Na Linha Da Vida
9 Caro desalento
Notas iniciais
– Sabe, eu tenho medo de tudo que contém muita quantidade água, como rios, mares, piscinas – Brandon continuou depois de um breve silêncio, se recostando em uma árvore e apoiando os braços em seus joelhos. – Hidrofobia.
– Por quê? – perguntei, deixando de tirar as pétalas de uma flor que arrancara do chão.
– Quando eu era criança, eu tinha um melhor amigo. Em um dia, fui convidado a ir à praia com ele, e aceitei. Nós chegamos, e ele me chamou para ir ao fundo do mar, dizendo que não seria perigoso. Mas foi. – Suspirou. – Não conseguiram salvá-lo.
– Deve ter sido difícil, já que você era criança. Eu sinto muito.
Brandon sorriu, como se isso não o incomodasse mais.
– E tem outra coisa que eu quero saber. – Ele arrumou a sua postura. – Por que você faz tudo o que o Trevor manda? Não que isso seja da minha conta, mas... já que você o odeia tanto, por que o obedece?
– É que... – Pausei. – Eu explico depois. Temos de voltar para o acampamento rápido. – Encabulada, me levantei e limpei as mãos no short.
– Você deve algo a ele? – Brandon perguntou novamente, voltando ao assunto.
– Brandon, eu... eu vou te falar o porquê, mas, por favor, não conte a ninguém e não use isso contra mim.
– Por que usaria isto contra você? Fizemos um acordo.
Mordi o lábio inferior, me sentando nas folhas novamente.
– No sétimo ano, eu e Trevor éramos muito amigos, sabe? Então apostamos que a professora de biologia e o de literatura ficariam juntos até o final do ano. Ele falou que, se eu perdesse, eu teria que beijá-lo. E você deve estar entendendo sobre o que isso significava.
– Oh, sim. – Brandon deu um riso abafado e sem motivo. – Continue.
– Eu pensei que ele estava brincando, mas supus errado. Os nossos professores, ao invés do que eu imaginava, não assumiram o relacionamento, e Trevor queria o pagamento.
– Uau, sétimo ano? Que precoce. – Riu novamente.
Cerrei os olhos, repreendendo-o.
– Eu achava que ele não faria isso comigo e que só estivesse fingindo. No entanto, no final da aula, ele me levou ao banheiro masculino e pediu que eu me sentasse no balcão. Fiz o que pediu. Trevor começou a passar as mãos em meu corpo, e foi aí que percebi que ele não estava brincando. Pedi que parasse, mas Trevor continuou, afirmando que eu havia prometido a ele que faria isso. Eu pulei do balcão e já estava saindo do banheiro, até que ele me mostrou algo que me comprometia.
– E o que foi que ele mostrou?
– Fotos. Fotos que ele acabara de tirar, ou seja, quando eu estava sem a blusa, mostrando uma coisa que de fato não aconteceu. Então, eu exigi várias coisas em troca, mas ele sempre rejeitava. Até que sugeri que, se guardasse as fotos para si mesmo, eu faria qualquer coisa que pedisse até nos formarmos. Ele não excluiu as imagens, que serviriam para caso eu o traísse.
– Que babaca. Você deveria procurar onde essas fotos estão e exclui-las. Eu posso ajudar.
Eu ri levemente, quando David aparece dentre as árvores gritando que havia nos encontrado.
– Não acredito que ainda estão vivos! Pelo que eu saiba, Brandon e Anne se matariam caso ficassem sozinhos durante muito tempo, vulgo uma hora.
Nós três gargalhamos e, então, Brandon e eu seguimos David até o centro do acampamento, lugar onde levamos a maior bronca da nossa vida.
Os dias no Acampamento Bloomberg foram construtivos, em minha opinião. Brandon e eu finalmente havíamos entrado em um acordo que exigia uma convivência estável durante, pelo menos, os anos colegiais restantes. Nós ainda brigávamos, ao contrário do que era demandado no trato, mas nos falávamos normalmente na maioria das vezes, que, no entanto, ainda eram poucas.
