NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
1 START
Olá, pessoal!
Me chamo Augusto. Tenho sete anos e, se tem uma coisa que aprendi cedo demais, é que a vida não pede licença antes de mudar tudo.
Desde bebê vivo em lares adotivos. Minha mãe biológica me deixou, nunca soube direito o porquê, e talvez nem queira saber. A primeira vez que fui adotado eu tinha dois aninhos. Fiquei oito meses com essa família... até ser devolvido. Como uma mercadoria que não agradou. O motivo? Eles foram morar em outro país e simplesmente não quiseram me levar.
Depois disso, fui passando de lar em lar. Cada endereço novo era uma esperança, e cada despedida, uma cicatriz que eu aprendi a carregar em silêncio.
Até que chegaram a mamãe Mary e o papai Anthony.
Faz dois anos que estou com eles e pela primeira vez na vida, sinto que tenho um lugar que é meu de verdade. Moramos num bairro tranquilo de Las Vegas, daqueles onde as crianças ainda brincam na calçada e tem um parque pertinho que eu adoro. Mamãe diz que o papai ganha bem. Ele trabalha prestando serviços para cassinos. Ela sorri quando fala nisso, mas tem um olhar que não consegue esconder um olhar de quem sabe que esse mundo tem lados que a gente prefere não enxergar. As pessoas desse ramo são traiçoeiras, ela já disse mais de uma vez, baixinho, quase pra si mesma.
Eu gosto de estudar. Adoro ler e sou completamente apaixonado por experimentos, física, química, como as coisas funcionam por dentro. A mamãe montou um cantinho especial pra mim em casa, com materiais e tudo, pra eu treinar para a feira de ciências. Me sinto o cientista mais feliz do mundo quando estou lá.
Nossa vida era assim: tranquila. Normal. Um bairro calmo, famílias indo e vindo, dias que se repetiam de um jeito bom.
Mas uma noite, uma noite só, foi suficiente pra mudar tudo de novo.
E dessa vez, eu estava acordado pra ver.
— Em outro ponto de Las Vegas —
No segundo maior laboratório criminalístico dos Estados Unidos, a noite nunca era sinônimo de descanso.
A equipe do turno noturno do Las Vegas Crime Lab era conhecida por ostentar os melhores índices de resolução de casos do departamento e isso não era coincidência. Era reflexo direto de quem a comandava: o entomologista Gilbert Grissom, homem de poucas palavras e raciocínio afiado, que enxergava nos detalhes o que outros simplesmente não conseguiam ver.
Sob sua batuta, trabalhavam nomes que o laboratório já aprendera a respeitar: Catherine Willows, experiente e perspicaz; Warrick Brown, com seu instinto quase cirúrgico; e Nick Stokes, sólido como sempre. Em treinamento para campo, o jovem Greg Sanders dava seus primeiros passos e tinha como mentora ninguém menos que Sara Sidle.
Sara.
De uns tempos para cá, ela vinha pensando em mudar de ares e havia motivo mais que suficiente para isso.
A história entre ela e Grissom começara anos antes, em São Francisco, quando ele estivera na cidade para um seminário. O que surgiu ali foi breve, mas intenso o suficiente para deixar marcas. Dois anos depois, ele a convidou para vir a Las Vegas colaborar em uma investigação e, no fim, a convenceu a ficar de vez. Sara ficou. Ficou pelo trabalho, pela equipe, pelo laboratório.
E ficou por ele. Ainda que nunca admitisse em voz alta.
O problema é que Grissom parecia ter um talento particular para complicar o que poderia ser simples. Deixou claro — mais de uma vez, sem cerimônia — que em Vegas nada aconteceria entre eles. Recusou convites. Ergueu muros. Mas então fazia algo que derrubava tudo: um olhar demorado demais, uma palavra dita no momento errado, uma presença que pesava mais do que deveria. Chegou até a interferir no relacionamento dela com o paramédico Hank Peddigrew, sutilmente, do jeito que só ele sabia fazer, enquanto saía com outras mulheres e a deixava sem explicação.
O boato mais recente que circulava pelos corredores do lab envolvia a enigmática Lady Heather, dominatrix conhecida na cidade, e ao que tudo indicava, próxima demais do supervisor para ser apenas uma fonte de investigação. Antes disso, havia o flerte com Sophia Curtis, detetive e amiga de Conrad Ecklie, que não havia passado despercebido por ninguém.
