Na Tábua de Passar Roupa, Não!
1 Na tábua de passar roupa, não!
Na tábua de passar roupa, não!
XXX
- ANDO DAISUKE!
O grito ecoou pelas paredes do apartamento, e Die poderia jurar que os vizinhos também haviam ouvido-o.
Não era a primeira vez nos últimos dias que seu nome era gritado daquela forma; no entanto, isso não o deixava menos incomodado.
O estresse da outra pessoa que morava consigo começava a deixá-lo estressado também... e o que o deixava indignado era o fato de que eles estavam de férias. Férias no Natal, férias que já duravam mais de uma semana – e ao invés de estarem relaxando e aproveitando a folga, o que se via era uma seqüência de discussões entre os dois ocupantes do imóvel.
- Já vai – o guitarrista de cabelos ruivos disse de onde estava – o quarto dos dois – e foi até a despensa ver o que seu amante queria. Respirou fundo, sabendo que, nesse caso, ele era quem tinha de ficar calmo, pois duas pessoas explodindo juntas não fariam com que a situação se resolvesse.
- Você pode me explicar o que é isso? – seu companheiro, guitarrista e líder da banda em que tocavam juntos, Kaoru, apontava para algo sobre a tábua de passar roupa, enquanto o fitava com uma expressão quase carrancuda no rosto.
- Uma garrafa de cerveja...? – Die disse, como quem constatava o óbvio.
- Ah, não me diga.
O ruivo quase riu do tom de voz usado pelo outro, mas, conhecendo-o como conhecia, ficou quieto.
- Eu quero saber o que diabos ela está fazendo em cima da tábua de passar roupa! Gelada, suando, e aberta!
- Ah, eu a esqueci aí – Die disse, fazendo pouco caso do que era, realmente, pouca coisa, e que o outro conseguia, como sempre, transformar num grande problema – numa desculpa para que eles discutissem.
- Esqueceu? Oh, pobre Die, está ficando sem memória. – Kaoru desdenhou da resposta que lhe fora dada, e cruzou os braços sobre o peito, com ar de superior. – Isso lá é lugar pra se deixar uma garrafa de cerveja, Die?
- ...qual é o problema, Kao? – o ruivo continuou agindo tranqüilamente, e retirou a garrafa de seu “local incorreto”, pondo-a na pia da cozinha. Teria aproveitado para beber dela, mas o líquido já não estava mais tão gelado, o que eliminava sua vontade de ingeri-lo.
- Aí está o problema! – Kaoru disse, ainda na despensa, e voltou a apontar para o local em que antes a garrafa estivera, e que agora estava molhado.
Die reaproximou-se do outro guitarrista, e suspirou com um tanto de exasperação ao ver o que, em sua opinião, não era motivo para que o mais velho se irritasse daquela forma. – Isso seca, Kao.
- Seca, seca... claro que seca, né, Die! Mas e se eu quisesse passar roupa agora? E se alguém tivesse entrado aqui sem saber que a garrafa estava aberta e a derrubasse, sujando tudo?
- Mas isso não aconteceu. E você não precisa passar roupa nenhuma agora... Aliás, se tivesse alguma coisa a ser passada, teria uma pilha de roupa aí, o que não é o caso. – o ruivo insistiu em dissuadi-lo daquele estado; entretanto, não seria tão fácil assim.
- Eu só queria que você tivesse um pouco mais de cuidado, Die.
- Ahh, não começa, Kaoru – ele disse, começando a soar impaciente. – Nós dois aqui cuidamos das coisas, mas também cometemos deslizes – não sou só eu. Então não vem com sermão pra cima de mim, tá? Além disso, é Natal. Você e eu devíamos estar preparando nossa ceia.
- Com o quê, Die?
- ...com um peru? – o ruivo sugeriu, erguendo levemente a sobrancelha num tom meio humorístico.
- Você quer dizer, com o peru que você não comprou ontem de manhã?
- Como assim?! Não era você que ia ao mercado ontem?
- Realmente, você anda desmemoriado. Eu pedi que você fosse porque eu ia arrumar as coisas aqui em casa. Lembra?
- ...quando foi isso?
Kaoru mordeu o lábio, e ficou encarando-o, sem dizer nada. Queria que o próprio ruivo se desse conta, sozinho.
- ...mas isso... isso... foi ontem de manhã cedo, logo depois de nós termos transado, Kaoru! Você não esperava que eu fosse realmente lembrar disso, né?