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Eu recolhia alguns livros do meu armário, e, mesmo David estando ao meu lado, não trocou uma palavra sequer comigo. Ele parecia intrigado com algo e, então, minha curiosidade falou mais alto.
– David, aconteceu alguma coisa? – disse, fechando o armário e defrontando-o.
– Nada de mais.
– Então por que está tão calado? – A questão de ele estar completamente quieto me deixava perturbado. David nunca fora deste jeito, pelo menos não quando estivera comigo.
– Deve ser porque eu não estou com vontade de falar.
Desisti. Eu era o sarcástico da dupla, não ele. Revirei os olhos e caminhei em uma direção oposta.
– Não, não. Espera um pouco. – Ao me virar para ele, David dá um passo para trás. – Você... Por que você e a Anne estão se falando normalmente de vez em quando? Quer dizer, vocês se odeiam.
Eu dei uma risada curta.
– Longa história, mas vou te explicar.
Dito isso, disse tudo a ele, desde os mínimos detalhes, enquanto caminhávamos até à quadra de vôlei. Não, eu não contei sobre os segredos da Anne, pois eu podia não ser um cara extremamente legal, mas eu cumpria as promessas. Além disso, David não estaria interessado em segredos, principalmente se ambos fossem de uma garota.
Já na quadra, os demais alunos já estavam em suas posições. Anne sorriu ao me ver, e eu apenas fingi que não vi. Sei que fui ridículo ao fazer isso, mas todos sabiam que era impossível Brandon Cooper e Anne Mitchell serem amigos do tipo que sentam juntos no refeitório e saem para passear. Colegas, talvez. Somente colegas.
Sentei em um dos bancos para observá-los a jogar. Trevor e outros imbecis estavam sentados em alguns bancos da arquibancada, que ficavam no alto. Eles cochichavam e riam. Eu supunha que estiveram secando as inocentes garotas dos times de vôlei – talvez não tão inocentes, já que ficavam trocando olhares com os mesmos. Ao olhar para Trevor, me lembrei do que Anne me contara no Acampamento Bloomberg a respeito da tal aposta. Por mais esse motivo, minha antipatia por ele apenas elevou. E depois de um tempo, percebi que David não estivera mais ao meu lado. Por um momento estranhei esse fato, mas logo ignorei.
Ao caminhar em direção ao banheiro masculino, escuto algo como se alguém estivesse se engasgando. Notei que o som não vinha do banheiro masculino e, sim, do feminino.
Me aproximei da porta fechada.
– Precisa de ajuda? – perguntei à pessoa, que seria certamente uma garota.
– Eu estou bem, Brandon – respondeu com a voz gorada. Em um segundo, achei que fosse alguém que eu conhecia, e girei a maçaneta, porém o banheiro estava trancado.
– Anne? – indaguei novamente, com o pensamento de arrombar a porta.
Ela tossiu em seco e deixou de responder.
– Você não parece bem. Abra.
Ouvi certo barulho vindo de dentro do cômodo e então pude entrar. Fiquei perplexo ao deparar-me com seu estado.
Anne estava pálida. Muito pálida, por sinal. Também, estava respirando com dificuldade, os braços debruçados no balcão, e encarando o ralo da pia. A fiz olhar em meus olhos, mas ela parecia tonta e não saber muito sobre a situação em que estava.
– Anne, você comeu alguma coisa ou vomitou?
– Não, eu... eu só fiquei com falta de ar, e pedi... para vir ao banheiro, até que comecei a passar mal e... não consegui sequer me mover direito. – Tossiu.
Anne parecia que ia desmaiar, portanto a segurei e a levei até à enfermaria, colocando seu braço em volta da minha nuca e pondo uma das minhas mãos em sua cintura, ajudando-a a caminhar.
Eu nunca a vira naquela situação. Ela parecia uma zumbi prestes a se desintegrar na minha frente. Anne estava mal. Não. Muito mal. Eu comecei a pensar que ela talvez fosse uma daquelas garotas que deixam de comer para ter o corpo que desejam. Anorexia não parecia ser uma resposta, afinal de contas, todos a elogiavam pela beleza.
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