Na Mira do Vampiro

25 O nome dele é Cristóvão Lee


Duda e Toninho estavam sentados no banco que ficava em frente à tal pintura na parede. Os dois continuavam impassíveis; não esboçavam nenhuma reação. Paco os vigiava.

O criado do vampiro entrou na loja, fechou a porta secreta, passou a chave e, ao virar-se, deu com os olhos de Duda voltados para ele. Duda começou a tremer, todavia o homem não o reconheceu.

— Que papagaiada é essa no pescoço de vocês? — perguntou ele.

Sem esperar pela resposta, foi até a escrivaninha que ficava na entrada da loja e jogou a chave da sala secreta dentro da primeira gaveta.

— São coroas de alho — respondeu Paco por eles, que permaneciam calados. — Elas servem pra afastar vampiros — brincou, com certo ar de mistério.

O criado do vampiro sentou-se na frente dos dois e falou:

— Vocês acham que existe algum vampiro aqui? — perguntou ele, esboçando um sorriso de contentamento. — Muito bem, seus pilantrinhas, podem começar a contar como vocês descobriram a nossa operação...

Enquanto o criado do vampiro e Paco aguardavam as explicações solicitadas, Ferretti e Elias chegavam à funerária na sua rádio-patrulha.

Estacionaram silenciosamente na frente da loja, bem atrás da caminhonete funerária.

Saíram do carro e começaram a vasculhar o local.

Elias segredou a Ferretti:

— Eu acho que tem gente aí dentro.

Ferretti pediu silêncio, então fez um sinal para o colega aproximar-se da portinhola de ferro, enquanto ele procurava escutar o que se passava no interior da loja...

Ouviam-se risos.

Os dois homens divertiam-se com piadas.

— Vamos, seus moleques! — o criado do vampiro interrompeu o momento de descontração. — Estão esperando o que para abrir o bico?! Se vocês não falarem logo tudo o que sabem, eu é que vou chupar o sangue de vocês!

Do lado de fora, Ferretti fez um sinal para Elias, que, com um chute poderosíssimo, abriu a portinhola de ferro e entrou de revólver em punho. Ferretti seguiu-o.

— Creio que vocês não vão chupar o sangue de mais ninguém! — falou Ferretti, parando na porta da loja com o revólver apontado para o criminosos. — A festinha acabou.

O criado do vampiro e Paco pararam, embasbacados.

— Duda, Toninho, façam alguma coisa, algemem esses bandidos! — disse Elias, apontando sua arma também para os dois.

Duda pegou as algemas jogadas pelo policial e começou a algemar o criado do vampiro. Toninho fez o mesmo com Paco.

— Puxa! — desabafou Duda. — Eu pensei que nós estávamos perdidos...

— Ei! Espere um momento! Qual é a acusação? — protestou o criado do vampiro.

— Assassinato, ocultação de cadáver e tentativa de sequestro. Quer mais? — retrucou Ferretti, mantendo-os sob mira.

— E pode acrescentar também contrabando — completou Duda, terminando de algemar o criado do vampiro.

— Qual é a novidade, Duda? — perguntou Elias, surpreso.

— É isso mesmo que eu falei. Esses caras aí estão envolvidos com contrabando e as provas estão aqui mesmo...

— Quem mandou você se intrometer no caso, Duda? Eu proibi você de brincar de detetive, não foi? — e, virando-se para os contrabandistas, ordenou: — Os dois, sentem-se naquele banco.

— Mas o que você queria que eu fizesse? Os jornais assustando a população com as notícias sobre o vampiro e eu não via a polícia fazendo nada...

— Se nós divulgássemos alguma coisa sobre as investigações, o próprio vampiro poderia se prevenir contra nós. Você deveria saber disso melhor do que ninguém.

O criado do vampiro fitou Paco, depois disso:

— Não vão me dizer que vocês estão pensando que eu sou o vampiro do Rio?

— O senhor faça o favor de ficar calado e só fale quando eu mandar! — falou Ferretti severamente. E voltando-se para Duda. — Você poderia ter se metido em alguma encrenca e ainda atrapalhado a polícia...

— Mas ele se meteu em encrenca, nós é que chegamos a tempo! — consertou Elias, sem tirar os olhos dos bandidos.

— E como você nos achou? — perguntou Duda, curioso.

— Eu sei como — falou Toninho, por sua vez.

— Nós não lhe devemos satisfações, "senhor delegado" — volveu Ferretti, irônico, mas em tom de repreensão. — O caso ainda não está encerrado. Agora me conte como tudo aconteceu...

Toninho bocejou displicentemente, querendo demonstrar que aquela narrativa seria cansativa.

No entanto, Duda contou toda a história a Ferretti, desde o momento em que ele descobrira o endereço da funerária, até o último instante, quando foram pegos no salão secreto.

Depois de tudo esclarecido, Ferretti falou:

— Bem, Duda, agora são quatro acusações contra esses homens.

Duda, retirando o pequeno baú prateado da mochila, passou-o a Ferretti e disse:

— Toma! Esse baú era onde esse cara aí guardava as cinxas do mestre dele...

— Então existe um vampiro de fato? — perguntou Elias, admirado.

— Isso é um grande absurdo! Esse garoto está maluco! Ele tem uma imaginação exagerada! — exclamou o criado do vampiro, indignado.

— Quieto! — ralhou Ferretti. — Isso, sem dúvida, não prova a existência de um vampiro, mas que eles estão envolvidos em pelo menos um assassinato, disso nós temos provas...

— Que provas? — volveu Duda, sem deixar de lado sua natural curiosidade.

Ferretti não respondeu. Estava ocupado estudando o pequeno baú prateado.

— Olha como está manchado de sangue!

— Isso não quer dizer nada, Duda — retrucou Ferretti com tranquilidade. — Isto lhe pertence... a propósito, qual é o seu nome?

— Cristóvão — respondeu o criado do vampiro prontamente. — Cristóvão Lee.

— Ih! Que engraçado! — disse Toninho, divertindo-se com o nome do homem.

— Cristóvão, isto é seu? — voltou a perguntar Ferretti.

— Não sei. Deixa eu ver...

Ferretti aproximou o objeto de Cristóvão Lee.

— Onde o garoto achou isso?

— Na sua oficina — respondeu Duda com autoridade.

— Ah! Então foi você mesmo que arrombou a fechadura da minha porta, não é, seu pivete?

— Ei! Mais respeito com meu amigo, hem, seu criado de vampiro de uma figa! — ameaçou Toninho. — Eu também ajudei, algum problema?

— Por que essa mancha de sangue? — tornou Ferretti, sem muito interesse.

— Eu sei lá! Há muito tempo eu me desfiz desse troço! — defendeu-se Cristóvão.

Ferretti devolveu o baú a Duda. Ele estava seguro de que aquele objeto não representava nada no curso dos acontecimentos.

— Bem, então vamos entrar no salão secreto para ver as famosas estatuetas — disse Ferretti, tomando a frente em direção à parece pintada.

Duda foi até a primeira gaveta da escrivaninha e pegou a chave que Cristóvão Lee havia guardado. Dirigiu-se diretamente para a porta secreta e a abriu com relativa facilidade.

Todos entraram no salão oculto.