Nada é real até que se acabe
19 Antes que seja tarde
Notas iniciais
“So stand on the edge with me
Hold back your fear and see
Nothing is real 'til it's gone.”
“Então fique à beira comigo
Contenha seu medo e veja
Nada é real até que se acabe.”
“Toneri se lembrava perfeitamente da primeira vez que vira Hinata.
Seu pai lhe apontou quem era a pequena de olhos perolados e cabelos tão escuros, quase azuis, em contraste com a pele tão branca e pura. Ela mal completara cinco anos. Seu pai lhe dissera ‘Essa será a esposa ideal aos Otsutsuki. Sua esposa ideal, Toneri.’ E ele crescera com o sentimento de que sua meta seria conquista-la. Não ali, numa festa tão formal dos Hyuuga e sendo tão novos, mas sim no futuro. A ela Toneri acreditou pertencer.
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Grande parte de seus estudos foram feitos fora do país, no entanto, ele sempre voltava à Konoha. Quase no ensino médio recebera a notícia: seu pai havia falecido por conta de um AVC e Toneri mal cumprira os deveres que ele havia lhe delegado. Ele voltara a Konoha, enterrara seu pai, e agora sozinho – apenas na presença de sua tia, já que sua mãe morrera em seu nascimento – fizera a promessa de que seria fiel às palavras dele: se casaria com Hinata Hyuuga. A começar a se aproximar de seu primo para jogarem tênis nos fins de tarde e se matricular na mesma escola que ela. Hinata poderia amá-lo um dia e desejar àquela união tanto quanto ele desejava.
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Adorava encontra-la pelos corredores e pelas pequenas conversas que compartilhavam. Quando ela lhe sorria, escondendo seu rosto timidamente, pela sua forma extrema introvertida. Porém, odiava quando seus olhares demoravam no loiro escandaloso de sua sala. Quando seu rosto ficava completamente vermelho a ele, quando percebia sua respiração entrecortada, quando aquele moleque de roupas maltrapilhas e sem modos algum era o centro de atenção de Hinata. Odiou quando soube que agora ela lhe ajudava nas matérias. Odiou quando ouviu Hinata rir pela primeira vez ao lado dele. Odiava Naruto Uzumaki.
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Era óbvio que ele lhe faria sofrer. Ninguém amaria Hinata como ele amava, ninguém a faria feliz como ele faria. Encontrá-la de olhos cheios de lágrimas por conta do imbecil de Naruto, encheu-lhe o peito de razão. Hinata não deveria ficar com ele, sequer sentir algo por ele. Por isso, impediu que os dois se encontrassem pela escola e foi vitorioso quando Hinata também queria distância dele. Fez o possível para que ele soubesse que não era bem quisto. Até o último dia de aula. Prometeu-se a si mesmo que, depois da formatura, faria o pedido oficial a Hiashi Hyuuga para que os dois se conhecessem melhor. Até que descobrira: Hinata havia partido para Kumo, junto à Neji, por culpa de Naruto. Seu coração se partiu. Ela nem se despedira dele pessoalmente – apenas lhe enviara mensagens de texto de despedida. Agora Toneri a havia perdido.
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Quatro anos atrás, sentado à sua mesa, ele ouvia seus sócios discutindo sobre um terreno bem localizado em Konoha que poderia ser usado para os novos investimentos das empresas Otsutsuki. Estava no seu último ano da faculdade em seu curso de economia, sem grandes preocupações. A faculdade não lhe era um grande desafio, não perto de ajudar sua tia Kaguya no comando das empresas, que lhe colocara como responsável, enquanto desfrutava uma vida rodeada de luxos e compras.
— Esqueçam. Esse terreno está bloqueado pela prefeitura. – Momoshiki disse, cruzando os braços.
— Por que a prefeitura bloquearia o terreno?
O mal humor de Toneri era evidente.
— Veja isso. – Momoshiki entregou a Toneri um jornal, sinalizando a notícia que causara o desconforto. – Por conta de um projeto de um estudante da universidade de Konoha e estagiário na prefeitura, o terreno está bloqueado. Não há muitos detalhes sobre para o que exatamente seria isso.
Com o papel em mãos, Toneri focou seus olhos na notícia, mais especificamente na imagem do tal aluno, criador do projeto misterioso que agradara o prefeito. Sentiu seu estômago embrulhar. Era ele. Era ele mais uma vez lhe causando problemas. Seus olhos se apertaram ao ver o jovem loiro, sorrindo, ao lado do prefeito.