O olhar do guitarrista mais velho, porém, dizia que sim, que ele esperava que Die se lembrasse. Senão, por que teria dito?
O ruivo voltou a suspirar, com um ar ligeiramente derrotado, mas logo sorriu de canto, charmoso, persuasivo, e aproximou-se mais de Kaoru, que recuou um passo, sabendo muito bem o que se passava pela cabeça dele. – Desculpa, Kao... – Die começou, e antes que o outro pudesse se esquivar, puxou-o de encontro a si, beijando seu pescoço. – Mas não vamos brigar por causa disso, ok? É Natal – ele repetiu, fazendo carinho nas costas do líder – que o empurrou sem muita força, só o bastante para escapar de seu abraço.
- É, é Natal. E nós não podemos sequer fazer uma ceia decente, por sua culpa.
Die abriu a boca para reclamar da insistência que Kaoru tinha em deixá-los num clima ruim, mas mudou de idéia, resolvendo fazer de tudo para que este mesmo clima se dissipasse. – Sabe o que nós parecemos? Aqueles casais que estão juntos há muito tempo, que começam a brigar por qualquer coisinha e mal se aturam.
Kaoru também pareceu prestes a discordar, mas desistiu, deixando-se sorrir um pouco enquanto encarava o outro de canto.
- Claro que, nesse caso, você é a esposa trabalhadora e rabugenta, que vive reclamando do marido safado e vagabundo.
O mais velho acabou por rir brevemente, balançando a cabeça. – Eu devia mesmo agir como uma esposa rabugenta e lhe dar uns tabefes por me chamar assim. Mas te perdôo, porque você é mesmo um safado.
- Os safados são os mais irresistíveis, né? – Die disse, com um de seus encantadores sorrisos, enquanto voltava a puxar Kaoru pela cintura, encostando seus lábios nos dele. Desta vez, o mais velho cedeu, deixando-se ser beijado...
...até que percebeu contra o que seu corpo era pressionado, numa tentativa de fazê-lo sentar-se ali.
- Daisuke – Kaoru murmurou, tentando soar repreensivo, mas falhou; e Die silenciou-o com mais um beijo, erguendo seu corpo sem dificuldade alguma para que se sentasse onde o ruivo queria. – Die-
- Shhh – o ruivo cobriu seus lábios com dois dedos, começando a puxar seu blusão para cima.
- ...o que você está fazendo?! – Kaoru indagou, e novamente sua voz o traiu, além de seu próprio corpo – pois ele já erguia os braços para que Die retirasse aquela peça de roupa sua.
- Despindo você – o ruivo murmurou, jogando o blusão para trás de si, sem se importar nem um pouco com o lugar onde ele fosse cair.
- Die... Die, aqui não. E nós temos que fazer o jantar-
- Ele pode ficar pra depois – Die voltou a silenciá-lo com seus dedos, acariciando os lábios do mais velho enquanto beijava seu pescoço, deixando uma trilha úmida que ia desde sob o canto da mandíbula até o início da gola da camiseta de algodão.
- Die... – Kaoru murmurou seu nome outra vez, contra os dígitos que ainda cobriam seus lábios, e que ele tratou de morder – com força, só para que o ruivo parasse com aquilo tudo e lhe desse atenção.
Em outras ocasiões, Die teria interpretado aquilo de maneira nada inocente; mas, nesse caso, ele obrigou-se a parar o que estava fazendo, fitando seu amante com olhos inquisitivos.
- Na tábua de passar roupa, não! – ele disse, contendo a vontade de rir das próprias palavras.
Die, no entanto, não conteve o riso, mas tratou de enlaçar o outro pela cintura, colando seu corpo ao dele, que, desta forma, teria de continuar ali – ao menos por enquanto. – Por que não, Kao? – perguntou, insinuante, roçando seus lábios nos dele.
- Die... – Kaoru disse seu nome mais uma vez, ainda tentando, inutilmente, lutar contra o que era inevitável. — ...e se... e se a gente sujar o forro? Imagina só, não vai mais dar pra passar roupa aqui.
- Daí a gente compra outra tábua e usa essa só pra transar.
Nada do que Kaoru dissesse teria sido o bastante para expressar o quão ultrajante era o que ele acabara de ouvir.
Die riu baixinho, divertindo-se com a reação – ou falta de reação – do outro, e beijou-o de novo, segurando seu rosto entre as mãos. – Relaxa, Kaoru. Você sabe que é só brincadeira.
