Notas iniciais
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Todo dia quando acorda ele está no mesmo local triste. As paredes de pedra negra úmida, um aposento lúgubre, sombrio. Os olhos se abrem da escuridão das pálpebras para revelar correntes de pesos em seu peito, em seu estado.
Levantar-se da cama parece a tarefa mais difícil. A que menos deseja fazer.
Ao rolar o rosto pela cama depara-se com o criado mudo com abajur de lâmpada amarela que ilumina bulas semiabertas de todos os confeitos que precisa para sobreviver, instruções embaçadas, mas ele já as conhece. Sabe que o de tampa azul o faz dormir, o de tampa branca o faz comer.
Da cartela metálica, uma capsula vermelha, para a cabeça não doer.
De outra cartela na gaveta um branco e azul, um azul belo que dá vontade de olhar, ao menos dava nas primeiras três cartelas. Esse o faz querer vier, ou ao menos faz com que o peito não doa muito ao ter que se levantar para a faculdade.
Talvez seja essa a pílula mais importante. Aquela que equilibra químicas complexas no cérebro para que seu peito não seja tão pesado, seu coração não seja uma âncora que o mantém no chão em um abismo profundo. No qual não o faz desafiar os instintos de sobrevivência de qualquer animal. Por garantia, guarda a embalagem com as vitaminas, para que a comida seja devidamente engolida.
Os passos exaustivos da rotina sem fundamento só põem ser tomados dado estado de dopamento, do contrário pensa demais, precisa dos calmantes, tremerá, precisará de Diazepam, Flurazepam, Fluoxetina.
Nos lábios pálidos, apenas água. Ninguém jamais reparará neles mesmo. Os olhos não notam o cabelo despenteado, veste as roupas da frente. Sempre tem roupas limpas.
Na rotina, murmúrios, balbucios, não gasta energia com mais que o necessário. Não conversa com ninguém, não se interessa em nada, está no piloto automático no qual finge não está. Não quer ser ingrato aos seus progenitores.
Hora de comer, hora de ingerir. Vitaminas As e Bs e todo o alfabeto. A cabeça volta a doer, mas agora apenas água, pode ser de fome.
Em casa, cama. Para dormir, um comprimido azul.
Não descansa, o relógio toca.
Tudo de novo.
Uma noite, um sorriso visita a inexplorada masmorra. Lábios finos em movimento minguante chamam a atenção do rapaz. Um olhar gentil de íris negras o convida a se levantar, o corpo dói as juntas enferrujadas de sempre estar na mesma pose.
Vai em direção ao sorriso, mas o sorriso estende um dedo indicador, o sorriso vai até ele. Toca seus lábios e faz os pelos do buço se arrepiarem. Então se vira, cabelos negros como as trevas de suas pálpebras.
Despertador.
Percebe que seu buço está gelado, corre até o banheiro. Levantou sem a cápsula vermelha, nota que sua boca está ressecada. O cabelo está uma bagunça, o escova. Rua, faculdade, casa, cama.
O sorriso está lá, apoiado com os braços cruzados na quina de pedras escuras, desta vez, porém não fica sentado, está de pé. O sorriso se vira, ousa um passo em sua direção.
Fora de sua cela sem grades, um corredor escuro longo, buracos entre as paredes revelam feixes de luz que se cruzam como teias de aranha, não iluminam o caminho, não indicam profundidade. Não há som, mas sente que deve seguir para a direita, depara-se com luz.
A silhueta do sorriso de cabelos negros e olhos profundos.
Despertador.
Dessa vez esquece-se de levar a cápsula de comida, esquece-se da cápsula azul. É forçado a comer mais e comprar uma bebida para engolir tudo, abre um caderno na aula, não escreve nada, mas desenha meio círculos ponderando quem é ele.
Cama.
Corre até a luz da noite passada, lá está ele. Sentado em um banco de pedra cinza claro, entre rosas brancas e negras, em uma sala redonda iluminada por vitrais coloridos em formas assimétricas. Azul com vermelho e amarelo, um jogo de pedaços de luz no chão branco em direção ao rapaz.
Corre em sua direção, os olhos escuros parecem felizes em vê-lo, os lábios se movem para emitir um som, som esse que é cortado pelo despertador.
Rola na cama, não consegue voltar a dormir, corre para a faculdade, chegando cedo, sai cedo. Penteia o cabelo antes de dormir, arruma um pijama limpo, troca a fronha do travesseiro. Dessa vez engole três confeitos azuis, desativa o despertador.
Ao acordar na sala de vitrais, nota o peito palpitante, a dor agoniante trás vida ás suas veias. O peito não era saudoso faziam anos, não ansiava com nada a tempos. Limpava a garganta, dessa vez tímido, como de repente uma bomba emocional o acertasse, lembrava que tinha nome, lembrava que tinha voz.
— Como se chama?
O sorriso o recebe caloroso.
— Me chame de você.
Você. Que voz linda.
— Posso ficar com você?
— Faça como quiser, nessa terra de Hipnos, o domínio é seu. – Respondia.
Ficava nervoso, constrangido. Como que engajava uma conversa com ele?
— Hm... er. Vive aqui sozinho?
Ele dava uma risada.
— Não vê mais ninguém, não é?
— Não se sente só? – Achou que poderia estar sendo indelicado, arrependeu-se de ter feito a pergunta.
— Mas não estou só. Estou contigo. – Moveu-se para o lado no banco de pedra convidando-o a se sentar ao seu lado.
