Na Palma da Mão de Deus
12 Dúvidas e certezas
Notas iniciais
Capítulo 12: Dúvidas e certezas
– Oi amor... Não achei que você viesse, você nunca gostou de cozinhar. – Irene afirmou se soltando de Daniel, esse nada disse, apenas viu a mulher se aproximar do pai da filha que ela espera.
– A Antônia me convenceu a vir, eu pensei em ajudar em algo mesmo que fosse pequeno. – Igor falou trazendo grande reprovação no olhar. – Nunca imaginei que ia ver pessoas dançando na cozinha.
– Acontece de vez em quando, ainda mais quando uma música legal toca, mas eu cansei. – ela fez uma leve piada.
– Imagino que sim, depois de tanta movimentação, não é? – ele alterou seu padrão de voz.
– Não ta com ciúmes, certo? – ela perguntou, seu olhar trazia uma reprovação maior, trazia algum tipo de mágoa antiga em suas palavras.
– Tem razão, eu sou muito bobo mesmo! – ele falou sorrindo, pareceu um sorriso verdadeiro, ela o beijou, um gesto que destruiu Daniel por dentro.
– Não sabia que você era um pé de valsa Lúcio?! – Paulo falou, sua voz também não estava num tom normal.
– Ta louco! Dançar é ótimo contra o estresse! Devia praticar Paulo, aposto que vai curtir! – ele falou rodopiando Valéria, a jovem ria, Paulo não.
– Eu vim só pra cozinhar, quer dizer, ajudar, não entendo tanto assim de cozinha... – dizeres de Paulo se sentando.
– O Paulo tem razão, se ficarmos dançando o almoço não vai sair nunca. – Evellin comentou, Nicholas então se levantou e foi até ela.
– Mas você não dançou nenhuma música, dança uma só comigo? – ele a convidou, Renan, João e Maria Joaquina ficaram apreensivos com um possível mal estar dele que poderia voltar.
– Eu não danço bem Nicholas, fico te devendo uma dança, o que acha? – ela responde sorrindo.
– Eu vou cobrar, mas a jovem senhorita vai dançar comigo, por favor? – ele estende sua mão sentido a Antônia.
– Eu posso?! – a menina falou ruborizando, Irene chegou às costas dela sorrateiramente e a empurrou de leve sentido a Nicholas, o homem a conduziu e começaram a dançar, seu rubor se tornou risos a cada gesto ou movimento engraçado que Nicholas fazia.
– Eu nunca vou entender como ele faz isso! – Maria exclamou sorrindo de leve, se referia a seu colega de cartola.
– Deve ser algum tipo de magia... – Adriano comentou.
– Viagens de Adriano, que saudade disso! – palavras de Valéria, claramente uma piada. – Mas é fato gente, vamos focar nesse almoço, é muita boca pra alimentar. – ela falou voltando ao seu lugar, Lúcio a acompanhou.
– Ah, mas tava tão divertido dançar! Você tinha toda razão Adriano, você é bom nisso! – palavras de Rebeca.
– Te falei, você nunca vai conhecer um gordinho tão pé de valsa como eu! – o loirinho fez graça. De repente uma sombra cobriu a ruiva e seu par.
– Posso tentar cozinhar algo com você? Sabe, eu não sou lá essas coisas com cozinha... Há quanto tempo à gente não se via não é pequena? – se tratava de Paulo, ele se aproximou apenas pra cumprimentar, era só uma piada a parte de cozinhar algo, uma piada pra quebrar o gelo de tantos anos.
– Oi Paulo! – a ruiva respondeu o abraçando forte, tal gesto parecia inflamar Valéria por dentro.
– Hei, é como nos velhos tempos, eu e você fazendo ciúme nele! –Lúcio falou baixo pra Valéria. – E como nos velhos tempos você morrendo de ciúmes dele! – ela não respondeu, ficou desconcertada.
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– Ela não seria capaz, ela não pode ser esse tipo de pessoa, não pode! – Jaime falava consigo mesmo em seu aposento, tinha muita tristeza em sua voz, de repente um som, alguém batia a sua porta.
– Jaime?! Ta ocupado? – era a voz de Mário. Jaime pediu pra seu colega esperar, respirou fundo, limpou os olhos, abriu a porta.
– E aí meu velho? – cumprimentou a Mário.
– Fala comigo! – cumprimentou de volta. – Vamos dar um rolé? Me falaram que tem um belo jardim por aqui, precisava de alguém pra me falar a cor das flores. – Mário falava sorrindo de largo.
– Pois é, você ainda não consegue entender a língua dos cachorros. – Rabito respondeu com um latido, Jaime tentou fazer uma piada obviamente, mas um peso em sua voz, mesmo que mínimo, foi percebido por Mário.
– Ta tudo bem com você? Sua voz me pareceu meio trêmula?
– Desde quando você tem ouvidos tão apurados?
– Desde quando você fala “apurados”? – esse último comentário de Mário fez os dois rirem.
– Ah velho, tanta coisa mudou... Sabe, tem um pouco mais de doze anos que não via a Maria Joaquina e... – ele não sabia ordenar suas palavras.
– E? Você ainda sente algo por ela?
– Não... Sim... Não é esse o caso! Caralho Mário, todo mundo viu como aquele garoto dela se parece comigo! Aquele Lavi... Será que ele é meu filho? – a angústia dominava a voz de Jaime.
– Entendo, a julgar pelo que você ta me falando você não fazia ideia que ele existia, certo?
– Mas nem a mínima ideia! Como falei, tem mais de doze anos que não tenho contato com a Maria Joaquina... Não é possível que ela fez isso comigo! Depois de tudo ela ainda me escondeu que tinha um filho meu!
– Depois de tudo? – Mário estava confuso.
– É uma longa história... Regada de álcool e batidas de carro...
– Bom, mas só existe uma forma de você saber, tem que perguntar pra ela diretamente. – o deficiente visual opinou.
– Eu jurei que nunca mais ia a procurar, que nunca mais ia falar com ela!
– Não, você não fez, você não é capaz disso, por que não existe ódio aqui... – falou colocando sua mão no peito de Jaime. – O garoto que conheci era incapaz de odiar alguém.
– Eu não sou mais um moleque! Muita coisa aconteceu Mário, eu cresci, eu sou sim capaz de odiar alguém que me prejudicou! – Jaime foi direto.
– Não você, eu não escuto o ódio em suas palavras, eu escuto mágoa, mas não ódio.
– Você ta errado...! Cara pensa, se esse garoto for meu filho? A Maria não me permitiu o ver crescer, eu não vi seus primeiros passos, eu não o peguei no colo, eu não o acalmei nas noites assustadoras, não ouvi suas primeiras palavras, não o levei na aula no primeiro dia de escola, não o abracei quando ele tinha medo, não joguei bola com ele... Porque a Maria Joaquina fez isso comigo? Por que ela me detesta tanto?! – ele deixou algumas lágrimas escaparem.
– Calma irmão, sei que é difícil mas você precisa conversar com ela, depois, se ele for realmente seu filho você ta perdendo tempo aqui dentro, nesse momento ele ta lá fora brincando, olhando curioso pra tudo, perguntando e falando coisas sem pensar.
– Ele fala sem pensar? – a curiosidade de Jaime é aguçada.
– Ô! Mais ou menos como você fazia. – os dois riram, era notável como os sentimentos de Jaime se misturavam. – Ele pediu pra ver como são meus olhos, ninguém nunca me pediu isso com medo de eu me chatear.
– E você mostrou?
– Sim, tirei os óculos escuros e os mostrei, ele achou bonito meus olhos brancos, falou que é estranho pensar que olhos tão claros não podem enxergar nada.
– Ele não falou isso não. – Jaime duvidou do mau jeito de Lavi com as palavras.
– Pois é, ele é pior que você, não disse? Mas não me ofendi, por que me ofenderia? Eu ri isso sim, ri muito, me lembrei de você na idade dele. – Mário levantou suas mãos. – Ele me deixou “enxergá-lo”, tem a testa pequena, cabelo liso, sobrancelhas nem grossas e nem finas demais, nariz pequeno, rosto arredondado, devo confessar que ele me lembrou muito do que me lembrava de você, salve algumas exceções.
– Ta vendo, não tem erro, ele é sim meu filho! Eu nunca vou perdoar a Maria!
– Não se precipite, você só vai confirmar as coisas se você falar com ela, pra isso você precisa superar a mágoa.
– Isso é impossível... Mas é engraçado, pelo que entendi você viu o Lavi usando as suas mãos...
