de reunião porque todo mundo mora longe e esse tipo de coisa. É isso o que você vai encontrar lá: comida demais, cerveja barata e música alta e ruim para incomodar os vizinhos.

Hinata riu, achando graça do jeito que ele falava.

— Eu gostaria de ter reuniões assim. As minhas únicas tias moram em outra cidade e agora minha irmã também está com elas… Meu pai trabalha demais e meu primo, que eu considero um irmão, se mudou para um apartamento – contou, num muxoxo desanimado. Gaara admirou a pele branca do pescoço dela se tornando, lentamente, avermelhada do sol.

— Eu acharia divertido ficar sozinho por bastante tempo – disse, pensando no velho ditado "a grama do vizinho é mais verde". Hinata queria ter a família barulhenta que ele tinha, enquanto ele daria tudo para ser só ele e os irmãos, pelo menos por alguns anos, quem sabe... – Não é que eu não goste deles, nem nada, mas depois da décima piada ruim do seu tio, é difícil querer vê-los de novo.

Hinata sorriu, tentando imaginar como deveria ser. Parecia divertido e terrível ao mesmo tempo, meio… agridoce?

— Hmm… Como a piada do caipira…?

Gaara arqueou a sobrancelha. Estava se perguntando se queria mesmo ouvir a tal piada do caipira.

— Qual?

Ela cora, percebendo que tinha dito em voz alta. Ah, que constrangedor!

— Hã… Um caipira chega à cada de um amigo que está vendo TV, aí ele pergunta: "É aí, firme?", e o outro responde: "não, futebor".

O Sabaku pisca, em silêncio, enquanto Hinata tenta se manter séria, mas na realidade os risinhos começam a escapar de suas bochechas.

— Olha, parabéns, se nada der certo na sua vida, você pode se tornar o tiozão das festas – diz, ainda de sobrancelha arqueada, e Hinata começa a rir de verdade ao ver que ele está sorrindo de canto.

— M-Me desculpe – murmura, entre uma risada e outro. – Por favor, volte a falar da sua família.

— Então, meus tios e tias provavelmente só vão fazer perguntas do tipo "como vocês se conheceram?" e talvez algo sobre sua vida. Hm… Pensando bem, acho que Temari que faria isso – Gaara fez uma cara de desagrado e Hinata franziu as sobrancelhas.

— Temari?

— Minha irmã do meio – explicou, num suspiro. – Ela tem 22 anos, estuda arquitetura e está noiva. Ela também é mega desconfiada, então vamos tentar nos manter bem longe dela, tudo bem? – Hinata acenou positivamente com muita intensa, imaginando uma moça ruiva, alta e com cara de poucos amigos. – Tudo o que ela falar, você deve responder com "uhum", "concordo" e "você está certa". – Ela riu outra vez, pensando se era algum tipo de tirana. – Você entendeu?

— Uhum – fez ela, só para imitá-lo, e Gaara sorriu de canto, a covinha aparecendo no rosto pálido. – Mas por que todo esse cuidado?

— Ela é uma ditadora perigosa! – O ruivo parecia falar de alguém muito, muito perigoso, então a sobrancelha de Hinata se curvou em dúvida. Ela não poderia ser tão ruim assim, certo…? Como se percebesse o que ela estava pensando, Gaara continuou: — Ela já raspou a sobrancelha do meu irmão, só porque ele acidentalmente misturou as roupas brancas com as coloridas.

— Ela já raspou a sua, também? – Hinata perguntou, tentando brincar um pouco e ser engraçada. Mas Gaara não riu; ele arregalou os olhos, como se tivesse se lembrado de algo muito, muito ruim. Hinata levou as mãos até a boca, chocada. – M-Me desculpe, eu n-não achei que…

E o silêncio reinou entre eles. Ele foi cortado, porém, por barulhinhos de ar que saiam, entre os dedos, da boca de Hinata, que tentava com muita vontade deixá-la fechada, mas realmente não estava dando certo. Gaara cruzou os braços, olhando bem para a cara dela. A garota estava ficando roxa de esforço. O ruivo revirou os olhos.

— Fique à vontade para dar risada.

E Hinata estourou numa gargalhada que não tinha há muito tempo e fez seus ombros tremerem. Gaara esperou pacientemente, ainda de ombros cruzados. Ainda bem que Hinata ficava bonita rindo. Enquanto isso, ela estava tentando imaginar o rosto dele sem as sobrancelhas e a imagem parecia cômicamente triste!

— V-Você tem fotos dis…?

Ele a interrompeu.

— Não.

— Nem uma s…?

Não.

Hinata se calou e parou de rir, embora alguns arzinhos continuassem a escapar de seus lábios bem selados.

— P-Perdão… – e ela respirou bem fundo. – Pode continuar.

Gaara ainda a olhou desconfiado, imaginando que a risadinha de sino recomeçaria a qualquer momento, mas Hinata conseguiu se manter séria.

— Meu irmão mais velho, Kankuro, não é preocupação. Ele provavelmente só vai comer e beber a festa toda; se perguntar o seu nome, já é algo surpreendente. – Hinata entendeu, balançando a cabeça para demonstrar isso e tentando decorar os nomes que recebia. – E aí tem meus primos pequenos, mas o maior risco que eles podem trazer é perguntar se você tem um canal no YouTube ou se já jogou Fortnite. Por favor, finja que nem conhece nenhum dos dois.

Ela o encarou em dúvida.

— O que é Fortnite?

— Ótimo trabalho – Gaara fez um joinha para ela e Hinata ficou sem saber, de verdade, o que raios era Fortnite. – Também tenho alguns primos mais velhos, um deles é o Sasori. Ele faz moda e adora conhecer alguém novo para bancar o manequim dele. Eu não acho que ele vai se aproximar de você, sabendo que é minha namorada, mas se acontecer e eu não estiver por perto, me chame – disse, muito sério, e Hinata resolveu não contestar. Gaara obviamente não lhe daria um aviso por mal. – Acredito que os outros não sejam tão importantes, tirando a… – E Gaara parou de falar, ficando sério de repente. Hinata se remexeu onde estava, ansiosa. Por um momento, como ele parecia ter feito, ela também tinha se esquecido dela, mas agora a curiosidade a atingia, outra vez, como um caminhão.

Era a ex namorada de Gaara, um dos motivos, o principal, para eles estarem ali juntos. Percebendo a hesitação dele, Hinata engoliu em seco.

— Você não precisa falar, se não quiser – murmurou, embora por dentro a sua curiosidade gritava para que ele contasse tudo, cada detalhezinho. Mesmo assim, ela respeitaria o silêncio, se fosse o que ele realmente queria.

A quietude dele acabou num suspiro e ele levou a mão até a nuca, coçando-a como se pensasse em algo complicado. Hinata esperou, tão silenciosa que talvez ela não estivesse ali de verdade.

— Hm… Ela se chama Matsuri. Nós somos primos de segundo grau; meu pai era primo da mãe dela. Nós crescemos juntos, então ela estava sempre por perto. – Outra vez, ele ficou silencioso. Hinata aguardou pacientemente, batendo os dedos nos joelhos, onde a saia não cobria, para se distrair. Pensava em algo interessante para falar, mas nada lhe veio. Então ela parou para pensar se as olheiras de Gaara eram naturais, como algumas pessoas tem, ou se eram frutos de noites mal dormidas. Qualquer que fosse a resposta, eram um charme. – Nós namoramos por 1 ano. Eu gostava dela, muito. Imaginei que ela gostava de mim, também. Acho que se isso fosse verdade, ela não teria me traído – e ele jogou a cabeça contra a grade, olhando para cima. Hinata segurou o ar, se sentindo triste por ele. Como alguém podia fazer isso com outra pessoa?

