Na carne do fim
4 O passado de Larissa - parte 3
Notas iniciais
Fui uma noite desagradável, estava com um medo constante de que os mutantes tivessem nos seguido. Dormi com a shotgun na mão a noite toda. Fiz uma barraca improvisada com parte de tecidos e outras coisas que consegui salvar do fogo. Calor não era problema, material para fogueira não faltava, e pelo menos não precisava me preocupar eh fazer fogo, estava tudo ali. Qualquer barulho eu já acordava, mesmo as ondas do mar que estavam abraçando a areia que estava sentada. Por volta de cinco e meia da manhã o fogo já tinha se acabado e já não deveria estar tão quente, comecei a vasculhar os destroços. Percebi que quando o carro caiu o porta malas abriu, jogando tanto os galões para fora, aumentando o tamanho do fogo, quanto as outras coisas, mais em volta tinha alguma munição e os enlatados de comida. Peguei apenas o que pude salvar.
O sniper de Matte estava inutilizável, mas seu telescópio estava apenas um pouco trincado, seria bom para checar lugares a distancia. Coloquei tudo na mochila e comecei a caminhada com destino à sorvilha.
O terreno no caminho era como uma savana, meio sem vida, a grama baixa e sem cor, arvores distantes umas das outras, chão seco como se não chovesse por semanas, alguns montes aqui e ali às vezes impedindo a visão mais a frente, nesses momentos uso a luneta para verificar se não têm inimigos mais a frente, até o momento não tinha avistado nada. Parecia que quanto mais eu andava mais chão tinha que percorrer. E o visual repetitivo me deixava confusa. Foram dois dias do mesmo visual, o horizonte não se aproximava, e não parecia ter fim aquela grama seca e arvores tortas. Depois de varias horas caminhando com o peso nas costas escuto um barulho no caminho, deito-me na mesma hora, saco a luneta e fico atenta. Poderia ser ajuda ou encrenca. O som de rodas em contato com terra se aproximavam, parecia um caminhão. Fiquei esperando alguns segundos até localizar o veiculo. Era mesmo um caminhão, daqueles que levam vacas ou cavalos. Ele levava alguma coisa, mas pelo jeito não eram animais, quando se aproximou de onde estava, deu para ver o que era a carga. Eram pessoas, como aquelas que vi em hellsat, pessoas com alguma mutação.
Resolvi não me meter, eu não conhecia ninguém ali e não tinha mais nem um aliado, também não era bom gastar muita munição. Deixei passar. Fiquei parada por mais dois minutos para se por acaso não estivessem sendo seguidos ou algo assim. Quando subia uma colina pude ver o meu destino. O final desta caminhada de dois dias. Cidade grande, ruas vazias ou atoladas de carros depois de um acidente. Diminui o passo, já deveria estar a um Km da entrada da periferia da cidade. Montanhas com restos de favelas que não aguentaram ao meteoro contornavam a cidade.
Caminhava pela cidade quando ouvi motores novamente. Pensei, eram skulls novamente. Corri para dentro de uma padaria, a arma pronta para o disparo, estava atenta como um falcão. O som dos motores aumentava, chagavam mais perto. Mas não ouvia gritos, gemidos, xingamentos ou nada do tipo, coloquei minha cabeça na janela e percebi que eram pessoas normais, em dois carros e uma moto, sai com a arma apontada para eles, qualquer divida é pouca.
– Quem são vocês?
Eles me notaram e notaram principalmente a shotgun que segurava. Um homem que parecia ser o líder disse:
– Opa! Calma ai mocinha, não estamos para te torturar ou comer você viva. Como você veio parar aqui?
Carreguei a shotgun, fazendo aquele barulho característico “tchék tchék”. Todos os cinco que estavam na minha frente darem um passo atrás. Eles estavam sem armas, apenas o lider e o que estava na moto tinham uma pistola.
– Eu faço as perguntas aqui. Se não estão aqui para fazer reféns para que estão?
Novamente o líder respondeu:
– Estamos aqui para procurar mantimentos para uma viagem e se possível alguém que precise de ajuda, podemos fazer alguma coisa. Estamos com um grupo de refugiados e vamos sair daqui 2 horas com destino a cidade base. Sabe disso não é?