— Naruto Uzumaki. – Falou, com desprezo. – Suigetsu, ligue na prefeitura e marque uma reunião com o prefeito e esse cara. O mais urgente possível.
Suigetsu engoliu em seco e concordou, saindo da sala rapidamente.
— O que pretende fazer?
Toneri encarou Kinshiki e Momoshiki que o olhavam.
— Eu vou acabar com esse cara. Eu o conheço. Ele já vem me atrapalhando há anos.
— Não faça besteiras, Toneri. Não suje nosso nome em Konoha.
Toneri cruzou os braços.
— Isso agora é pessoal. Eu o quero tirar do meu caminho e tentarei fazer isso da forma mais diplomática.
Momoshiki se recostou a sua cadeira.
— Não envolva problemas pessoais em uma negociação. Você não responde só por si mesmo.
A entrada abrupta de Suigetsu impediu que Toneri respondesse Momoshiki.
— Apenas o prefeito está disponível. – Suigetsu parou em frente à mesa, enquanto todos o encaravam. – O tal do estagiário está indo para Kumo hoje mesmo e volta em alguns dias.
Os olhos de Toneri se arregalaram. Naruto estava indo para Kumo. Estava indo até Hinata.
Momoshiki se levantou, seguido de Kinshiki.
— Iremos verificar outros terrenos por Konoha enquanto não podemos resolver essa situação. Toneri. – Os olhares se encontraram. — Não é só porque você tem a maior parte das ações que pode tomar decisões impensadas. Nós ainda somos a outra parte significante.
Com a saída de seus sócios, deixando apenas Toneri e Suigetsu para trás, o ambiente se tornou pesado. O Otsutsuki caminhou até a janela que dava a vista de Kiri. Estralou seus dedos, perdido em pensamentos.
— Você ainda quer aquela promoção, não quer, Suigetsu? – O outro o olhou, concordando. – Nós vamos a Kumo e você vai fazer o que eu disser. Além da promoção, prometo lhe dar sua tão sonhada coleção de espadas.
Suigetsu sorriu, continuando a concordar.
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Após destrancar a porta de entrada, Hinata abriu espaço para que Tenten entrasse em seu apartamento. A morena entrou, sem delongas, observando o local. Conhecia bem aquele lugar, estivera ali diversas vezes com Neji.
— Vou preparar um chá para nós.
Hinata sumiu no corredor, deixando Tenten na pequena sala. Ela passeava os olhos pelas fotografias sobre a mesa. Fotos de Neji ao lado de Hinata e Hanabi, de Hinata com suas amigas e até mesmo de Neji com seu antigo time de judô – quando, de fato, eles se conheceram. Rock Lee sorria exageradamente, junto ao seu treinador, Maito Gai. Tenten sorria discretamente tanto na fotografia impressa quanto agora, perdendo a noção do tempo. Aqueles haviam sido anos dourados. Costumavam passar algumas tardes da semana treinando incansavelmente, cumprindo os desafios malucos propostos pelo seu sensei. Os passos de Hinata próximo a si lhe tirou a atenção às fotografias. A Hyuuga sorriu, oferecendo-lhe uma caneca. Estava já há uns bons minutos admirando as fotografias.
— Parece que essas lembranças estão tão distantes.
Hinata voltou os olhos a fotografia de Tenten, Rock Lee, Neji e Maito Gai.
— Essa era uma das fotos favoritas dele. – Tomou um gole de seu chá. – Por isso ele a deixava em maior destaque aqui na escrivaninha.
A morena de coques respirou fundo, desviando seu olhar de Hinata.
— Eu o amei tanto. Completamente. Ainda penso nele quase todos dias.
Os olhos perolados olharam o perfil de sua amiga. Hinata apertou os lábios. Por mais melancólico que fosse, era bom saber que mais alguém além dela sentia tanta falta de Neji – e no caso de Tenten com certeza as saudades eram ainda mais doloridas. As duas ficaram alguns segundos em silêncio. Até que Tenten intervisse:
— Neji descobriu que foi Toneri quem armou para o Naruto. – Ela caminhou até o sofá do lado da pequena mesa. – Ele foi até o tal clube e pediu para ver as câmeras. Por lá viu Toneri, um fotógrafo e Suigetsu, conversando horas mais cedo de Naruto ser levado até lá.
A Hyuuga se sentou ao lado de Tenten.
— Suigetsu?
