Nameless
9 Aleatório
Notas iniciais
Narrado pelo Matt
“Ande logo, moleque! Não o aceitamos para ficar dormindo, vá logo fazer o seu trabalho!”
Abri os olhos devagar, por algum motivo com as palavras que eu mais ouvi nos últimos anos ecoando na minha mente, como se mesmo após a morte daquele que as proferia, elas ainda tivessem a função de “despertador”.
Sentia meu corpo pesado... Meu braço direito parecia estranhamente quente e latejava... E que coisa molhada na minha testa é essa?
Estava escuro, por isso meus olhos não enfrentaram grandes dificuldades de se manterem abertos quando tentei. Eu estava deitado no sofá da sala daquele homem e... Quando foi que eu tinha dormido?
...
Ah, é mesmo. Estava me sentindo tonto e pensei em me sentar ali um pouco, mas depois também, não consegui levantar mais.
Ergui meu corpo, sentindo imediatamente os protestos internos pelo ato, e peguei o pano úmido que estava na minha testa. Quem tinha posto ele lá? Não poderia ter sido Mello... Não é? Claro que não, ele não teria por que fazer isso... Mas...
Afastei também o pesado cobertor que me cobria – e que tinha certeza de que não estava lá antes — e coloquei as pernas para fora do sofá. Foi nessa hora que ouvi passos vindos de trás, se aproximando.
– Vejo que acordou – ouvi o loiro comentar, se aproximando. Tinha algo em mãos, uma bandeja pelo visto. Uma bandeja que cheirava tentadoramente bem. Não pode ser verdade...
Eu não falei nada, eu não consegui falar nada. O que eu deveria dizer? O que eu deveria pensar? Fiquei apenas observando, mais do que surpreso, chocado, ele se inclinar e depositar a bandeja que carregava, em cima da mesa de centro à minha frente. Fiquei olhando, sem saber o que fazer, para a enorme tigela cheia de uma espécie de sopa, me perguntando qual era o significado daquilo. Senti um movimento ao meu lado, acho que ele havia se sentado no outro extremo do sofá, mas ainda assim não desviei o olhar da tigela.
– Se não comer eu jogo fora.
Engraçado como só no momento que essas palavras foram ditas – com o toque de irritação aparentemente indispensável, claro – que eu me dei conta de que estava com fome. Ou melhor, que eu estava com muita fome. Fato que nem a tontura que ainda persistia um pouco conseguia disfarçar mais. Por falar nisso, eu comi alguma coisa hoje? Ou mesmo ontem? Acho que não.
Com certa hesitação, peguei a tigela e a apoiei no cobertor embolado do meu colo, soprando algumas vezes para dissipar o vapor que desprendia da sopa. Tentava a todo custo ignorar a ideia de que havia algo a mais naquilo, algo que meu corpo não aceitaria muito bem. Não que eu estivesse com real medo de ser isso mesmo ou fosse o instinto de sobrevivência que todo ser vivo tem, era só que se for pra morrer, prefiro que seja com um tiro ou algo do gênero, como deveria ter acontecido ontem. Parece ser um método mais rápido e menos doloroso.
Mas que benefício traria para ele me envenenar agora? Ainda mais no apartamento dele? Não fazia sentido. Era o que eu fiquei repetindo a mim mesmo até o momento que a colher chegou à minha boca.
Estava bom. Muito bom.
Eu definitivamente não entendo esse homem...
De qualquer forma, fui tão incentivado por aquele sabor, que acabei queimando minha língua de tão rápido que o sorvi. Não importa. Valeu a pena.
– Obrigado.
Não conseguia pensar em nenhum motivo para ele ter feito isso – apesar de admitir que imaginar ele em frente a um fogão era uma visão estranhamente cômica –, mas o mínimo que eu podia fazer era agradecer. A única coisa que eu podia fazer, aliás.
Mas eu não recebi qualquer resposta em troca, nem um comentário sequer. Acho que nem me ouvir ele tinha ouvido, de tão distantes que seus olhos azuis pareciam estar. Perdido demais em pensamentos para prestar atenção ao seu redor. Esteve assim desde quando?
E então, simplesmente do nada, o foco voltou a ocupar o azul e, como se estivesse acabado de sentar no sofá e indiretamente me mandar comer, sem o devaneio que o dominou, ele falou comigo. E iniciou esse contato com uma indagação tão repentina, que por alguns segundos nem consegui pensar em uma resposta.
– Por que se enfiou nesse ramo, afinal de contas?
Como funciona a mente desta pessoa, afinal de contas?!
Não que fosse inesperado ele querer saber o que eu fazia naquele lugar, eu esperava por isso mais cedo ou mais tarde, mas... Justo agora, isso foi tão aleatório que me deixou sem palavras.
