Na Real
18 Capítulo 18 - A Proposta
Notas iniciais
Na Real — Capítulo 18
— Ahhhh, Camus, como eu pude viver esse tempo todo sem você na minha vida? — Perguntou Milo, logo após se recuperar do orgasmo que tivera.
Estavam no quarto de Milo, novamente entre os lençóis; nas três últimas semanas os dois estavam se vendo quase todos os dias, Milo não poderia negar, estava perdidamente apaixonado por Camus.
O jovem ruivo, por sua vez, sentia que estava vivendo num sonho bom, ainda que sua ansiedade por vezes o fizesse temer que tudo fosse acabar a qualquer momento.
Amava Milo, disso não tinha dúvidas, mas temia. Estava feliz, e era justamente isso que o assustava.
Talvez por medo de que tudo fosse acabar a qualquer momento, Camus abraçou Milo fortemente, tinha medo de acordar e descobrir que tudo não havia passado de um sonho bom.
Alheio aos medos de Camus, Milo o abraçou de volta, encarando aquele gesto como um ato de carinho pós sexo.
— Camus, dorme aqui comigo essa noite. — Pediu Milo — dengoso.
Camus afastou-se, encarando o rosto amado. — Não posso, Milo, tenho que voltar pra casa, já está quase na hora da babá ir embora.
— Isso não é justo, por que ela não dorme lá essa noite? — Perguntou Milo, agora fazendo drama.
— Essas coisas têm que ser combinadas com antecedência, eu não posso simplesmente não voltar pra casa. — "Isso sem contar a hora extra que a babá sempre cobra nas vezes em que dorme lá em casa" — pensou Camus, sem comentar este detalhe com Milo.
— Vamos fazer um programa, nós quatro? Sei lá, ir a um parque ou algo assim? — Sugeriu Milo, mas Camus se mexeu incomodado. — O que foi?
— Nada, mas não quero envolver meus irmãos na nossa história, ao menos por enquanto. — Explicou o ruivo sério.
— Não me quer perto deles? — Questionou Milo, buscando entender as razões do outro.
— Eu tenho medo, Milo, muito medo, não quero envolver eles na nossa história. Eu não sei quando você vai se enjoar de mim, mas uma hora vai me dispensar, e como eu vou fazer se eles estiverem envolvidos? Eu sei que aguento qualquer coisa, mas os meninos... Eles já passaram por tanta coisa e... — Milo calou Camus posicionando os dedos sobre sua boca.
— Shhhh, Camus, eu não vou te dispensar. Eu não sei o que o futuro nos reserva, mas eu quero ficar do seu lado por muito tempo. — Disse Milo abraçando o ruivo, que aceitou o abraço.
Mas logo Camus, que sentia uma angústia invadir sua alma, se levantou da cama e foi para o banheiro, precisava tomar banho e voltar para sua casa.
Estava inquieto, não era somente sua ansiedade gritando, Camus sabia disso.
Havia recebido uma mensagem de Saga ordenando que fosse à sua casa no dia seguinte e o ruivo sabia que o dinheiro estava acabando, não todo! Ainda tinha um pouco na reserva, o dinheiro da festa do aniversário de Radamanthys, ainda não estava zerado, mas tinha um irmão doente, jamais poderia agir de forma inconsequente e colocar os irmãos em risco.
Contudo, sua mente não o deixava em paz!
"Como voltar à antiga vida depois de ter descoberto o que é o amor?"
"Como deixar que outra pessoa me toque depois de conhecer os toques de amor de Milo?
Pensava ainda angustiado sobre sua possível volta ao trabalho e a incerteza do seu romance com Milo.
"Eu não sou digno dele, mais cedo ou mais tarde ele vai me deixar, no que eu estava pensando quando me envolvi com Milo Kapino?" — Os pensamentos conflitantes martelavam a mente ansiosa de Camus.
Milo entrou no banheiro com uma toalha para que Camus se secasse.
Olhando para o ruivo que estava distraído de costas pra porta, o loiro resolveu se juntar ao outro no banho.
— Tem lugar para mais um aqui? – Perguntou, já entrando no box.
Camus deu espaço para Milo, que puxou o ruivo para um beijo, deixando a água do chuveiro cair sobre eles.
— Milo... Eu. — Começou Camus, mas foi cortado por Milo.
— Depois do banho, meu ... Príncipe. — Pediu Milo.
E, apesar das carícias trocadas naquele momento, tudo não passou de um banho.
...
Na cozinha da cobertura, Milo colocava comida para o gato Scorpion e Camus os observava.
Quando terminou sua tarefa sentou ao lado de Camus e segurou sua mão. — Vai finalmente me dizer o que está te incomodando?
— O quê? — Perguntou Camus, começando a sentir seu rosto arder.
— Eu já te conheço, Camus, sei quando esconde alguma coisa de mim. — Disse Milo, observador.
— Saga. — Revelou Camus, e Milo estreitou os olhos. — Ele me mandou uma mensagem, pedindo para que eu vá até a casa dele amanhã.
— Você não vai, é claro. — Declarou Milo, sério.
— Não é tão simples assim, Milo, eu devo muito a ele. — Tornou Camus e acrescentou ao ver que o loiro iria falar. — Não é só dinheiro, Milo, o Saga me ajudou muito durante todo esse tempo.
— Camus, eu não quero mais que você continue trabalhando para ele, eu posso te bancar, te dar um mesada e... — Milo parou de falar quando viu Camus se levantando e indo em direção à porta.
— Ei, Camus, espera, o que foi? — Perguntou Milo, segurando o amante. — O que tá acontecendo? Por que tá saindo assim?