Ela imaginou que era aquele tipo de coisa que ele tinha contado só para seus amigos íntimos. Não havia, porém, ninguém mais ali, além dela. E ele tinha sido tão sincero, uma sincera explosiva, do tipo que ela só tinha sentido com Tenten e com Neji, seus amigos mais chegados. Mas Hinata, surpresa consigo mesma, tinha acabado de perceber o quão estranho seria tê-lo, Gaara, apenas como amigo. A sensação engasgou em sua garganta e ficou por lá.

— Ela foi… traiçoeira, Gaara! – Disse, um pouco confusa, pois nunca tinha dado conselhos amorosos para ninguém. Só tinha recebido e, para ser sincera, Ino não falava coisa com coisa, "é só você sorrir para eles, amiga, sempre dá certo comigo", Sakura perdia toda a coragem quando ficava cara a cara com o crush, "eu me chamo 16 e tenho Sakuras anos", e Tenten dependia de revistas adolescentes para movimentar a sua vida, "você viu o cantor que apareceu com um «cigarrinho suspeito»?".

Ao ouvir do que Hinata tinha chamado Matsuri, o ruivo arqueou a sobrancelha.

— Você saiu de uma novela mexicana ou o quê…?

A Hyuuga corou, olhando-o indignada. Ei, ela só queria ajudar!

— O-Olha, o importante é que, se depender de mim, vamos ser o casal mais feliz do mundo! Então a Matsuri vai ver só o quanto foi tonta! – E manteve sua mão erguida, um olhar determinado que prometia muitas derrotas para a prima boba dele.

Gaara encarou-a de forma engraçada; ninguém podia dizer que Hinata não era esforçada nas coisas que fazia. Ela parecia realmente séria nessa questão de acabar com Matsuri. Ele moveu o pescoço preguiçosamente, considerando que a Hyuuga não tinha, de fato, nada a ver com os seus problemas, ele estava contente que ela estivesse tão envolvida.

Precisava de mais formas de agradecê-la.

A garota olhou ao redor, admirando o jeito como os raios de sol refletiam tons alaranjados nas janelas das lojas, em suas vitrines poluídas de coisas. A coleção de primavera brilhava clichê: havia estampas floridas em saias, shorts, macaquinhos e vestidos. As manequins também usavam arranjos em seus cabelos, e mesmo borboletas de mentirinha e abelhinhas, maiores que as de verdade, faziam parte da decoração. Envergonhada, ela olhou para Gaara e depois para as mãos deles entrelaçadas.

Ser namorados na escola era uma coisa, mas, fora dela, Hinata sentia que explodiria em risinhos constrangedores à qualquer momento.

O Sabaku, apesar de todos os protestos que ela tinha feito, tinha insistido em levá-la para comprar algo – qualquer coisa, pelo amor de Deus! – e Hinata, que não era tão boba, percebeu que ele estava simplesmente se sentindo culpado por pedir algo tão grande e queria recompensá-la de alguma forma. Hinata disse, muitas vezes, que um bombom já era o suficiente se ele realmente fazia tanta questão assim. Gaara, no entanto, fez uma careta e agora eles estavam andando pelo centro da cidade procurando qualquer loja que ela achasse interessante.

Sem ele saber, Hinata procurava uma dessas lojinha de besteiras que sempre tem coisas inúteis, que por alguns minutos achamos úteis, e são baratinhas. Mas, para a sua total surpresa, ela não estava achando nenhuma!

Gaara parou de repente e, como eles estavam ligados, ela parou também.

— Hm… Você gosta de livros, não gosta? – perguntou o ruivo, lembrando sobre o dia anterior quando eles tinham ido até a biblioteca. Hinata olhou na direção que ele encarava com interesse, dando de cara com uma livraria e café. O cheiro de cacau moído fez com que ela suspirasse e fechasse os olhos; ah, isso era bom!

Gaara encarou a reação dela enrubescido. Ela tinha soltado um suspiro de pura satisfação e seus lábios se entreabriram como se a única coisa que ela precisasse no mundo, agora, fosse um copo quentinho de chocolate – felizmente para eles, o fim da tarde tinha dado uma trégua em relação ao clima fervente. Ele desviou os olhos, tossindo para disfarçar.

— Vem, vamos entrar – murmurou, puxando-a com delicadeza pela mão. Dessa vez, Hinata nem protestou. Ela tinha uma queda por livros e outra por bebidas quentes… O que podia fazer?

Gaara que, para ser honesto, não lia muito, se viu rodeado de prateleiras cheias de livros, balcões temáticos e grandes placas que indicavam sessões. Hinata sorriu, animada, e começou a arrastá-lo para lá e para cá. Um pouco perdido, ele tentava absorver a maior quantidade de informações possíveis, tendo estado pouquíssimas vezes em uma livraria tão grande. Havia todo tipo de livro possível: na sessão de culinária tinha livros com capas que lembravam bolos e pães de verdade! Na sessão de fantasia, as luzes refletiam as caldas holográficas das sereias desenhadas nas capas, dos feiticeiros e das letras em fontes cheias de glitter. Na de terror e horror, que lhe interessou mais, os títulos imitavam sangue escorrendo, as capas escuras revelavam olhos monstruosos e instrumentos de tortura.

Hinata não parava de falar "esse eu já li!", "essa autora é ótima", "as descrições dele são pavorosas" e "eu tive um treco lendo!". Gaara, que olhava curioso algumas capas e parava, poucos segundos, para ler as sinopses só "por cima", desviou a atenção para ela, outra vez. Hinata tinha parado de andar na sessão de suspense, logo ao lado da de terror.

Gaara arqueou a sobrancelha. Tinha achado que eles parariam no balcão cheio de livros com capas onde homens musculosos, sem camisa, usando roupas de motoqueiros, guerreiros ou lordes, estavam empilhados – os títulos tinham essa fonte meio brega, cursiva, e frases de efeito estranhas. Obviamente, a sessão de romances.

Hinata, no entanto, tinha jogado o peso do corpo para o lado esquerdo e se concentrava em ler a orelha de um livro que, claramente, continha muitos mistérios e subtramas. Gaara tirou os olhos, debilmente, do fim da saia colegial, agora mais curta já que ela estava inclinada. Argh, por que ela tinha que ter pernas tão bonitas…?

— Não imaginei que você gostava desse tipo de livro…

Hinata, que pareceu se lembrar que ele também estava ali só agora, pisca algumas vezes e sorri, rubor se espalhando em suas bochechas fofas.

— Eu não gostava! Mas eles são muito envolventes, é difícil parar de ler. – Ela vira a capa para que ele veja. – Esse é sobre um caso de assassinato em série. É um suspense investigativo.

Gaara arqueou a sobrancelha para ela.

— Então, basicamente, você brinca de detetive?

Hinata riu, corada. Bom, aquilo certamente tinha soado bem simplista, mas não mentira.

— É mais interessante do que você faz parecer!

O Sabaku deu uma olhada na pilha e, empurrando os de cima, pegou dois debaixo, que estavam envolvidos em plástico. Ele os colocou debaixo do braço e apontou o caixa com o queixo.

— Vamos, aí eu pago um café.

Hinata abriu a boca para protestar, mas ele lhe deu um olhar do tipo "eu insisto" e ela, vermelha, mas muito agradecida, ficou em silêncio. Seguindo-o através das prateleiras e pessoas que, paradas, liam sinopses e conversavam, ela franziu o cenho.

— G-Gaara, você pegou dois… – comentou, imaginando que ele nem tinha percebido. O livro não era muito grosso, então ele provavelmente tinha se confundido.

Ele olhou-a através do ombro.

— Um é para mim, quero ver se é tão bom quanto você disse.

A Hyuuga corou outra vez, sentindo o peito quentinho. Ah! Eles iriam ler um livro juntos. E a realização disso era muito mais romântico e constrangedor do que ela poderia ter imaginado.

Gaara se curvou um pouco, sentindo o chantilly de sua bebida derretendo na ponta da língua. Hinata, que tinha escolhido algo quente, soprava o líquido da própria caneca, o vapor brincando em seu nariz avermelhado.

