Nada pra mim
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Scorpius
Eu tinha chegado à Sala dez minutos antes. Shelby mais uma vez não me desapontou.
A sala estava iluminada pela lareira e algumas velas em candelabros opulentes sobre a mesa, além de vasos de flores. Se eu quisesse impressioná-la, ali eu teria minha melhor chance; mas não era o caso. Era só um jantar.
Não conseguia parar de pensar que Rose talvez achasse aquilo muito esnobe. Mesmo que o Scorpius racional ficasse me questionando sobre por que motivo eu tanto me importava com o que ela ia achar.
Eu estava usando minha melhor colônia, tinha penteado meus cabelos para trás e colocado uma camisa social cinza com uma calça escura. Qualquer um que me visse juraria que eu estava me vestindo para algum encontro.
Absorto nesses pensamentos, me assustei quando a porta se abriu pontualmente às oito da noite.
Claro, ela era certinha demais para se atrasar por um minuto que fosse.
E quando ela entrou eu esqueci de toda aquela bobajada de poder estar exagerando.
— Uau! — Foi o único som que consegui emitir.
Ela estava... maravilhosa.
Eu já tinha notado o gosto dela por moda e essas coisas caras. Não era nada gritante, como na prima dela Dominique, por exemplo, que estava sempre exibindo algum diamante brilhante demais para a ocasião.
Mas eu tinha aprendido um bocado de coisas tendo vivido boa parte do tempo cercado de mulheres e sacolas de roupas de boutique, como minha avó, minha mãe e Tia Daphne, Suzie e suas amigas. Sem contar as infinitas semanas de moda em que eu era obrigado a ficar de acompanhante...
Era natural para mim notar coisas que homens em geral não prestam a mínima atenção ( de tanto ouvir, acabei aprendendo ).
Os cabelos ruivos de Rose estavam sempre presos em algum penteado simples e elegante.
Ela nunca estava muito maquiada como as garotas da nossa idade normalmente estavam, mas o rosto dela costumava exibir a tal da maquiagem natural, que a Suzie chamava de "acordei-assim-linda!" e demorava o dobro do tempo para fazer — e também gastava o triplo de produtos.
Eu sempre achei que aqueles trecos eram enfeitiçados, mas aparentemente não são: as garotas passam cinquenta camadas daqueles pózinhos e tintas trouxas que são vendidos em potinhos estranhos e elas se diferenciam entre as que realmente parecem ter passado massa corrida e se fantasiado pro Halloween e as que conseguem fazer a tal da maquiagem natural e permanecerem bonitas. Rose parecia ter já nascido sendo do time das que sempre permaneciam bonitas.
Os sapatos... Sim, aí eu podia até parecer gay mesmo. Eu era maluco com sapatos e pés femininos. E eu não lembrava de Rose repetindo um sapato sequer. Mesmo os do uniforme escolar... Cada dia os pés dela calçavam um par diferente que preenchia os critérios exigidos pela escola (ou ela roubava nesse quesito, sei lá!).
Nos horários livres então, ela usava tudo que tinha direito. Aqueles sapatos trouxas de sola vermelha que custavam pequenas fortunas e deixavam o mulherio enlouquecido... acho que ela fazia uma coleção deles. Ah, e tinham também aqueles saltos de uns vinte centímetros que gostavam de aparecer nas festinhas do castelo.
Ela usava tudo sem nunca parecer uma gazela recém nascida, mas com as pernas sempre firmes como quem caminha tranquilamente descalça pela grama. Me lembrava a postura e o andar elegantes de minha avó.
Suas roupas sempre muito alinhadas, ajustadas e bem cortadas, pareciam ser feitas sob medida e com aqueles aqueles tecidos que eram cada um mais nobre que o outro, nas estampas clássicas ou nas mais novas da estação.
Ela parecia transportar páginas de revistas de moda, passarelas de desfile e vitrines de boutiques para os corredores de Hogwarts. Só que, diferente da prima francesa piranha dela, ela fazia isso com naturalidade e sem chamar muita atenção. Ela nunca era aquela a vestir a "mais nova tendência", que não passava de uma roupa muito mal escolhida — como quando aquela semana de moda masculina tentou convencer todo mundo (até a Suzie acreditou!) de que ternos laranja-neon seriam estilosos.
Bom senso... Essa era a palavra! Rose tinha bom senso para não sair ridícula por aí, mas era moderna o suficiente para ser confundida com qualquer garota antenada de Manhattan, não fosse o forte sotaque britânico.
Dinheiro não era problema para ela. Não mesmo. Meu pai me contou uma vez que já houve um tempo em que os Weasley não tinham muita grana. Porém, nos dias atuais, isso parecia uma piada: Arthur Weasley era o Ministro da Magia inglês, os seus familiares mais velhos se ocupavam com altos cargos no Ministério da Magia e/ou com variados negócios bem sucedidos, além de com o Quadribol ( como o pai de Rose ), o esporte que melhor pagava seus atletas, principalmente em terras inglesas.
