Na Palma da Mão de Deus
4 Lágrimas da lembrança
Notas iniciais
Capítulo 4: Lágrimas da lembrança
A hora do almoço costuma ser bem movimentada naquele lugar, pessoas entram e saem constantemente, naquele momento um homem em especial entrou, média altura, cabelos pretos lisos penteados pra trás, ele olha ao arredor procurando alguém, vê uma mão levantada numa mesa e vai até ela.
– E aí Evellin? Tudo bem? – ele cumprimenta a mulher e se senta.
– To vivendo Paulo, e você como está? – ela pergunta de volta.
– Eu e a Valéria terminamos de novo, mas dessa vez é sério! – ele falou de forma direta.
– Tão sério quanto das últimas dez vezes? – dizeres irônicos dela.
– Dessa vez não tem volta!
– Então ta, e sua irmã?
– Ela e o Rafael também terminaram de novo, ela também falou que não tem mais volta!
– Mas vocês quatro tem uma coisa né? Mas eu não tava perguntando isso, tava querendo perguntar: será que ela não vem?
– Ela deve estar chegando... E o serviço na fábrica? Você ainda está lá não é? – ele perguntou, uma retórica já que a moça usava parte do uniforme da tal fábrica, na verdade talvez não tivesse percebido, sempre quando conversava com Evellin não conseguia tirar sua atenção das grandes cicatrizes de queimaduras que ela tem no rosto.
– Não dá pra sair de lá, é o salário de lá que sustenta a mim e a Antônia... Já que o Pietro ta preso só temos o meu salário pra viver.
– Aquele merda desgraçado! Eu queria muito arrebentar aquela cara dele! Ele fica bem melhor preso, quando solto nunca te ajudou em nada! – Paulo falou muito revoltado.
– Aquele monstro! A única coisa que ele me deu de bom foi a Antônia, e ainda fez... Ele tirou minha beleza, não que eu fosse à mulher mais bonita de todas, mas eu...
– Você ta viva e isso é o que importa! Você sabe que sempre pode me procurar no meu consultório pra conversar, não é? – Paulo tentou a animar, o que era difícil já que a tristeza que a jovem sentia estava impregnada em sua alma, sua feição abatida, seus cabelos presos pra trás, seu olhar, parecia que não havia mais vida naquela garota.
– Você sabe que eu não posso pagar...
– Eu não vou te cobrar, eu já te falei isso!
– Sabe, às vezes eu fico me perguntando como eu vim parar nessa situação, como eu deixei que tudo chegasse a esse ponto?
– Você não tem culpa de nada Evellin, aquele animal irracional do Pietro é quem tem culpa! – a voz de Marcelina chegou até eles, a jovem acabara de adentrar o restaurante, ela cumprimentou seus colegas e se sentou.
– Agora que a mana chegou qual é o assunto urgente? – palavras de Paulo. Marcelina não cresceu muito, se tornou uma mulher bonita, nunca deixou de usar os cabelos curtos pra mulher, assim como Paulo não chegou a sair da casa que fora de seus pais.
– É sobre o Nicholas... – Evellin falou.
– O eterno garoto poste?! O que ele ta arrumando? Da última vez que soube dele ele tava fazendo faculdade de jogos com o Adriano... – Paulo falou.
– Mesmo? Nossa, era meu sonho fazer faculdade de jogos! Mas eu não tinha dinheiro, aí aconteceu o que aconteceu e eu estou aqui né? – palavras da jovem de cabelos compridos.
– É sempre tempo amiga! A vida é longa! – Marcelina falou segurando a mão dela.
– A gente ta desviando o foco... – Evellin tomou a palavra novamente. – Vocês receberam essa carta do Nicholas? – a moça falou tirando a carta de sua bolsa, a curiosidade de seus colegas só aumentava.
– O que tem nessa carta? – a mulher de cabelos curtos perguntou.
– Parece sério pela sua feição. – palavras de Paulo.
– Espero que estejam preparados, pra mim foi chocante porque eu era bem próxima dele na época de escola, não sei se em vocês vai ter o mesmo resultado... De qualquer forma espero que estejam preparados para o que vão ler. – Evellin falou passando a carta pra seus colegas.
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– Eu não acredito! Como isso foi acontecer? – Valéria falava em meio a lágrimas.
– Minha reação foi mais ou menos a mesma, é difícil até de imaginar! – Rafael falou se apoiando na parede.
– Como pode? Justo ele, ele era o mais pra frente de nós todos! Parecia que ele não tinha problemas e que nunca teria...
– Pra você ver como são as coisas, só parecia mesmo, eu lembro que o pai dele detestava ele, não deixava ele ver o irmão e... Caralho! Isso não pode ta acontecendo!
– Será que o Adriano e o Jaime receberam essa carta? Será que eles sabem disso? – ela perguntou.
– Talvez, não sei, eles eram os mais próximos do Nicholas na nossa época de escola, imagina qual vai ser a reação deles depois de ler essa carta?
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– Não é justo, não é justo! – Adriano falava chorando muito.
– Calma pai, não chora! – Fábio falava não sabendo como agir.
– Isso deve ser uma piada de mau gosto que alguém ta fazendo com o padrinho, o que ta escrito nessa carta não pode ser verdade, não pode! – Nicholas se segurava pra não chorar, tentava acalmar seu pai.
– Que tenso! Eu vou preparar uma água com açúcar pra você Adriano... – Carlos não sabia como agir, pensava: “Que merda de sugestão foi essa que eu dei?”, queria ajudar, mas não sabia como.
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– Deus, não! – Jaime falava com sua mão na testa, as lágrimas escorriam de seu rosto.
– MAS QUE MERDA! – ele gritou chutando longe uma mesa perto de si e jogando o óleo de cima dela todo ao solo, tal ato foi seguido de um acesso monstruoso de raiva, jogou seu boné no chão, chutou ferramentas, jogou outras longe, se abaixou e começou a desferir socos no solo.
– Seu merda desgraçado! Por que tinha que acontecer com você? Eu lamentando pela merda dos meus problemas e você passando por isso?! – as lágrimas não paravam de escorrer dos olhos de Jaime.
– Eu fiz faculdade, eu abri minha oficina, eu sobrevivi ao atropelamento, eu canto quase todas as noites e ganho pra isso e ainda tenho a coragem de reclamar da minha vida! Você é um merda Jaime! Aposto que o Nicholas, mesmo diante de tudo, continua com aquele sorriso de retardado no rosto! Aposto que continua fazendo piada de tudo! – agora Jaime não estava mais abaixado, estava deitado de costas no solo desabafando consigo mesmo.
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– Pai, como a gente vai ajudar o padrinho? – Fábio perguntou já não mais aguentando segurar o choro.
– Diz que a gente pode fazer alguma coisa, por favor! – as lágrimas também escorriam dos olhos de Nicholas.
– Eu... Eu... – Adriano não aguentava mais falar, apenas chorava de soluçar, perto dele estava Carlos, o jovem nunca vira uma pessoa chorar com tanta intensidade, nunca vira um homem chorar como uma criança, ele não lera a carta, mas se perguntava sobre o que poderia estar ali pra causar tamanha reação.
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