Nada é para sempre...
1 Capítulo único
Notas iniciais
— FERNANDO -
Meu nome é Fernando Mendiola, mas acho que isso não importa agora, porque na verdade, nada mais importa, pois não a tenho mais ao meu lado. Mas, para ser sincero, acho que não culpo a ninguém, nem mesmo ao animal do Omar Carvajal, pois eu tinha desde o início o livre arbítrio de não seguir com aquele plano nojento, mas mesmo assim prossegui, literalmente cavei minha própria cova.
E quem é ela? Bom, seu nome é Letícia Padilha Solís... Ah, a minha Lety. Eu não tenho a menor dúvida desse mundo que ela me mudou completamente, não tenho a menor dúvida de que ela criou um novo Fernando, um Fernando que finalmente sabe amar, e não apenas enganar uma mulher por noite. Mas, como eu mesmo disse, nada mais importa, ela não está mais aqui, ela se foi para tão longe que eu nem mesmo sei onde está, ela partiu e eu fui o maior causador de sua partida. Bendita a hora em que Carvajal e eu criamos aquele plano ridículo de seduzi-la, enganá-la, apenas para recuperar a empresa que eu mesmo levei a falência. Em um grande resumo, sem mais melancolias: minha vida está literalmente sem rumo, sem significado, não vejo mais motivos para continuar vivendo, respirando sem ela ao meu lado.
— Fernando, saia dessa sala, vá passear um pouco, irmão. – Carvajal entra em minha sala e me pega olhando para a única foto que tenho ao lado de Lety, que para mim será sempre a mulher mais linda de todas. – Vai acabar criando raízes nessa cadeira, de tanto que fica parado ai.
— Você não percebe que eu quero ficar sozinho, Carvajal? – pergunto, sendo obrigado a tirar os olhos de nossa foto e olhar para aquele animal parado a minha frente.
— Me desculpe, querido ex-presidente. – ele se apoia em uma das cadeiras e ri. – É que você está com uma cara de morto vivo, que me dá até um arrepio na espinha.
— Eu não quero conversar com ninguém, só isso. – volto a olhar para aquela foto que me faz querer morrer. – Alguém teve alguma notícia da Letícia?
— Ah, você está assim por causa da Horrolety? – o idiota do Carvajal simplesmente ama me tirar do sério. Eu nada respondo, apenas o fuzilo com os olhos e sua risada cessa automaticamente. – Quero dizer, não, ninguém teve notícia alguma dela.
— Ótimo. – volto mais uma vez a olha a foto. – Agora pode, por favor, sair daqui? Eu quero ficar sozinho hoje.
Ele nada mais respondeu, graças a Deus, apenas deu de ombros e se retirou da minha ex-sala. Todos os móveis, cada canto desse cômodo, me trazem lembranças de nosso amor, do nosso primeiro olhar, dos presentes idiotas que o Carvajal me fazia entregar, mas que conforme o tempo foi passando, tornou-se algo tão real, algo tão puro e terno. Sim, ela me fez sentir ternura, uma coisa que nunca havia sentido antes. Imagine, um homem como eu sentindo ternura? Letícia foi capaz de fazer isso.
A culpa me corrói, não apenas a culpa de ter mentido para Lety, a culpa de ter praticamente acabado com a empresa dos meus pais, a culpa de ter arruinado e afundado tudo ao meu redor, me deixa louco, pesa muito e eu já não agüento mais isso.
Pego a chave de meu carro e levanto-me determinado a sair daquele lugar nostálgico. Limpo meu rosto e saio da sala. O quartel das feias não está em seus postos, provavelmente se encontram no banheiro, como sempre, mas isso é melhor para que eu saia sem ter que dar satisfação alguma. Passo apressadamente por Alice, que pinta suas unhas e não me vê, o que também não é novidade alguma. Mas, ao meio do caminho, encontro Ramón, e meu plano de sair despercebidamente acaba falhando.
— Seu Ferny, você está bem? – ele se aproxima com um misto de curiosidade e preocupação em sua voz.
— Tudo bem, Ramón. Obrigado, obrigado. – respondo fazendo reverências, coisas que aprendi com Lety.
— Parece perturbado. – ele continua falando, mas já me acostumei com ele.
— Estou bem, obrigado. – repito enquanto me distancio dele apressadamente.
Já no estacionamento, não há ninguém em seu posto, mas um ponto dessa empresa que não me espanta em nada, então torna muito mais fácil pegar meu carro e sair. Saio completamente sem rumo, não planejo nada, apenas dirijo o mais longe possível daquele lugar, mas Lety não sai de minha mente em momento algum, meus pensamentos voam tentando descobrir onde ela está, com quem, e a ideia de que talvez ela esteja com outro homem me traz um ciúme completamente incontrolável. Piso mais ainda no acelerador e completamente sem rumo, noto que acabo de sair da cidade, rumo a uma estrada qualquer do litoral.
