Nako Mizukai: Dobrador de Água
2 Parte 2: Revelações
Era uma noite gélida. Eles se preparavam para o jantar, que era sempre um banquete, feito pelos serviçais da realeza. Nako esperou sua mãe se sentar na mesa. Seu padrasto Zameo já estava em seu lugar. Os gêmeos brincavam no salão exterior ao do jantar.
–Hektor e Akima, venham logo jantar! Por favor! – disse Lori num tom desanimado. Nunca adiantava falar com os dois. Eles faziam o que tinham vontade de fazer.
–Meu amor, está tudo bem. Não precisa se preocupar com eles não. São crianças, você sabe – disse Zameo sorrindo para sua esposa.
Nako suava frio. Sabia que aquela decisão mudaria o rumo de sua vida. Mas ele não podia esperar mais.
Mãe... Preciso te dizer algo – falou Nako, meio tímido.
–Sim, meu querido, pode dizer – respondeu Lori, agora com os olhos fixos em seu filho. Ela sustentava um sorriso meigo no rosto, e Nako sabia que se dissesse o que tinha que dizer, talvez esse sorriso desaparecesse.
–Mãe, não me trate assim como uma criança, já tenho dezesseis anos – sua mãe mostrou um sorriso mais aberto ao dizer isso – Mas é que aconteceram algumas coisas comigo... – Nako não sabia como explicar, ou se teria coragem para continuar.
–Continue filho – Nesse momento, Nako percebeu que até seu padrasto já olhava fixamente para ele. Havia uma gritaria lá fora dos gêmeos brincando. Nako começava a se sentir sufocado. Dizer aquilo era importante para ele. Seu coração já batia mais forte.
–Então, mãe, é que... – “Vamos, diga!” pensava ele consigo mesmo – Eu sou um dobrador de água – Saiu mais baixo do que ele esperava, talvez pela timidez e nervosismo. Nako agora já estava de cabeça baixa, olhando pra comida em seu prato. Temia por uma reação negativa vinda de sua mãe.
–Filho... – parece que Lori também estava sem palavras. Lentamente Nako levantou a cabeça, e pra sua surpresa, sua mãe exibia um largo sorriso de orelha a orelha. Seus olhos brilhavam em reflexo à fraca luz que vinha dos castiçais sobre a mesa. Parecia que lágrimas surgiam em seus olhos – Você não sabe o quanto estou feliz por...
Lori foi interrompida por uma rajada de fogo que irrompeu a abóboda do salão. Nako imediatamente pensou ser um ataque de dobradores de fogo. Ele voltou os olhos para sua mãe, que já se levantara de seu lugar. Seu padrasto já corria para a entrada do salão. No entanto, Nako não conseguia acreditar no que acontecia. No momento mais importante, ele fora interrompido. Só conseguiu pensar de cabeça baixa “Isso não é tudo, mãe”. Momentos mais tarde descobriu que não eram bandidos, e sim os gêmeos Hektor e Akami. Hektor havia conseguido dobrar o fogo, pela primeira vez, atraindo a atenção de todos com suas travessuras com fogo.
Para a preocupação de Nako, ainda haviam coisas a serem ditas. Mais tarde, naquela mesma noite, ele foi atrás de sua mãe. Encontrou-a no quarto, desembaraçando o cabelo de Akami.
–Mãe, preciso falar contigo. Continuar aquilo que estava te falando mais... Cedo.
–Ok, filho. Akami, querida, vai lá ver como está seu irmão, tudo bem? – pediu Lori baixo. Sua filha concordou com sua cabeça. Ao sair deu um sorriso para Nako, que o deixou meio amedrontado. Mas aquilo não iria atrapalhá-lo. Não agora.
–Filho – Lori se levanta e dá um abraço nele – Fico muito orgulhosa de ter um filho dobrador de água, você não tem ideia.
–Obrigado, mãe – responde, meio sem graça – Mas, mãe, acontece que não foi hoje que descobri isso, nem essa semana. Já faz algum tempo. Só foi agora que encontrei coragem para te contar. Coragem, pois tenho algo mais a te dizer – Sua voz ficava mais forte, ao mesmo tempo, sua mãe ficava séria.
–O que acontece, Nako? Pode me dizer – Lori o olhava com um olhar meio perdido.
–Mãe, você não tem ideia de como isso mudou minha vida. Eu tenho esperanças agora. – Lágrimas brotavam enquanto ele tentava escondê-las.
–Como assim, filho? Não entendo.
–Você não vê?! – Sua voz ficava mais alta – Eu sempre fiquei de lado. Primeiro era o Raiki, sempre sendo corajoso e bravo, enfrentando tudo. Agora são esses dois. E eu? Eu sou o quê? Apenas o filho tímido que sai mal na escola e que não tem amigos – Sua mãe o olhava meio desconcertada – Agora, eu tenho um objetivo, eu quero ser um grande dobrador, e quero lutar! E, além disso, quero, mais do que antes, descobrir porque ELE nos... – Outras lágrimas escorriam por seu rosto.
–Filho, já te disse muitas vezes... Não foi sua culpa. Ele tomou a decisão por si próprio – Ela agora segurava as mãos de Nako – Olhe pra mim. Esqueça isso. Isto é passado. – O olhar de sua mãe era suplicante.
–Não mãe. Não mais. – Nako tentava desviar o olhar da sua mãe – Além disso, há algo que decidi nos últimos dias. Mãe, eu não vou ter um grande futuro aqui. Eu vou viajar, vou pra outro lugar, onde eu possa desenvolver minha dobra, me tornar um grande mestre! – Agora Nako já quase gritava. Parecia que toda a coragem que ele precisava sempre existiu, só precisava de um “empurrão” – Já me decidi.