Como é bobo se animar por ter a presença reconhecida. Como é bobo sentir o peito palpitante. Como é bom ser bobo. Tímido, aceitou o convite e se sentou ao lado das mechas negras, estava ansioso por estar próximo, mas gostava daquela ansiedade.
— O que... você gosta de fazer? – Perguntou ao sorridente.
— O que você gosta de fazer? – Respondeu com a mesma pergunta.
— Ah, não muito... Aqui é tão bonito, tão colorido! Eu gosto das flores, das cores...
O rapas de cabelos negros levantou-se repentinamente, a blusa negra cobria suas palmas, mas podia ver seus dedos finos, uma pulseira prateada, sentava-se no colo do rapaz, não pesava muito. Tombava o liso rosto para o lado, permitia seu pescoço ficar á vista, sua clavícula descoberta, uma brecha para seu ombro.
— O que quer fazer? – Perguntava com a mesma voz sútil e delicada de um homem das mais refinadas maneiras.
A porta do quarto era escancarada.
— Acorda droga, menino! Olha a porra da hora!
Levantava-se da cama com a instantânea transformação de leveza em peso. O eco da voz dominante minando a vontade das pernas de funcionarem, trancava-se no banheiro com o pouco que lhe restava de vontade e fazia o que queria.
“O que quer fazer?”
Sob o som de uma música antiga romântica, fazia as mãos trabalharem no desejo, fazia tempo que não as sujava de gozo, mal lembrava como água era a pior das ideias para limpar o conteúdo, mas estava sem papel.
Devia ter usado a toalha.
Um banho para relaxar, músicas lentas estavam com tons mais doces, elas abraçavam lembranças de uma clavícula delicada e um sorriso sereno, uma lua minguante.
A semana voava, dias divergentes, sábado poderia vê-lo o dia todo.
Três confeitos havia sido perfeito, mais três então.
Corria até a sala de vitrais, corria com um sorriso no rosto em expectativa, sorriso esse que apenas aumentava ao ver que lá estava as mechas negras, desenhando um rosto paciente com o mais viciantemente belo dos sorrisos.
Corria para abraça-lo, as mãos sentiam-no, era leve e recompensante.
— Não precisa ficar afobado, não vou a lugar algum. – dizia em seu ouvido ancioso.
O rosto do rapaz ficava vermelho, ele havia sido esperado esse tempo todo?
— Você… – disse sem saber como continuar, queria apenas dizer o nome do rapaz á sua frente, seja o nome que quisesse ser chamado, poderia passar o dia notando as mechas caídas pelo rosto, os longos cílios. Os diferentes formatos do sorriso.
— O que quer fazer?
Os lábios se encontravam, a mistura de calores alcançava ambos. As mãos eram passadas por seu ombro, as pernas abraçavam seu corpo de forma receptiva. Seus lábios então, desciam por aquele pescoço, inalava um odor neutro do qual não lembraria quando o despertador tocasse, por isso ateava-se sobre a sensação no presente.
Passava seus dedos pelo rosto pálido do rapaz, tomava seus lábios novamente, como se fossem o elixir mais delicioso da fonte mais rara.
Deslizava as mãos pela pele do rapaz, pode debaixo da blusa, ele ria, uma risada embreagante de gostosa. O que queria fazer? Queria ficar ali com ele, queria senti-lo, tê-lo nos braços.
Cada noite um novo encontro, uma nova valsa. O mesmo beijo, o mesmo sorriso. As manhãs duravam menos, as noites eram mais intensas.
Conversava com o rapaz sobre tudo, o que sabia e o que não sabia. Filosofia, astrologia e política. Filmes e séries, vivia para contar ao rapaz, ele que sempre parecia adorar ouvir. E era bom ouvinte, ria nas partes constrangedoras e sempre fazia as perguntas difíceis de se responder nos dilemas, não importava se era feito de sonho, delírio, ou mero fruto da imaginação cansada, era o mais importante amigo e ousava dizer, amante.
Ele não falava muito, mas ouvia, acreditava. Ele era alguém com o qual podia contar, com ele não se sentia sozinho. Por ele valia todas as ingestões de pílulas azuis, fossem verdes, vermelhas ou pretas, por aquele rapaz valeria.
Sempre tinham tão pouco tempo juntos, não importa o quanto se estendia o sono. Então gostava de ensaiar o que diria, como diria. Gostava de ter triviais sobre vitrais já que constavam mudar os padrões, ele não falava muito, mas sabia que gostava de rodas e vitrais. Sabia que era ele quem movia os vitrais.
Ainda ia vê-lo fazendo isso, chegaria sorrateiro, chegaria de surpresa! Sim, ele valia cada espera, cada momento, cada tudo!
Quando os pais descobriram que tomava mais comprimidos que o necessário, o castigaram. Logo cortaram também o remédio, de castigo ficou uma semana sem nenhum dos costumeiros medicamentos. A insônia perdurou junto as fotos de cabeça, toda noite briga, toda noite mal dormida, mas via ele.
Ele valia tudo.
Valia faltar a aula como fez na noite de quarta feira, valia o dinheiro que tinha guardado em remédio de dor de cabeça, valia a receita roubada das pílulas de dormir.
Ele valia tudo.
Foi por ele que sorriu, foi por ele que aprendeu a viver, ou reviver sua vida, foi por ele que aguentou as tortuosas semanas. Ele valia cada pílula daquele coquetel, valia cada pulsação de seu sangue, cada batida de seu peito, cada expiração de seus pulmões.
Por ele valia, seu último suspiro.
Os vitrais estavam quebrados.
Ele não estava sorrindo.
Correu em sua direção.
— Por que fez isso comigo?
Desapareceu na masmorra de seus braços.
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