Meu celular toca em meu bolso, provavelmente Ramón já havia me dedurado para Marcia a essa altura do campeonato, mas eu não iria parar e nem ao menos atender. Pego uma mini garrafa de metal com uma bebida alcoólica qualquer dentro, jogada no banco ao meu lado, e começo a virá-la em minha boca, totalmente ciente de que isso é completamente perigoso, mas talvez seja isso que no fundo eu esteja tentando fazer mesmo; me embriagar, causar um acidente, me matar para que todo esse sofrimento e culpa finalmente desapareça.
Esse tipo de pensamento apenas faz com que eu acelere mais e mais, ainda com o ruído de meu celular a tocar. Entre um gole e outro, acabo com a bebida e as lágrimas ao pensar em Letícia rolam ininterruptamente. Ah, minha Lety, só Deus sabe o quanto eu te amo... Pesa tanto essa dor em meu peito, me mata aos poucos por dentro, lentamente.
Logo à frente, há uma curva, daquelas que como dizem as placas, são extremamente perigosas. Um filme passa por minha mente, toda minha trajetória até aqui, todas as conquistas, todas as decepções e derrotas, os amores... Quer dizer, o amor, o único verdadeiro que jamais terei novamente, por um erro estúpido de minha parte. Afinal, se eu não voltar mais, a empresa irá para frente, não serei mais a decepção de meus pais, Lety poderá voltar e governar tudo, pois ela sim é sempre será a verdadeira presidente daquele local, por mais que contrariem a ideia. Sem pensar em mais nada, apenas sentindo a dor que jamais cessara, acelero um pouco mais, dou um último gole em minha bebida e simplesmente não completo a curva, passo reto, indo diretamente para um grande morro sem fim. Não sinto muita coisa depois disso, apenas sei que com a morte eu jamais precisarei ser uma pedra na vida de ninguém, nem ao menos em minha própria vida, nunca mais magoarei ninguém, nunca mais ninguém chorará por mim. Deixo-me levar por um capote e outro do carro, logo estou completamente sem consciência, e a última coisa que penso é que independente de onde esteja, realmente só Deus sabe o quanto amo e para sempre amarei Letícia Padilha Solís.
— LETÍCIA —
Um mundo sem Fernando Mendiola? Realmente, isso é impossível para mim, apesar dos pesares, ele é a alma de tudo, é a minha alma. Estava no litoral quando minha mãe me telefonou com a terrível notícia de que o Seu Fernando havia falecido em um acidente de carro. Nada mais habita em meu peito, sinto que uma parte de mim se foi junto com ele. Simplesmente não penso em mais nada, apenas peço para Carolina me levar de volta para a capital, sinto que preciso voltar. Aldo, um homem magnífico que conheci no litoral, se dispõe a me acompanhar, mas eu simplesmente não acho viável, o único homem que desejo é o meu Seu Fernando, tão lindinho.
A cada minuto que me aproximo, sinto meu coração parar e doer ainda mais, uma dor completamente insuportável. Recordo-me de cada momento ao seu lado, da nossa primeira noite de amor, nossos passeios românticos, até mesmo sua mentira doeu menos que a notícia de tê-lo perdido para sempre. Não vou nem ao menos a minha casa, me dirijo diretamente para a Conceptos, preciso saber o que realmente aconteceu.
Tudo morreu junto com o Seu Fernando, sinto um ar vazio e obscuro ao adentrar na empresa. Jamais vi o meu quartel tão calado, tudo virou silêncio, dor, vazio. Marcia chora descontroladamente na sala da presidência, junto com todos os outros pertences do ex-presidente. Nunca a abracei tão apertado e de modo tão sincero como a abracei no momento que entrei em minha antiga sala. Na tela de seu computador, nossa foto estava aberta e isso foi como uma facada em minha barriga. Em minha mente aquilo ainda é uma completa mentira, me sinto tão culpada em tê-lo deixado, no fundo sinto que a culpa de sua morte foi minha.
Em seu velório, nada mais havia a não ser a dor extrema e a certeza de que nunca mais haveria outra pessoa como ele naquela empresa, com sua alma infantil, com seu jeito desajeitado e tão lindinho. A empresa perdeu sua alma, perdeu sua vida, e eu perdi o amor de toda a minha vida. Sei que nunca mais sentirei o que senti com ele, sei que nunca mais amarei e serei feliz com outro que não seja o Seu Fernando. Minha alma se foi junto com a dele, mas as lembranças estarão para sempre em minha mente, me matando um pouco mais a cada dia, lembranças de um homem, que apesar dos pesares, provou que o amor é capaz de transformar qualquer coisa, que o amor tudo muda. Um homem que nunca mais será esquecido pelo quartel por ser o único membro masculino em meio a todas as outras mulheres, por Omar Carvajal, seu fiel escudeiro, por Marcia, a mulher que sempre o amou com toda a alma, e por mim, a que jamais se esquecerá do meu lindinho, o Seu Fernando, aquele que amarei incondicionalmente para sempre, sem parar. E isso nem ao menos a morte é capaz de mudar.
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