— Você acha melhor repassamos todos os detalhes do nosso namoro? – ele perguntou, depois que ela bebeu dois goles ou três. Hinata acenou positivamente com a cabeça, concordando com muita vontade.

Eles haviam conversado sobre isso mais cedo; não fora um processo fácil, pois Hinata ficava vermelha à todo momento, imaginando as cenas, e se perdia entre as palavras. Gaara teve que ser muito paciente, mas, no final, tinha dado tudo certo.

— Por favor! Eu ainda estou receosa com as datas… – Ela apertou uma mão na outra, um sinal claro de sua ansiedade, e franziu os lábios. Seria desastroso se perguntassem e ela é Gaara dissessem dias diferentes, por isso estava se esforçando ao máximo.

— Bom… Hm… Quando nos conhecemos?

— Três anos atrás. Você era aluno novo. Isso é verdade, então é fácil de lembrar.

— Quando e como começamos a nos falar?

— Hã… Fim de abril. Tivemos que fazer um trabalho juntos, apesar de eu ainda achar melhor dizer que trombamos no corredor…

— Ninguém começa a se falar porque trombou no corredor.

— Ah, Sakura e eu começamos a nos falar assi…

— Hinata.

—Oi? A-Ah, desculpa. Então. Fizemos um trabalho juntos e nos a-apaixonamos – ela murmurou essa última parte, nervosa, e tomou um grande gole de seu chocolate quente, para se acalmar. Parecia alguém que contava uma história que tinha lido ou assistido, Gaara esperava que ela parecesse um pouco mais honesta na frente dos seus parentes.

— O dia em que te pedi em namoro?

— 7 de maio! Era um sábado chuvoso…

— Ensolarado.

— Chuvoso é muito mais romântico.

Gaara revirou os olhos, provando mais um pouco do seu frappucino.

— Chuvoso, tudo bem. Nosso primeiro beijo?

— Ontem!

— Hinata…

Ela corou, voltando a beber com muita vontade. Gaara ficou imaginando se tivesse um pouquinho só de vodca naquele hot cocoa.

— D-Desculpe… Uma semana depois de começarmos a namorar, no parque aqui perto.

— Hm… E você estava vestindo um vestido verde, de babados, era isso…?

— O quê? Não! Nós combinamos amarelo e de rendas.

— Olha, eu não sairia com alguém vestindo amarelo.

— Não consigo entender como sairia com alguém vestido de verde, então. E com babados!

— Ok, isso não importa, não é relevant…

— Até mesmo porque você estava usando uma camiseta roxa. Quem mistura verde e roxo? Não somos uma caixa de Finis!

— Hinata, foco.

— Ah! Perdão.

— Por que mesmo temos tantos detalhes…? Isso nem aconteceu de verdade.

— Seus tios podem ter curiosidade.

— Hm… Voltando, por que não assumimos nosso namoro para os meus irmãos?

— Parecia cedo para isso…?

— Você tem que soar mais certa.

— Parecia cedo para isso!

— Mas não precisa gritar com eles…

— Ai, desculpe.

Gaara franziu o cenho.

— Acho que esse é o máximo que eles vão querer saber, não é?

— Eu espero que sim, estou com medo de me enrolar nas respostas.

Ele balançou a cabeça, seu frappucino tinha, enfim, acabado.

— Eu sei que você não vai.

A Hyuuga quis, mas não conseguiu desviar a atenção dos estreitos olhos esverdeados, como um laguinho tranquilo e transparente. Ele parecia tão confiante nela que, não estando acostumado com isso, Hinata mal sabia como reagir. Esperava que ele soubesse, de verdade, que todos os seus sorriso eram muito, muito verdadeiros – assim como o calor se espalhando por seu peito e acelerando seu coração.

Quando o relógio bateu 11hrs, o coração dela deu um salto acrobático. Fazia meia hora que Tenten e Ino tinham saído de sua casa, para que a Yamanaka não desse de cara com "a criatura vermelha e furiosa dos confins do inferno", como ela apelidara, amavelmente, o Sabaku. Hinata ficou imaginando, por certo tempo, de onde a amiga tinha tirado aquilo, mas achou melhor não questionar. Desde então, conforme os segundos iam se passando, o nervosismo ia tomando conta de seu corpo como se ela fosse conhecer a família do namorado de verdade.

"É só fingimento!", ela repetia para si mesma, tentando controlar os próprios nervos. Depois de tanto repetir a frase, porém, estava se achando uma idiota por ter arrancado Ino e Tenten de suas casas para a ajudarem. A loira tinha sido o apoio físico, trazendo todas as suas maquiagens numa mala de rodinhas muito profissional – o pai dela não tinha mesmo com o que mais gastar dinheiro…? –, e looks completos numa mala de ombro. A morena tinha sido o apoio moral, para não deixar que as loucuras da Yamanaka entrassem na cabeça inocente da melhor amiga. Tudo isso para que Hinata se sentisse segura de causar uma boa impressão.

A Mitsashi ainda parecia magoada, ou desconfiada, por Hinata não ter contado do relacionamento antes, mas aceitou a resposta da Hyuuga de que "logo ela entenderia tudo", pois Hinata planejava contar a verdade, pelo menos para as amigas, no dia seguinte. Ino, por outro lado, estava brava, mas não conseguia perder a oportunidade de fazer uma transformação em alguém – e fora exatamente isso que fizera em Hinata.

Mas, se era só fingimento, por que ela teve todo aquele trabalho? Sozinha, Hinata tinha deduzido que só queria parecer tão bonita quando Matsuri, a ex, devia ser. Por dentro, ela tinha se perguntado se, por acaso, não queria impressionar Gaara, também – mas era em momentos assim que seu coração dava cambalhotas e ela resolvia parar de pensar demais, vai que sua cabeça dava um nó. Desviou os olhos para o relógio, batendo a ponta de suas plataformas no chão, ansiosa.

Com o atraso de dois minutos de Gaara, sua cabeça tinha começado a criar muitos xingamentos perversos à toda geração anterior da família Sabaku – aqueles, aqueles…. Bobocas! – e, quando iria passar para a geração atual, a campainha tocou e Hinata se levantou tão depressa que quase caiu. Ela olhou na sua clutch, como Ino tinha a ensinado a chamar, rapidamente, conferindo se tudo estava lá. Passou a mão pela roupa, para desamassar, e tentou arrumar os cabelos com os dedos trêmulos. Seu coração, é claro, estava sambando.

A campainha tocou outra vez e Hinata cheirou debaixo dos braços, torcendo para não estar com CC. Deus, como estava nervosa! Então correu para a porta e a abriu como se só tivesse ouvido a campainha agora.

— Desculpa, eu estava vendo TV – mentiu ela, o mais naturalmente que conseguia, e tentou sorrir. Gaara estava ali e vestia uma camisa de manga longa, preta, e jeans escuros. Um óculos de sol e o garoto estava pronto para um velório! Nada tirava o charme de seu cabelo ruivo penteado para trás e dá dogtag pendurada no peito. Mas, mesmo se ele tivesse aparecido vestindo como uma sensação adolescente, era Hinata quem estava chamando atenção.

Ele piscou quando a viu, surpreso, e seus olhos correram de cima à baixo. Certo, ela ficava bem no uniforme, melhor do que várias garotas, mas agora ela estava tão diferente! A regata cor de rosa, soltinha, tinha um decote muito mais generoso que a camiseta escolar, embora o cardigã branco, aberto, caísse de forma a não revelar tanto a linha dos seios. A saia preta não era tão curta, ou era o que ele imaginava, mas o fato de Hinata estar usando saltos – ! – fazia parecer que as pernas dela não tinham fim. O cabelo estava preso num rabo de cavalo alto e cheio de cachos, mas a franjinha reta e perfeita continuava a delinear o rosto dela. Brincos, um colar simples, gloss labial e máscara terminavam os detalhes.