– Sim, só não consigo ver cores com elas, também aí já é pedir demais, também vi o Rafael, o Tom, a Rebeca, a Maria, a Alicia e a Cleo, a sua ex continua linda, o de menor não mudou nada, exceto pela barba cerrada, a Rebeca também não mudou, isso é estranho até, é como um banho de nostalgia.
– O de menor tem os braços todos cheios de tatuagens agora, muito louco!
– Ele me contou. – a conversa pareceu se tornar descontraída de repente.
– Ele é muito corajoso! Eu só tenho duas tatuagens, uma no braço e outra na perna manca.
– E como você arrumou essa perna manca?
– Carro... Não gosto de lembrar disso!
– Eu perdi minha visão num acidente de carro também, eu tava dirigindo, meu pai no carona, ele não se machucou nada, já eu... Ouvi milhões de vezes meu pai falando que se pudesse me daria sua visão sem pensar duas vezes, que daria a vida pra eu enxergar de novo... Imagino o desespero que ele ficou quando os médicos falaram que eu não ia enxergar mais.
– Eu sinto muito velho!
– Não sinta Jaime, você não pode fazer nada por mim, mas pode fazer em relação à Maria Joaquina.
– Começou o papo ruim de novo... Então, vamos ver esses jardins ou não? – Jaime falou empurrando seu colega, sorria de leve como ele.
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Da mesa em que estava Paulo tentava cortar alguns vegetais, porém seu único foco eram as risadas de Valéria e Lúcio, as brincadeiras que faziam pareciam o insultar, era nítido que não estava confortável.
– Seu serviço ta rendendo. – comentário irônico de Evellin.
– Da pra acreditar? Olha a felicidade da Valéria com o Lúcio! – falou com um tom de inconformidade.
– Não entendo sua posição? Vocês não terminaram de comum acordo? Não entendo seu ciúme. – Evellin falava com um pequeno tom de provocação.
– Eu não sinto ciúme dela! – exclamou com convicção, convicção forçada diga-se de passagem.
– Como ta o serviço de vocês? Vão fazer o quê, seguir o cardápio ou fazer um prato diferente? – Daniel se aproximou e perguntou.
– A minha intenção é seguir o cardápio, mas o Paulo ta no mundo dele e a Antônia ta andando pela casa com o Nicholas, to meio sem ajuda sabe? – ela brincava.
– Ele não pegou numa faca ou colher. – Daniel observou, se referia a Nicholas.
– Coitado, deve que não tem mais coordenação fina pra cozinhar, e ele gostava muito... – palavras de Paulo. – Talvez ele dance pra tentar esquecer que não pode mais cozinhar, pra esquecer outras coisas.
– É bem possível, eu não tinha pensado nisso, como você chegou a essa conclusão? – Daniel perguntou levando um copo de água a boca.
– Porque faz parte do meu trabalho interpretar gestos e palavras das pessoas, eu sou psicólogo. Aposto que não sabia, certo mister nerd?
– Você?! Nunca imaginaria você estudando psicologia... – Daniel se surpreendeu muito.
– Fiz pra tentar compreender o porquê eu fazia as coisas que fazia... Continuo não entendendo nada sobre mim, mas opinar na vida dos outros, olha, pra isso eu sou ótimo! – palavras de Paulo que fizeram Evellin e Daniel rirem.
– Ta, então o que você pode dizer de mim? – Daniel perguntou levando o copo a boca novamente
– Você é bem mais transparente do que imagina, primeiro, você veio pra cá por que detesta segurar vela. – se referia ao fato de Daniel, até minutos atrás, estar junto de Igor e Irene tentando preparar algo pra cozinhar. – Segundo, você ainda é perdidamente apaixonado por ela. – a última frase fez Daniel cuspir a água que estava tomando.
– Isso... Isso... Isso não é verdade... – tentou limpar sua boca.
– Cara, eu tava brincando... Puts! – Paulo exclamou.
– Pois é, parece que você descobriu algo sem querer, não é Paulo? – Evellin falou sorrindo.
– Vocês tão viajando, e estão muito sem graça mesmo! Vou dar um rolé que é o melhor que eu faço! – Daniel falou nervoso, se levantou e saiu da cozinha.
– Difícil às vezes aceitar o que se sente por alguém... – comentário de Paulo.
– Fala só dele? – pergunta de Evellin. Paulo olhou sentido a Valéria e respondeu:
– Parece que não...
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