Na Linha Da Vida
22 Cara compensação
Já em casa, feliz por poder estar sozinha, me assustei quando vi tio Philip aparecer na sala, de repente, sentando-se calmamente em sua poltrona e apanhando o jornal que esquecera de ler no começo do dia.
– Soube do que aconteceu hoje – disse ele, enquanto eu pegara o controle remoto da televisão. – Sabe, eu poderia dar uma bronca em você pelo que falou, mas, ao invés disso, parabenizo por finalmente largar a amizade do Cooper.
Rolei os olhos e bufei.
– Tio, eu não fiz nada daquilo; tramaram para mim. E, com licença, eu quero ficar sozinha, pelo menos por um instante. – Me ergui.
Fui para o meu quarto e me joguei na cama, pressionando o travesseiro sobre o meu rosto, abafando o grito. Segundos depois, o larguei no chão e fiquei mirando o teto, incrédula sobre tudo o que tinha acontecido no dia. Foi quando vi um "oi :-)" escrito em uma caixa de texto no notebook.
"Ah, que bom que você está online, eu preciso muito da sua ajuda", enviei a Martin.
"Estou ao dispor."
" Ok. Hoje, eu briguei com um amigo meu, e ele não quer acreditar em mim, o que eu faço?"
Martin demorou para responder. Creio que a palavra "digitando" tenha aparecido cerca de duas ou três vezes na tela.
"É só provar para ele."
"Mas não tenho provas!"
"Então espere. A justiça tarda, mas não falha, lembra?"
O que ele não sabia era que não tinha apenas uma amizade em jogo, e, sim, era o Brandon. E mesmo se aquela antiga frase estivesse certa, a tal justiça não poderia tardar. Eu o amava, e não conseguiria aguentar por muito tempo.
"É, tem razão. E aquela garota da sua escola, por quem você disse que estava se apaixonando? :-)", perguntei.
Novamente, ele demorou a responder.
"Ela me odeia."
Dei conselhos a Martin sobre como conquistá-la, embora, através de simples palavras, percebi que ele estava escondendo alguma coisa de mim, mas não insisti nisso. Talvez ele estivera somente triste pelo ocorrido.
Todavia, no dia seguinte, Brandon não foi à escola. E, para piorar, todos me ignoravam e cochichavam quando eu passava. Contudo, Natalie, Cindy, Jéssica e eu fomos ao vestiário feminino para nos trocarmos e irmos à aula de educação física. Mas até elas, com a exceção de Cindy, estavam me tratando de um jeito diferente.
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À tarde, David e eu conversamos pela internet. Ele disse que eu precisava copiar alguns textos de história e fazer um trabalho sobre estrutura atômica, de química, para a outra semana. Mas a verdade é que não estava nem aí para aquilo tudo. Nunca estive, e sabia que reprovaria no final do ano.
Minha mãe bateu à porta e eu permiti que entrasse. Ela estava séria e parecia nervosa, passando uma mão no braço esquerdo, sem parar.
– Martin, seu pai está lá na sala e quer conversar com você – afirmou, evitando olhar nos meus olhos.
– O que aquele velho quer? – Bufei.
– Ele é seu pai, Martin, não o chame desse jeito.
De costas para ela, murmurei:
– Sabe que ele não é digno de ser chamado assim.
Descendo as escadas, pude ver que ele estava com as filhas gêmeas, de cinco anos, ao lado, e elas e minha irmã brincavam com alguns objetos que estavam sobre a mesa de centro.
– Ah, Brandon, você já está aí – sorridente, ele disse, levantando-se do sofá para me dar um abraço, que eu não retribuí, é claro. – Tenho uma ótima notícia para você!
Eu realmente tinha achado que seria uma ótima notícia, mas foi exatamente o contrário. Ao final da discussão que tivemos, saí de casa, batendo a porta com força. É, meu pai não tinha conserto, e qualquer coisa que poderiam fazer para eu tentar gostar daquele homem falhariam.
Voltei para casa em torno das dez horas. Antes disso, eu ficara zanzando pelas ruas, observando casais, restaurantes lotados, trabalhadores voltando para suas casas, mais casais...
Eu desabei na minha cama, fechando os olhos e tentando relaxar, mas, para acabar com tudo, lembrei da Anne. Eu queria voltar ao dia em que nos perdemos naquele maldito acampamento e não ter nem sequer conversado com ela. Somente ter esperado nos acharem, ficar na minha. No entanto, eu lembrei em como foi bom beijá-la. Eu conseguia me recordar de todos os detalhes: o vestido que ela usava, o gosto dos seus lábios, as sapatilhas, a pulseira colorida, tudo. Antes, eu sabia que havia mudado, mas ainda não tinha me tocado que ela era o motivo dessa mudança.
No outro dia, antes de entrar na escola, vi a entrada vazia; geralmente, todos os alunos ficavam lá. Entretanto, ao pisar no corredor principal, me assustei com tudo o que vi: a multidão e no que eles estavam concentrados.
Nas paredes, havia cartazes com as fotos da Anne e o Trevor. É, realmente, aquelas fotos davam uma impressão muito errada sobre ela. Mesmo sabendo do que ela achava de mim, eu lastimava tudo o que estava exposto naqueles papéis.
Trevor estava rodeado por alguns garotos, provavelmente se gabando por ter "muito mais do que beijado A Garota da escola".
– Brandon, a Anne, ela... ela quer falar com você – disse Cindy, nervosa, me cutucando pelas costas. – Ela está no vestiário feminino.
Franzi ainda mais o cenho, pensando por que ela me chamaria, justo em um momento como aquele.
Ao entrar no vestiário feminino, vi Anne sendo acolhida pela tal Jéssica, sentada e recostada na parede, com os joelhos dobrados e as mãos escondendo o rosto. Jéssica me viu, se afastou da amiga, e, ao passar por mim, sussurrou:
– Boa sorte, colega. – Escutei a porta bater logo atrás de mim.
Fiquei olhando para a Anne, com as mãos dentro dos bolsos do casaco, a esperando enxugar suas lágrimas e se levantar.
Já à minha frente, em pé, Anne se recusava a cruzar o olhar com o meu. No entanto, fitava o chão
– Por que você fez isso comigo? – Ela tremia, e vi seus punhos cerrarem ao lado do corpo.
– Quê? – perguntei.
– Sínico.
– Ah, você acha que fui eu que fiz aquilo? – Cruzei os braços. – Não, não fui eu.
– Confesse.
– Anne, não tenho nada a ver com isso!
Seus punhos tremiam ainda mais.
– Admita, sei que foi você. Ontem, você disse que ia ter volta. Está feliz agora, com a sua vingança?
– Eu vou ter que desenhar pra você que não. Fui. Eu?
– Para de mentir!
O tapa que ela me deu, na lateral do rosto, foi tão forte que eu achei que tivesse vindo de um garoto. Pus uma das mãos cobrindo essa parte, tentando amenizar a dor, e jurava que a marca da sua mão ficaria extremamente visível.
– Eu te odeio! Eu te odeio, seu... – Ela inclinou um pouco a cabeça, provavelmente vasculhando algum xingamento na sua mente, cobriu a boca com uma das mãos, permitindo-se chorar mais ainda, e saiu correndo.
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