Por alguns segundos, Gaara não sabia se a admirava ou se respirava todo o cheiro magnético de cereja e jasmins que ela exalava só balançando o cabelo.

Àquelas roupas e bijus eram de Ino, não dela – não tinha coisas tão curtas! –, mas até a loira tinha comentando que pareciam perfeitas em Hinata e que ela deveria dá-las. Se Gaara soubesse desse detalhe, teria concordado. Quando a Hyuuga terminou de trancar o portão, Gaara puxou-a com delicadeza pela mão.

— Você está linda – murmurou, sem conseguir tirar os olhos dela. O rubor que se formou no rosto oval não era blush.

— O-Obrigada – ela respondeu, muito baixinho, olhando para o chão. Com os saltos, eles tinham a mesma altura agora. Ele cobriu a mão dela com a sua, olhando a placa do motorista de aplicativo que tinha acabado de chamar pelo celular. Guardou-o no bolso quando decorou as letras.

Percebendo como os dedos dela tremiam, Gaara arqueou as sobrancelhas.

— Está nervosa? – perguntou, mesmo já sabendo a resposta. As íris dela tremiam de um lado para o outro. Como que para acalmá-la, o ruivo começou a desenhar círculos contínuos na palma da mão dela que, automaticamente, separou mais os dedos ao sentir o toque carinhoso. Ela estava da cor da regatinha.

No fundo, ele achava engraçado alguém com medo de seus parentes, mas não achava que rir a tranquilizaria. Gaara franziu os lábios, ela estava tão bonita que parecia um desperdício levá-la para conhecê-los; a ideia de fugir e fazer qualquer outra coisa parecia duas vezes mais tentadora agora.

— E se eles não gostarem de mim…? – Ela estava começando a imaginar uma série de pessoas ruivas olhando-a de canto. Argh. Um arrepio percorreu sua espinha.

— Por que eles não gostariam? Você é inteligente e engraçada.

Hinata, que com certeza não estava acostumada a ouvir tantos elogios, tentou controlar o calor do rosto e levantou a sobrancelha.

— Engraçada…?

Gaara sorriu de canto e ele ficava lindo assim, seus olhos realçados na expressão bem humorada.

— Só não conte a piada do caipira, acho que ficará tudo bem. – Ela soltou risinhos nervosos ao se lembrar de ter contado a piada. – De qualquer forma, só estamos fingindo, então isso não tem importância – continuou, num tom de bom humor. Quando viu o rosto dela surpreso, porém, seu sorriso sumiu.

Falando-a em voz alta, depois de ter repetido para si mesmo a noite anterior inteira, fez parecer esquisito. Gaara estava pensando em jeitos de consertar a frase, mas, antes que pudesse fazê-lo, o carro do aplicativo chegou e eles entraram em silêncio e sem mãos para lembrá-los da presença um do outro. No fim daquele dia eles já não seriam eles, e sim Hinata e Gaara. Dois alunos da mesma sala, mas agora, outra vez, completamente indiferentes um ao outro. Já não havia mãos dadas, conversas engraçadas ou silêncios confortáveis.

Gaara olhou para ela, no carro, mas Hinata olhava através da janela com muito interesse. Ele suspirou, se perguntando quando aquela realização óbvia tinha começado a incomodá-lo.

— Tudo bem? – ele perguntou, num murmúrio, quando eles pararam na frente da porta principal da casa de seu tio. O imóvel era grande e pintado de amarelo, como areia, com detalhes brancos que lembravam casas provinciais. Ela tinha apertado sua mão com força quando o carro estacionou. Agora, agitou a cabeça positivamente, com medo de que, se falasse algo, iria travar completamente. – Estou aqui – Gaara garantiu, esperando que isso fizesse ela respirar.

Hinata murmurou um agradecimento e Gaara tocou a campainha, segurando firmemente a mão da Hyuuga. Eles esperaram, mas, quando a porta se abriu, ele não viu nenhum dos tios que achou que veria.

— Nossa, Gaara, finalmente! Onde você…

A mulher loira se calou, desviando os olhos, quase que automaticamente, para a figura feminina ao lado de seu irmão. Hinata se encolheu com o olhar dela, colando no ombro de Gaara. Era uma moça bonita, de cabelo Loiro escuro, olhos verdes marcantes e batom vinho que combinava muito bem com sua pele dourada de sol. Confusa, Hinata encarou o formato dos olhos dela, que eram exatamente iguais aos de Gaara, embora a cor fosse diferente. Será que era alguma prima…?

— É bom te ver também, Temari – ironizou o Sabaku, puxando Hinata para entrarem logo, passando pela irmã. Temari fechou a porta, ainda parecendo surpresa, e os encarou.

— Uau, onde você arranjou essa moça linda e com problema de visão? – brincou a loira, sorrindo. Gaara revirou os olhos e ela deu uma piscadinha para Hinata ao vê-la. – Brincadeira, eu sei que meu irmãozinho é um gato! Ele me puxou. – E tentou dar um beijo na bochecha de Gaara, que se desviou com uma careta mal humorada. A Hyuuga ainda estava tentando calcular que a irmã de Gaara não era a ruiva magrinha que ela tinha imaginado; na verdade, era totalmente o contrário disso.

— Essa é minha namorada, Hinata. Hina, essa é Temari, minha irmã – apresentou ele, olhando com tédio para a mais velha.

Hinata ainda estava nervosa, mas manteve o queixo o mais erguido que conseguiu e ergueu a mão, sorrindo.

— P-Prazer, Temari. Gaara me falou de você – disse, gentil.

Temari, ainda com um sorriso no canto dos lábios – assim ela ficava muito parecida com o ruivo! –, olhou desconfiada para o irmão, achando graça.

— Ahan, sei. Só elogios, imagino. Espero que você não tenha acreditado nele, o Gaara adora exagerar as coisas. – E aceitou a mão de Hinata, puxando-a para um abraço que a Hyuuga retribuiu quase sem ar. – É um prazer! Por que não me contou dela antes?

Gaara olhava para ela muito mal humorado e Hinata segurou um risinho, porque ele parecia uma criança fazendo birra.

— Pra você stalkear ela? Não, muito obrigado.

Temari revirou os olhos e fingiu que não o ouviu.

— Então, Hinata, como eu ia dizendo, o meu irmão é um exagerado desde criança. Uma vez eu peguei emprestado o Sr. Flocos, o ursinho de pelúcia dele, e ele chorou tanto que minha tia teve que usar tampões de ouvido por uns dois dias. Detalhe: ele já tinha 10 anos – contou, morrendo de rir a cada palavra e Hinata não conseguiu conter uns risinhos, ainda mais quando olhou para Gaara e ele estava quase da cor do cabelo, além de uma veia saltar bem na lateral da testa.

— O nome dele não era Sr. Flocos… – Gaara murmurou, irritado e envergonhado e Hinata teve que fazer um esforço dobrado para não rir mais. Achou melhor mudar de assunto, pois Temari olhava de uma forma engraçada que dizia "eu tenho várias histórias dessas e vamos passar no videoclipe de aniversário dele de 21 anos!".

— P-Perdão pelo atraso, eu demorei um pouco me arrumando… – explicou e Gaara arqueou a sobrancelha para ela. Ele que tinha a buscado tarde, de propósito, pois não estava nem um pouco ansioso para aquela festa.

Temari acenou a mão no ar.

— Fica tranquila, more, eu te desculpo quando você vir rir comigo das fotos do Gaara bebê. A bundinha dele era a coisa mais linda, sério! Eu acho que tem uma cópia do álbum aqui, em algum lugar...

Gaara arregalou os olhos, vermelho, e Hinata precisou cobrir a boca para não rir.

— Temari… você nem ouse fazer isso! – rosnou Gaara, entredentes.