–Mas filho... – Sua mãe começava a chorar.
Nako não quis continuar aquela conversa. Apesar de saber que desapontava totalmente sua mãe, fazer aquilo era necessário. Era para garantir seu futuro, assim como desejava. Ficar longe da sua mãe seria muito difícil, mas uma hora isso teria que acontecer. Nako foi para seu quarto. Esfriar sua mente para pensar no próximo passo. Depois de algum tempo, arrumou uma bolsa com algumas peças de roupas, pegou um pouco de dinheiro que deixava escondido. Seu coração batia forte. Temia por ser uma decisão errada. Deixando o cansaço vencer, deitou em sua cama, e começou a se imaginar como um grande mestre.
Acordou com batidas na porta. Achou que havia dormido toda a noite, mas viu que o céu ainda estava escuro.
–Pode entrar – Disse, sem se importar muito. A porta abriu vagarosamente. Era sua mãe, que trazia consigo o que parecia um pequeno baú.
–Oi, Nako, está melhor? Err... Desculpe-me se estava dormindo, não queria te acordar – Nako estava confuso. Sua mãe não parecia estar chorando. Ela exibia até um pequeno sorriso. – Então, querido, muita coisa aconteceu hoje. Muito... E eu não esperava por nada disso. Acredite, me pegou de surpresa. – Ela soltou um tímido riso. Parecia estar mais relaxada. – Pelo que te conheço, sei que não adiantará mudar sua opinião. Mas não estou aqui pra isso. Pensei muito sobre tudo o que me disse. E sabe o que conclui?... – Nako preferiu não interrompê-la – Que eu prefiro você aqui, perto de mim. No entanto, estamos falando de sua vida, a vida que você quer construir. E por isso não tenho direito de impedir disso.
–Sério, mãe?! – Disse Nako. Ele não conseguia acreditar. Seus olhos brilhavam de felicidade.
–Sim, claro, meu filho. O que você não pede chorando que eu faço por você sorrindo? – Ela exibia um sorriso largo, ironicamente – Por isso, permito que você saia de casa, e trace seu destino. Sabe que me encontro muito em você? Quando jovem, adorava viajar, e acho que você tem o mesmo direito. Apenas uma coisa: por favor, depois te estiver longe de nós, não nos esqueça.
Nako estava sem palavras. Ele só conseguiu dar um abraço na sua mãe. Ela o retribuiu.
–Vou sentir muitas saudades suas – Lori disse.
–Eu também mãe. – Nako respondeu em voz baixa.
–Quando... Pretende ir?! – Sua mãe estava emocionada.
–O mais rápido possível. Queria ir amanhã. Sabe, na Tribo da Água do Norte tem muitos dobradores, mas ouvi falar que em Republic City há muitas escolas de treinamento para dobradores. Acredito que lá posso aprender muito. – disse entusiasmado.
–Tudo bem. Bom, resolvi trazer algumas umas coisas para levar contigo, se quiser, é claro. — Ela destrancou o baú, Nako não podia ver o que havia dentro, mas sua mãe retirou uma peça que parecia de pele de algum animal – Nako, isso aqui era do meu pai, seu avô. É uma pele de lobo. Ele sempre me contava a história disso aqui, mas agora não me lembro... – Lori passou ao seu filho – Você pode usar pra se proteger do frio, mas estou lhe dando, na verdade, pra sempre se lembrar de suas origens, independente de onde você for. Quero te dar outra coisa, mas não sei se vai aceitar. Bom, vamos lá. – E então ela tirou um par de adagas prateadas. Brilhavam muito, apesar da fraca luz do quarto – Sabe, eram do seu pai. Ele me deu, caso fosse necessário me proteger, algum dia. Espero que você não precise usá-las contra ninguém. Seu padrasto tem algo pra te dar também. Entre, Zameo.
Nako ficou confuso. Zameo entrou meio vacilante no quarto. Ele segurava algo na mão.
– Sabe Nako, sei que não nos damos muito bem. Mas enfim, não deixo de gostar de ti. Acho que nesse momento é conveniente um parabéns pela sua, digamos, descoberta. Parece que eu te subestimava, não? – Zameo dá um sorriso, e Nako retribuiu, meio sem emoção — É uma pena não poder ajudá-lo com minha dobra. Mas sei algo que poderá te ajudar em sua viagem. Não durará muito tempo, então use com sabedoria – Zameo joga na cama uma pequena bolsa. Nako abriu, e viu que tinha certa quantia em dinheiro, muito mais do que ele próprio guardava escondido até aquela noite.
–Err... Obrigado?! – Nako não esperava este tipo de atitude de seu padrasto. Talvez ele não fosse tão ruim quanto pensasse.
–Não precisa agradecer. Além disso, já garanti seu transporte até o porto da nação. – disse Zameo sorrindo.
–Obrigado novamente. – disse Nako, se curvando em agradecimento.
–Bom, querido, acho que já está na hora de dormir, amanhã será um longo dia. Só quero te dizer mais uma coisa. Independente do que acontecer daqui pra frente, eu sempre estarei aqui, contigo, e te esperando. Sempre que precisar, pode voltar, tudo bem? Boa noite – Terminou sua mãe, dando-lhe um beijo na testa e mais um abraço. Depois pegou o pequeno baú, e junto com seu esposo, saíram do quarto, fechando a porta.
Nako ainda não podia acreditar no rumo que sua vida estava a tomar. Não sabia se ao menos conseguiria dormir esta noite por tanta ansiedade de sentia.
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