Na chuva

2 1 - Culpa?


Notas iniciais
Obrigada as pessoas que comentaram, acompanharam e etc. Estou postando o primeiro capítulo agora, espero que gostem. Não sejam malvados

O barulho de tiros e pessoas gritando despertou-a de seus devaneios. Não conseguira dormir de noite, e até agora se mantinha muito bem acordada. Era estranho não sentir aquela tristeza absoluta que muitos de seus amigos tinham nas últimas três semanas. O que poderia fazer? Katherine era uma vadia, e muito fizera para causar sofrimento. Os tiros continuavam muito altos no andar de baixo, e suspirou profundamente, erguendo-se da cama com a camisola largada. Caminhou até o corredor do segundo andar, debruçando-se na escada.

― Jeremy! Abaixa o volume desse jogo! — berrou o mais alto que conseguiu, e sorriu satisfeita quando o volume pareceu diminuir.

Em seguida Elena Gilbert foi até o banheiro despreocupadamente, embora olhar-se no espelho estivesse deixando-a louca ultimamente. Era como se estivesse sendo punida todos os dias, porque tinha a cara dela. A cara de sua irmã dez minutos mais velha, Katherine, que estava morta e enterrada. Suas últimas palavras foram de ódio por telefone momentos antes do acidente que a fez perder a vida. Talvez estivesse sentindo-se culpada, mas não era como se as saudades batessem. Nunca foram amigas e na verdade sempre pareceram muito distantes. Sua alma não estava rachada ao meio porque a gêmea estava morta, Elena nunca se sentiu tão viva.

O ruim era ver o sofrimento das pessoas que amava, porque diferente de Elena ninguém sabia como Katherine era uma pessoa terrível ― Ela e Damon se mereciam– comentou para si mesma enquanto lavava o rosto com água gelada. Respirou fundo, pronta para mais um dia tedioso em Mystic Falls. Trabalhava como garçonete no Grill, limpando algumas mesas e sorrindo para os clientes. E só ganhava cinco dólares por hora embora se com sorte, e os clientes não ficassem absurdamente bêbados, podia ganhar umas boas gorjetas.

Só teve inveja de Katherine uma vez na vida: quando soube que a gêmea se mudaria para Nova York deixando a Virgínia para trás para trabalhar ao lado de Damon Salvatore, o homem mais presunçoso, arrogante, prepotente e inconsequente que já conhecera. Apesar de ridiculamente lindo, não conseguia engolir aquela cara lavada que ele possuía, as ironias jogadas ao vento sem necessidade. Não era má pessoa, mas achava bem feito. Bem feito para ele, que sempre a tratou muito mal — diferente de seu gentil irmão Stefan — e que agora deveria estar arrasado. Da última vez que o viu foi há três semanas, no funeral de Katherine. Ele estava tão pálido, trêmulo e desconcertado quando chegou na cidade que pensou que teriam de enterrá-lo junto com a esposa. No entanto Elena não sentiu pena ou compaixão, nem sequer pegou uma água com açúcar.

Depois do funeral ela nunca mais o viu. Ele se mandou para Nova York e nunca mais ligou para tia Jenna ou Jeremy, e até Alaric dizia não ter notícias dele — apesar de serem melhores amigos.

― Elena, pensei que não fosse descer nunca — disse a belíssima tia Jenna, que mesmo com os cabelos sempre desgrenhados tinha uma presença, um brilho no olhar que Elena invejava.

― Bom dia, Elena! — a voz preguiçosa de Ric fez-se presente no ambiente. Ele estava descabelado e com uma expressão mais cansada que nunca.

― Sr. Saltzman — começou com um sorriso malicioso, alternando os olhares para tia Jenna e ele ― Quer dizer que dormiu aqui hoje? É isso mesmo?

― Ahn, Elena! — a mulher ficou com as maçãs do rosto coradas, e encolheu-se envergonhada. Sabia que não era uma boa ideia, tinha tanta vergonha que queria enfiar a cabeça em algum buraco. Talvez no triturador da pia.

Estava quase atrasada para o trabalho, por isso se apressou no café da manhã e subiu correndo as escadas para vestir o uniforme. Pôs a camisa azul, as calças jeans desbotadas e tênis de pano simples. Tratou de colocar a bolsa nos ombros e saiu apressada girando as chaves do carro nos dedos.

Entrando na SUV prateada, Elena verificou algumas mensagens no celular e respondeu as de Caroline e Bonnie sobre irem fazer compras no dia seguinte. [...] Seu dia começou parado, o Grill estava as moscas e ela apenas lavava alguns copos empoeirados atrás do balcão, secando-os automática e entediada. Poucas pessoas entravam no local a essa hora da manhã no local, e só lembrava-se de Alaric e Damon reunindo-se para uma leve bebedeira, mas apenas quando o desagradável viúvo de sua irmã aparecia em Mystic Falls. E isso era frequente. O que ele fazia na Revista Salvatore? Certamente não muita coisa, se tinha tanto tempo livre.