— Eu vou adorar ver essas fotos – Hinata soltou, risonha, e ela e Temari trocaram olhares cúmplices. Gaara encarou-a chocado. Ótimo, a diaba da sua irmã tinha acabado de desvirtuar mais uma!

— Vem, vamos lá para fora, o tio Iruka tá se aventurando na churrasqueira e convenceu o Shikamaru a participar... Desculpe, Hinata, eu não sei o quão comível a carne vai sair.

Então eles seguiram pela casa, o casal de mãos dadas e Temari comentando sobre pessoas que Hinata não conhecia, como o tal Shikamaru e uma Tayuya. Os cômodos eram todos espaçosos e os móveis eram novinhos, então ela imaginou que quem vivia ali era a parte bem de vida da família.

Quando atravessaram um corredor, chegaram finalmente à uma área aberta, de lazer, e enorme, onde estavam a churrasqueira de alvenaria – dois homens se aventuravam lá, rindo juntos e tomando cerveja – e várias mesas de plástico espalhadas. Na maior mesa do local, Hinata viu várias travessas cobertas, pratos e copos de plástico empilhados. Também havia uma dessas piscinas de plástico, destinada às crianças, que lotavam o espaço e molhavam todo o chão ao redor. A melhor parte é que elas estavam com celulares e tablets cobertos por cases à prova d'água. Os adultos, por sua vez, se amontoavam nas mesas, bebendo e conversando alto. Algumas mulheres dançavam perto da caixa de som, cantando a música junto, imitando microfones com latinhas e colheres de pau.

Mal eles se aproximaram, uma garota de shorts jeans e camiseta, ruiva, veio falar com Temari. Ela parou no meio do caminho, porém, olhando de forma engraçada para Hinata – nem tinha parecido perceber que a Hyuuga estava de mãos dadas com Gaara.

— Ai, não me diga que a tia Hikari adotou outro adolescente. Quantos filhos essa mulher quer ter?!

Temari suspirou muito fundo, como se pedisse para alguém lhe dar paciência.

— Tay, eu juro que queria saber se você é tonta assim mesmo, ou se está se fazendo…

Gaara, percebendo o rosto ofendido da prima ruiva, resolveu intervir antes que elas começassem a brigar como gato e rato, como sempre faziam.

— Tayuya, essa é minha namorada, Hinata. Essa é Tayuya, minha prima.

Hinata ergueu a mão e, meio contrariada, Tayuya a cumprimentou rapidamente. Então voltou a se virar para Temari.

— Tem como você vir aqui, rapidinho? Eu já falei para Yukata que quem vai escolher a playlist hoje sou eu e ela insiste em colocar umas músicas que ninguém conhece! Quem é Blackpink, pelo amor de Deus?!

Temari suspirou, coçando a têmpora.

— Vocês parecem um bando de crianças… Gaara, apresenta a Hinata, eu vou resolver isso.

Gaara assentiu impassível, vendo as duas se dirigirem até a caixa de som onde sua prima mais nova, Yukata, estava grudada com cara de poucos amigos – aí de quem tocasse no seu K-pop!

Hinata estava constrangida, pensando em como Tayuya tinha a cumprimentado mal e o Sabaku logo percebeu, voltando a apertar a mão dela.

— Não liga para ela, a gente só suporta porque é da família – disse, tentando fazer graça, e colando-a mais para si. Hinata soltou uma risada nasalada. – Se te anime, um dia fomos pescar e ela caiu de cara numa bacia cheia de minhocas – contou, com um sorriso de canto. Hinata riu, imaginando a cena; certo, isso compensava.

Gaara a levou para conhecer várias pessoas; entre elas Kankuro, o irmão mais velho de Gaara que, como ele previu, só deu oi para ela e depois sumiu, Shikamaru, o noivo de Temari, Kimimaro, o namorado de Tayuya, e finalmente Sasori, que era absurdamente parecido com Gaara – na realidade, se não fossem as olheiras profundas do segundo e o cabelo mais escuro do primeiro, eles seriam quase gêmeos! A única dos primos que ainda não havia aparecido era Matsuri, mas o casal ouviu Temari garantindo a Kankuro que ela a já tinha chegado.

Sentados numa mesa, Hinata comia um pouco da salada, enquanto esperava a carne e se divertia com as piadas idiotas que um dos tios de Gaara, Ebisu, fazia a cada segundo. O ruivo, por sua vez, bebia uma cerveja, que Hinata tinha se recusado a provar, e permanecia quieto, olhando ao redor sem muita expressão. Às vezes ele respondia às pegadinhas de Ebisu para Hinata, que já conhecia de cor, e o tio o encarava frustrado – era quando Hinata ria mais e eles trocavam olhares.

— Toc, Toc – Ebisu fez, num momento, e Hinata percebeu que ele já estava mais para lá do que para cá.

— Hm… Quem é? – perguntou. Gaara estava do seu lado e arqueou a sobrancelha pro tio.

— Dem…

Hinata o olhou desconfiada, pois ele já soltava risinhos. O Sabaku revirou os olhos.

— Hã… Que dem?

— Demorou para responder, agora eu esqueci – ele respondeu, morrendo de dar risada e, só de vê-lo rindo, Hinata soltou alguns risinhos também. Gaara estava com cara de morte.

— Hm… Acho que vou voltar para a churrasqueira – Shikamaru disse, parecendo indignado com o que tinha ouvido, e saiu da mesa para voltar a ajudar Iruka.

Hinata, vendo a cara triste que Ebisu começava a fazer, porque ninguém dava atenção para suas piadas, deu um sorriso.

— Você conhece a piada do caipira…?

Gaara suspirou de frustração, enquanto Ebisu se divertia horrores.

Um tempo depois, quando todos comiam e conversavam, uma garota de vestido vermelho e sandálias pretas apareceu. Hinata estreitou os olhos para ela, pois não a tinha visto até agora. A garota, sem parecer notá-los, ia pegando um prato para se servir, quando seu olhar caiu no casal e ela ficou pálida. Foi nesse momento que Hinata percebeu que Gaara tinha passado o braço por sua cadeira, e eles estavam sentados tão perto que, por só mais um pouco, ela estaria no colo dele.

— Achei que ela nunca ia aparecer – Hinata murmurou, se virando para ele. Seus lábios mal se abriam. Ao menos seus rostos não estavam próximos ao ponto de deixá-la nervosa e com borboletas no estômago; muito diferente das pernas, que trocavam calor por debaixo da mesa.

— Seria pedir demais – ele murmurou de volta e Hinata franziu o nariz ao cheiro de álcool.

— Ela está olhando para cá – continuou, tentando fazer parecer que eles estavam conversando sobre algo muito interessante. Ela só tinha conseguido notar agora, mas as íris de Gaara se fundiam num azul céu quando chegavam perto das escleras. Quando ele moveu a perna, um arrepio subiu de seu dedão até a coxa, onde acabou em seu baixo ventre e ela enrubesceu. – O que será que está pensando…?

— Nada bom, imagino – garantiu, levando a lata quase vazia até a boca. Ele tinha tentado convencê-la a tomar um gole, imaginando que ela estava nervosa por beber entre estranhos, mas a garota realmente não gostava. – Todo mundo está adorando você – disse, de repente, e Hinata piscou, surpresa.

— E-Eu gostei muito deles, tam…

— Então, primo, quando pensou em apresentá-la? – Uma voz aguda os interrompeu; eles haviam se distraído um no outro por alguns segundos e agora Matsuri estava bem ali, na frente deles, mas não sozinha.

Calmamente, sem tirar o braço dos ombros da Hyuuga, Gaara encarou a prima e ex namorada. Hinata engoliu em seco e fez o mesmo; céus, tinha odiado o tom de voz dela. Tentou encará-la da forma mais fria que conseguia, embora não fosse muito, pois Matsuri nem piscou. Hinata soltou um muxoxo insatisfeito, pois não podia falar que ela não era bonita – ela parecia uma versão menor e caramelada, e com menos cara de tonta, de Tayuya.

