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7 CAPÍTULO 2, Epi.2: Bem-vindos à Atlansha!
Notas iniciais
A espaçonave flutuava sobre as águas negras que envolviam toda Atlansha. A porta lateral abria vagarosamente, revelando a densa escuridão que se fazia presente no planeta. As luzes do interior da nave pareciam desaparecer quando alcançavam a porta, como se o planeta estivesse engolindo qualquer fonte de luz que ousasse invadir o seu território.
Um calafrio percorria o corpo de Rashidi, que encarava a paisagem com desgosto.
— Ugh! Que sinistro.
— Vai ficar tudo bem!
A voz da inteligência artificial parecia mais vívida que o normal, e estava claro que ela tentava confortar o companheiro de viagens, o preparando para o que estava por vir.
Ao analisar rapidamente o monitor, a insegurança tomou o corpo de Rashidi.
— O-o aglomerado está logo em frente…!
— Sim. E aquela criatura deve estar perto dele. Lembrem-se de tomar cuidado!
No monitor principal, um rostinho sonolento se formou em um dos cantos.
— Eu estarei em modo de repouso para poupar energia. Boa sorte!
— Mas que bela hora para nos abandonar, hein Ribbon?!
Void, que já estava próximo à porta, ajustou algumas coisas em seu elmo.
— Você pode ficar aí se quiser.
Visão noturna.
Tudo ao seu redor tomou a cor verde e preta, e uma breve observação foi suficiente para o rapaz perceber um estranho humanoide a poucos metros da espaçonave.
A parte de cima de seu corpo era de uma mulher, e a parte de baixo era a cauda de um peixe. Barbatanas seguiam a direção de seus braços, e algumas escamas se espalhavam entre os seus quadris e busto.
A voz de Rashidi soou distante.
— E então…?
Ignorado.
Void mantinha os seus olhos naquela humanoide.
A fêmea parecia estar sentada em uma onda congelada.
Uma de suas mãos apoiava a sua cabeça, enquanto a outra penteava os fios ondulados dos cabelos adornados com conchas. Com uma expressão séria, a garota não tirava os olhos de Void, como se soubesse que ele a estava observando.
O rapaz de armadura finalmente se pronunciou.
— É… uma sereia.
— O-o que? Ela é a mediadora?!
— Não…
Void deu uma pausa, também não acreditando no que iria falar.
— ...ela é uma residente daqui.
— Isso é impossível!!
— …
— Não há como alguém viver nessas condições.
Subitamente, Void virou-se na direção de Rashidi.
Pelo seu tom de voz, era perceptível a sua impaciência.
— Céus… por que vocês, vesperes, sempre reclamam quando alguém excede suas expectativas? Acho que já passou da hora de vocês tirarem “impossível” de seus vocabulários.
Ele voltou os seus olhos para a sereia, que até o momento continuava o observando.
Quando finalmente lhe faltou a paciência, a garota ameaçou se atirar nas águas, mas antes que Void pudesse falar qualquer coisa, um brilho a envolveu.
A sua cauda se recolhia gradualmente, revelando um par de pernas decoradas com escamas. Quando a cauda parou de encolher, ela parecia ter se transformado em um vestido com corte assimétrico, cuja parte das costas era mais comprida que a parte da frente.
A garota tocou as águas negras com os pés, caminhando sobre ela em direção a Void.
Surpreso com o que acabou de ver, Void sussurrou algo inaudível.
— Ela está vindo.
— E-eu devo…
Antes que Rashidi completasse sua frase, o outro o interrompeu.
— Não faça bobagens!!
— ...
Quando a distância entre eles se encurtou, a garota o cumprimentou.
— Olá?
Sua voz soava tão tranquila quanto as águas daquele planeta.
A resposta de Void acompanhou a calmaria, como uma música.
— Saudações, residente de Atlansha.
— O que vocês fazem aqui?
Como esperado por Void, aquela garota podia entender o que eles falavam.
Omnilinguismo proveniente da presença de um mediador.
Omnilinguismo. A capacidade de falar qualquer idioma.
— Estamos procurando por algo que está em seu planeta. Viemos em paz.
A garota ri timidamente, e suas bochechas parecem corar ainda mais.
— Eu sei disso. Se vocês fossem algum tipo de ameaça, Ryuuki não teria deixado eu conversar com vocês. Apesar do Ryuu não ter gostado muito do seu… amigo?
— Ryuuki é o seu mediador?!
— …?!
Mediador.
Estava claro para Void que a garota desconhecia esse termo.
— E esse cara...?
Ele olhou para Rashidi enquanto inclinava sutilmente a cabeça.
— Não somos amigos. E eu entendo perfeitamente o seu mediador: eu também não gosto dele. Só viajamos juntos por… objetivos iguais.
— Ei… Eu consigo escutar a conversa, viu?
A reclamação de Rashidi chegou até os ouvidos de Void.
Mais uma vez, o vesper foi ignorado pelo rapaz de armadura.
— Entendo… São companheiros de viagem.
A sereia, então, encarou o rapaz de armadura com um olhar triste.
Tentando disfarçar aquele sentimento, sua voz soou mais baixa.
— Vocês disseram que estavam procurando algo, não é? O que vocês estariam procurando nas ruínas de um planeta morto? Fora a destruição, não há mais nada aqui.
Void podia sentir a melancolia presente na voz e na expressão da garota.
— M-me diga… o seu nome.
