Enquanto, lá embaixo, Duda preocupava-se com o destino de Toninho, tentando driblar o porteiro, no segundo andar as coisas aconteciam...

Quando o criado do vampiro e Paco saíram do elevador carregando o caixão, Alberto Kriegel já os aguardava no corredor.

Era um homem alto, de cabelos escuros, com certa majestade na postura e olhar penetrante. Estava impecavelmente vestido com um smoking.

— Entrem rápido — disse Kriegel, apontando para a porta do apartamento, aberta.

Era um apartamento de porte médio, mas mobiliado e decorado com requinte.

Os três, atravessando a sala, entraram num pequeno corredor à direita, passaram por um quarto que servia de escritório à esquerda e entraram no outro quarto, imediatamente ao lado.

Lá estava uma jovem loira, toda vestida de branco, deitada numa cama de casal. Parecia morta.

O criado do vampiro e Paco pousaram o caixão ao lado da cama, perto da parede; depois a olharam com certo pesar.

Contudo, Kriegel tratou de apressá-los:

— Rápido. Já está na hora. Alguém viu vocês chegarem com o caixão?

— Não, tudo saiu de acordo com o planejado — retrucou o criado do vampiro com satisfação. — O Tião trabalhou direitinho.

— Ótimo. Agora vocês terão uma tarefa importante pela frente. De madrugada removeremos o corpo. Tião estará de plantão. Podem ir — arrematou Kriegel, seco.

Ele falava como se lhe faltasse vida interior.

O criado do vampiro e Paco tomaram a direção da porta. Kriegel seguiu-os.

Nesse momento, Toninho abriu o caixão para respirar um pouco de ar fresco. O caixão tinha um visor de vidro mais ou menos no local onde ficava posicionada a cabeça do morto, e esse visor estava aberto, assim que Toninho escapara de morrer asfixiado. Para não ser descoberto, ele recolhera-se na parte de baixo, visto ser bem menor que aquele pijama de madeira.

Ainda dentro do caixão, ficou observando o ambiente através do visor, quando ouviu um barulho. Voltou a se esconder.

Kriegel fechou a porta tão logo os dois homens desceram, depois foi até o banheiro, que ficava no fundo do corredor, ao lado do último quarto, e trancou-se lá.

Percebendo que o silêncio voltava a reinar, Toninho abriu o caixão, levantou-se e deu de cara com o cadáver da jovem na cama.

Tomou um susto tremendo e deitou-se de novo, sobressaltado.

Após recuperar a calma, resolveu ficar de pé para observar melhor. Persistindo o silêncio, Toninho aproveitou para sair definitivamente do caixão. Fechou-o com cautela, para não fazer nenhum barulho que o denunciasse, porém ouviu novo ruído e se meteu debaixo da cama.

Alberto Kriegel saiu do banheiro e veio até o quarto. Ficou contemplando a jovem por alguns instantes, depois tornou a sair.

Toninho viu os sapatos de Kriegel, perfeitamente engraxados, virarem à direita e seguirem pelo corredor. Ele permaneceu debaixo da cama para ver o que iria acontecer.

Momentos depois, voltava Kriegel e trancava-se pela segunda vez no banheiro, fato que chamou a atenção de Toninho:

"Por que esse cara entra toda hora no banheiro?" — pensou.

Ficou esperando mais alguns segundos, por segurança, e, não acontecendo nada, saiu do esconderijo, deu uma parada diante da jovem morta, benzeu-se e foi saindo de fininho...

Já estava no corredor quando ouviu a maçaneta da porta do banheiro girar. Imediatamente entrou no escritório ao lado e escondeu-se atrás da porta.

Com a porta do banheiro aberta, diante do espelho, Kriegel barbeava-se, enquanto Toninho observava tudo pela fresta da porta, reparando assustado na imponente figura do homem vestindo um smoking.

Kriegel voltou a fechar a porta. Logo depois, Toninho ouviu o som de água caindo...

"Será que vampiros também gostam de tomar banho?"

Sem pensar muito na resposta, saiu em disparada pelo corredor e foi até a entrada do apartamento. Virou a chave duas vezes e, quando abriu a porta, não pôde segurar um grito...