Pelo menos o menino que segurava a mão dela não podia, nem de longe, ser comparado a Gaara.

— Nunca – ele respondeu, ríspido e claro, o que fez com que Hinata sorrisse docemente, um pequeno brilho de sarcasmo no canto dos seus lábios. Jesus, ela nunca tinha sorrido daquele jeito, tão vilã, mas como tinha gostado! Matsuri o encarou ofendida, piscando várias vezes, para entender se ele tinha dito aquilo mesmo. – Mas se você insiste…

— Não, eu não insisto nada! Pensei em ser educada, mas é esperar demais modos de você, não é? – alfinetou, irritada. O garoto, do lado dela, parecia desinteressado no que estava acontecendo.

Hinata respondeu antes que Gaara pudesse.

— Não seja por isso, meu nome é Hinata – respondeu, o mais firme que conseguiu. Gaara tinha as sobrancelhas arqueadas, surpreso. E então o silêncio se manteve, embora Matsuri respiras se tão alto quanto um boi; Hinata não tinha dado brecha para ela se apresentar. – Prazer.

— É todo seu – bufou, olhando-a com tanta repugnância que, por alguns segundos, Hinata se sentiu uma formiguinha. Matsuri deu uma última encarada em Gaara e, num suspiro indescritível, ela se virou para ir embora; o garoto a seguiu em silêncio.

Quando ela estava longe deles para ouví-los, Gaara sorriu quase de orelha à orelha, sem conseguir tirar os olhos de Hinata.

— Se eu pudesse ver aquela cara todo dia quando acordasse, o meu dia começaria 100% melhor – disse, lembrando-se do rosto de Matsuri quando a Hyuuga a respondeu.

Hinata, que respirava no manual agora, olhou-o ansiosa.

— Discordo; eu começaria o dia assustada. – Os dois riram com esse comentário e, devagar, Gaara apertou a pele do ombro dela, agora exposto, pois ela tinha tirado o cardigã. Estava calor.

— Você pareceu durona – murmurou, num tom engraçado. Os cílios dela estavam cheios de rímel, o que fazia parecer que eram ainda mais expressivos e intensos. Ele não conseguia tirar os olhos dela; Hinata, no entanto, desviou para a mesa, o rosto cor de rosa mais uma vez.

— Não, não sou assim. – E balançou a cabeça, os cachos do rabo de cavalo se movendo com ela. Então sussurrou, tão baixo que, se Gaara não estivesse perto, não poderia entender: — Você me deixa mais corajosa.

Gaara sorriu, outra vez, decidindo que precisava de mais uma latinha.

— Não esqueça de me levar quando quiser assaltar o banco, então.

Hinata apoiou o cotovelo na mesa e a cabeça na mão, dando risada.

— Você já estaria lá quando eu chegasse!

Hinata nem notou como o tempo tinha passado rápido; havia se divertido muito com todas as conversas e debates em que era, calorosamente, incluída. Até Tayuya e o namorado demonstraram não serem tão desagradáveis; era engraçado ver como a pobre ruiva era queimada por todo mundo da família, inclusive os mais novos. A Hyuuga conversara com Temari sobre o primo, que também já quis cursar arquitetura, e depois sobre a série preferida delas, que era a mesma. Com Shikamaru, eles entraram na discussão sobre qual tinha sido o melhor filme de herói do ano – e, após ver a coisa esquentando, mais pessoas iam entrando no debate. Gaara teve a ousadia de não ficar do lado dela! O assunto de discussão, é claro, mudava a cada minuto, e até sobre basquete Hinata teve que opinar. Já com Kankuro, que ela descobriu depois que tinha feito duas das sobremesas, eles trocaram dicas de culinária, pois era um dos hobbies do irmão mais velho do ruivo. Gaara sempre se metia quando achava necessário, e ele sempre rendia comentários sórdidos que a faziam rir.

Foi quando começou a escurecer que eles se sentaram em uma grande roda, formada pelas cadeiras e mesas de plástico, comendo a sobremesa e cantando algumas músicas clássicas de churrasco – Temari e Tayuya, mais animadas, tinham até se levantado e estavam dançando juntas, erguendo suas taças de pudim. Até agora Hinata não tinha ideia de quem era o anfitrião da festa e, honestamente, duvidava que iria descobrir à essa altura – de qualquer forma, todos faziam esse papel muito bem.

Quando o repertório de músicas pareceu ter se esgotado e o silêncio começou a, pouco a pouco, rondar os convidados, Ebisu levantou seu copo de cerveja.

— Que tal jogarmos algo?! – propôs Ebisu, todo animado, claramente bêbado. Todos viraram sua atenção para ele e um murmurinho começava.

— Tio, você sempre tem as piores ideias – Kankuro disse, fazendo todos concordarem e rirem.

— Não, dessa vez é realmente boa! – Ele disse e Gaara, do lado de Hinata, revirou os olhos. Sorrindo, ela percebeu que ele não foi o único, pelo menos uns dois ou três primos do ruivo se levantavam e iam mexer em seus celulares, a fim de fazer qualquer outra coisa. – Olha só, hic, temos um bom número de casais, e um mais novo na parada, que é o nosso Gaarinha com a querida Henata…

— Hinata! – Alguém no meio da roda corrigiu, fazendo a Hyuuga corar.

— Isso aí, obrigado, obrigado. – Ele começou a gesticular com as mãos, animado. – Então vamos, hic, fazer uma pequena competição, que tal?

Temari, que terminava um pavê, deixou sua taça em cima da mesa.

— Tô dentro. Eu e o Shika já ganhamos, né, amor? – piscou ela, muito convencida e, do seu lado, Shikamaru bocejou.

— Que problemático…

— Nos seus sonhos, prima! – Tayuya, com sangue nos olhos, agarrou a mão do namorado, Kimimaro. Ela era muito competitiva. – Seja lá qual for o jogo, tenho certeza que somos melhores! – Kimimaro concordou com ela, fazendo-a sorrir.

— Eu adoro um desafio. Você não gosta, Sai? – Matsuri, sentada nas coxas dele, se animou.

— Desafios são ótimos para exercitarmos a mente – concordou ele. Hinata viu quando Temari fez uma careta, e ela própria concordava que a frase era esquisita; ele tinha saído de um livro ou o quê?

Então todos os olhares se alinharam no único casal jovem que ainda não havia dito nada – e que nem pretendia dizer! Gaara revirou os olhos, suspirando, enquanto Hinata corou envergonhada, se encolhendo mais ainda e apoiando a cabeça no ombro dele. Que intimidador ter toda essa atenção nela!

— Nós vamos só assistir – declarou ele e a Hyuuga balançou a cabeça com vontade, concordando.

Vendo a cena, Matsuri soltou um bocejo claramente fingido.

— Não é como se vocês fossem vencer, mesmo… – riu ela, sarcástica, olhando para as próprias unhas.

Hinata, na mesma hora, tirou a cabeça do ombro do Sabaku, encarando Matsuri com ódio. Ah, que garota insuportável. Mas tudo bem, pois agora ela estava mais que determinada.

— Nós vamos jogar, é só dizer! – disse, olhando diretamente para Ebisu, que ajeitou os óculos no rosto magro. Matsuri amarrou a cara, porém agora todos pareciam interessados em observar o jogo.

— Vamos fazer algo fácil, como aquele "O que você sabe?" – decidiu Ebisu, que iria participar com sua esposa, Anko, que estava na quinta taça de mousse, então só o olhava pelo canto dos olhos, sem falar nada. Ela não parecia a mais animada do mundo.

— Ai, eu não lembro desse jogo, não – Tayuya disse, confusa, e a Hyuuga viu quando alguém bateu na própria testa.

— Alguém traz um GPS para essa menina!

— Já sabemos quem perdeu…

— Olha aqui, você não se mete no jogo, beleza? – disse a ruiva, zangada.

