— Anda, moleque!

— Calma, Duda, não dá mais! Não tá vendo que os galhos de cima são finos? — reclamava Toninho ao lado de Duda.

Postados num dos galhos da mangueira, tentavam alcançar as frutas mais acima.

Eram aproximadamente nove horas de uma bela manhã e os meninos haviam decidido trocar o hábito diário de pelada por um pouco de aventura.

— Olha, Toninho! Tá cheio de manga ali daquele lado, rapaz!

— Ô Duda, não vê que não dá pra subir naquele galho? A gente vai ter que descer pra tentar com uma vara de bambu.

Duda e Toninho encontravam-se na casa de Da. Carmem, na rua do Cortiço, a uns três quarteirões da casa deles. Costumavam chamá-la de "velha maluca", embora ela não tivesse nada de louca.

— Quantas mangas a gente já pegou? — perguntou Duda na expectativa.

— Olha lá no chão. Tem uma porção caída — retrucou Toninho, indicando o local onde estavam as frutas esparramadas. — Não precisa pegar mais, nós já temos muitas — concluiu ele, taxativo.

— Vamos pegar algumas goiabas, então — sugeriu Duda.

— Vamos nessa...

Começaram a descer da mangueira.

A casa onde estavam era quase uma mansão, porém, um pouco desgastada pelo tempo, com um diminuto jardim na frente e um imenso pomar nos fundos. Duda e Toninho estavam justamente na parte dos fundos, e, ainda que o pomar estivesse abandonado, isso não prejudicava o desenvolvimento das árvores. Frutificavam à vontade: além das mangueiras, alvo dos dois pequenos, goiabeiras, sapotizeiros, cajazeiras, abacateiros, entre outras.

Vamos pegar também alguns abacates ali naquele pé. Tá cheio! — falou Duda em tom de ordem.

— E as goiabas? — lembrou Toninho.

— São mais fáceis de pegar, depois a gente volta pra elas.

Dito isso, os dois dirigiram-se aos abacateiros...

Kid Pulga, o vira-lata de estimação de Duda, como bom ajudante que era, ficara do lado de fora para alertá-los no caso de alguém se aproximar. Seu desempenho era perfeito: dormia profundamente. Várias pessoas circulavam pela calçada sem serem percebidas, e até mesmo uma atraente poodle que passava com sua dona deixou de ser notada pelo eficiente e vigilante.

Kid Pulga era aproximadamente do tamanho de um pequinês, de focinho comprido, pelo branco com algumas manchas pretas dispostas pelo corpo e, o que mais chamava a atenção, manchas negras em volta dos olhos, como uma máscara.

Duda e Toninho já estavam no abacateiro, quer dizer, Toninho havia subido, enquanto Duda aguardava tranquilamente embaixo.

— Toninho, sacode aquele galho ali que tá cheio de abacate madurinho — voltava a ordenar Duda.

— E você vai ficar fazendo o que aí embaixo? — perguntou Toninho com certa indignação.

— Eu vou catar os que caírem — devolveu Duda, esboçando um sorriso debochado.

— Você é engraçado! Eu me arranho todo tentando subir na árvore e você só vai ter o trabalho de catar os abacates? Essa é boa! — chiou Toninho, enquanto ia se movendo por entre os galhos do abacateiro.

Toninho era um negrinho dos seus dez anos de idade, pouco mais de metro e meio de altura. Sua mãe, Neusa, era o braço direito de Da. Amanda, a mãe de Duda. O garoto tinha braços e pernas bem treinados no serviço caseiro, e quando se tratava de escapar às confusões criadas por Duda, era ele quem tinha sempre um bom truque tirado da cartola. Não possuía a mesma criatividade de Duda, mas estava muito mais amadurecido para a vida que o amigo.

— Pare de reclamar, moleque! A parte que me cabe é a direção intelectual da operação — arrematou Duda, um pouco mais empolado que o normal. — Fica frio que você não entende nada de estratégia, tá?

Duda tinha a mesma idade de Toninho e era um pouco mais baixo que ele. Seus olhos castanhos demonstravam uma sapiência fora do comum. Tinha cabelos lisos, também castanhos, que a mãe exigia que estivessem sempre muito bem cortados, e a pele era ligeiramente morena do sol.

O garoto adorava quadrinhos e histórias policiais, além de ser espectador assíduo da televisão. Tudo isso lhe dava material de sobra para alimentar sua poderosa imaginação, daí o hábito de falar difícil de vez em quando, coisa pouco comum na sua idade.

Determinado, usava de todos os artifícios para convencer as pessoas a ajudá-lo em seus "casos": desde chantagem emocional até os argumentos mais absurdos para justificar seus atos; acrescente-se a isso um talento fundamental para conquistar as pessoas, um carisma.

Toninho continuou a se movimentar pelos galhos do abacateiro sob os olhos atentos de Duda, que esperava pelas frutas na segurança do chão.

Enquanto isso, na surdina, a "velha maluca" os observava. Ela conhecia muito bem os dois ladrõezinhos...

Os primeiros abacates despencaram e Duda começou a recolhê-los.

— Vai segurando aí, Duda! — gritou Toninho.

Bastou ele sacudir novamente outro galho para mais abacates precipitarem-se sobre o amigo. O pé estava repleto.

— Caramba, Toninho! Tem abacate paca!

— Então vou descer — avisou o garoto, escorregando pela árvore.

— Tá legal — concordou Duda, admirando as frutas aos seus pés.

Toninho desceu com rapidez, indo direto à goiabeira ao lado, sem esperar nova "ordem" de Duda.

Da. Carmem continuava a observá-los.

Corriam boatos pela vizinhança de que aquela mulher solitária havia sido muito rica, mas o interesse dos filhos em seu dinheiro, somado ao desprezo que lhe legaram após a herança, distribuída ainda em vida, fizeram com que ela caísse em profunda depressão, recusando mesmo os amigos mais chegados. Assim, ela demitiu todos os empregados e doou tudo o que lhe restara a instituições de caridade, passando a levar uma vida muito humilde.

Duda lembrava-se dessa história contada por sua avó.

Toninho, no alto da goiabeira, fazia chover goiabas sobre Duda, que ia catando todas as que podia.

— Caramba, Toninho! Acho que a gente não vai ter como levar todas essas frutas pra casa.

— A gente dá um jeito!

E continuava a despejar as goiabas, enlouquecido de alegria.

Duda, no mesmo estado de espírito, ia recolhendo tudo na medida do possível.

De repente, no meio da festa, a dona do pomar surgiu do nada e os surpreendeu...