Notas iniciais
Fiquei muito feliz com os reviews que escreveram, é por isso que postei o segundo capítulo o mais rápido que pude. Espero que gostem, e uma boa leitura para vocês!

Sábado, 4 de dezembro de 2010

A conferência era num lugar mais formal do que eu havia imaginado, e tinha mais gente do que eu esperava. Não entendi como aquilo estava acontecendo.

"Quem sabe ficou famoso", pensei. Não me havia dito nada em suas cartas. Tive vontade de falar com as pessoas presentes, perguntar o que estavam fazendo ali, mas não tive coragem.

Fiquei surpreso ao vê-lo entrar, Akira. Parecia diferente do garoto que conhecia, mas claro, em onze anos, as pessoas mudam. Estava mais bonito e seus olhos brilhavam.

— Está nos devolvendo o que era nosso. — disse uma mulher ao meu lado.

A frase era estranha.

— O que está devolvendo? — perguntei

— O que nos foi roubado. A religião.

— Shiu. Quero escutá-lo. Quero ver como pensa — disse um homem alto, sentada a minha direita.

— Ele é uma voz solitária — disse a mulher. — Está fazendo o possível.

O rapaz deu um sorriso irônico, e virou-se para a frente, encerrando a conversa.

— Para um seminarista, é uma atitude corajosa — continuou a mulher, desta vez olhando para mim, e procurando apoio.

Eu não estava entendendo nada, fiquei calado, e a mulher desistiu. O homem ao meu lado piscou um olho, como se eu fosse um aliado.

Mas eu estava quieto por outra razão. Pensava no que a senhora havia dito.

"Seminarista."

Não podia ser. Ele teria me avisado.

Ele começou a falar, e eu não conseguia concentrar-me direiro. "Devia ter me vestido melhor", pensava, sem entender a causa de tanta preocupação. Ele me notaria na platéia, e eu tantava decifrar seus pensamentos: como eu devia estar? Qual a diferença entre um menino de dezoito e um homem de vinte e nove?

Sua voz era igual. Entretanto, suas palavras haviam mudado muito.

É preciso correr riscos, dizia ele. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixa-mos que o inesperado aconteça.

Todos os dias Deus nos dá, junto com o sol um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infeliz. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual amanhã. Mas, quem presta ateção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe, um momento em que toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres.

A felicidade às vezes é uma bênção, mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia nos ajuda a mudar, nos faz ir em busca de nossos sonhos. Vamos sofre, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões, mas tudo é pssageiro, e não deixa marcas. E, no futuro, podemos olhar para trás com orgulho e fé.

Pobre de quem teve medo de correr os riscos. Porque este talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhas para trás, porque sempre olhamos para trás, vai escutar seu coração dizendo: "O que fizeste com os milagres que Deus semeou por teus dias? O que fizeste com os talentos que teu Mestre te confiou? Enterraste fundo em uma cova, porque tinhas medo de perdê-lo. Então, esta é a tua herança: a certeza de que desperdiçaste tua vida."

Pobre de quem escuta estas palavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado.

As pessoas o cercaram assim que terminou de falar. Esperei, preocupado com a impressão que teria de mim depois de tantos anos. Eu me sentia um moleque — inseguro, ciumento porque não conhecia seus novos amigos, tenso porque ele dava mais atenção aos outros que a mim.

Então ele se aproximou. Ficou vermelho, e já não era mais o homem que dizia coisas importantes, tornava a ser o garoto que se escondia comigo nos campos, falando de seus sonhos de percorrer o mundo, enquando nossos pais pediam ajuda à polícia, pensando que nos havíamos fugido.

— Olá, Taka. — ele disse

Beijei seu rosto. Podia ter dito algumas palavras de elogio. Podia ter me cansado de ficar no meio de tanta gente. Podia ter feito algum comentário engraçado sobre a infância, e sobre o orgulho que tinha de vê-lo assim, admirado pelos outros.

Podia explicar que precisava sair correndo e pegar o último ônibus da noite para Kawasaki.

Eu podia. Jamais chegaremos a compreender o sigificado desta frase. Porque em todos os momentos de nossa vida existe coisas que podiam ter acontecido, e terminaram não acontecendo. Existem instantes mágicos que vão passando desercebidos, e de repente a mão do destino muda o nosso universo.

Foi o que aconteceu naquele momento. Em vez de todas as coisas que eu podia ter feito, fiz um comentário que uma semana depois me trouxe diante deste rio, e me fez escrever estas linhas.

— Podemos tomar um café? — foi o que eu disse.

E ele — virando-se para mim — aceitou a mão que o destino oferecia:

— Eu preciso muito conversa com você. Amanhã tenho uma palestra em Saitama. Estou de carro.

— Tenho que voltar para Kawasaki. — respondi, sem saber que ali estava a última saída.

Mas, numa fração de segundos, talvez porque eu voltara a ser criança, talvez porque não somos nós que escrevemos os melhores momentos de nossas vidas, falei:

— Vem aí o feriado da Imaculada. Posso acompanhar você até Saitama, e voltar de lá.

O comentário sobre o "seminarista" estava na ponta da minha língua.

— Você quer me perguntar alguma coisa? — disse ele, percebendo minha expressão.

— Sim — tentei disfarça. — Antes da conferência, uma mulher disse que você estava devolvendo o que era dela.

— Nada importante.

— Para mim é importante. Não sei nada de sua vida, estou surpreso ao ver tanta gente aqui.

Ele riu, e virou-se para dar atenção aos outros presentes.