— E quem é você para mandar nos outros?!

— Vocês todos deveriam parar de implicar com a Tayuya.

— É, ela não tem culpa de ser meio lerda!

Hinata só ouvia as frases, mal sabendo de onde elas estavam vindo. Achava aquilo muito engraçada; como era uma família grande, era fácil se confundir em quem tinha falado o quê.

— Deixa que eu explico. – Matsuri revirou os olhos para a infantilidade de todo mundo. – Tay, querida, é aquele jogo que você e o seu namoram precisam acertar a resposta sobre determinada coisa do relacionamento de vocês, sabe? Como, não sei, o dia do primeiro beijo.

— Ah! – A ruiva exclamou, animada. Então fez uma careta. – Não, pera aí, acho que não entendi direito. – E todos suspiraram; enquanto Hinata ria, Gaara pedia paciência, pois iam precisar.

— Tá bom, eu começo, porque o tio Ebisu tá quase caindo já – Temari falou, entre risadas, já segurando o seu papel em mãos. Depois de alguns minutos de explicação para Tayuya e busca por material, eles finalmente tinham conseguido cadernos e canetas para todos. – Então, a primeira pergunta é… Como você me conheceu?

Todos que estavam participando começaram a escrever em seus papéis. Alguns olhavam para cima, pensando, e outros já escreviam sem pensar muito. Shikamaru, que seria o primeiro a responder, já tinha começado a ficar pálido; argh, ele ia se ferrar naquilo!

— Hm… A gente tava, hã, num lugar…? – dizia, virando seu papel devagar, que estava escrito "lugar". Temari franziu o cenho, ficando vermelha.

— Alguém tira ele desse jogo!

— Cala a boca! Ele não terminou ainda – gritou a loira, irritada. – Vai, Shikamaru, continua – soltou, entredentes, fuzilando-o com o olhar.

Alguns risinhos já podiam ser ouvidos. Shikamaru engoliu em seco.

— Hã… – Ele se esforçava, olhando fundo nos olhos da noiva, mas só via um espaço em branco. – Farmácia…?

— Mercado, seu babaca! – E virou seu papel, indignada.

Enquanto Matsuri e Tayuya riam dela, Ebisu, que já estava no ponto de desmaiar, perdeu também. Kimimaro confuso parque com arte; ou melhor, museu de arte. Sai acertou que foi na sala de desenho, afinal ele vivia lá e assim era fácil de se lembrar. Finalmente, chegou a vez de Gaara dizer. Hinata o encarou, respirando lentamente.

— Três anos atrás, porque eu era aluno novo. – Então mostrou seu papel, torcendo para Hinata ter se lembrado e escrito a coisa certa. Ao mostrar o seu, porém, eles sorriram cúmplices.

Outra partida, dessa vez a pergunta era "O que eu vestia no nosso primeiro beijo?". Aquela parecia uma questão realmente complicada, mas Temari ficou puta do mesmo jeito por Shikamaru não se lembrar, pois ela tinha gastado uma nota no vestido que escolhera para o primeiro encontro. Ebisu quase vomitou, então Anko, parecendo irritada, resolveu levá-lo para um dos quartos; tiveram que seguir o jogo só com os quatro casais. Kimimaro acertou sobre o macaquinho laranja de Tayuya, porque, dã, ele era laranja! Sai, no entanto, errou, pois no dia ele estava mais empenhado em tirar a roupa de Matsuri do que prestar atenção em qual era.

Enfim a vez de Gaara chegou e ela sorriu automaticamente, pois sabia que não tinha como ele esquecer; não, não havia como esquecer as conversas estranhas que eles tinham tido, ou o jeito engraçado como completavam as falas um do outro quase que instantaneamente.

— Amarelo com rendas, mesmo eu odiando amarelo.

E Hinata virou o papel, olhando-o com muito carinho.

Houve mais quatro perguntas, pelo menos, e Hinata nunca havia se sentido tão bem em dizer que preto era uma cor, a favorita dele. Temari acabou desistindo antes de o jogo acabar, pois Shikamaru não tinha acertado uma, UMA, droga de pergunta! Tayuya ficou empatada com Matsuri, que se roía de raiva pensando como os dois tinham acertado tudo.

Sim, Hinata e Gaara tinham vencido, mesmo sendo o casal mais recente.

Ela se inclinou na cadeira ao perceber que eles tinham ganhado, animada, para abraçá-lo. Circulou seus braços ao redor dos ombros largos dele e o perfume de desodorante masculino encheu todos os seus sentidos, enquanto Gaara a apertava delicadamente pela cintura. Era a primeira vez, desde o beijo, que ficava tão perto dele e, céus, não queria mais nada no momento! Amou o abraço dele, amou o cheiro dele, seus dedos fazendo carinhos em sua pele, por cima da regatinha, e do jeito como o cabelo ruivo estava fazendo cócegas na ponta do seu nariz, lembrando-a de espuma, pois cheirava à shampoo.

Temari que estava sentada no chão, entre as pernas de Shikamaru, de mau humor, olhou a cena e sorriu. Gaara era um aborrescente insuportável às vezes, mas como era bom vê-lo tão contente com alguém, desde que Matsuri tinha quebrado o coração dele.

Então, puxando palmas e se divertindo, ela começou a gritar em alto som:

— Beijo! Beijo!

Não demorou muito, é claro, para todos a acompanharem, batendo no chão com o pé, em cima das mesas, com os copos e tudo mais que podiam encontrar, num grande coral. A única em silêncio era Matsuri, pois até Sai estava batendo palmas. Ele parou na hora, após a namorada lhe lançar um olhar mortal.

Quando Hinata levantou o rosto do ombro dele, envergonhada, e encontrou os olhos cianos, azul piscina, verde água, uma infinidade de tons que ela não podia descrever, não completamente, soube, simplesmente soube, que ele estava pedindo permissão. Dessa vez, não queria que fosse de surpresa. Não queria que ela sentisse vergonha de conversar com ele, depois. Ele queria que ela quisesse beijá-lo tanto quanto ele estava desejando nesse momento.

Guardando um sorriso, Hinata segurou o rosto dele com suas mãos ansiosas e se inclinou, graciosamente, tocando seus narizes juntos, e então a boca. Beijou-o como se fosse a primeira vez que acontecia e aproveitou como se o momento não fosse durar mais que alguns milésimos. As borboletas no seu estômago voaram, felizes, e, sentindo o peito dele contra o seu, ela sabia que seus batimentos estavam conectados, como eles estavam conectados agora.

Ela só desejava, intensamente, que durasse para sempre. Que o calor da língua dele nunca deixasse a sua, que o toque nunca acabasse. Por que, então, o que ela faria quando acabasse? Quando ele já não estivesse com ela? Como viveria tranquila sua vida, agora que sabia como era tê-lo?

Assim que o beijo acabou, Hinata não teve mais coragem de olhá-lo, sentindo o agridoce da mordida que ele tinha deixado em seu lábio inferior. Não precisou fazê-lo, no entanto, pois a mão de Gaara estava ali, sobre a sua.

E isso bastava.

Já tinha passado da hora de Hinata estar em casa – ela mandou uma mensagem para o pai, dizendo que estava com uma amiga – e também deles sossegarem, mas ninguém, aparentemente, tinha perdido a disposição. Quando Gaara a avisou que logo já a levaria embora, Hinata aproveitou para perguntar para Temari onde o banheiro ficava; não era longe, a loira disse, e a Hyuuga concordou, escutando as instruções. Ela até se ofereceu para levá-la, mas, vendo que a Sabaku tinha voltado para o colo do noivo e que, portanto, eles tinham feito as pazes depois do desastre do jogo, Hinata não achou prudente tirá-la de lá.

Seguiu sozinha, percebendo como o resto da casa era grande e silenciosa, já que as pessoas estavam todas concentradas na parte externa da casa, curtindo os últimos minutos da música alta. Percorreu o corredor e achou a porta do banheiro, que era tão limpinho e cheiroso que dava até dó de usar.