Sara cansou de decifrar sinais contraditórios.
Tomou uma decisão silenciosa: proteger o próprio coração antes que ele terminasse o serviço. No trabalho, as conversas com Grissom passaram a ser estritamente profissionais, secas, objetivas, sem espaço para o que não deveria mais existir. Era uma armadura discreta, mas necessária.
A mudança de ares começava a deixar de ser pensamento e virar plano.
Foi nessa atmosfera tensa, ao final de mais um turno carregado, que a equipe notou uma presença incomum cruzando as portas do laboratório.
A figura ruiva adentrou o laboratório com a desenvoltura de quem conhece o próprio efeito e sabia exatamente onde queria chegar.
Ela procurava por Grissom.
Lady Heather encontrou Catherine ainda nos corredores e sorriu com a familiaridade de quem não precisa se apresentar.
— Como vai, Catherine? Sabe onde posso encontrar Grissom?
Catherine correspondeu ao sorriso, sem conseguir esconder completamente a curiosidade nos olhos.
— Vou bem, Heather! Grissom foi pro escritório dele agora mesmo.
— Vou lá falar com ele então. — A ruiva já se movia na direção certa antes mesmo de terminar a frase. Virou-se rapidamente para o grupo. — Tenham um bom dia!
— Bom dia! — respondeu a equipe, quase em coro.
O silêncio que se seguiu durou exatamente dois segundos.
— É... — Nick deixou escapar, com aquele sorriso de canto que não prometia nada de bom. — Pelo jeito o chefe está namorando mesmo.
Greg abriu a boca. Catherine o impediu com um olhar. Ele fechou a boca.
Warrick apenas balançou a cabeça, satisfeito por não ter sido o primeiro a falar.
Foi então que Sara se levantou, pegou seus pertences com movimentos calmos demais para serem naturais, e cortou o assunto antes que ele crescesse.
— Vou ter que quebrar a corrente hoje. Vou pra casa, pessoal. Até amanhã.
E saiu — sem pressa, sem drama, sem olhar pra trás.
O tipo de saída que dizia tudo sem dizer nada.
A equipe acompanhou com os olhos até ela sumir pela porta.
— Me arrisco a dizer — Warrick falou baixo, como se Sara ainda pudesse ouvir — que ela ficou triste com a visita.
— Também achei. — Catherine assentiu, séria.
Greg abriu a boca de novo.
— Greg. — Nick foi seco.
— Eu não disse nada!
— Ia dizer.
— Tudo bem, tudo bem. — Greg ergueu as mãos em rendição.
Foi Warrick quem quebrou o clima, esticando os braços e bocejando com vontade.
— Partiu café? Estou morrendo de fome.
— Vamos! — Catherine já estava se movendo.
O grupo seguiu para o café enquanto, lá no fundo do corredor, a porta do escritório de Grissom permanecia fechada e o laboratório inteiro parecia ter uma opinião sobre o que estava acontecendo atrás dela.
A fofoca, como sempre, corria mais rápido que qualquer evidência.
O apartamento de Sara estava exatamente como ela havia deixado, silencioso, organizado, e vazio do jeito que às vezes pesa mais do que a bagunça.
Ela largou as chaves na bancada, jogou a jaqueta no sofá e ficou parada por um momento no meio da sala, como se o cansaço tivesse decidido cobrar tudo de uma vez só.
Não era o turno que a havia esgotado.
Era o peso daquilo que ela continuava carregando sem precisar e que, toda vez que parecia diminuir, aparecia uma ruiva de olhar intenso para lembrar que o peso ainda estava lá.
Sara foi até a janela. Las Vegas do lado de fora seguia seu ritmo indiferente, luzes, movimento, uma cidade que nunca parava pra perguntar se você estava bem.
Ela ficou olhando por um tempo que não soube medir.
— Preciso tomar uma decisão. — A voz saiu baixa, quase como se fosse pra ela mesma — porque era. — Não posso ficar aqui sofrendo por um cara que não quer nada comigo.
Ou que quer, mas não assume. O que é quase pior.
Esse pensamento ela não disse em voz alta.