A sereia o encarou tristemente.
A resposta veio em um sussurro.
— Ayase. Ayase do Palácio das Estrelas.
— É uma honra conhecê-la, Ayase.
Sua voz pareceu forçada, como se tentasse disfarçar os seus sentimentos.
— E como devo chamar vocês, meus queridos visitantes?
— Bom… Meu temperamental parceiro de viagens se chama Rashidi.
Ele olhou em direção ao outro rapaz, que apenas acenou para a garota.
Ayase fez uma gentil reverência, como havia aprendido em suas lições.
— É um prazer te conhecer, Rashidi.
— ...
— E quanto a mim... Você pode me chamar de Void.
Nas trevas, uma voz grave se pronunciou.
— Esse nome combina bem com você.
— ?!
Algo esguio e escamoso envolvia a espaçonave.
Apenas a sua voz já soava ameaçadora, mas não tanto quanto a presença invisível que os observava nas profundezas da escuridão. Diante dos grandes olhos dourados, todos pareciam pequenos e insignificantes peixinhos.
Aos olhos de Void, porém, a criatura não estava escondida nas trevas.
A visão noturna lhe permitia enxergar cada fragmento de seu corpo.
Era como uma serpente colossal, lisa e esguia, salvo pelas grandes barbatanas espalhadas pelo seu corpo. Algumas de suas escamas, aparentemente mais luminosas do que as outras, desenhavam o meio de seu corpo escamoso. A cabeça era como o híbrido de serpente com dragão, e tinha barbatanas nela também, mas Void só conseguia enxergar as grandes presas afiadas que saiam de sua boca.
O corpo de Void foi tomado por uma estranha onda de pavor.
Apenas a presença do mediador denunciava o seu poder, superior ao da maioria das criaturas que já tivera contato. Isso se ele realmente fosse um mediador.
Parecia mais com um deus perdido em um paraíso abandonado.
— E-esse é o poder de um mediador… Incrível!!!
— N-não brinca… Mas que droga é essa?!
Mesmo Rashidi, que tinha encontrado alguns mediadores durante suas viagens, parecia assustado com o poder daquela criatura. Ele não fazia ideia de que mediadores poderiam ter diferentes níveis de poder.
Dentre todos os mediadores que conheceu, nenhum conseguia igualar os seus poderes ao de um vesper. Mas aquela criatura era, sem sombras de dúvidas, muito mais forte que qualquer vesper que ele tivera contato.
Diante do clima tenso criado por Ryuuki, a garota se pronunciou.
— Ryuu, não assuste os visitantes, por favor!!
— Não é com o cara de armadura que eu estou preocupado, milady.
Ryuuki, então, abaixa a sua cabeça até finalmente conseguir visualizar Rashidi.
— E-eu?! Eu sou apenas um vesper de baixo nível!
— Mesmo um vesper de baixo nível é um Vesper.
A sobrancelha de Ryuuki franziu e sua voz soou ainda mais alta.
— Vesperes não são bem-vindos aqui.
— Vesperes…?
A pergunta de Ayase se perdeu na discussão.
Void logo se colocou na frente de Rashidi.
— Não tem motivos para se preocupar com um vesper que sequer consegue desenhar uma runa. Sinceramente, ele sequer deveria ser chamado de vesper.
Void sabia que Rashidi não iria discordar de nada que ele dissesse.
Se discordasse, ficaria com problemas com o mediador Ryuuki.
Ele precisava aproveitar este momento.
— Rashidi só lembra das runas básicas de criação. Criar uma explosão ou um escudo de terra é até fácil pra ele, mas se você pedir por um campo gravitacional, ele vai demorar pelo menos 20 minutos para lembrar das runas certas.
— Ei… você está fazendo isso de propósito?!
— Você não tem com o que se preocupar, mediador. Antes que esse vesper aqui pense em te causar algum problema, ele se mata com os próprios erros.
Ryuuki ainda encarava a dupla com uma expressão séria.
— Se a ideia era me convencer de que essa coisa não é uma ameaça, vocês falharam. Na verdade, muito me espanta que ainda deixem vocês dois viajarem entre os mundos livremente.
Void parecia desviar o olhar de Ryuuki.
O sentimento de frustração que dominava cada parte de seu corpo só pareceu amenizar quando o rapaz de armadura cerrou os punhos, finalmente voltando a encarar os grandes olhos dourados do mediador.
— Não permitiram...
— …
— Precisamos acabar com isso o mais rápido possível.
Ryuuki percebeu que aquelas palavras eram verdadeiras, e mesmo que não confiasse muito em Rashidi, quanto mais rápido eles terminassem aquilo, mais rápido eles deixariam de ser sua responsabilidade.
A grande serpente se afasta da espaçonave, e Void suspira aliviado. Mesmo que temporariamente, ele sentia que o mediador estava convencido de suas palavras.
O rapaz se volta para Ayase, dando continuidade à conversa de antes.
— Me desculpe... eu não respondi a sua pergunta, não é? Sobre o que procuramos.
A garota nega com a cabeça, silenciosa.
— Os chamamos de aglomerados.
A criatura estende a sua mão esquerda em direção à sereia.
Um brilho emana da palma de sua manopla, a banhando com uma energia caótica estranhamente familiar, até finalmente emergir um tipo de cristal sujo.
— O nosso trabalho é juntar essas coisas. Elas não pertencem ao seu universo.
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