O toque simples de seu iPhone a despertou de algum pensamento distante, e ela secou as mãos no avental na cintura para poder atender. Observou a tala sem acreditar no que estava lendo. “Jack-ass: Atender/Recusar”. Pensou seriamente em recusar a chamada, mas e se fosse algo importante? Se mais alguém estivesse morto? Se fosse o Stefan usando seu celular? Não era uma pessoa ruim, não era cruel a esse ponto. Sem nenhuma animação e com a garganta seca ela deslizou a tela, colocando o aparelho ao lado da orelha direita.

― Estou no trabalho, o que você quer? — Quis tampar a boca depois do que disse, não era para ter saído tão seca e insensível.

― Desculpe, Elena… — a voz dele estava um pouco diferente do comum, menos arrogante e mais baixa ― E-eu não devia ter ligado.

― Já ligou, Damon. Aconteceu alguma coisa? — suspirou derrotada. Queria saber ser má como Katherine era algumas vezes.

― As pessoas não param… De olhar para mim daquela forma — disse como se ela fosse capaz de se importar.

Mas ela entendia bem o que ele estava falando. Ela, Jeremy e Katherine perderam os pais quando ainda estavam na escola e todos os encararam daquela forma por pelo menos seis meses. Como se fossem coitados, leprosos ou coisas assim. Olhou em volta e pediu para Matt terminar de secar os copos de vidro — e ele como era tão gentil acatou com um sorriso, eram amigos desde muito crianças e já namoraram por três anos. Elena foi até o banheiro e trancou-se numa das cabines, sentando sobre o vaso fechado e limpo.

― Elena… O que devo fazer? Eu não sei… O que fazer — Dizia ele de uma forma que ela podia facilmente saber que ele estava chorando. Exceto no dia do funeral, ela nunca o viu chorar. Nunca o viu sofrer, apenas provocar isso nas pessoas com a sua língua afiada, sua mente diabólica.

― Se distraia, vá trabalhar — Revirou os olhos sem acreditar que estava mesmo dando corda para ele.

― Estou trabalhando… Tentando, sei lá. Desculpe Elena, eu não devia ter ligado para você. Tenha um… Bom dia — e ele simplesmente desligou.

Dando de ombros, a Gilbert guardou o celular no bolso e lavou o rosto assim que saiu da cabine. Não ficaria com pena daquele irritante.

E o dia seguiu normalmente, de noite o movimento no Grill começou a ser satisfatório. Servia cervejas nas mesas, combos de batata frita, pizza e tudo mais. A maioria era composta de jovens, grupos de estudo, mas também tinham os bêbados chatos e insuportáveis. Quando chegou em casa estava completamente arrasada, seus cabelos estavam parecendo uma palha castanha, a roupa amassada e manchada de molho de tomate por causa de uma garota desastrada que o derrubou ali. A casa estava toda acesa, e ela reconheceu um carro em frente a garagem que bloqueava sua entrada.

Não era possível, por quê? Não conseguia pensar em mais nada, estava irritada com aquele maldito Chevy. Tão irritada que gostaria muito de passar por cima e usar uma desculpa boba depois. Estacionou na calçada e saiu irritada do carro, os passos brutos na direção da porta de madeira. Girou a maçaneta tendo certeza que estava aberta, e assim que pisou dentro de casa viu Jeremy deitado no sofá jogando vídeo game como sempre, um vagabundo completo, e depois viu a tia Jenna colocando a mesa que já estava cheia de aperitivos gostosos. Nachos, batatas fritas, cebolas fritas e salgadinhos com caras maravilhosas e os cheiros mais incríveis. Só então Elena notou como estava faminta, e esqueceu-se do carro do lado de fora. Caminhou animada até a cozinha para ajudar a tia, mas parou assustada quando viu a figura toda de preto de costas para si, cortando tomates no balcão da cozinha. Seus olhos castanhos arregalados, e piscou seguidas vezes sem acreditar no que estava vendo. Sério mesmo? Nem depois de tudo que aconteceu? Ele tinha coragem, tinha de reconhecer.

― Resolveu invadir a noite em família? — Indagou irritada, e ele finalmente a notou ali. Virou-se lentamente para encarar Elena depois que colocou a faca sobre a pia.

Os olhos azuis, aqueles olhos intensos, encararam os dela como quem via um fantasma. Ele curvou os lábios finos num sorriso sem graça, e escondeu as mãos atrás da cintura para que ela não visse que tremiam.

― Stefan me trouxe — disse baixo como se realmente devesse uma explicação. O irmão mais novo o colocou no carro quando o viu chorando em sua sala, e dirigiu até Mystic Falls para que pudessem encontrar Ric e então se divertissem juntos — Sua tia me convidou para vir…

― Hm. Você está pálido — Mencionou com as sobrancelhas arqueadas, os lábios entreabertos. Ele era branco, mas ele estava muito mais que isso, estava quase transparente naquelas roupas pretas ― Vai acabar se matando.

Elena só não imaginava que ele realmente já pensara sobre isso. Várias vezes.

Notas finais
Comente, envie sua opinião. Ela é muito importante para o rumo da fic!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.