NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
16 Erva daninha
O parque de diversões em Las Vegas estava cheio de risadas, música e cores… e, por algumas horas, Sara conseguiu fingir que o mundo não estava desmoronando.
Ela havia decidido: Augusto não iria à escola naquele dia. Seria só deles. Um dia inteiro para guardar na memória… talvez como um refúgio contra o que estava por vir.
— Mãe, vamos naquele de novo! — Augusto apontava animado, puxando a mão dela.
Sara sorriu, mesmo com os olhos ainda denunciando o cansaço emocional.
— Quantas vezes você quiser, meu amor… hoje o dia é todo seu.
Ele riu, aquele riso leve que sempre conseguia aquecer o coração dela, e saiu correndo na frente. Sara o observou por alguns segundos, gravando cada detalhe… cada gesto… como se tentasse eternizar aquele momento.
O celular vibrou novamente.
Ela nem precisou olhar para saber quem era.
Grissom.
Já era a sexta ligação.
O peito apertou, misturando dor, mágoa… e um amor que ela não conseguia simplesmente desligar. Mas, naquele momento, falar com ele era impossível.
Ela respirou fundo, se abaixou ao lado de Augusto e entregou o celular.
— Amor… atende pra mim? Diz que a mamãe não pode falar agora, tá bom?
Augusto assentiu, todo importante com a “missão”, e atendeu.
— Oi!
Do outro lado, a voz de Grissom veio rápida, carregada de preocupação:
— Augusto? Onde está sua mãe?
— A mamãe tá ocupada… — respondeu naturalmente — a gente tá no parque! É muito legal aqui, papai Grissom! Eu fui em um monte de brinquedos!
Sara, ao ouvir aquilo, virou o rosto discretamente. O termo “mamãe” e "papai" saindo com tanta naturalidade dos lábios dele fez seus olhos se encherem de lágrimas.
Era real. Era deles.
Do outro lado da linha, houve um pequeno silêncio… como se Grissom estivesse absorvendo cada palavra.
Então, de repente:
— Estou com muita saudade de você…
Augusto sorriu ainda mais, com aquela inocência doce:
— Eu também tô com saudade, papai Grissom!
Outro silêncio.
Mais pesado.
— Você… me chamou de quê? — a voz dele saiu mais baixa, quase sem acreditar.
— Papai! — respondeu Augusto, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — Você não gostou?
Sara levou a mão à boca, emocionada, enquanto observava o filho.
Do outro lado, a resposta veio carregada de sentimento:
— Eu amei… — uma leve pausa — Eu amei, filho.
Os olhos de Sara se fecharam por um instante, deixando uma lágrima escapar. Aquilo doía… porque era bonito demais… e ao mesmo tempo, tudo estava prestes a ser arrancado dela.
— Também estou com muita saudade de você… — continuou Grissom — e da sua mãe também.
Sara desviou o olhar, agora com um aperto mais profundo no peito. Havia amor ali… mas também havia traição. E isso ela não conseguia ignorar.
— Diz pra ela que eu a amo muito… — ele completou — assim como amo você, filhão.
Sara respirou fundo, engolindo o choro. Parte dela queria pegar o telefone… outra parte não conseguia sequer ouvir aquilo sem se sentir quebrar.
— Papai vai precisar desligar agora… tchau.
— Tchau, papai! — respondeu Augusto, animado, antes de desligar.
Ele correu até Sara, devolvendo o celular.
— Ele mandou falar que te ama!
Sara forçou um sorriso, ajoelhando-se para ficar na altura dele. Passou a mão no rosto do menino com todo carinho do mundo.
— Eu sei, meu amor…
Mas a voz saiu baixa… distante.
Porque, no fundo, aquilo já não bastava mais para apagar o que ele tinha feito.
Ela puxou Augusto para um abraço apertado, escondendo o rosto nos cabelos dele por alguns segundos a mais do que o normal.
— Vamos aproveitar nosso dia, tá bom?
— Tá bom, mamãe!
E, de mãos dadas, eles voltaram para os brinquedos…
Augusto percebeu antes mesmo que Sara tentasse disfarçar. Ele parou na frente dela, franzindo a testinha, com aquele olhar atento que parecia enxergar tudo.