A família dela era tão tradicional que facilmente poderia ser chamada de perfeita tradução bruxa da família real britânica.
E Rose era daquelas garotas que pareciam princesas natas: além do dinheiro de sobra, tinha o bom gosto, a educação e a elegância de uma perfeita lady trouxa.
Enfim, ali estava eu, boquiaberto e sem palavras, diante da "princesa" ruiva. Ela usava um perfume delicado, tinha cabelos trançados, calçava botas na altura dos joelhos e vestia um sobretudo preto com alguma roupa de gola azul que encobria até o pescoço.
— Uau! — Eu repeti, sem conseguir expressar qualquer outra coisa.
— Hmm, boa noite, Scorpius. — Ela falou baixinho, com timidez.
Claro que ela estava tímida! Eu estava feito um bobo parado olhando atentamente para cada detalhezinho nela. Eu estava "somente" admirando como ela estava estonteante e linda, mas ela devia estar se sentindo cuidadosamente examinada por um estranho voyeur.
— Boa noite, Rose. — Consegui articular algumas palavras antes que ela saísse a correr pelo castelo assustada com as minhas encaradas e a minha mudez. — Posso guardar seu casaco?
— Sim, por favor. — Ela disse, ainda timidamente e em voz baixa. Abriu o pesado casaco de inverno — que realmente não era necessário para a sala aquecida pela lareira — e revelou um vestido azul marinho de mangas longas e comprimento pouco acima do joelho.
— Uau! — Eu não me segurei e exclamei novamente.
'Excelente, Scorpius. Agora que ela finalmente começou a conversar com você... você chega e me passa pra ela um atestado de retardado e pervertido.'
— Rose, você está linda!
— Hmm... Obrigada... Você também não está mal... — Ela falou, ainda parecendo um filhotinho assustado. — E... Gostei da decoração.
Ela agora admirava a mesa posta por Shelby. Ao fundo podíamos ouvir um rádio com música clássica e ela parou, prestando atenção nos sons.
— Bach é o meu preferido! Você também gosta de música clássica? — Ela perguntou, animada e atenta à música.
— Bom, eu não detesto. Acho até bem agradável. Mas nunca sei distinguir essas sinfonias todas, para mim é sempre a mesma música. — Ela riu, ainda tímida. E assim eu terminei de completar meu papel de bobo na frente da garota.
Não sei se era o fato de parecer bobo por si só que estava me incomodando. Não queria fazer papel de idiota na frente daquela garota especificamente...
Além do mais, nem era tão ridículo assim não saber diferenciar música clássica com tanta facilidade, isso não seria motivo de tanta vergonha. Claro, se não fosse na frente da Weasley-Sabe-Tudo ( inclusive música clássica trouxa! ).
— Foi Shelby quem colocou a música, na verdade. O rádio já estava tocando quando entrei. Mas ele é enfeitiçado para agradar quem está ouvindo, então provavelmente ouviremos seu querido Bach durante todo o jantar.
— Não poderia haver melhor escolha.
Estávamos conversando sobre amenidades. Ambos. Eu estava fazendo isso propositalmente e ela, ao que tudo indicava, também não o fazia sem querer. Afinal estávamos extremamente bem vestidos de frente a uma mesa posta para duas pessoas jantarem à luz de velas.
A música, nossos perfumes, as flores na mesa: era tudo escandalosamente romântico demais. Éramos dois semi-desconhecidos prestes a ter um jantar quase que digno de uma proposta de casamento!
Sim, eu fazia o tipo romântico quando a garota com quem eu estivesse saindo valesse a pena o esforço. Mas um jantar daquele porte... acho que nem minha única ex-namorada tinha presenciado um momento daquele ali. Sem contar o fato óbvio de eu não estar sequer saindo com Rose.
Era pra ser só uma companhia para jantar, mas eu quis poupá-la dos olhos curiosos do Salão Nobre e sugeri que ficássemos na Casa dos Monitores.
Era uma questão de dias até que a notícia da separação dos pais dela estourasse na primeira página do Profeta Diário e nas manchetes de todos os outros veículos de comunicação bruxa. Ela merecia curtir um pouco de paz que ainda lhe restava.
Quando fui pedir a Shelby que arranjasse nossa refeição, eld me perguntou se eu gostaria de impressionar a bela ruiva, pois ele cuidaria de tudo. (Acho que ele gostou de Rose, pois estava animado demais com a minha nova amiga.)
Na hora da pergunta, "impressionar a bela ruiva" pareceu uma excelente idéia. Na prática, a tentativa acabou por se tornar um dos momentos mais esquisitos da minha vida: eu parecia um garoto de 12 anos no meu primeiro encontro no Madame Puddifoot's com uma garota que definitivamente não era pro meu bico.
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