— Sim, esse era o tal que se apresentou a Naruto como funcionário do escritório em que Neji trabalhava e o levou até a boate. Na verdade, ele trabalhava pessoalmente com Toneri. Ele confessou toda a verdade a Neji.
Hinata tomou o último gole de seu chá.
— Nunca pensei que Toneri odiasse Naruto tanto assim.
— Nem Neji. – Tenten falava entre os goles. – Quando ligou os pontos, ficou claro como tudo aconteceu. Você deve imaginar, seu primo não ia deixar que Toneri se safasse assim. Com ele, Neji foi um pouco mais longe do que com Naruto.
Hinata olhava Tenten, esperando que continuasse. Um sorriso surgia em seus lábios.
— Seu primo era um gênio. Ele não falou diretamente com Toneri. Ele ligou para seus primos que são donos de cinquenta por cento das empresas Otsutsuki, Momoshiki e Kinshiki. Contou a eles absolutamente tudo o que tinha acontecido, aconselhando-os que se afastassem totalmente dos Hyuuga e também de Naruto, senão Neji pessoalmente os processaria. – Tenten olhou para Hinata. – E você sabe, Neji era em excelente advogado. Depois os parentes de Toneri o proibiram de se aproximar de você, ou ele perderia o comando da empresa.
A Hyuuga sorriu. Seu primo era uma pessoa excepcional.
— De uma certa forma então ele também escolheu proteger Naruto.
— Ele não gostava de Naruto, mas acabou percebendo que estava sendo injusto.
O silêncio que se instaurou durou alguns segundos. Tenten, perdida nas lembranças do que havia acontecido com seu falecido noivo. Hinata, retomando todo o caminho que seu primo fizera, vendo toda a situação de uma perspectiva totalmente diferente. A última se levantou, levando as duas canecas para a cozinha. Ao voltar, parou na entrada da sala, olhando sua amiga. Chamou-a, baixo. Assim que Tenten a encarou, Hinata fez questão de sorrir:
— Venha, vamos ao quarto de Neji.
O ambiente cheirava a pó. Grande parte dos objetos estavam intocados desde que seu primo falecera. Incontáveis livros na estante, sendo separados por pastas cheias de papéis. Alguns objetos pessoais ficavam dentro de uma caixa, no canto do cômodo.
— Não tive coragem de doar suas coisas. – Hinata disse, sentando-se a cama, enquanto Tenten passeava observando os objetos. – Neji era tão metódico que às vezes penso que seria melhor não mexer em nada e deixar tudo como à maneira dele.
— É como se ele fosse voltar, não é?
Os olhos da Hyuuga se encheram de lágrimas. Hinata desviou seu rosto.
— Por isso eu nunca quis sair de Kumo, nunca quis voltar a Konoha. – Respirou fundo. – Seria como se eu estivesse o traindo, fugindo do caminho que ele havia me ajudado a seguir. O caminho que me faria bem.
Tenten se sentou ao lado de Hinata, pegando em suas mãos, encarando seus olhos.
— Hina, você não sabe se ficar em Konoha te faria mal. Tudo o que Neji lhe ofereceu foi uma fuga e isso só te fragilizou ainda mais. – Os olhos amendoados de Tenten eram compreensíveis. – Quando Neji passou mal pela primeira vez e foi internado ele percebeu isso. Percebeu que só havia te guiado pelo caminho mais fácil. Mas ele não nunca podia ter certeza se isso te daria paz.
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Sentado a cama do hospital, os olhos do Hyuuga continuavam na janela, olhando com atenção os pequenos pontos luminosos no céu escuro. Há algumas horas havia recebido o diagnóstico: suas dores de cabeça eram por conta de um aneurisma cerebral. Estava fadado a uma cirurgia que teria que fazer em poucos dias.
O barulho de passos o fez endireitar sua coluna e se sentar de forma ereta.
— Aqui está sua água. – Neji agradeceu Tenten, que agora estava a seu lado, olhando-o curiosa, enquanto ele abria a garrafa e tomava alguns goles.
— Obrigado. – Colocou a água sobre a mesa ao lado da cama. – Por que olha assim?
— Hoje a caminho do hospital estive me lembrando. Já faz três meses desde aquela confusão com Naruto e Toneri e até agora você não contou nada disso a Hinata.
Neji desviou o olhar de Tenten.
— Eu tenho receio de que isso deixe Hinata ainda mais insegura. – Tenten o olhou, impaciente. Neji não deu tempo que ela respondesse. – Eu sei que está certa. Eu sei que o eu fiz não foi o mais correto. Mas eu sempre vou protege-la, Tenten. Ela é como minha irmã.