Foi até a estante e passou os dedos pela fileira de livros sem realmente ver nenhum deles. A mente já estava trabalhando do jeito que a mente de Sara sempre trabalhava, organizando, pesando, buscando a lógica em algo que lógica nenhuma conseguia explicar direito.
Grissom não era um caso a ser resolvido. E talvez esse fosse exatamente o problema, ela continuava tentando.
Sara foi até a mesa e abriu o notebook. Ficou encarando a tela por alguns segundos antes de começar a digitar. Não era um e-mail. Não ainda. Era só uma lista, o começo de um plano, esboçado em palavras soltas que ela ainda não tinha coragem de transformar em decisão concreta.
Mudar de verdade.
Não era a primeira vez que esse pensamento aparecia. Mas era a primeira vez em muito tempo que ele chegava acompanhado de algo que parecia resolução.
Ela fechou o notebook, foi até a cozinha, encheu um copo d'água e tomou de uma vez.
Amanhã ela pensaria com mais calma.
Mas a decisão — essa — já havia começado a ser tomada ali, em silêncio, enquanto Las Vegas brilhava lá fora sem se importar com mais nada.
Alguns dias se passaram e o laboratório, que já era bom em guardar segredos, não conseguiu ignorar a mudança em Sara Sidle.
Ela continuava presente. Pontual, eficiente, impecável no trabalho, mas havia algo diferente na forma como ocupava os espaços: menos palavras, menos pausas nos corredores, menos ela. Com a equipe, o necessário. Com Grissom, o mínimo possível.
A equipe notou. Trocou olhares, mas teve o bom senso de não comentar alto.
Grissom notou também e, diferente da equipe, não conseguiu simplesmente deixar passar.
Ele a encontrou numa sala de análise, sozinha com seus laudos e seu silêncio cuidadosamente construído.
— Sara... posso falar com você?
Ela não levantou os olhos dos papéis imediatamente. Quando o fez, o rosto estava neutro, profissional.
— Pois não.
Grissom entrou e fechou a porta com cuidado, como se o volume da conversa já pudesse ser um problema antes mesmo de começar.
— Está acontecendo alguma coisa? Você anda muito quieta, e tenho notado que prefere ficar longe de mim.
— Meu comportamento tem afetado o trabalho?
— Não. Seu trabalho está impecável. — Ele pausou. — Estou perguntando como seu amigo.
Sara pousou a caneta devagar. Olhou para ele de um jeito que não tinha raiva — tinha algo mais difícil que raiva. Tinha clareza.
— Desculpe, Grissom, mas a última coisa que você é pra mim é amigo. — A voz era calma, quase cirúrgica. — E o meu distanciamento de você veio seguindo um pedido seu. Achei que era o que você queria.
— Sara, não é bem assim...
— Não é bem assim? — Ela se levantou devagar. — Você me diz que não podemos ter nada, que eu preciso ter uma vida. Mas quando resolvo seguir seu conselho, você aparece para atrapalhar. Quando escolho me afastar para que a convivência seja melhor, você surge querendo saber o porquê. — Uma pausa curta, mas pesada. — Grissom, por favor. Me respeite.
— Sara, eu te respeito! Já expliquei que aqui em Vegas as regras não permitem...
— Chega. — A palavra saiu firme, sem agressividade, mas sem espaço para contestação. — Não precisa repetir o sermão. Já sei de cor. Sei inclusive que você não está disposto a arriscar nada porque o trabalho vem primeiro. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Você não tem a coragem que o Doutor Lurie teve.
Grissom ficou imóvel.
— Como você sabe disso?
— Ouvi o interrogatório. — Simples assim. Sem drama, sem julgamento aparente. — Olha, vamos encerrar aqui e deixar as coisas como estão. É melhor assim.
— Não, Sara. — Pela primeira vez na conversa, a voz dele tinha urgência. — Eu não quero deixar as coisas como estão. Eu quero mudar essa situação.
Ela o olhou por um momento — e havia algo naquele olhar que era quase pena.
— Então aceita tomar um café comigo pra conversarmos melhor?
Grissom respirou fundo.
— Não posso. Tenho uma reunião importante e...