— Um momento — eu disse, segurando-o pelo braço. — Você não respondeu minha pergunta.

— Nada que lhe interesse muito, Taka.

— De qualquer maneira, quero saber.

Ele respirou fundo, e me levou para um canto da sala.

— Todas as três grandes religiões monoteístas, judaísmo, catolicismo, islamismo são masculinas. Os sacerdotes são homens. Os homens governam o dogma¹ e fazem as leis.

— E o que a senhora quis dizer?

Ele vacilou um pouco, mas respondeu:

— Que tenho uma visão diferente das coisas. Que creio na face feminina de Deus, uma Deusa.

Respirei aliviado; a mulher estava enganada. Ele não podia ser seminarista, porque os seminaristas não tem visão diferente das coisas.

— Você se explicou muito bem — respondi.

O homem que havia piscado o olho para mim me esperava na porta.

— Sei que pertencemos à mesma tradição — disse ele. — Meu nome e Yuu.

— Não sei o que você esta falando — respondi.

— Claro que sabe — ele riu.

Pegou-me pelo braço e saimos, antes que eu tivesse tempo de explicar qualquer coisa. A noite estava muito fria, e eu não sabia muito bem o que fazer até a manhã seguinte.

— Aonde vamos? — perguntei.

— Até a estátua — foi sua responsta.

— Preciso de um hotel barato para passar a noite.

— Depois eu digo.

Preferia sentar num café, conversar mais um pouco, saber tudo o que pudesse sobre o Aki. Mas não queria discutir com ele, deixei que me guiasse pelo passeio, enquanto olhava Chiba.

No meio de um parque ele parou e apontou para o céu.

— Lá esta ela — disse.

A lua cheia brilhava entre os galhos sem folhas.

— Esta linda — comentei.

Mas ele não me escutava. Abriu os braços em forma de cruz, virou as palmas das mão para cima, e ficou contemplando a lua. "Onde fui me meter", pensei. "Vim assistir a uma conferência, terminei no parque com esse louco, e amanhã viajo para Kawasaki."

— Ó espelho da Deusa Terra. — disse o moço, com os olhos fechados. — Nos ensina nosso poder. Nascendo, brilhando, morrendo e ressucitando no céu.

O rapaz esticou os braços para o céu, e ficou um longo tempo nesta posição. As pessoas que passavam olhavam e riam, mas ele nem se dava conta, quem morria de vergonha era eu, por estar ao seu lado.

— Eu precisava fazer isto. — disse, depois de uma longa reverência para a lua. — Para que a Deusa nos proteja.

— Do que você está falando, afinal?

— Da mesma coisa que seu amigo falou.

Me arrependi de não ter prestado atenção à palestra. Eu era incapaz de saber direito o que ele falou.

— Nós conhecemos a face feminina de Deus. — disse o homem quando voltamos a caminhas. — Nós que entendemos e amanos a Grande Mãe. Agora entendo seus mistérios.

Olhei para o homem ao meu lado. Era bonito, alto, magro e seu cabelos negros desciam até os ombros largos.

— Enquanto nós homens saíam para caçar, as mulheres ficávam nas cavernas, no ventre da Mãe, cuidando de nossos filhos.

De repente ele parou:

— Ali está ela.

Eu olhei. No meio de uma praça cercada de trânsito por todo os lados, havia uma fonte. No meio desta fonte, uma escultura mostrava uma mulher numa carruagem, puxada por leões.

— O quê é isso? — Ele não me escutava. Estava no meio da rua, tentando driblar o trânsito.

— Vamos até lá! — gritava, acenando para mim entre os carros.

Resolvi alcança-lo apenas para perguntas o nome de um hotel. Aquela loucura estava me cansando, e eu precisava dormi.

Chegamos no fonte quase ao mesmo tempo: eu com o coração disparado, e ele com um sorriso nos lábios.

— A água! — dizia. — A água é sua manifestação!

— Por favor, eu preciso do nome de um hotel barato.

Ele enfiou as mãos na fonte.

— Faça o mesmo — disse para mim. — Toque na água.

— De jeito nenhum. Mas não quero atrapalhar. Vou procurar um hotel.

O rapaz tirou uma pequena flauta de sua blusa e começou a tocar. A música parecia ter um efeito hipnótico: o ruído do tráfego foi ficando distante, e meu coração se acalmou. Sentei-me na borda da fonte, escutando o barulho da água e da flauta, com os olhos fixos na lua cheia acima de nós. Não sei quanto tempo ele tocou. Quando acabou, virou-se para a fonte.

— Quem é você? — pergintei. — Porque pediu para que o acompanhasse?

Ele virou-se para mim:

— Sou o que você acha que eu sou. Faço parte da religião da Terra.

— O que quer de mim? — insisti.

— Posso ler os seus olhos. Posso ler o seu coração. Você ira se apaixonar. E sofrer.

— Eu?

— Você sabe do que estou falando. Eu vi como ele o olhava. Ele te ama.

Aquele home estava louco

— Por isso que eu o chamei para sair comigo — continuou. — Porque ele e importante. Embora diga bobagens, reconhece a Grande Mãe. Não deixe que ele se perca. Ajude-o.

— Você não sabe o que está dizendo. Você está perdido nas suas fantasias — eu disse, enquando me embrenhava de novo entre os carros, jurando nunca mais pensar nas palavras daquele homem.

Notas finais
Dogma: Ponto fundamental de uma doutrina religiosa e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema. (Pode-se discutir um dogma; não porém, negá-lo.)

Reviews?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.