Notas iniciais
Esse é o último capítulo da primeira parte da história, nele vou experimentar uma nova forma de escrita, eu não vou colocar "Flash back on" ou "Flash back off", o leitor terá que ter um carinho maior pra perceber quando se trata de passado ou presente. Boa leitura!

Capítulo 16: Apenas humanos

O almoço, um momento sagrado, e o que dizer desse em especial? Não havia nada de mais, pratos simples, preparados rapidamente como omeletes, frituras, saladas diversas e arroz branco, muito bem preparados, muito bem temperados. O toque do mestre estava nos vários ensopados, o sabor deles estava além da compreensão gustativa dos presentes, esse era o legado de Nicholas, sua ótima mão de cozinheiro foi passada pra Adriano, Renan e João Pedro esses ensopados eram a prova disso.

Fato notável era o que Irene preparara, ela gritou aos quatro ventos que iria fazer algo da culinária japonesa, mas acabou por fazer batatas fritas. Quando questionada ela se defendeu dizendo que em todo self-service de comida japonesa sempre tem batatas fritas, logo batatas fritas também eram da culinária japonesa. A conclusão dela gerou risos nos demais.

Aquela mesa enorme, gigantesca, somente vista antes em seriados e filmes estrangeiros, estava cheia de pessoas ao seu redor, todos acomodados, todos se servindo, todos maravilhados com o momento, talvez... “todos” é uma palavra ampla demais.

– Eu nunca comi algo tão bom! Você cozinha muito bem João! – Lavi exclamou, elogiava com propriedade um dos cozinheiros.

– Verdade, ta de parabéns! – comentário de Antônia, as palavras de Lavi só inflaram seu ego, mas as de Antônia o fizeram corar um pouco.

– B-bom, é que... Meu pai, né? Ele cozinha bem e eu aprendi com ele... – seu constrangimento era mais que notável, estava sentado entre aqueles dois.

– Agora eu entendo, é por isso que você é gordinho assim, se seu pai cozinha desse jeito faz todo sentido! – Lavi falou sem pensar.

– Pois é, quando eu vim morar com meu pai eu era magrinho, agora... – João falou batendo a mão em sua barriga, os próximos dele riram.

– Vocês são muito bobos, meninos! – palavras de Antônia.

Próximo a eles Paulo comia, ou tentava, estava alheio ao mundo observando Valéria e Lúcio que estavam do lado oposto da mesa, eles pouco comiam, na verdade riam bastante um do outro, das coisas que um falava pro outro, o que fazia o sangue de Paulo ferver.

– Qual é o problema Paulinho? Ta sem fome? – Rebeca pergunta, ela estava ao lado dele e Tom ao lado dela.

– Oi?! Não é que... Puts! Esse ensopado ta tão bom que to tentando entender o sabor, sabe? – ele falou gesticulando, ela riu.

– Seu bobo! O mesmo bobo da nossa época de adolescente! – ela falou com um largo sorriso. Instintivamente ela desceu sua mão à mesa, sem querer ela tocou o cabo da colher que estava no ensopado em seu prato. A colher voou um pouco e o conteúdo dela caiu na camisa de Paulo, a altura do peito mais precisamente. Ela corou subitamente, ele se assustou, impossível que ele esperasse aquilo.

– Vish, a colher ta viva?! – Tom falou fazendo piada da situação.

– Ai, Paulo, desculpa! Ai meu Deus, que vergonha! – ela falou pegando um guardanapo tentando limpar a mancha na camisa de Paulo.

– Ta tudo bem Rebeca, é só um pouco de ensopado... – dizer meio sem jeito de Paulo.

Aquela confusão chamou a atenção de todos ali, alguns logo voltaram ao que faziam, voltaram a comer e/ou conversar, mas outros mantiveram seus olhos naquela situação, melhor dizendo, outra manteve seus olhos na situação.

– O Paulo é mesmo um oferecido! Ele podia muito bem limpar a própria camisa, mas não, ele quer que a Rebeca limpe! Aposto que ele ta fazendo isso só pra me fazer ciúmes, afinal a Rebeca é ex dele e... – Valéria falava inconformada.

– Eu tenho certeza que ele planejou tudo só pra te ofender, tenho mais que certeza até! – Lúcio falou de forma engraçada.

– Ai, eu falei isso alto?! – ela começou a corar.

– Bom, eu escutei. – ele afirmou sorrindo.

– Deus, que vergonha...! Mas essa sopa ta boa, né? – ela falou disfarçando. – Hum, quero a receita! – seus gestos bobos faziam Lúcio rir. Enquanto Lúcio ria e Valéria disfarçava seu mau jeito Tereza e Rafael conversavam bastante.

– Sério?! Quer dizer que o Fabinho também é adotado?! Mas ele se parece tanto com você. – Palavras de dele a ela, ele estava ao lado direito dela, Adriano ao esquerdo.

, mas isso é porque ele é meu sobrinho. Parecer comigo faz sentido depois de saber disso, certo? – ela responde.