— Não percebe, Milo? Isso que você propôs, não percebe como é ofensivo? Eu não posso aceitar! Você nunca me respeitaria se começasse a me "bancar", eu ia ser apenas o seu puto fixo. — Respondeu Camus, triste.
— Não! Claro que não, eu ... — Milo tentava negar as coisas sem sentido que Camus estava dizendo.
— É assim que você me exerga, não é? Alguém que você pode pagar pra ter sexo? — Perguntou Camus, olhando nos olhos de Milo.
O herdeiro dos Kapino o olhou de volta, surpreso e interrogativo. — Ué, mas não é o que você faz? Qual o problema, ao invés de transar com estranhos por aí, você vai ficar apenas comigo, qual o problema?
Magoado, Camus balançou a cabeça negativamente. — Se você não entende a diferença, eu realmente não sei o que estou fazendo aqui, não sei o que foi isso que vivemos esses últimos dias.
Dito isso, Camus soltou a mão de Milo de seu braço e saiu pela porta de serviço, uma vez que estavam na cozinha, sem dar chance para Milo falar mais alguma coisa.
O ruivo saiu, não esperou o elevador; desceu pelas escadas, não queria que Milo o seguisse, não queria que o loiro o visse, estava magoado.
— Como você é burro, Camus, burro! Claro que pra ele você vai ser sempre um maldito michê! Burro! — Camus dizia para si, enquanto descia as escadas.
....
Milo viu Camus sair pela porta sem entender o que havia feito de tão grave, mas logo veio à sua mente a voz de seu amigo Carlo dizendo "Parabéns, Milo, você tratou um garoto de programa como todos tratam garotos de programa" .
— Merda! — Milo soltou. socando a mesa; logo Scorpion subiu na peça e ficou encarando o seu humano. – Tá, eu sei, eu fiz merda! Mas eu tô errado? Eu não quero que ele continue se prostituindo por aí, eu poderia bancar ele e os irmãos.
Meow
— Tá, eu sei que isso é rude, mas o que eu posso fazer?
Milo terminou por tomar um suco enquanto pensava em toda aquela situação, de fato Camus tinha razão.
"Droga, o cara foi tratado como lixo por todo mundo, por que ele pensaria que eu o trataria de outra forma, sendo que eu sempre fui escroto com ele?"
— Mas o que eu posso fazer para tirar você dessa vida, Camus?
Milo pensou, "ele precisa é de um trabalho digno, não de alguém que o banque" — foi quando teve uma ideia e sorriu.
*-*-*-*-*
Carlo estava em seu apartamento analisando alguns documentos que Shura havia trazido da viagem à França. Na parede do quarto que ele usava como escritório havia uma espécie de organograma, com a imagem de Saga Nikolos ao centro, e também uma foto de Camus, entre de outras pessoas ligadas ao cafetão.
— Como é possível que um homem que é conhecidamente explorador sexual saia imune de tantas coisas? — Dizia Carlo ao acender um cigarro.
Ainda em seu organograma havia uma foto do jovem que conhecera na Sanctuary, o belo Afrodite. Carlo não sabia ao certo qual era a ligação do rapaz com a organização de Saga, mas estava apenas no início da investigação.
Foi quando seu celular vibrou em seu bolso.
Carlo pegou o aparelho e viu quem era em seu visor; atendeu. – Olá, chefe.
— Sim, sim eu sei, o tempo está passando, ninguém mais do que eu quer aquele canalha na cadeia, mas você sabe que é difícil investigar esse pulha, ele tem as costas quentes. Você sabe que tem gente importante com ele.
— Eu sei... O quê? Na boate, eu estou mantendo contato com um rapaz sueco... Não! Eu não estou transando com ele, o rapaz canta, então eu peço pra ele cantar pra mim... É, ele deve me achar um desses pervertidos com desejos estranhos.
— Obviamente espero ganhar a confiança dele, e aí começar a investigar aquele lugar de fato com um informante lá dentro.
— O quê? Você acha que consegue essa prova contra ele? Isso seria incrível.
— Certo, eu vou continuar investindo na Santuary.
Ao desligar o celular, Carlo voltou a analisar seu organograma; em suas mãos havia algumas fotos, entre elas uma do Juiz de Direito Radamanthys de Wyvern, outra de Klaus Kapino, pai de seu amigo Milo, sabia que os dois eram clientes de Saga, assim como os demais. Contudo, o objetivo era saber: quem deles tinha com o investigado negócios escusos que iam além dos de cliente e cafetão?
*-*-*-*
Camus chegou em casa ainda muito magoado com Milo.
Obviamente entendia o ponto de vista do loiro em achar que tanto fazia ele pagar para ter Camus ao seu dispor, ou um estranho pagar.
A proposta poderia até ser tentadora se Camus não estivesse apaixonado por Milo.
E justamente por este motivo é que a proposta do jovem Kapino fora tão ofensiva a Camus.
— Camus, meu querido, que bom que chegou, os meninos acabaram de jantar. — Zaíra foi avisando assim que o ruivo entrou no pequeno apartamento.
— Mano! — Hyoga chamou, indo abraçar o irmão mais velho como sempre fazia quando o ruivo chegava em casa.
Camus correspondeu ao abraço do irmão menor e, olhando para a babá, falou. – Obrigada, Zaíra. Desculpe o atraso, sei que deveria chegar antes do jantar, mais uma vez eu agradeço por tudo.
— Tudo bem, meu querido, não se preocupe. — Dito isso, a babá saiu, não antes de avisar. — Deixei seu jantar no forno.
Camus agradeceu e foi conversar com os irmãos. — E aí, o que fizeram nesta tarde?
