Nada é para sempre
1 Conto
Notas iniciais
· Victoria Hauer ·
Muitas vezes, parece que nós estamos apenas sobrevivendo e não vivendo, não é? Como se a nossa vida estivesse assim, em um loop infinito. Era exatamente dessa forma que eu me sentia antes de conhecer Hazel Bernardi. Eu quero dizer, tenho três filhos... Três lindos e maravilhosos filhos, os meus gêmeos de treze anos e a minha menina de ouro de dezoito. Mas eu praticamente vivia para eles e com Hazel, eu passei a pensar um pouco mais em mim.
Nós nos conhecemos por causa de um amigo em comum, o meu ex marido. Tony e Hazel se conheceram na delegacia onde trabalham, logo não demorou muito para se tornarem amigos e então parceiros, em seguida acabamos nos esbarrando em alguns eventos por causa de Tony. Eu não sei ou não lembro exatamente em qual momento, mas nós duas nos aproximamos muito, passamos a nos encontrar depois dos meus plantões no hospital e seus turnos na delegacia. Eu também não sei quem se apaixonou primeiro, mas com certeza eu não poderia estar mais feliz.
(...)
— Então... — ouço a sua voz e então sinto o peso do seu corpo sobre as minhas costas — Você precisa salvar alguma vida hoje?
— Tanto quanto você precisa pegar os caras malvados. — digo e ela rir.
— Ok, você tem um ponto. — beija o meu pescoço, fazendo todos os pelos do meu corpo arrepiarem.
— Quando você vai aceitar o meu pedido de casamento? — pergunto e ela solta um gemido de frustação.
— Olha para mim, Victoria. — pede e eu me viro, permitindo que ela sente sobre as minhas pernas — Você tem certeza que quer passar o resto da sua vida com uma policial? Uma pessoa que corre para o perigo?
— Se você não lembra... — murmuro passando as minhas mãos por suas coxas descobertas — Eu já fiz isso antes.
— E você e Tony se separaram. — ela lembra fazendo a típica careta que ela sempre faz quando lembra que Tony e eu já fomos casados.
— Não porque ele foi um soldado e depois um policial, apenas porque o amor que sentíamos um pelo outro mudou. — explico e ela suspira, deitando sobre mim.
— Eu não sei como vocês conseguem fazer isso, estarem na vida um do outro. — sussurra fechando os olhos e se ajeitando melhor — Talvez eu saiba... Porque se um dia, eu perder você, também faria de tudo para ficar em sua vida.
— Eu amo você. — digo e ela sorrir.
— E eu amo você.
Ela nunca dizia "eu também amo você". Ela acreditava que o "também" parecia algo que alguém falava apenas porque se sentia forçado a responder o "Eu te amo".
— Você vai dormir aqui hoje? — pergunto e ela nega.
Hazel também tem filhos, dois meninos, Mirko de doze e Enrico de dezesseis. Todos os três são italianos, mas se mudaram para Amsterdam depois da separação de Hazel e a ex esposa.
— Talvez nós possamos comprar uma casa maior? — ela murmura de repente — Mirko, Quinn e Carter se dão muito bem... assim como Savannah e Enrico.
— Sim, podemos fazer isso. — concordo e ela abre um pequeno sorriso antes de pegar no sono e eu levanto para arrumar tudo.
Em menos de dez minutos teria que acordá-la para que ela volte ao trabalho.
(...)
Termino de vestir a minha roupa e saio do banheiro, encontrando Hazel também já vestida.
— Você quer uma carona? — pergunta pegando as chaves do carro e o seu coldre.
— Sim, com certeza. — digo e vou até ela, a puxando para mim — Eu já disse que você é a mulher mais linda do mundo?
— Não hoje. — graceja e eu não consigo segurar o meu sorriso.
— Você é a mulher mais linda do mundo.
— Com certeza eu sou a segunda e você a primeira. — me rouba um beijo rápido e caminha para fora do quarto — Quinn, onde estão as minhas botas? — e só então pude notar que ela estava descalça.
Depois de Hazel finalmente pegar os seus sapatos e eu me despedir das crianças, entramos no carro e ela segue para o hospital, depois que me deixa, segue para o próprio trabalho.
Eu não poderia estar mais contente com a minha vida.
(...)
— Doutora Hauer, ou eu já posso finalmente te chamar de Doutora Bernardi? — Rachel pergunta assim que me ver entrar.
— Poderia... — digo e ela sorrir — Se Hazel tivesse dito sim.
Rachel me olha horrorizada, mas eu não consigo ficar séria e acabo rindo.
— Como você está rindo depois de ter tomado um não?
— Eu amo ela, não assinar um papel não o torna menos real. — respondo despreocupada, mas ela ainda continua me olhando com aquela cara de idiota — O quê?
— Nada, é que... Você está brilhando e sem piadas de ruiva, mas você está parecendo a droga de um sol agora e tudo isso porque está feliz, é simplesmente maravilhoso de ver. — diz e eu sorrio ainda mais, fazendo o que ela também sorria.
— Doutora Hauer? — um enfermeiro chama e eu me despeço de Rachel, indo atender o paciente.
O plantão foi exaustivo e eu não sei exatamente que horas eram quando eu atravessei as portas do hospital e segui para o metrô, talvez eu tenha dormido em algum momento, mas consegui chegar em casa. No outro dia, era o dia que Hazel e eu levariamos as crianças para escolher a nova casa para todos nós.
(...)
— Carter, não... Desça daí. — Hazel repreende e logo ele obedece, saindo de cima do trampolim sobre a piscina.
— Nós podemos ficar com essa? Eu gosto daqui, o meu quarto tem uma boa vista. — Savannah diz ao se aproximar de mim.
— Sem falar que tem quarto para todos nós, eu não gosto da ideia de dividir com aqueles idiotas ali. — Quinn resmunga observando os meninos brincarem de luta na grama e eu prendo o riso.
— É uma casa muito cara... — começo a falar, mas ao ver o desânimo nos rostos delas, me calo.
— Nós vamos ver o que podemos fazer, ok? — Hazel fala e a animação delas voltam.
Savannah e Quinn voltam a olhar a casa, enquanto Hazel e eu ficamos observando os meninos brincarem no quintal.
— É perfeita. — falo olhando para ela.
— Sim, é. — diz olhando para o meu rosto.
Nos dias seguintes, Hazel e eu começamos os preparativos para as nossas mudanças. Tinha muita coisa para arrumar, as nossas coisas e as deles, as duas casas. Mas nós estávamos tão felizes que não nos preocupamos muito.
(...)
Acordo atrasada demais para ir para o trabalho, eu sei, a médica se atrasar para o trabalho é horrível, mas ficar sem carro foi o que me colocou nessa enrascada. Para piorar, Hazel também ficou sem carro porque teve que emprestar o dela para um amigo, então nós duas nos encontramos no terminal do metrô. Entramos lado a lado e seguimos viagem falando sobre as coisas que teríamos que arrumar no dia seguinte, que era quando iria acontecer a mudança.
— Não está rápido demais? — ela pergunta confusa e então levanta, indo em direção a cabine, comigo logo atrás — Ei! Estamos indo muito rápido, pare isso! — ordena, mas o homem do outro lado grita algo sobre não conseguir.
Olho assustada para Hazel e ela segura a minha mão, me puxando de volta em direção as outras pessoas.
— Pessoal, por favor... Se sentem e se segurem. — ela pede com calma, tentando não criar pânico, mas foi em vão.
As pessoas começaram a notar a alta velocidade e então começaram a bater desesperadas nas portas de saída, outros tentavam ir até o maquinista, alguns só rezavam, outros seguravam os seus filhos. Eu olho para Hazel, a trazendo para os meus braços, a apertando.
O trem começou a dar alguns solavancos e então inclinando para o lado esquerdo, automaticamente eu fecho os olhos.
— Estamos indo para uma curva? — alguém diz e então outra inclinada.
— Vai desencarrilhar! — outra pessoa grita.
(Play e deixa repetir)
E então o impacto.
As luzes piscam várias vezes e eu sinto o meu corpo ser jogado para o lado, me separando de Hazel contra a minha vontade, contra a minha escolha. Algo explode e eu sinto uma pontada em minha cabeça, meu corpo todo dói como o inferno e tudo vira silêncio. Silêncio que dura apenas até que eu abra os olhos outra vez, um zunido irritante começa e logo ouço os gritos de dor e horror soando por todos os lados, tento levantar, mas a gravidade me joga no chão do metrô outra vez.
— Haz? — tento chamar, mas a minha voz não sai mais do que um sussurro sem força — Hazel?
Tento levantar outra vez e sinto uma forte pontada tomar conta do meu braço direito. A dor foi tão intensa que a minha visão borrou, mas eu logo trato de tentar levantar novamente. Os gritos de agonia continuam a minha volta, mas só existia uma coisa em minha mente: onde está Hazel?
Enfim em pé, eu posso olhar em volta. As luzes do trem piscavam sem parar como uma maldita boate. Cada vez que a luz voltava eu podia ver um novo corpo, uma nova vítima, algumas pessoas estavam presas, outras tentavam libertar os que estavam presos nos destroços, uma garotinha chorava abraçando o corpo inerte do pai e do outro lado, uma mãe fazia o mesmo com o filho.
— Haz?! — chamo mais alto e tateio os meus bolsos em busca do meu celular
A tela estava em pedaços.
Dou mais um passo, sentindo a minha perna ceder e eu quase cair outra vez, mas uso o meu braço bom para me segurar.
— Droga Hazel, me responde!
Alguém mais atrás grita pedindo ajuda, o irmão estava sangrando.
Olho mais a frente, mas dou um passo para trás, indo até o garoto que gritava assustado. Tento me agachar para ver o machucado, a perna do rapaz estava com um pequeno pedaço de ferro preso na coxa, rasgo um pedaço da minha blusa e amarro a perna.
— Não tire ou mexa... Deixe aí, talvez seja a única coisa o mantendo vivo. — instruo antes de me afastar e checar mais uma pessoa.
Alguém, com o telefone funcionando liga para a emergência, eu sigo de volta para a frente do vagão, procurando Hazel outra vez. A cada passo que eu dava, sentia a minha perna arder, mas eu só paro ao ver alguém sentado ao lado de outra pessoa no chão, parecia estar tentando fazer uma massagem cardíaca.
Tento enxergar a pessoa, mas tudo se apaga, a luz brilha mais uma vez e eu vejo o distintivo no cinco, eu dou um passo e ela se apaga novamente, quando ela volta eu vejo as malditas botas favoritas dela, as luzes se apagam e eu me aproximo mais e quando voltam, eu vejo o seu rosto.
— Hazel?
A minha voz embarga e eu caio ao seu lado, as minhas mãos em busca do seu pulso, mas nada.
— Haz?
Deito a minha cabeça em seu peito, mas outra vez tudo o que eu ganho é o silêncio mais perturbador da minha vida.
— Hazel! — chamo em vão.
Quando eu iria tentar fazer a massagem, o rapaz segura as minhas mãos, de repente a dor no meu braço quebrado não parecia nada demais.
— Eu sinto muito. — ele murmura me segurando — Eu sinto muito.
Ele repete, mas o meu cérebro parece ter entrado em pane e não ouço ou vejo mais nada até que alguém que eu posso jurar que era Tony aparecer a minha frente, ele fala alguma coisa que eu não escuto e depois disso tudo apaga.
Quando eu abro os olhos outra vez eu estou em um quarto branco que com certeza não era o meu, tinha algumas flores na mesa ao lado e um corpo ocupando o sofá ao lado da porta. Tudo volta a minha mente a mil, foi como reviver detalhe por detalhe, olho para o sofá outra vez e vejo Tony se sentando, me olhando. Ele não precisava dizer nada, eu já sabia.
Hazel havia morrido e mesmo que tenham me dito que ela morreu na hora do impacto, que ela não teve uma chance, eu não conseguia parar de me culpar por ter ido ajudar os outros ao invés de procurar mais por ela.
Eu sou a droga de uma médica, salvei inúmeras vidas, mas a única que eu devia, eu sequer tive a chance.
(...)
A mudança para a nova casa foi cancelada, a outra mãe dos meninos veio da Itália para ficar com eles. O enterro foi lindo, ou pelo menos foi o que algumas pessoas vieram me falar depois que acabou. Eu não me sentia eu mesma, a minha alma não parecia estar no meu corpo, nada parecia muito certo.
Mirko e Enrico foram levados de volta para Itália antes que eu sequer pudesse me despedir direito. Carter, Quinn e Savannah estavam tão abalados quanto eu, até mesmo Tony não parecia estar lidando muito bem.
Quando passou uma semana e que seria o dia que nós estaríamos completando sete dias na casa nova, com todos nós, eu recebi o e-mail de que tinha uma encomenda para mim que Tony logo foi buscar. Assim que eu abri o envelope, a primeira coisa que eu vejo é a letra desajeitada de Mirko junto com a calegrafia perfeita de Enrico e Hazel em um pequeno cartão, ao lado estava uma carta onde somente tinha a letra de Hazel.
Queridos Carter, Savannah, Quinn e Victoria... Nós, Mirko, Enrico e Hazel queremos agradecer por nos permitir ser parte da sua família.
Mal conseguindo segurar as minhas próprias lágrimas, eu pego a carta.
Doce bela dama.
Eu sei, você odeia quando eu te chamo assim... Mas é exatamente por isso que eu continuo fazendo. Eu nunca te contei isso, mas... Eu forcei Tony nos apresentar. Tudo começou quando eu vi a sua foto junto com as crianças em cima da mesinha dele, automaticamente eu me apaixonei. Eu sei, assustador... Mas acredite, é impossível não se apaixonar por você.
Victoria, você é o ser mais incrível e doce do mundo e apesar de tentar de todas as formas mostrar o contrário, qualquer um que te conheça sabe como você é.
Eu não te escrevi apenas para te contrariar, apesar de ser um ótimo motivo, mas eu estou aqui apenas para dizer que sim... É bastante óbvio que eu aceito me casar com você, você sempre diz que eu te fiz ver que viver é muito mais do que sobreviver e eu quero te pedir para que nunca esqueça disso, viva Victoria, sorria, ame com ou sem mim... Eu te amo demais para te prender a mim.
Aliás, sobre o pedido de casamento, eu só disse não porque você foi audaciosa o suficiente para fazer o pedido antes de mim... Qual é! Eu tinha preparado toda uma coisa, mas ok... Eu te entendo, eu sou mesmo perfeita, é claro que você não iria resistir ao meu charme, eu te perdoo....bom, vê se não tem mais alguma coisa aqui dentro.
Realmente tinha, dentro do envelope, colado no fundo para que não caísse quando eu tirasse a carta, estava um anel, a pedra era simples e delicada e era exatamente o tipo de coisa que eu teria comprado para ela.
Mas é claro que eu jamais poderia dizer sim, ela não estava mais aqui.
As coisas não foram melhorando rapidamente, talvez precisasse mais de meses ou quem sabe anos, mas aos poucos eu fui voltando a sobreviver e então, viver.
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