– Você está... Curioso? – foi tudo que consegui fazer sair. Se não fosse a leve hesitação em minha voz, poderia ter soado como ironia ou desconfiança, mas mesmo se tivesse, nenhum dos dois era minha intenção.
– Curioso para saber por que alguém que mal sabe usar uma arma viraria um “segurança” de um maldito agiota – não dava para não perceber o certo tom maldoso nas palavras que ele usou. Mas eu não me importei. Na verdade, achei graça.
No entanto... Mesmo que eu não me importasse de ter que contar algo a ele, não significava que as palavras eram fáceis de escolher. Afinal, eu nunca falei sobre essas coisas com ninguém antes... Alternativa mais fácil: enrolar.
– Não é porque eu não atirei em você que significa que eu não sei usar uma arma.
Ele me lançou um sorriso cético – E por que não atirou?
...
Boa pergunta. Para ser bem sincero, eu estava evitando pensar sobre isso desde que aconteceu... Por que será? As possibilidades são tantas, que eu não faço ideia de qual é a que realmente ocorreu, e talvez, eu até tenha receio de descobrir.
Seria porque eu não me importava? Bom, aí depende do ponto de vista. Verdade que eu passei a não me importar caso eu morresse (mesmo que não me apetecesse a ideia de eu mesmo pôr um fim nisso), ou mesmo com o que qualquer um pudesse pensar de mim. Muito menos dava qualquer importância à vida daquele homem.
Mas mudando de ângulo, pode-se dizer que eu me importava sim. Me importava de viver naquela realidade de merda, me importava que a mísera existência dele não terminava, me importava de ser eu mesmo. Eu não gosto de como sou, do que me tornei, mas eu já passei dessa fase. Eu já cheguei a me odiar profundamente, mas agora, o que isso importa? Do que adianta? Nada. Apenas torna a realidade mais difícil de aceitar.
Pode ser que eu tenha visto naquele estranho com uma arma apontada para uma das pessoas que eu mais odiava, uma esperança. Mas esperança de quê? De finalmente vê-lo morto? De provar a já tão desejada “liberdade”, depois de tantos anos, mesmo que por curtos segundos antes de morrer também? De ter uma justificativa indiscutível para enfim morrer?
Não sei, e não quero pensar demais sobre isso também.
Então resolvi dizer o que Mello provavelmente tinha visto em meus olhos naquele momento, fosse verdade ou não.
– Eu esperava que você me matasse.
Pode ter sido impressão, mas eu acho que vi um vislumbre de surpresa em sua feição.
– Tão franco assim?
– Prefere que eu minta?
–... – acho que ele ia retrucar, mas depois resolveu deixar pra lá — Prefiro que responda logo a pergunta original.
É, ele realmente não é fácil de distrair. Soltei um suspiro baixo, para mim mesmo, antes de responder da forma mais evasiva que consegui, apenas para conseguir uns segundos a mais para pensar em como dizer.
– Eu não me meti nesse ramo.
A reação que veio já era até esperada. Um riso de escárnio e palavras carregadas de ironia.
– Não, claro que não. Estava naquela casa só de passagem, não era? Apenas aconteceu de encontrar uma arma caída no chão e pensar “Ah, por que não morrer também?”
Cheio de humor ele, não?
Mais um suspiro – Meu pai contraiu uma dívida muito grande com O’Hare, mas não tinha nenhum jeito de pagá-la. Foi então que lembrou que eu existia – senti uma pontada do antigo ressentimento se remexer no meu peito, querendo aflorar, mas tratei de enterrá-lo de volta rápido – Para que mais servem os filhos, não?
– Ele te vendeu? – não conseguia detectar pena nem nada do tipo, mas pude perceber que ele eliminou qualquer vestígio da ironia e deboche de antes.
Concordei com a cabeça e acrescentei – E espalhou para todos que eu era um delinquente que tinha fugido com todo o dinheiro da casa nos bolsos.
Claro, como se algum dinheiro tivesse se salvado da jogatina dele, e como se eu realmente tivesse o pensamento de fugir de casa aos nove anos de idade. Ridículo.
Não sei o que Mello ia dizer a seguir, ao abrir a boca, mas fosse o que fosse, não chegou a dizê-lo. Isso porque o celular tocou nesse exato momento.
E após algumas palavras resmungadas e ininteligíveis – pelo menos para mim, já que parecia que quem quer que estivesse do outro lado conseguia transformar aquilo numa conversa; curta, mas ainda assim uma conversa – ele desligou. E sem dizer uma palavra, pegou seu casaco e saiu.
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