— Eu fiz o dever sozinho. — Hyoga falou, orgulhoso, para receber um elogio do irmão.
— Muito bem, Hyoga, deixe-me ver o seu dever. — Pediu Camus, pois conhecia as artimanhas do irmão caçula.
Isaak sorriu, pois sabia que se Camus encontrasse algum erro nos exercícios de Hyoga, faria o irmão caçula refazer os exercícios e passaria outros dez.
Dito e feito, Hyoga havia errado quatro dos dez, e Camus o mandou refazer todos. Ainda passou mais alguns, para que o menino aprendesse e guardasse a matéria na mente.
Isaak procurou não se intrometer, mas Camus aproveitou para fazer algumas revisões com ele também, afinal, havia retornado às aulas fazia apenas uma semana e tinha muita matéria acumulada.
— Camus, já está tarde, tá na hora da gente ver TV. — Reclamou Hyoga.
— Acho que vocês veem TV demais. — Tornou Camus.
— Mas isso não é justo, a gente não pode brincar na rua, não pode brincar na casa dos nossos amigos, ninguém pode brincar aqui e agora você tá reclamando até da TV! — Continuou reclamando o menor, e Camus, como sempre, cedeu, afinal, o menino tinha razão.
Os três ouviram batidas na porta e, quando olharam na direção da mesma, Marin entrava sorrindo. — Com licença, posso entrar?
— Marin! — Disseram os meninos juntos, e Hyoga saiu em disparada para abraçar a vizinha.
— Marin, que bom te ver, veio pra ficar ou vai viajar novamente? — Perguntou Camus, a DJ tinha fechado com uma agência de eventos e estava tocando em alguns navios de cruzeiro, a grana era boa e os contatos também.
— Vou ficar alguns dias aqui, mas logo viajo novamente, cheguei hoje à tarde, mas dormi assim que tomei banho, estava exausta.
Marin havia vindo pouco antes de Isaak ter alta, mas teve que viajar logo em seguida, não estava sabendo nada do que tinha acontecido ao amigo durante aqueles dias. Entretanto, notou que o rosto de Camus tinha uma coloração diferente próximo à boca, aquele tom esverdeado de quando um roxo está sarando.
— Senta aqui, vem, a gente terminou o dever e vai começar a assistir TV. — Hyoga chamou a moça, puxando-a pelas mãos.
— Vão começar a ver agora? O que tem de interessante? — Marin perguntou, olhando para Camus sorrindo.
O amigo fez o gesto com as mãos avisando que não tinha o que fazer, os meninos estavam com saudades da amiga.
Após os meninos tomarem grande parte do tempo de Marin querendo saber sobre os navios, Camus finalmente os colocou para dormir.
— Meu Deus, você deixou os dois elétricos. — Comentou Camus para a amiga.
— São crianças, são assim mesmo. — Disse a DJ e, olhando para Camus, perguntou. — Você está bem? O que foi isso no seu rosto?
Envergonhado, Camus sentiu seu rosto corar.
— Não foi nada, eu caí, só isso. — O amigo respondeu, se levantando do sofá e indo até a cozinha com a desculpa que iria finalmente jantar.
— Tem comida aqui suficiente para nós dois, você aceita? — Perguntou o ruivo, disfarçando seu constrangimento.
Marin estreitou os olhos, observando o amigo. — Ok! Janto com você. — Respondeu à pergunta do amigo e, olhando em seus olhos, tornou. — Você "caiu" na mão do Saga ou de algum cliente?
Os dois se encararam por alguns segundos e Camus quebrou o silêncio.
— Já está melhor, quase não dá pra ver. Você que é uma enxerida. — Respondeu Camus incomodado.
— Amigo, eu fico fora alguns dias e você já está permitindo que o Saga volte a fazer isso com você? — Reclamou Marin. — Como foi? Qual foi o motivo dele desta vez?
Colocando o jantar na mesa, Camus respondeu. — Você fala como se ele me pedisse autorização para fazer essas coisas – Reclamou, ainda constrangido.
— Não quer falar sobre isso? — Indagou a amiga, respeitando o espaço do ruivo; se serviu e serviu o amigo, que já estava sem fome.
Camus não queria falar nada, mas sabia que assim que Marin ficasse a sós com seus irmãos eles fatalmente contariam a versão deles, que, com certeza, seria muito mais assustadora do que a real. Então suspirando vencido, falou — É uma longa história.
Camus teve que começar contando sobre Milo, sobre o que havia feito com ele no aeroporto internacional de Paris, dos atendimentos ao loiro em solo grego, a proposta de Milo de conhecer o "Camus" a fundo, o desejo de Saga de que o ruivo seduzisse o jovem Kapino, ao escândalo no consultório do médico, a recaída na saúde de Isaak, ao fato de o loiro ficar consigo durante os dias no hospital e o fato de o rapaz ter se aproximado dos meninos, e, por fim, do domingo fatídico em que Milo os buscou no hospital e o mal entendido que fez agir de forma tão violenta na frente dos irmãos.
Findando o relato, Camus encarava a moça, em busca de alguma reação em seu rosto.
— Pelos deuses, Camus! Quanta coisa! E você passou por tudo isso sozinho? Eu sinto tanto. — Lamentou a amiga. — Esse Saga é um crápula! Um canalha, ele não tinha o direito de fazer isso com você.
Camus nada falou, "com certeza Saga não tinha o direito de fazer aquilo, mas o que eu posso fazer a respeito?" — Pensou.
Olhando cabisbaixo para a amiga Camus falou. — Tem mais.
Confusa, Marin o encarou, esperando que o rapaz lhe colocasse a par de todo o resto.