— Pode parar. — Sara pegou seus laudos com movimentos precisos. — Fiz a pergunta já esperando o seu não. — Caminhou em direção à porta e parou com a mão na maçaneta, sem se virar. — Vá para sua reunião, Grissom. E por favor... me deixe em paz. Se algum dia meu comportamento atrapalhar o trabalho, aí você veste sua roupa de supervisor e vem falar comigo. — Uma pausa de um segundo. — Com licença, chefe.
A porta se fechou.
Não com força. Não com barulho.
O que é, de certa forma, muito pior.
Grissom ficou parado no meio da sala, de boca entreaberta, olhando para o lugar onde ela havia estado. O silêncio ao redor parecia maior do que deveria.
— Acho que a perdi de vez. — A voz saiu baixa, quase involuntária. — Nunca a vi desse jeito.
E pela primeira vez em muito tempo, Gilbert Grissom não tinha nenhuma evidência para analisar, apenas a certeza incômoda de que havia cometido um erro que os fatos, sozinhos, não iam conseguir corrigir.
Sara empurrou a porta da sala e respirou fundo antes de encarar o corredor.
A equipe estava lá — fiel, pontual e com aquela energia de quem já havia decidido que café era prioridade nacional independente de qualquer coisa.
— Pensei que não sairia mais dessa reunião com o chefe! — Greg abriu um sorriso largo. — Vamos tomar café numa lanchonete nova que achei. Topa?
— Vamos sim. — Sara correspondeu ao sorriso com um que parecia genuíno o suficiente. — Preciso me distrair.
Nick se aproximou, discreto do jeito dele, e falou baixinho:
— Tá tudo bem, Sarinha?
— Tô bem, Nick. Só cansada. — Ela deu um tapinha no braço dele. — Mas quero uma boa distração. Pode apostar.
Catherine veio por outro lado, com aquele olhar de mãe que não acredita muito em "tô bem" dito rápido demais.
— Griss queria falar com você e estava sério. Aconteceu alguma coisa?
— Tá tudo bem, Cath. — Firme, mas com um sorriso que funcionava como ponto final. — Vamos?
— Vamos chamar o Grissom pra ir junto? — Warrick jogou a pergunta no ar com a inocência calculada de quem quer ver o que acontece.
— Ele me disse que tinha uma reunião importante. — Sara já estava caminhando.
— Então vamos logo! — Greg praticamente saltou na frente.
Catherine franziu a testa levemente.
— Estranho. Não estou sabendo de nenhuma reunião.
— Foi o que ele me falou. — Sara não parou de caminhar.
— Partiuuuu!!! — Nick decretou, e o assunto foi encerrado por decisão popular.
A lanchonete nova tinha aquela energia boa de lugar que ainda não havia sido descoberto por todo mundo — mesas confortáveis, cheiro de café passado na hora e um cardápio que Greg levou exatamente quatro minutos para decorar inteiro.
— Eu recomendo o sanduíche da casa. — Ele anunciou com a autoridade de quem havia pesquisado o lugar com antecedência suspeita.
— Greg, você veio aqui antes? — Warrick estreitou os olhos.
— Pesquisei. Há uma diferença.
— Nenhuma. — Nick e Catherine responderam juntos.
A mesa riu. Sara riu junto — e dessa vez não precisou fazer esforço.
A conversa fluiu, a comida chegou, e por um tempo o laboratório ficou do lado de fora onde deveria estar. Os casos, os laudos, os corredores fluorescentes e tudo mais que habitava o dia a dia deles cedeu espaço para algo mais simples: café, risada e companhia boa.
Sara estava no meio de uma história que Nick estava contando — algo envolvendo uma viatura, um pombo e uma série de decisões questionáveis — quando Catherine, quase sem querer, virou o rosto em direção à janela.
E parou.
O copo de suco ficou suspenso no ar, a meio caminho da boca.
— Gente. — A voz saiu baixa e cautelosa, do tipo que imediatamente faz todo mundo na mesa parar o que está fazendo.
— O quê? — Warrick se virou.
Nick parou no meio da frase.
Greg piscou.
Do outro lado da rua, saindo de um restaurante claramente bom e claramente caro, estava Gilbert Grissom, sem pasta, sem pressa e sem o menor sinal de qualquer reunião importante. Ao lado dele, rindo de algo que ele havia dito, estava Lady Heather.
O silêncio na mesa durou aproximadamente três segundos.
— Reunião importante. — Greg murmurou, com aspas claramente audíveis na voz.