— O que foi, mamãe? Tá triste? Você tá chorando…
Sara se abaixou rapidamente, limpando as lágrimas com um sorriso suave, tentando não deixar a dor transparecer demais.
— Eu estou chorando de felicidade, meu amor… — disse, acariciando o rostinho dele — Fiquei muito feliz de te ouvir me chamar de mãe.
Os olhinhos dele brilharam ainda mais.
— Então o papai Grissom também chorou! — contou, empolgado — Ele até tomou um susto quando eu chamei ele de papai!
Sara sentiu o coração apertar… forte. Ainda assim, manteve o sorriso, mesmo que mais frágil.
— É mesmo?
— É! — Augusto continuou, cheio de certeza — Ué… vocês estão comigo. Somos uma família… então vocês são meus pais.
Aquilo atingiu Sara de um jeito profundo. Por um segundo, tudo o que ela mais queria era que fosse simples assim… como na lógica pura e inocente dele.
Então ele completou, inocente:
— Por que você não quis falar com ele?
O sorriso de Sara vacilou. Ela desviou o olhar por um instante, respirando fundo, buscando forças para não desabar ali, na frente dele.
Quando voltou a encará-lo, sua expressão era doce… mas carregada de um cuidado enorme.
— Filho… — começou com carinho, passando a mão no cabelo dele — depois, quando a gente chegar em casa, eu preciso te explicar uma coisinha, tá bem?
Ela forçou um leve sorriso, tentando trazer leveza de volta ao momento.
— Mas agora… que tal a gente comer uma pipoca bem gostosa?
Os olhos de Augusto se iluminaram de novo, como se o mundo voltasse ao lugar.
— Quero! Com bastante manteiga!
Sara riu baixinho, segurando a mão dele.
— Então vamos, meu amor…
Em Santa Monica…
Beth observava o filho com atenção. Mesmo com o sorriso ainda presente no rosto dele, havia algo nos olhos de Grissom que não passava despercebido. Ela se aproximou e, com delicadeza, tocou levemente o braço dele antes de começar a se comunicar.
BG : Por que esses olhos cheios de lágrimas?
Grissom soltou um pequeno riso, emocionado, passando a mão pelo rosto como se ainda tentasse acreditar no que tinha acabado de acontecer.
— O Augusto… — a voz falhou por um segundo, mas ele sorriu — ele me chamou de pai. Foi a primeira vez… — os olhos se encheram novamente — Eu estou muito feliz, mãe… muito mesmo… mas…
Beth inclinou a cabeça, percebendo imediatamente a mudança no tom dele.
BG : Mas o quê?
O sorriso dele enfraqueceu. A preocupação começou a tomar espaço.
— A Sara não atendeu… — disse, mais sério agora — Eu liguei várias vezes. Umas seis. Quem atendeu foi o Augusto… ele disse que ela estava ocupada, que não podia falar.
Ele desviou o olhar, inquieto.
— Eu não sei… — respirou fundo — eu sinto que tem alguma coisa acontecendo. Não parece normal.
Beth o observou por alguns segundos, avaliando cada detalhe, cada emoção. Então levou as mãos novamente à frente, sinalizando com calma, tentando tranquilizá-lo.
BG : Você ainda está mexido com aquela conversa…
Com o homem que encontrou.
Isso ficou na sua cabeça.
Ela se aproximou um pouco mais, suavizando a expressão.
BG: Às vezes a gente cria cenários…
E sofre antes da hora.
Pode não estar acontecendo nada.
Grissom respirou fundo, absorvendo as palavras dela, mas sem conseguir afastar completamente a inquietação.
— Eu espero que você esteja certa… — murmurou, com um leve aceno de cabeça — Deus te ouça, mãe…
Mesmo tentando se convencer, algo dentro dele ainda dizia que aquela felicidade recém-descoberta… podia não estar tão segura quanto ele gostaria.
Na casa de Sara, o clima era completamente diferente do parque mais cedo. O silêncio parecia pesado, difícil de respirar.
Com o coração apertado, Sara reuniu toda a coragem que ainda tinha. Jack estava ao lado dela, em apoio silencioso, pronto para ajudá-la a atravessar aquele momento.
Ela se abaixou na frente de Augusto, segurando as mãozinhas dele com cuidado.