Camus então contou sobre Milo, da noite de amor que tiveram, dos momentos românticos que estavam vivendo desde então; contou que pediu um tempo no trabalho para Saga, para que pudesse viver esse sentimento, claro que revelou que estava mentindo para o agente dizendo que esse distanciamento era um pedido do loiro e por fim revelou a proposta de Milo.
— Acha que fiz mal em recusar? Eu o amo Marin, como nunca pensei que fosse capaz de amar alguém, é um amor diferente do que eu sinto pelos meninos, óbvio, mas quando ele me propôs isso, eu tive certeza de que ele não me ama da mesma forma, entende? — Camus perguntou, angustiado em se fazer entender.
— É complicado para eu dar minha opinião, Camus, seu trabalho não é nada convencional, não acho que ele não o ame por propor isso a você, mas acho que você fez bem em recusar.
— Então eu agi certo e errado ao mesmo tempo? — Perguntou o jovem, confuso.
— De certa forma sim, veja, você estava certo em não aceitar, pois mesmo que ao fazer a proposta estivesse coberto de boas intenções, sabemos que com o passar do tempo ele fatalmente iria acabar te tratando mal, ter você completamente dependente dele não seria a melhor coisa para o relacionamento de vocês. — Apontou sabiamente a moça, que continuou. — Mas agiu mal em pensar que esse rapaz não seria capaz de te amar de verdade. Camus, ele quis te conhecer, e isso bastou para que ele visse o homem maravilhoso que você é!
Camus sorriu, descrente das palavras da amiga.
— Eu tenho medo, Marin, medo do que eu estou sentindo por ele. — Confessou Camus, angustiado. — Eu preciso trabalhar, você sabe. Como vou conseguir ficar com outro homem depois de ter conhecido o amor com Milo? Como posso deixar que outro me toque?
Marin se compadeceu dele; lembrou da história que o amigo lhe contou quando o médico de Isaak esteve ali, Camus foi aliciado quando era um adolescente de recém completados quinze anos e nesta vida estava até aquele momento.
Como sair dessa vida?
Saga permitiria?
A surra que Camus levou lhe dizia que não, Saga jamais permitiria que Camus saísse assim tão facilmente.
— Sei que não vai ser fácil, mas você não pensa em mudar de vida?
Camus a olhou triste antes de responder. — Todos os dias, mas como? Além do tratamento do Isaak, ainda tem todos os custos com os meninos, e também onde eu iria morar? Este apartamento é do Saga, como eu me manteria? Quem daria emprego para alguém como eu?
— Quem não daria? Camus, você é bonito, fala bem, tem estudo, mesmo que não tenha concluído, você não é um homem despreparado!
— Amiga, lembra da faculdade quando vazaram meus vídeos? Lembra do inferno que passei naqueles tempos? E se acontecer algo semelhante novamente, num trabalho? Como me manter empregado? Eu não sou sozinho, amiga, tenho que pensar nos meninos. — Concluiu triste.
— Vamos pensar em alguma coisa, OK? — respondeu Marin, sem muita convicção.
Camus assentiu, também sem convicção.
*-*-*-*
Saga estava em sua casa de roupão e uma boxer preta; tomava o café tranquilamente enquanto lia seu jornal, veria Camus em algumas horas, havia sinalizado para o ruivo que queria vê-lo, e sabia que o seu "favorito" jamais deixaria de atender a uma ordem sua.
Sorrindo, lembrou que mandara Aldebaran entregar um bilhete a Milo Kapino, marcando um encontro consigo, já estava farto dessa brincadeira do playboy com o "seu" Camus, teria que dar um fim nisso o quanto antes.
— O que está aprontando? — Perguntou Kanon ao entrar na cozinha, apenas de cuecas.
— Kanon, por favor, vamos manter a dignidade? Ponha uma roupa para vir até a cozinha, esta é uma casa de respeito!
Kanon franziu a testa comicamente, olhando confuso para o irmão antes que começar a gargalhar. — "Casa de respeito! " Pelos deuses, você sabe o que fazemos aqui diariamente, não é?
Tomando um gole do seu café, Saga respondeu ao seu gêmeo de forma blasè. — O fato de trabalharmos com sexo não quer dizer que devemos nos comportar como imundos indecentes.
— Ai, meu saco! Me deixa tomar café em paz, OK? — Resmungou Kanon, sentando-se à mesa e se servindo de um pedaço generoso de bolo de laranja.
Saga continuou lendo seu jornal, procurando possíveis clientes entre os granfinos das colunas sociais.
*-*-*-*
A BMW X6 preta parou no estacionamento do escritório das indústrias Kapino às sete e quarenta da manhã. Milo estacionou na sua vaga próximo à entrada, desligou o carro, tirou o cinto e desceu pegando sua maleta.
Logo o barulho do alarme se fez ouvir.
— Bom dia, Oton. — Cumprimentou o segurança, olhando seu nome no crachá.
Milo sempre teve a iniciativa de cumprimentar os funcionários da empresa, mas só depois de uma conversa com Camus se deu conta de que não sabia o nome dos funcionários de cargos menos importantes, então estava disposto a mudar isso.
— Bom dia, Sr. Milo. — Respondeu o funcionário, contente por ter sido notado pelo chefe.
Assim que entrou, Milo viu que Aioria já estava na empresa e foi até a sala dele.
— Aioria, como vai?
— Bom dia, Milo, eu estava mesmo querendo falar com você, sua viagem é pra próxima semana, OK?
— Inferno! Eu havia me esquecido. — Praguejou Milo.
— É, eu sei, mas são ordens do seu pai.
— Tudo bem, os documentos e contratos estão prontos? Vou trabalhar nesta questão hoje, quero me aprofundar neste assunto.