– Claro que sim... Poxa Adriano, acho bem legal você ter adotado duas crianças! – Rafael falou novamente.

Amore mio acorda, o Rafael ta falando com você. – Tereza tenta tirar Adriano de seu transe.

– Oi?! Não escutei...

– Algumas coisas não mudam mesmo! – palavras de Rafael, tanto ele como Tereza riram muito da situação, Adriano forçou umas risadas, não estava tão feliz, pensava em algo que lhe foi dito mais cedo, um pouco antes do almoço.

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– Gostou do meu quarto? – Nicholas fala sentado em uma cadeira, estava em seu aposento próprio, aquele que fica no andar de cima da sala de jantar.

– Não é muito grande, tudo aqui é tão... Tão... Você sabe, impressionante, mas seu quarto é bem simples.

– Verdade, é que não gosto de exageros.

– Cara, eu to tentando cozinhar com seu garoto e... Bom, acho que você não me tirou da cozinha pra mostrar seu quarto.

– Tem toda razão locão. Eu quero te fazer um pedido. – Nicholas tomou um pouco de ar. – Quero que você tome conta do meu menino depois que eu “fizer a passagem”.

– Passagem? Você ta falando de... Ou! Deus! – Adriano se sentou em outra cadeira, não conseguiu ficar de pé. – Cara, eu... Eu ficaria muito feliz em ser o tutor de seu fi...

– Espera, não é pra você responder ainda, antes tenho algo pra te contar, algo sério, muito sério.

– Sobre ele? Ele sabe que você quer que ele fique comigo?

– Sabe sim, eu contei sobre você e que depois que eu morresse que você ia cuidar dele, possivelmente por isso ele ta sendo tão ríspido com você. Olhar pra você é ter a certeza de que eu vou morrer em breve. Mas não é isso que quero contar.

– Bom, então fala, to te escutando. – ele falou de modo engraçado.

– Certo, não sei enrolar, primeiro de tudo, o João Pedro não é meu filho de sangue, ele é filho do Renan... O Renan sabe disso, o João não.

– O quê?! – Adriano se levantou surpreso, tentava falar algo, mas as palavras não saíam, apenas ostentou uma feição de reprovação e surpresa. – Mas... mas... mas...

– Só escuta por enquanto, faz cinco anos, o Renan veio me procurar pra desabafar, uma antiga namorada dele veio até ele com problemas financeiros, falou que tinha um filho dele e que, devido à situação, não podia mais cuidar dele. Em resumo, ela queria que Renan cuidasse do garoto porque ela não tinha mais condições.

– E o Renan sabia que era pai?

– Não, não até aquele momento. Ele tava desesperado quando me procurou, ele tava bem no meio da faculdade e tals, eu nunca o havia visto chorando daquele jeito. Sabe Adriano, meu pai nunca foi com a minha cara, mas o Renan, o Renan era o bem mais precioso da vida dele, não existia nada ou ninguém que meu pai amasse mais que o Renan. Porém meu pai sempre foi muito intolerante, ele nunca perdoaria meu irmão e com certeza iria maltratar o menino filho dele.

– Espera, não me diga que, você não fez o que eu to pensando, não é?

– Fiz sim, eu falei como Renan pra ele me passar o endereço da garota, eu a procurei e propus que ela falasse que eu era o pai da criança, pra todos os efeitos e consequências eu seria o pai. Ela aceitou, foi menos difícil que imaginei, acho que ela não era lá a mãe mais exemplar.

– Caralho! Você tem alguma noção do que fez?

– Sim, não sou perfeito, fiz algo louco pra proteger o Renan, pra proteger o bem mais precioso do meu pai e meu também por que não? Mas nunca faltou de nada pra esse garoto, ele era pequeno, todo garoto pequeno deseja ter um pai, e eu o amei desde o primeiro instante que o vi, ele é meu filho mesmo que não seja de sangue!

– Eu não questiono isso, eu sei que relação de pais e filhos não depende de sangue, nem o fato de você pegar a guarda do garoto pra você, o meu questionamento é o fato de você esconder do menino que ele não é seu filho de sangue! Ele tem o direito de saber que o pai dele é o Renan, e o Renan não pode se omitir da própria obrigação de pai! – Adriano falou muito indignado.

– Você tem toda razão, sabe locão, às vezes eu te invejo, você tem uma coragem monstruosa! – tais palavras de Nicholas surpreenderam Adriano, corajoso era um adjetivo que nunca haviam usado pra ele. – Eu não contei pro João porque eu não tive coragem! Eu simplesmente tenho medo da raiva, do ódio, que ele pode sentir por mim e pelo Renan... Eu sei que ele não é um garoto fácil, ele nunca foi difícil comigo, mas eu sei que eu sou exceção. Eu não posso encarar a raiva dele, não na minha atual situação, não quero morrer com ele me odiando! – Nicholas falava segurando suas lágrimas, ele tentava desviar seu olhar para que Adriano não percebesse. Nesse instante Adriano buscou em sua mente, quando a imagem de Nicholas vinha a sua cabeça junto do rosto dele vinham sorrisos, brincadeiras, dança, comida, alegria, não se lembrava, nem por um, de lágrima alguma escorrendo dos olhos de seu amigo. Naquele momento Adriano percebeu algo, Nicholas é só um ser humano, Nicholas é só mais um diante do tudo, Nicholas é só um ponto na imensidão do universo, ele entendia finalmente, Nicholas era só mais um na palma da mão de Deus.