— Eu não estou o julgando por isso, Neji. – A morena se aproximou mais dele, olhando-o com carinho. – Eu entendo que foi dessa forma que você aprendeu. Mas você só a está fazendo trilhar o mesmo caminho que você. O mesmo caminho que fez com que você se afastasse para viver o que queria sem ser julgado. Mas é você está a julgando agora, controlando quem quer que fosse a entrar em sua vida, assim como Hiashi fez com você.
O Hyuuga cruzou os braços.
— Não é possível que você ache que Naruto seja uma boa escolha para ela.
Tenten sorriu, achando graça na forma que ele falava.
— Ele é um moleque irresponsável.
— Mas é sincero, é corajoso, é inconsequente e segue seu coração. – Neji revirou os olhos. – Sabe por que Naruto te incomoda tanto? É porque ele teve coragem de fazer o que você nunca teve. Ele teve coragem de lutar pelos seus sentimentos sem medo de ser julgado.
Neji soltou uma risada muda.
— Não começa, Tenten.
— Você sabia que ele tem um projeto para ajudar crianças órfãos? Ele quer construir um-
— Centro de recreação. Eu sei.
Tenten se surpreendeu.
— Como soube disso?
— Eu li o projeto dele. É realmente interessante. – O Hyuuga reparou no sorriso de sua noiva. – Inclusive o terreno que ele gostou para o centro é o mesmo que as empresas Otsutsuki queria comprar.
Tenten balançou a cabeça, olhando seu noivo.
— Isso explica muito.
Após alguns segundos em silêncio, Tenten o viu soltar o ar com força.
— Eu não gosto do Naruto. Ainda falta muito para ele amadurecer e ser merecedor da Hinata. – Desviou os olhos, mais uma vez a janela. – No entanto, eu sei que ele tem o que eu nunca tive. Eu sei que ele pode chegar longe. E por todo esse tempo em que vi Hinata sofrendo por ele, eu sei o quanto ela é capaz de amá-lo.
Tenten se aproximou e apertou uma de suas mãos, ainda observando seu noivo distraído pelas estrelas que iluminavam o céu.
— Esse é o momento que você assume que eu estava certa desde o início.
O Hyuuga olhou para ela, carinhoso.
— Mais uma razão para você ser minha mulher.
A morena sorriu, sincera.
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As lágrimas molhavam seu rosto. Hinata apertava seus lábios, tentando evitar mais lágrimas e mais choro. Seu coração se apertava, sua voz falhava.
Tenten nada disse, apenas a olhou complacente.
— Dois dias depois Neji faleceu na mesa de cirurgia, sem ter tempo de falar com você. Eu iria te contar tudo isso se você tivesse escolhido voltar a Konoha, mas quando optou por continuar vivendo em Kumo eu imaginei que você estava bem e realizada por aqui. Que tudo era passado. E aí Lee me contou o que havia acontecido com você e Naruto e eu percebi que não podia esconder mais toda essa história.
A Hyuuga respirou fundo, procurando acalmar seu próprio coração. Suas mãos tremiam e seus olhos ardiam, enquanto seu rosto era coberto pelo choro que não conseguia conter mais. Hinata se levantou, caminhando até a janela do quarto, olhando para fora. A lua estava alta, clara, sem qualquer nuvem cobrindo seu brilho. Desde que voltara de Konoha, era a primeira noite que via a lua tão linda e clara no céu. Abraçou o próprio corpo, respirando fundo.
— E-Eu errei.... Eu errei com Naruto, eu disse coisas a ele... Coisas que eu nunca deveria ter dito.
Tenten se aproximou, colocando sua mão no ombro de Hinata.
— Ainda não é muito tarde. – A Hyuuga se virou para sua amiga, que sorria levemente. – Converse com ele, conte a ele sobre o que você soube, sobre a mudança de Neji em relação a ele.
Após alguns segundos, as lágrimas cessaram. Hinata encarou Tenten, sorrindo, esperançosa. Seus olhos brilhavam.
— Eu tive uma ideia. Acho que vou precisar de sua ajuda, Tenten.
— Claro! – A morena se aproximou, concordando. – O que precisa?
— Preciso de alguns documentos de Neji e... Também preciso falar com meu pai e seus advogados.
Tenten franziu a testa sem entender enquanto Hinata apenas sorria decidida.
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