Dito isso, Milo foi para sua sala. Viu um homem grandão que conversava com sua secretária. — Bom dia, Jade. — Cumprimentou a funcionária e entrou; em menos de dois minutos, a gentil moça entrou em sua sala.
— Sr. Milo, bom dia, trouxe estes relatórios a respeito da viagem que o senhor fará na próxima semana e estes documentos que precisa assinar.
— Certo, deixe aqui em cima da minha mesa que eu já vejo isso tudo. – Pediu, enquanto ligava o notebook que trouxera consigo de casa.
— Sr. Milo, tem um senhor lá fora que deseja falar com o senhor. — Avisou a secretária.
— Quem é ele e do que se trata? — Perguntou Milo, não estava acostumado a atender qualquer pessoa, e era estranho alguém que chegasse assim sem hora marcada.
— É o Sr. Aldebaran, ele disse que vem da parte do Sr. Saga Nikolos e que o assunto é de seu interesse. — Respondeu a moça sem jeito, com medo de levar alguma bronca, pois não fazia ideia de quem era Saga e quais assuntos esse homem teria com seu chefe.
Milo, que estava com o semblante tranquilo, ficou sério de repente e, com os olhos sombrios, pediu. — Peça-o para entrar, e não quero ser interrompido por ninguém, OK? Ninguém, nem pelo Aioria e nem pelo Sr. Klaus.
A secretária arregalou os olhos e confirmou com a cabeça, logo saiu fazendo o grandalhão entrar.
Milo fechou a cara, colocando a expressão mais ameaçadora que conhecia.
— Sr. Milo vai recebê-lo, por favor, por aqui. Avisou a secretária, solícita.
Aldebaran, que estava todo sorrisos com a secretária de Milo, assim que recebeu a ordem para entrar também mudou o semblante; o gigante estava cumprindo ordens, e a ordem que recebeu foi de fazer cara de poucos amigos e de intimidar o loiro.
Ao entrar, os dois homens se encararam de forma rude. Jade percebeu, mas ainda assim perguntou. — Sr. Milo, devo trazer um café ou água?
— Não se incomode com isso, senhorita, creio que nosso assunto aqui será rápido. — Foi Aldebaran quem respondeu, para o desagrado de Milo.
— Nos deixe a sós, Jade, por favor. — Pediu o jovem Kapino.
Voltando seu olhar para Aldebaran, perguntou. — E então, que recado tem pra mim?
— O Senhor Saga quer conversar pessoalmente com o senhor, hoje na Santuary, disse que é sobre algo que pertence a ele, mas que está temporariamente emprestado para o senhor.
— Canalha! — Bradou Milo, batendo na mesa. — Quem este maldito pensa que é? "Algo? Que eu estou com ALGO que pertence a ele? Como se Camus fosse apenas um objeto!"
Aldebaran continuou imóvel, sabia que era de Camus que falavam e não podia, naquele momento, se intrometer ou dar alguma opinião.
Olhando para o gigante, Milo falou ríspido. — Eu não tenho nada a tratar com esse calhorda.
— Senhor, peço que repense sua resposta. — Tornou Aldebaran sério.
— Acaso me ameaça? Vai fazer algo comigo se eu não aceitar ir? — Perguntou Milo, sem se deixar intimidar pelo homem de quase dois metros de altura à sua frente.
Abaixando a guarda, Aldebaran falou. — Não digo pelo senhor, e sim pelo Camus, que é o lado mais fraco nesta história, com certeza Saga descontará sua ira no rapaz.
— Você está ameaçando o Camus? — Bradou Milo, com mais raiva.
— Não, mas sei que Saga castigará Camus caso o senhor não vá falar com ele. Escute, Camus é meu amigo e sei como Saga consegue descontar suas frustrações no rapaz. Sei que com você ele não fará nada de violento, não por enquanto.
— E ele quer conversar comigo na Santuary? – Perguntou, absorvendo a fala do gigante à sua frente.
— Eu sendo o senhor aceitaria a conversa, mas escolheria um local neutro, ou um local em que estivesse mais seguro. — Aconselhou Aldebaran.
— Que espécie de capanga é você?
— Não sou capanga, sou editor de vídeo e cuido das partes eletrônicas do Saga, e, por algum motivo, ele me pediu para vir dar esse recado para o senhor. — Respondeu Aldebaran sorrindo. — Seria um fracasso como capanga.
Milo o olhou desconfiado. — Você diz que é amigo do Camus?
— Sim, sou, por isso eu te peço para que não deixe de atender o pedido do Saga.
— OK! Diga ao Saga que vamos nos encontrar na Santini, no centro da cidade, às oito horas da noite.
— Obrigado, senhor. — Agradeceu Aldebaran, mas quando estava na porta voltou seu olhar para Milo e pediu. — Se o Saga perguntar, diga que eu fui muito ameaçador, OK?
Milo nada respondeu, apenas olhou para o gigante, confuso.
Sentou em sua cadeira e se lembrou de que Camus havia dito que teria que se encontrar com Saga naquela manhã.
Logo pegou o seu celular e ligou para Camus.
O ruivo havia acabado de deixar Hyoga na escola e seguiria para a casa de Saga, quando ouviu o celular tocar. Pegou o aparelho e viu que era Milo, pensou em não atender, mas a necessidade de ouvir a voz daquele loiro mimado foi maior.
— Oi Milo, bom dia. — Camus tentou colocar o máximo de monotonia em sua voz, mas sabia que Milo não cairia neste jogo.
— Camus, você está bem? — Perguntou Milo com urgência, preocupado e sentindo um grande alívio ao ouvir a voz do ruivo.