– Hei, velho, hei... – Adriano se aproximou dele e abraçou. – Você não é tão forte! Você não precisa passar por tudo isso sozinho! Eu sou seu irmão também, não sou? Por que você se isola sempre que tem um problema? Por que você não confia mais nos outros? – perguntou o soltando.

– É difícil mudar, eu aprendi a ser assim, eu não gosto de ver as pessoas tristes por minha causa... Eu espero que você me perdoe por não te apresentar o João antes, e espero que você pense no que te pedi.

– Eu não consigo sentir raiva de você, mas, realmente, eu tenho que pensar, na minha cabeça o mais justo é o Renan cuidar do próprio filho.

– Te entendo perfeitamente... – o olhar de Nicholas estava vago, algumas lágrimas escorriam, mas algo estava estranho pra Adriano, o olhar vago era diferente mas familiar.

– Você não ta me enxergando, não é? Eu sei porque o Nicholas, meu filho, não enxerga de um olho e... Não preciso explicar, eu sei que você não ta vendo!

– Acontece, às vezes a visão se vai, mas ela volta...

– Velho, o que você tem? Talvez eu possa te ajudar, te ajudar a procurar tratamento e...

– Não tem tratamento pro meu caso, vai por mim Adriano, eu não desisti da minha vida, quando eu descobri a doença eu me revoltei, me desesperei, depois procurei toda ajuda possível. Não tem esperança pra mim, eu já aceitei isso, eu só quero viver meus dias tendo a certeza que todos que eu gosto estarão bem.

– Você é um merda! Um merda, mas o cara mais legal que eu já conheci! – Adriano começou a chorar.

– Pára com isso, não quero sua tristeza locão... Por favor, não conte pra ninguém sobre nossa conversa, eu tenho meus motivos, espero que entenda.

– Eu não garanto cem por cento de êxito nessa parte, mas não vou contar pro seu menino que ele é filho do seu irmão, pode deixar... – e assim aquela conversa se encerrou.

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– Não ta gostando da comida amoré mio? – Tereza perguntou, percebeu que além de distante Adriano não havia tocado sua comida, logo ele que gosta tanto de comer.

– Eu to meio sem apetite, meio indisposto, sabe? – e como ter apetite depois da conversa de mais cedo? E como estar disposto diante do que ele ouviu? É muita coisa na cabeça, são milhares de considerações a serem feitas. De repente um barulho chamou sua atenção, chamou a atenção de todos, o barulho de um talher tocando o cristal de uma taça.

– Por favor, preciso da atenção de todos. – Nicholas se levantou erguendo sua taça.

– Ao momento discurso! – Mário falou quase gritando. A atenção de todos se voltou para Nicholas.

– Só queria dizer que estou muito feliz, feliz como nunca antes, estou diante de muitas pessoas queridas, estou diante de bons amigos, estou diante de um passado louco e divertido. Sabe que, eu fico pensando do porquê esse passado ficou no passado, talvez por culpa minha que deixei que acontecesse. Mas não importa agora, porque, o que é qualquer erro ou mágoa diante do hoje? O que é o tempo diante de hoje? O que é a dor, os problemas, o sofrimento diante do hoje? Vamos colegas, vamos sorrir, vamos brincar, vamos nos divertir pelo menos pelo hoje, por um hoje de cada vez! Afinal somos apenas seres humanos imperfeitos, carentes, doentes, inconsistentes, contraditórios, propensos à tristeza e muito determinados a sermos felizes. Afinal a melhor parte de nossas vidas começa hoje! Saúde! – como que ensaiado todos falaram saúde.

Palavras firmes as de Nicholas, firmes, mas acompanhadas de seu sorriso peculiar. Entre cada palavra daquela vários olhares foram direcionados, Alicia e Bernardo, Rafael e Marcelina, Paulo e Valéria, ambos se olharam em momentos diferentes, mas o olhar mais penetrante foi o de Jaime pra Maria Joaquina, ele tinha certeza que o discurso era pra ele. E o que dizer dela senão que ela pensou a mesma coisa? Que seu olhar direcionado a ele foi tão penetrante quanto o dele pra ela? No fim a maioria achou que o discurso era pra si próprio, faz parte da capacidade de Nicholas causar esse tipo de sentimento confuso que se aplica a muitos.

Notas finais
Tenso pra car***o!!! Eita nós que é só confusão essa história! E nos próximos capítulos vai ter mais! Até a próxima!