- Será mesmo? – Kaoru rebateu, descrente. Cruzou os braços sobre o peito então, ignorando – ou tentando ignorar – o carinho que Die começou a fazer em suas coxas, depois de ter descido com as mãos pelas laterais de seu corpo. – Sempre que você diz isso, nós transamos nos lugares mais inapropriados possíveis.
- E você gosta, que eu sei – Die disse logo depois, mal deixando que o líder terminasse de falar. Havia um sorriso malicioso em seus lábios carnudos, malícia esta que se refletia em seus olhos, misturada ainda com um ar maroto que cobria suas feições. – Mas então, Kao... – ele sussurrou o apelido do outro contra seu ouvido, apertando suas coxas para, em seguida, lamber sua orelha. – Vamos incluir a tábua na nossa lista?
- Não, não e não, Die! – Kaoru conseguiu fazer com que seu lado racional reassumisse o controle, e balançou a cabeça, falando com veemência. – Já disse que aqui, não! – e empurrou-o novamente, com tão pouca força quanto da outra vez; e desceu da tábua, ficando de pé.
Porém, Die continuava com o corpo próximo o suficiente para prendê-lo em seus braços novamente, beijando-o com paixão.
A isso Kaoru não resistiu – inclusive, puxou o ruivo pela nuca para aprofundar o beijo, começando a dominá-lo enquanto puxava, com aquela mesma mão, os fios mais curtos que nasciam à beira do couro cabeludo. Sua outra mão tratou de infiltrar-se sob as duas peças de roupa que cobriam o torso do mais novo, de modo a acariciar seu abdômen e seu peito, começando uma curta série de arranhões...
...que foi interrompida quando Die voltou a erguer seu corpo para colocá-lo sobre a tábua de passar roupa, em movimentos rápidos e decididos. Kaoru não teve tempo de protestar, pois o ruivo segurou seus pulsos com uma só mão e continuou beijando-o com sofreguidão, enquanto seus quadris se friccionavam instintivamente.
Foi só quando o guitarrista mais velho soltou um gemido abafado que Die o soltou, mas tratou de segurá-lo de outra forma – pela cintura, mantendo-o sobre a tábua, as pernas em torno de seu corpo.
- Teimoso – o ruivo sussurrou, meio ofegante, com um meio sorriso nos lábios, que ele lambeu... vagarosamente.
Kaoru acompanhou os movimentos daquela língua, os olhos fixos na boca do outro, que pareceu sorrir ainda mais pela atenção. – Você também é – ele conseguiu dizer, erguendo o olhar para encontrar o de Die.
- Mas falando sério, Kao – e apesar da situação, do sorriso que continuaria em seu rosto, e do beijo a mais que ele deu em seu amante, Die resolveu falar daquilo que o incomodava. Afinal, o momento era até oportuno, considerando que ele havia, teoricamente, amolecido o outro guitarrista – ou, ao menos, era isso que o ruivo pensava. – Você anda muito estressado.
Kaoru revirou os olhos, mas não pareceu irritado ou chateado com a abordagem do assunto. Talvez não gostasse muito do fato de Die ter tocado nisso justamente agora, mas sabia que, no fundo, o ruivo tinha razão.
- ...e o pior é que eu acabo me estressando também – o mais novo continuou, balançando a cabeça ligeiramente; mas um sorriso apaziguador permanecia em seus lábios. – Nós estamos de férias, Kao. Faz bastante tempo que não temos férias assim, decentes, e no final do ano. Ao invés de nos estressarmos, nós devíamos estar aproveitando esse tempo, ne?
O líder assentiu, sorrindo também. Voltou a fazer carinho no peito do ruivo, mas, desta vez, sobre a roupa, deixando que seus dedos caminhassem dos ombros até as costelas, e dali até o pomo de adão; indo e voltando por caminhos diferentes. – Acho que a falta do que fazer tem me deixado assim. Como você me proibiu de pensar no trabalho ou em qualquer coisa relacionada a ele durante esse tempo, eu fiquei meio... perdido. Mas você está certo, Die.
- Eu sabia que a gente devia ter programado uma viagem ou qualquer coisa assim.
Kaoru deu de ombros, enlaçando o tronco do ruivo com as pernas e fitando-o com olhos entre zombeteiros e desejosos. – Não significa que a gente não possa programar algo pros próximos dias.
Die voltou a apertar as coxas dele com as mãos, apalpando-o até chegar à região logo abaixo dos quadris, perto da base da espinha. – Em plena véspera do Natal? Com o Ano Novo próximo? É quase impossível, Kao.
- E quem disse que a gente precisa pegar um avião, fazer algum pacote turístico ou qualquer coisa assim? – ele respondeu, pendendo a cabeça pro lado para dar livre acesso ao ruivo, que voltara a beijar seu pescoço. Kaoru suspirou, mexendo nos cabelos vermelhos e percorrendo as costas dele com as mãos.
- ...vejo uma idéia surgindo? – Die comentou, depois de dar uma mordida no ombro do outro guitarrista. Começou a puxar a camiseta dele para cima, mas Kaoru segurou suas mãos, balançando a cabeça.
- O que eu disse sobre isso, Die? – indagou, mas havia um quase sorriso em seus lábios.
- Na tábua de passar roupa, não! – o ruivo respondeu, imitando o tom de voz que Kaoru usara ao dizer aquilo – o que lhe fez ganhar um soco no braço, de brincadeira. – Não tenho culpa se você fica me provocando.
- Ah, e você virou o santinho agora?
Die apenas riu, beijando-o outra vez. Insistente, voltou a puxar a camiseta para cima – e, para sua surpresa, Kaoru não tentou impedi-lo dessa vez, de modo que a parte de cima do corpo do líder estava, agora, completamente desnuda.
- Sobre a viagem...
Die ignorou a tentativa dele de retomar o assunto, tratando de beijar seu peito, dando especial atenção a um dos mamilos – e Kaoru gemeu, segurando seus ombros – e o pensamento de que era muito injusto que Die ainda estivesse completamente vestido cruzou sua mente. Então ele afastou o ruivo – que, por um momento, pensou que Kaoru fosse pedi-lo para parar com tudo outra vez – e pegou na barra das duas blusas que Die estava usando, puxando-as juntas para tirá-las de seu corpo de uma vez.
- A gente pode ir de carro – o líder continuou, aproveitando seus feitos para tocar diretamente na pele do ruivo, começando pelos braços, que voltaram a enlaçá-lo pelo quadril, puxando-o de encontro ao corpo de Die. A proximidade entre eles nunca era o suficiente, e ainda assim, por mais perto que eles estivessem um do outro, parecia que eles sempre conseguiam se aproximar mais, se colando, apertando, esfregando, envolvendo...
...possuindo...
- Traçar nossos próprios destinos...
Die não pôde deixar de notar os vários sentidos que aquela frase possuía, e sorriu contra o pescoço de Kaoru, que voltava a receber doses de beijos e lambidas por parte do guitarrista mais novo. Entretanto, agora, tudo o que o ruivo queria era que ele calasse a boca para que a palavra traçar fosse usada de forma mais... prática... e no sentido figurado.
- A gente pode falar disso depois – o ruivo sugeriu, começando a abrir a calça de Kaoru.
- Die-
O ruivo silenciou-o com um beijo voraz, que demorou o bastante para que Kaoru ficasse ofegante, os lábios levemente marcados pelo ataque recebido. – Conversamos depois. Na tábua de passar roupa, não!
Kaoru ficou olhando para ele, momentaneamente sem reação, mas então riu, balançando a cabeça. – Você está distorcendo minhas palavras.
- “Tirando proveito delas para que a gente faça sexo aqui e agora” seria uma interpretação mais adequada, Kao.
O líder mordeu o lábio inferior, desviando o olhar do de Die por um instante, ainda balançando a cabeça, e, também, com um ar de quem queria voltar a rir ou sorrir.
- E então? – Die indagou, como se tivesse pedido para que o outro escolhesse entre uma folha branca ou uma preta.
- Eu sei que vou me arrepender disso, mas... – Kaoru murmurou, voltando a fitá-lo. Puxou-o para si e voltou a enroscar-se em seu tronco, sorrindo ao sentir o quanto o ruivo o queria – o quanto eles queriam um ao outro. – ...a gente compra outra.
Die demorou menos de um segundo para registrar o significado daquelas palavras – e Kaoru tratou de deixá-lo mais claro, devorando sua boca num beijo longo e insinuante, enquanto seu quadril voltava a movimentar-se contra o do ruivo, que correspondia com fogo e libido equivalentes.
XXX
22/12/2006.
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