— Greg. — Catherine foi seca.
— Eu não disse nada de errado!
Sara estava imóvel. O sorriso havia saído do rosto sem avisar. Ela olhou pela janela apenas o tempo suficiente para confirmar o que os olhos estavam vendo e então voltou a atenção para o café na sua frente com uma calma que custou mais do que pareceu.
Nick a observou. Warrick também. Ninguém disse nada.
Foi ela mesma quem quebrou o silêncio, com uma voz surpreendentemente estável:
— Bom. Pelo menos a reunião parece estar indo bem.
Catherine abriu a boca. Fechou.
Warrick olhou para o teto.
Nick deu um longo gole no café.
E Greg, que havia aprendido com os erros anteriores, ficou em silêncio, o que, para o padrão dele, era praticamente um feito heroico.
O silêncio na mesa tinha textura própria.
Ninguém mexia nos pratos. Ninguém falava. Os cinco pares de olhos alternavam entre a cena do lado de fora e Sara, que continuava encarando o café na sua frente como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo naquele momento.
Foi Catherine quem não aguentou.
— Sara. — A voz saiu com aquela mistura particular de cuidado e objetividade que só ela conseguia. — Por que o Grissom falou pra você que tinha uma reunião importante?
Uma pausa pequena. Quase imperceptível.
— Perguntei se ele queria tomar um café — Sara respondeu, com uma leveza que ela claramente estava trabalhando para manter — e ele me disse isso. — Os olhos continuaram no copo. — Vejo agora que foi só uma desculpa para não dizer a verdade.
Omitiu, claro, que o convite havia sido privado. Que não era exatamente "um café com a equipe". Que havia sido uma tentativa — talvez a última — de abrir uma porta que ele, mais uma vez, havia preferido ignorar.
Mas isso ficou guardado onde sempre ficava. Dentro.
Catherine a olhou por um momento longo. Conhecia Sara bem o suficiente para saber que havia mais ali e bem o suficiente para saber quando não insistir.
Nick estava com o queixo apoiado na mão, olhando para a janela com uma expressão que misturava desconforto com uma raiva silenciosa e solidária.
Warrick balançou a cabeça devagar, sem dizer nada. O tipo de gesto que diz tudo.
Greg abriu a boca.
— Greg. — Os três falaram juntos.
— Eu juro que ia dizer algo construtivo dessa vez!
— Não ia. — Nick foi categórico.
— Provavelmente não ia. — Greg recuou com dignidade duvidosa.
Sara soltou um ar pelo nariz, não chegou a ser uma risada, mas foi o mais próximo disso desde que a janela havia estragado o clima.
— Pessoal, tô bem. — Ela finalmente levantou os olhos e varreu a mesa com um olhar que era ao mesmo tempo aviso e agradecimento. — A única coisa que aprendi hoje é que precisava ter pedido o bolo também. — Apontou para o balcão. — Alguém me acompanha?
Catherine sorriu de lado.
Warrick já estava levantando.
E lá fora, completamente alheio ao pequeno terremoto que havia causado do outro lado de uma janela de lanchonete, Gilbert Grissom seguia sua reunião importante sem fazer a menor ideia do que havia perdido.
Catherine esperou Sara se afastar em direção ao balcão e então se virou para os outros três com um olhar que não precisava de legenda.
— Alguém precisa dizer alguma coisa pra ele.
— Não vai ser eu. — Greg foi imediato.
— Nem eu. — Warrick ergueu as mãos.
Nick ficou em silêncio por um segundo, olhou pela janela uma última vez e balançou a cabeça.
— O problema não é que ele não sente nada por ela. — A voz estava baixa, séria. — O problema é que ele sente demais e é teimoso demais pra admitir. E um dia essa conta vai chegar.
A mesa ficou em silêncio.
— Isso foi profundo, Nick. — Greg disse, genuinamente impressionado.
— Eu tenho meus momentos.
— Tem mesmo. — Catherine concordou, com um sorriso que logo cedeu lugar a uma expressão mais séria. — Mas se ele não se mexer logo... ela vai embora de vez. E aí não vai ter evidência nenhuma que resolva isso.
Ninguém contestou.
Do balcão, Sara voltou com dois pedaços de bolo e um sorriso que fazia um esforço honesto de ser real.
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