– claro que sei, estava indo para lá, mas fiz um desvio para cá para descansar antes da viagem. – Ainda estava com a arma apontada para eles.
– Ok, nós podemos te dar uma ajuda nisso, venha conosco se arrume e então vamos.
Depois disso eu abaixei a arma, voltei na padaria e peguei a mochila que tinha deixado lá, entro no carro. O clima estava tenso, provavelmente não gostaram da minha aparição, ainda mais porque não deixei ninguém tocar nas minhas coisas. Nem ligava. Chegamos numa casinha antiga no meio de prédios modernos, mas parcialmente destruidos. Tinham umas vinte pessoas lá dentro, subimos para o segundo andar, onde tinham mais umas dez. Parece que iam conversar com um senhor que estava sentado numa poltrona vermelha, o senhor aparentava ter uns 60 anos, esse dava para ver de cara que era o mandão da turma. Sentamos no chão em frente dele. O velho já implica comigo.
– Quem é esta fedelha que entra armada em minha casa?
Aquele mesmo líder de antes toma a resposta, muito envergonhado e manda alguém pegar a arma de mim, ha ha, não vão mesmo. Nesse momento eu respondo ao velho.
– desculpe minha ousadia, mas pelo que eu já vi no meu caminho até esta cidade andar com uma arma agora é para sobrevivência, não exatamente que duvido de vocês, mas todo cuidado é pouco, não é mesmo?
Esse velho era carrancudo que só ele mesmo, me mandou um sorriso sarcástico e respondeu.
– Dou-te 10 minutos para mantê-la junto à ti, depois do tempo acabar iremos embora, se continuaste agarrada com este monstro ficarás com ele para sempre aqui. Agora saia da minha frente, tenho muito o que resolver.
Concordei com a cabeça. Não ligava para isso, mas não iriam pegar nem um de meus pertences. Depois dessa conversa estranha e rápida. Saímos da sala do velho e pedi para ir ao banheiro, estava apertada depois de dois dias sem papel higiênico. Mostram-me o caminho, era no terceiro andar da maldita casa, depois de um corredor enorme, me falaram que era a sétima porta da direita. Maldita casa grande, me enrolei com o numero de portas e tive que abrir uma a uma, não sabia mais qual era.
No banheiro escuto uns gritos e portas batendo, o som não parecia perto, deveria ser no primeiro andar. No meio da confusão ouço barulho de motores. Depois, silencio. Não demoro muito para perceber que os malditos me deixaram sozinha nessa cidade. Joguei pragas para as paredes e fiquei lá... Pensando no que fazer, sem ninguém, quase sem estoque de comida e sem conhecimento do que estava acontecendo.
Sai procurando alguém, mas todos haviam sumido, o ônibus, os carros e as motos que eu vi estacionados em frente o prédio desapareceram. Mas eu não estava sozinha. Os gritos daqueles animais em forma humana ressoavam pelo ar. Não tive tanto tempo para pensar em um lugar para ir ou num plano de sobrevivência. Os mutantes apareceram.
Corri com todas as minhas forças, mas eles eram mais rápidos do que eu, eles pulavam como macacos furiosos, lembrei que o sol incomodava aquelas criaturas e corri ate chegar na praça que ficava em frente o prédio. Dito e feito, eles chegavam perto e se contorciam com o contato dos raios solares na pele, o que me dava tempo o suficiente para matar eles. Matei 7 deles e os outros 3 fugiram, como se vissem a desvantagem que tinham. Fiquei mais um tempo ali parada, em choque. Não sabia o que fazer, não sabia para onde ir, não sabia de nada.
Os corpos apodreciam numa enorme velocidade e o cheiro me fez sair dali. Procurava por um lugar onde tinha luz a maior parte do dia e depois de andar por 3 horas pelo meio dos engarrafamentos encontrei este shopping com teto de vidro. E estou aqui já faz uns 3 dias. Por sorte você foi o único a aparecer nesse tempo... seu merda!
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