Estacionando o carro para poder falar com Milo com mais tranquilidade, Camus respondeu. — Sim, estou bem, aconteceu alguma coisa? Você me parece nervoso.
— Não, eu só... acho que tive um sonho ruim. — Disfarçou Milo. — Acho que foi porque você saiu daqui bravo comigo.
— Milo, me desculpa, mas você não vai entender os meus motivos, sei que pra você é confuso, mas...
Milo não iria saber o que Camus diria a seguir, pois o cortou. — Eu entendi, demorei, mas entendi sim, Camus.
— Entendeu? — Camus disse, surpreso.
— Sim, eu entendi, mas vamos falar disso depois, Camus, você já foi à casa do tal Saga?
Camus suspirou cansado antes de responder. — Estou indo pra lá agora, acabei de deixar o Hyoga na escola.
— Eu não queria que você tivesse mais contato com este homem.
— Milo, já conversamos sobre isso, eu não posso simplesmente não atender aos chamados do Saga.
— Tudo bem, Camus, apenas me ligue quando sair de lá, OK?
Camus sorriu; ter alguém preocupado consigo era tão inusitado. — Tudo bem, Milo.
— OK, se cuida.
— Pode deixar.
Ambos queriam encerrar a ligação com um "eu te amo", mas nenhum deles estava pronto pra confessar isso em voz alta.
— Eu vou dar um jeito de te livrar desse homem Camus, prometo! — Disse Milo em voz alta assim que desligou o telefone.
*-*-*-*
Camus estacionou seu carro em frente à mansão de Saga, controlando a respiração para permanecer o mais impassível possível perante as provocações do moreno. Tirou o cinto de segurança e saiu do carro.
— Olá, Aquário. — Mouse cumprimentou.
— Oi Mouse, Saga está me esperando. — Avisou Camus, e o capanga de Saga o deixou entrar, pois seu chefe já havia avisado sobre a visita do ruivo.
Saga havia se arrumado com há muito não fazia; infantilmente queria estar bonito pra Camus.
Camus entrou na casa e viu o homem sentado no sofá. Ficou encarando para saber com qual dos gêmeos estava falando.
O homem que estava sentado no sofá apenas sorriu, fazendo com que Camus desse um passo pra trás.
— Acalme-se, Camus, sou eu. — Saga disse. Levantando-se, foi até o ruivo e tentou beijar sua boca, mas Camus se afastou, mais por reflexo do que por outra coisa.
— Ainda está bravo comigo? — Perguntou Saga, encarando o rapaz após a negativa do beijo.
— Magoado, sim, ainda estou muito magoado com você. — Disse Camus para tentar se afastar do assédio de seu agente.
— Pelos deuses, eu faço tudo por você e por causa de um único deslize você me trata assim? — Começou Saga se vitimizando.
— Não foi um deslize, Saga, você invadiu a minha casa e me agrediu na frente do meu irmão de apenas nove anos, no dia em que eu havia trazido meu outro irmão de apenas onze anos do hospital. Você quebrou a única regra que eu coloquei, a única! — Devolveu Camus.
— Será que você não vai me perdoar nunca?
— Está tudo muito recente, eu preciso de um tempo, já disse.
— Mas eu acho que já dá pra você voltar ao trabalho. — Observou Saga, analisando o rosto de Camus.
Camus então tirou sua camisa, mostrando as marcas roxas dos chutes que havia levado de Saga.
— Olha isso, Saga! Acha mesmo que dá pra eu voltar a trabalhar assim?
Saga olhou o torso nu de Camus, para ele não havia problema algum as manchas roxas pelo corpo, o ruivo era apetitoso de qualquer forma, a barriga definida, o corpo todo esbelto faziam o membro de Saga pulsar dentro da calça.
— Tudo bem, meu querido, eu vou te dar mais uns dias antes de voltar ao batente. — Saga iria dizer que se Milo não se importava com o corpo do ruivo daquele jeito os outros clientes também não haveriam de se importar, mas decidiu não tocar no assunto "Milo" por ora. Mais tarde teria uma conversa com o loiro e se livraria daquele fardo pra sempre.
— Certo, você vai aproveitar essa folga, mas quero que aguarde um pouco: contratei o Misty e o Argol para assumirem o canal da produtora nas redes sociais, eles vão fazer vários conteúdos, entrevistas, bastidores etc e eu quero que a entrevista de estreia seja com você. Logo Aldebaran chega e te leva até o estúdio.
Ao ouvir tal proposta Camus teve um certo receio. — Saga, redes sociais? Não sei se acho prudente.
— Não acha prudente por quê? Você não é mais menor de idade e, francamente, já faz cinco anos, acha mesmo que ainda podem estar à sua procura? — Saga gargalhou debochado. — Acho que nem naquela época te procuraram.
Camus não se deixou abater pelo desdém na voz do outro. — Eu me preocupo com meus irmãos, eles já estão começando a fase da adolescência, e redes sociais? Eles podem acabar esbarrando em uma coisa dessas falando de mim. — Confessou seu medo.
— Camus, infelizmente isso não é problema meu, e seus irmãos têm que saber o que você faz pra sustentá-los, homessa! Mais cedo ou mais tarde eles vão saber, nosso trabalho não é algo que dê pra se esconder, Camus, você mais que ninguém sabe disso.
O clima ficou pesado, ou era somente o coração de Camus que pesou em seu peito com as palavras de Saga, talvez por sabê-las reais.
Não tardou Aldebaran chegou e sorriu ao ver o amigo. Saga perguntou em código, para que o gigante não falasse demais na frente de Camus.
— E então? — Perguntou Saga.
— Tudo certo, oito horas na Santini. — Respondeu Aldebaran.
Saga franziu a testa, havia pedido o encontro na Santuary, mas compreendeu que o jovem Kapino não era burro. De certa forma isso era bom, pois agora sabia que não estava lidando com um adversário mediano.
Camus não prestou atenção na conversa, pois aprendera há muito tempo a não se meter nos assuntos de Saga. Ficou apenas esperando o gigante lhe chamar para onde seria gravada a entrevista.
— Aldebaran, leve nosso querido Aquário para a sala de gravação, Misty já deve estar chegando.
— Sim, claro. Venha, Aquário.
Os dois seguiram para um dos quartos que Saga havia transformado em estúdio; na frente, todo o equipamento de filmagem e atrás, o logo da Produtora Gemini, alguns quadros na parede cinza, quatro lustres pendurados em formatos de cascatas de folhas, um abajur de pelagem preto, sofá cinza decorado com algumas almofadas beges e rosas e duas mantas, uma cinza e outra rosa. Na mesa de centro, algumas velas davam um toque especial ao ambiente, e Camus realmente ficou surpreso com a qualidade e o bom gosto do estúdio.
Logo Misty e seu esposo Argol chegaram. O loiro sorriu para Camus e falou. — Aquário! Que bom que chegou, detesto ficar esperando.
Camus apenas o olhou, confuso, antes de rebater. — Bom dia pra você também, Misty, e não me lembro de ter me atrasado em nenhum compromisso com você, não é?
Argol, que era adepto da paz, estendeu a mão pra Camus, o cumprimentando.
Misty fez o gesto de tanto faz com as mãos e perguntou. – Então, gostou do estúdio? Fui eu quem escolheu tudo, aliás, Saga me deu carta branca pra gastar aqui. — Comentou o loiro na esperança que Camus se incomodasse, ou ficasse com ciúmes e inveja.
Camus, porém, apenas elogiou o senso estético do loiro. – Parabéns, Misty, você realmente fez um ótimo trabalho, tudo de muito bom gosto.
Misty ficou desconcertado com o elogio. Era impossível que o namorado do Saga, ou o "favorito do Saga"como diziam, não estivesse com ciúmes por ter sido preterido por Saga no comando no Canal da Produtora! "Se fosse comigo, Saga já teria engolido as próprias bolas". — Me diz, Aquário, tudo bem pra você o Saga ter dado a mim o comando do Canal?
Camus conhecia a índole de Misty, não que fossem amigos, mas pelo loiro sempre que podia o alfinetar com alguma indireta, como se o fato de Camus ter um "relacionamento" com Saga fosse uma ofensa pessoal a Misty. Então, procurando não entrar em debates desnecessários, apenas respondeu. — Saga fez a escolha certa, Misty, você tem um talento nato para isso, Aldebaran já havia me falado sobre seu canal.
Sorrindo internamente orgulhoso com as palavras de Camus, Misty perguntou. — Mas você nunca deixou nenhuma mensagem lá pra mim e nem me segue, que eu sei. – Terminou, fazendo biquinho de magoado.
— Eu não tenho redes sociais, nunca tive, não gosto dessas coisas. — Respondeu Camus.
Misty, que ouviu aquilo como uma ofensa pessoal, rebateu incrédulo. — Como pode existir alguém no mundo que não tenha rede social? Em que mundo você vive, Aquário? Até fugitivos da polícia têm redes sociais!
Rindo de nervoso, Camus respondeu. — Eu apenas não curto essa exposição.
— Ah! Puta que pariu, você faz filmes pornô! E tá reclamando de exposição? — Continuou Misty, indignado.
— Talvez seja por isso mesmo, já tenho exposição demais na minha vida. — Camus respondeu, e logo Argol veio ao seu auxílio.
— Misty, meu amor, as pessoas são diferentes, nem todo mundo gosta das câmeras como você. — Disse o marido abraçando o loiro por trás e beijando sua cabeça.
Para Misty era realmente difícil entender os motivos de uma pessoa ser avesso à exposição.
— OK, já está tudo pronto aqui, vamos começar? — Aldebaran falou. — Como vai ser, Argol fica na esquerda, o Misty na direita e o convidado no meio?
— Sim, acho que desse jeito fica melhor. — Disse Saga, entrando no estúdio.
— Veio assistir à nossa entrevista de estreia, chefinho? — Perguntou Misty.
— Gosto de acompanhar minhas coisas de perto. — Respondeu Saga, encarando Camus.
Misty sorriu e comentou malicioso. — Eu vou passar um pouco de pó no meu rosto pra tirar o brilho, você quer passar também, Aquário? — Olhando para o rosto de Camus perguntou. – Nossa, seu rosto parece machucado, você caiu, meu querido?
Camus nada respondeu; apenas fechou a cara para Saga, que também não disse um palavra sobre o comentário do loiro.
Argol, sentindo o que o clima poderia ficar tenso, falou, tentando quebrar o gelo. – Ah, eu vou passar, a gente fica mais apresentável no vídeo.
— Vem, Aquário, eu dou um jeito em você. — Falou Misty, passando um corretivo no rosto de Camus delicadamente, como se não tivesse soltando farpas e indiretas desde que chegou.
— Chega, tá bom, acho que já tá bom. — Disse Camus se afastando, se Misty pegasse o gosto era capaz do ruivo sair todo maquiado.
— Certo! Vamos começar? — Perguntou Aldebaran quando a porta abriu e Mouse apareceu, trazendo algumas garrafas de champanhe.
— Deixo onde, Senhor Saga? — Perguntou o funcionário.
— Encha as taças e deixe as garrafas fora das câmeras, é o programa inaugural, temos que começar em grande estilo. — Disse o amante de Camus.
— Vamos, a seus postos! — Ordenou Aldebaran.
Então sentaram Argol, Camus e Misty.
— Vamos relaxando, não é uma live, então pode ir conversando e eu pego os melhores trechos. — Orientou Aldebaran de forma profissional.
Os três concordaram, e quando o gigante deu o sinal, Misty olhou pra a câmera e começou a falar. – Olá, meus safadinhos que acompanham o pornô gay, sim, este é o seu novo canal predileto! Eu sou Misty Otag e este é o meu marido Argol Uesrep, estamos aqui inaugurando oficialmente o Canal da Gemini, a maior produtora de conteúdo adulto da Grécia! Sim sim, meus amigos, e em nosso programa de estréia temos aqui uma das grandes estrelas do pornô gay, Aquário!
Saga, sentado no fundo da sala, fazia sinal positivo para Misty e sua desenvoltura.
— Sim, bem vindos ao Canal Gemini. — Disse Argol, com entusiasmo.
Camus mantinha o mesmo rosto inexpressivo de quando dava entrevistas, por mais absurdo que fosse, pra ele era mais difícil dar entrevistas que fazer as cenas de sexo. Nas cenas ele encarnava o Aquário, nas entrevistas ele realmente não sabia o que fazer, deveria vestir seu personagem, inventar coisas? Tudo era sempre muito confuso e Saga não ajudou muito avisando de tudo em cima da hora.
Mas Misty e Argol definitivamente haviam nascido para aquilo, principalmente o belo loiro, que tinha uma desenvoltura frente às câmeras surpreendente para alguém que estava há pouco neste mundo.
Saga observava tudo com seus olhos de águia, sempre atento às respostas de Camus, que sempre antes de dá-las olhava para o agente.
— Então, Aquário, me diga como foi que te descobriram? Quando foi que você pensou em entrar para o entretenimento adulto? — Perguntou Misty já sem maldade, apenas seguindo com a entrevista.
Camus olhou para Saga, que o encarava de volta por trás das câmeras atento.
Pensando no que dizer para não se comprometer, Camus respondeu. — Eu estava andando pela rua e meu atual agente me viu e me fez a proposta.
— Pelos Deuses! — Gritou Misty afetado. — Como assim? Você foi descoberto enquanto andava na rua? Quero mais detalhes!
Camus sorriu sem graça, respirou fundo e inventou uma vida para o Aquário, que até então só se fazia presente nos filmes ou nas poucas divulgações dos filmes que fazia, além dos programas, claro!
Então mudando completamente sua postura inexpressiva até então, Camus respondeu. — Eu havia terminado a faculdade de Matemática, tinha dezenove anos na época, estava precisando de grana, como a grande maioria das pessoas que começam no entretenimento adulto; eu estava numa boate gay, um caça talentos me viu, me fez a proposta e eu aceitei.
Saga olhou surpreso para Camus com uma expressão até mesmo cômica, pela forma descarada com que o ruivo mentiu.
— Engraçado, sabia que eu e o Argol entramos neste ramo por acaso? Apenas por divertimento. — Contou Misty.
— Como assim? — Perguntou Camus com real curiosidade, não imaginava como alguém pudesse entrar naquele mundo por vontade própria e muito menos por divertimento.
Argol riu e começou a falar. — A gente tava transando e resolveu filmar... — E logo foi cortado por Misty.
— Ai, meu amor você não tem o menor jeito para contar essa história, deixa que eu conto! — Começou o loiro. — Nós estávamos fazendo amor, quando decidimos filmar nossa performance. Aí assistimos ao vídeo e vimos que tínhamos jeito pra coisa. No começo da nossa carreira a gente só filmava junto, mas depois, quando viemos pra Gemini Produções, aceitamos contracenar com outras pessoas, você sabe disso, não é meu bem?, já fizemos alguns filmes juntos.
Camus assentiu sem graça.
— OMG! O Aquário é tímido, no final das contas!
Todos riram, deixando Camus ainda mais sem graça.
A entrevista continuou sem grandes problemas.
Os planos de Saga era ter ao menos dez vídeos já gravados, alternando com programas ao vivo na internet com participação do público.
Aldebaran editaria os vídeos com calma logo mais.
*-*-*-*-*
Milo saiu do escritório às sete e meia da noite, ficou na empresa quase duas horas a mais que o costume, tanto para resolver problemas e assuntos pendentes, quanto para dar o horário do encontro com Saga.
No elevador verificou sua imagem no espelho, estava com o terno cinza e os cabelos presos num rabo de cavalo baixo, ajeitou sua postura. Queria passar a imagem de homem forte e destemido, afinal iria lidar com o ex-namorado de Camus, ou o namorado traído, não sabia ao certo.
Ao chegar ao local, Milo achou que iria ficar esperando o tal Saga, mas, para sua surpresa, o maître avisou que o aliciador já o aguardava em uma mesa.
Seguindo o rapaz, Milo parou na mesa onde o moreno estava sentado com um copo de whisky na mão, este de cabelos pretos soltos, vestindo uma camisa social preta que estava aberta nos três botões de cima e uma corrente de ouro no pescoço que completava o visual.
Os dois homens se encararam; Saga se manteve sentado, fazendo sinal com as mãos para que Milo sentasse na cadeira à sua frente.
— Vai beber alguma coisa, senhor? — Perguntou o maître, solícito.
— Um whisky. — Disse Milo, já sentado, ainda encarando Saga.
— Então, o que você quer comigo? — Perguntou o loiro, direto como costumava ser.
— Quero que fique longe do Camus. — Respondeu Saga, sério.
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