Quando saiu, depois de secar as mãos numa toalha e apagar a luz, havia alguém na frente da porta, tampando sua passagem, pois era um corredor estreito. Hinata ergueu os olhos, franzindo as sobrancelhas, certa de que a pessoa não havia visto que ela estava alí, mas gelou ao perceber que era um homem. E não qualquer um.

— Ah, Sasori, não é? Acho que não nos falamos muito… – ela cumprimentou, tentando manter a voz o mais firme possível e simpática. O rosto dele era apático, de uma maneira muito ruim; agora, olhando bem, não lembrava em nada o de Gaara, que tinha olhos quentes. Esperou, então, que ele se movesse, mas não aconteceu. Hinata engoliu em seco. – C-Com licença…

Novamente ele não se mexeu e aquilo começou a irritá-la profundamente. Determinada a sair dali, Hinata resolveu trombar nele, mas o resultado foi desastroso.

— Eu disse com licença! – falou, com mais intensidade, tentando achar uma fresta para passar. Não achou e, antes que pudesse procurar mais, as coisas aconteceram muito rápido. Sasori segurou-a fortemente pelos pulsos, levantando suas mãos e forçando-a a andar para trás.

Confusa, Hinata tentava entender o que estava acontecendo; o cheiro de bebida, porém, que ela odiava, clareava aos poucos sua mente. Ele a encostou no box do banheiro, ficando perigosamente perto – de uma forma nojenta.

— S-Sasori… – murmurou ela, assustada. Não sabia se se debatia, se gritava, se tentava empurrá-lo. O medo a paralisou. – Por favor, me solta!

— Shhh…. – E ele sorriu, de forma estranha e torta. – Fica quietinha.

Hinata se preparou para gritar, mas, antes de fazê-lo, lembrou-se de Gaara e de sua voz: "eu não acho que ele vai se aproximar de você, sabendo que é minha namorada, mas se acontecer e eu não estiver por perto, me chame".

Me chame.

Hinata entendeu bem o aquilo queria dizer, então gritou o nome dele com toda a sua força e vontade e não só Gaara apareceu, mas também a família toda dele se estreitava pelo corredor.

A visita terminou com um Sasori de olho roxo e nariz sangrando – causados por Gaara, é claro, que só parou porque o irmão o puxou para longe –, um Gaara extremamente mal humorado e uma família com xingamentos e juras de machucados diferentes em Sasori. Temari prometeu quebrar os dentes dele, enquanto Kimimaro se encarregaria de um braço ou dois.

No final das contas, a coisa se tornou tragicômica; Hinata descobriu que Sasori era gay e tinha, inclusive, um namorado, apesar de não ser a primeira vez que, podre de bêbado, ele tentava agarrar alguém. Um tal primo Deidara, que não tinha vindo, já tinha sido alvo das besteiras de Sasori que, chorando com o nariz quebrado, pediu muitas desculpas para Hinata.

Além de tudo, os surtos de Temari, com Shikamaru tentando acalmá-la, as tias querendo chamar a polícia e Tayuya, inocente, sem entender o que Sasori queria exatamente fazer no banheiro com Hinata, renderam algumas risadas constrangedoras dela. Claro, isso tudo atrás de Gaara, pois ele lançava um olhar feio para qualquer parente que se aproximasse da Hyuuga.

Franzindo a sobrancelha, Hinata ainda teve que aguentar as crianças pedindo uma "self da tragédia".

— Me desculpe, de verdade, Hinata. Eu deveria ter ido com você, eu… – Gaara continuou, pela décima vez, quando eles já estavam fora da casa de um dos seus tios. Seu olhar era um misto de raiva e arrependimento.

Hinata colocou a mão no antebraço dele.

— Gaara, está tudo bem. Ele não chegou a fazer nada e eu tenho certeza que aquele nariz vai servir de lembrança… – murmurou, escondendo um risinho de satisfação, e torcendo para Gaara entender agora. Não era culpa dele. – Sem contar que eu adorei a sua família. É tudo o que não tive na minha, em quantidade e personalidade – disse, muito feliz, pois tinha realmente amado passar o dia com eles.

Era uma bagunça gostosa.

Ainda irritado com o caso Sasori, Gaara suspirou e, passando a mão nos cabelos, resolveu focar em outra coisa.

— Eu te trago de no…

Ele se interrompeu, constrangido. Hinata corou, também, ficando sem graça. Obviamente, os dois sabiam, ela não iria voltar mais; o fingimento tinha acabado junto com o sábado. Era isso.

Mesmo que o beijo tivesse sido tudo, menos indiferente, ou que o que eles sentiam quando conversavam fosse muito mais que nada. Um silêncio estranho os circundou, outra vez, quando eles entraram no carro, de volta para a casa dela. Eles pensavam, os dois, sem saber, no dia seguinte; como contariam para os amigos que terminaram, em como não poderiam mais se falar do mesmo jeito que estavam fazendo essa semana.

A luz dos potes é a quietude noturna os acolheram quando eles chegaram no portão da casa dela e Gaara pagou o motorista. Hinata apertou sua bolsinha, sentindo-se deprimida pela primeira vez no dia. Sabia que agora era hora de se despedir e agir como se o sentimento que surgia em seu peito não existisse. Ele não precisava mais dela.

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— Gaara… Bem, eu queria te agradecer por hoje. Faz muito tempo desde que fiquei tão feliz assim, juro. Foi muito divertido. Foi divertido ouvir o seu tio, Ebisu, conhecer a sua irmã, eu a adorei!, e discutir receitas com o seu irmão. Ah, também foi engraçado ver a cara da Matsuri… – e ela riu, voltando a se lembrar. Havia algo nos olhos dele, conforme ela falava, mas Hinata não tinha coragem o suficiente de encará-lo para descobrir o que era. Talvez fosse dó. Vai ver percebeu que ela tinha, ah, se apaixonado, e agora estava com dó dela, pois obviamente não correspondia os sentimentos. Hinata olhou para baixo. – E também por ter me salvo do Sasori. Eu tenho certeza que no fundo ele não tinha tantas más intenções assim, era a bebida, então enfim… – Hinata se lembrou de como Neji sempre lhe falava que ela adora a ver o lado bom das pessoas, mesmo que fosse mínimo. – Então, se tiver algo que eu possa fazer como agradecimento, não hesite em me contar.

Quando terminou de falar, Hinata estranhou a sensação de dejavu que lhe invadiu. Onde já tinha dito isso…? Algo brilhou no sorriso de canto de Gaara, que curvou o rosto de um jeito engraçado.

— Então, eu posso te pedir qualquer coisa, é isso? – E Gaara se aproximou dela, a dog tag batendo em seu peito quando ele andou.

Como um estalo, Hinata se lembrou e arregalou os olhos, o rosto ficando vermelho rapidamente; sua visão ficou embaçada de felicidade.

— Qualquer coisa… – murmurou, quase sem voz. Ah, isso não podia estar acontecendo! Hinata levou as mãos até a boca, muito feliz, e Gaara sorriu com a reação dela, afastando com cuidado os dedos dela de lá.

— Namora comigo?

Notas finais
Drive com a história original: https://docs.google.com/document/d/10a0vqcYcdeecrYNaDYeKN8rtOj7_6bg7njGbt6AzsSQ/edit?usp=sharing Só quem já reescreveu algo sabe o trabalho que dá! Eu mesma não imaginava hahaha então to mt feliz com o resultado, e a minha evolução na escrita e no plot, no geral, fica mais claro ainda quando comparamos com o drive né kkk Enfim, obrigada todo mundo, de coração, ótimo 2020 pra vcs :) Pra quem gosta de SasuHina e Hentai, rsrs, postei uma one: https://fanfiction.com.br/historia/785404/Sacana/ Obrigada!!! Espero ver vcs por ai *-*