— Filho… a mamãe precisa te contar uma coisa importante…
A voz já começou a falhar antes mesmo de terminar a frase. Os olhinhos dele se encheram de lágrimas quase imediatamente, como se, no fundo, já sentisse que algo não estava certo.
Quando ela explicou, com todo o cuidado possível, o resultado do processo… o mundo do menino pareceu desabar.
— Não… — ele sussurrou, antes de se jogar nos braços dela — Não, mamãe…
O choro veio forte, desesperado. Sara o abraçou com toda a força, como se pudesse protegê-lo de tudo.
— Filho, olha pra mim… — disse, tentando manter a voz firme, mesmo com as lágrimas escorrendo — Eu não vou te abandonar nunca. Nunca. Você tá me ouvindo?
Ela segurou o rosto dele, fazendo com que ele a encarasse.
— Eu vou lutar por você… até o fim. E seus tios vão me ajudar. Você não está sozinho.
Augusto soluçava, agarrado nela.
— Por que o papai fez isso? — perguntou entre lágrimas — No dia do parque… ele estava com aquela mulher… ela disse que era namorada dele… mas depois ele estava com você… eu achei que ele tinha largado a bruxa…
As palavras do menino cortaram Sara por dentro. Ela fechou os olhos por um segundo, sentindo a dor… a raiva… a decepção.
Mas quando abriu novamente, sua expressão era doce — por ele.
— Filho… — falou com carinho, enxugando as lágrimas dele — depois você conversa com ele, tá? Pergunta tudo o que você quiser… você tem esse direito.
Ela o abraçou de novo, mais apertado.
— Mas agora… eu preciso que você seja muito forte, meu amor… — a voz quebrou levemente — promete pra mamãe que vai ficar direitinho?
Augusto demorou alguns segundos, ainda chorando, até conseguir assentir, mesmo sem entender completamente.
— Prometo…
Sara beijou a testa dele, demorando mais do que o normal, como se aquele gesto pudesse dizer tudo o que as palavras não conseguiam.
— Isso… meu menino… — sussurrou — Logo, logo… eu vou te buscar. Eu prometo.
A campainha soou, cortando o silêncio pesado da casa.
O coração de Sara disparou.
Jack caminhou até a porta e, ao abrir, seu semblante ficou sério.
— Elas chegaram… — anunciou, voltando o olhar para Sara — Heather está acompanhada.
Poucos segundos depois, Heather Kessler entrou, impecável como sempre, com um sorriso frio desenhado nos lábios.
— Boa noite, Sara… — disse, com uma suavidade quase provocativa — Vim buscar meu filho… meu e do Grissom.
O impacto das palavras foi imediato. Sara se levantou, segurando Augusto um pouco mais perto de si, como se o mundo estivesse tentando arrancá-lo de seus braços.
— Ele é meu filho! — rebateu, firme, mesmo com a voz carregada de emoção — E saiba, Heather… você pode até ter vencido essa batalha… — seus olhos brilharam com determinação — mas não venceu a guerra. Eu vou lutar por ele.
Ela deu um passo à frente.
— E pode avisar isso ao seu noivo.
O sorriso de Heather se ampliou, agora claramente arrogante.
— Sim… meu noivo — reforçou, saboreando cada palavra — Isso é pra você aprender a não se meter com o homem dos outros.
— Chega! — interrompeu Jack, firme — Sem discussão na frente da criança, por favor.
Nesse momento, Catherine Willows e Jim Brass entraram, trazendo uma presença mais protetora ao ambiente.
Catherine não demorou a se posicionar, indignada:
— Esqueceu a educação em casa, Kessler? Respeite a criança!
Heather virou o rosto lentamente, sem perder a pose.
— Eu tenho educação, Willows… — respondeu com desdém — vocês é que parecem não ter. Talvez seja por isso que o juiz tenha preferido deixar Augusto comigo e com o Grissom… ao invés de com…
— Já deu — cortou Brass, dando um passo à frente, firme como uma muralha — Está na sua hora, não é… Lady Heather?
Ele então se abaixou na frente de Augusto, suavizando completamente o tom.
— Ei, meu amigão… — disse, com carinho — eu te prometo… isso não vai durar muito, tá? Logo, logo você volta.
Augusto, com os olhos ainda vermelhos de tanto chorar, tentou ser forte. Ele assentiu devagar, segurando a mão de Sara até o último segundo.
— