Na saúde e na Doença
1 Único
Notas iniciais
Mycroft Holmes acordou tão cedo como de costume e logo tratou de começar os seus afazeres antes de ir ao trabalho, apesar da manhã londrina praticamente o obrigar a ficar na cama por mais algum tempo. Havia chovido torrencialmente sobre a capital na noite anterior e os primeiros ares de inverno estavam se apresentando.
O político notou que seu marido não passara a noite consigo, com certeza alguma ocorrência importante o suficiente para exigir a presença do inspetor-chefe da Scotland Yard.
Já sem seus pijamas, vestindo um moletom esportivo, Mycroft se preparava para mais uma sessão exaustiva de exercícios matutinos; ao sair do quarto e se dirigir à sala aonde ficavam os aparelhos de musculação, o Holmes mais velho se surpreendeu com seu marido, o inspetor Gregory, deitado no sofá, sem suas roupas, que estavam jogadas pela sala de estar, ainda encharcadas da noite anterior.
Ele não parecia nada bem e Mycroft não perdeu tempo e correu em direção ao sofá.
— Greg, Greg! Porque você está aqui meu caro!
— Eu... acabei de chegar, passei o dia ontem um pouco febril e estava mais do que feliz em poder voltar para casa, mas apareceu uma ocorrência importante... eu tinha que ir!
— E você passou uma noite fria como aquela, correndo atrás de bandidos, doente e ainda por cima tomando chuva! Por Deus Greg, vem tomar um banho quente!
Mycroft ajudou o policial a se levantar, lamentando-se mentalmente por não ser tão forte como ele e não ser capaz de tomá-lo nos braços e carregá-lo. Ao chegar ao banheiro, o diplomata ligou a água quente na banheira e começou a temperar o banho para Lestrade.
Logo em seguida, Mycroft puxou a boxer que o inspetor estava usando e o ajudou a entrar na banheira. Gregory estava bastante quente e dava sinais de fraqueza, o que preocupava ainda mais o diplomata.
Enquanto Lestrade tomava seu banho, Holmes se apressou em preparar a cama; depois foi até a cozinha e começou a esquentar às sobras de um ensopado de carne que fizera apenas para si na noite anterior, colocando-o num prato junto a uma xícara de chá de maçã com canela e umas torradas.
Quando Mycroft subiu com a bandeja em mãos, viu Gregory, em meio a passos incertos, tentando por um de seus ternos. Imediatamente, o político deixou a bandeja em cima da mesa de apoio e foi em direção ao inspetor:
— O que pensa que está fazendo?!
— Nós conseguimos pegar um dos maiores traficantes de opióides do Reino Unido ontem, amor, preciso ir preencher os papéis para enviar ao judiciário.
— Tenho certeza de que a sargento ficará feliz em fazê-lo; vou ligar para a Scotland Yard assim que te der essa sopa; mas agora o senhor vai ter que se agasalhar e ficar quietinho na cama! – disse Mycroft, tirando, as roupas de Lestrade, à exceção de sua habitual boxer branca e colocando-o na cama em meio a cobertores grossos de inverno. Em seguida, começou a dar-lhe da sopa em colheradas quase como se Lestrade fosse uma criança ainda muito pequena para comer sozinho.
— Desculpe todo esse trabalho que estou te dando, My, isso deve ser só uma dessas viroses de troca de estação.
— Não é trabalho cuidar do meu marido. Na saúde e na doença esqueceu Greg? Agora vamos, beba esse chá com essas aspirinas e trate de descansar. Vou ligar para Anthea e pedir para que ela resolva tudo por hoje no MI6 e também para que ela fale com a sargento sobre os documentos que precisam ser providenciados – Lestrade bebeu o chá e tomou os comprimidos, mesmo que a contragosto. Mycroft o ajeitou nas cobertas e pôs os travesseiros do modo mais confortável possível, por fim, pegou seu celular no criado-mudo e saiu do quarto. Gregory se limitou a fechar os olhos e se concentrar na voz aveludada que vinha do lado de fora, a conversar com sua assistente dando-lhe as instruções necessárias para aquele dia.
Não demorou muito para que Lestrade escutasse a porta se abrir levemente. Uma presença bem conhecida deitou-se a seu lado e beijou seus lábios de uma maneira tão cálida quanto as leves carícias que eram feitas ao mesmo tempo em seus cabelos.
— Pronto amor, está tudo resolvido, pode descansar sem preocupações agora...
Mycroft ficou feliz em notar que a febre aos poucos ia se dissipando. Sabia que Lestrade estava em turnos cada vez mais exaustivos no trabalho e que sua imunidade iria enfraquecer mais dia, menos dia. Sentia-se um pouco culpado por não ter cuidado melhor dele, mesmo sabendo o que estava por vir. Mas agora que isso havia acontecido, o braço direito da Rainha iria se certificar para que seu amor não se esforçasse em nada, pelo menos até melhorar completamente.
Tudo o que Lestrade fez foi se ajeitar em meio aos braços do outro e deixar-se levar por um sono que há tempos não tinha.
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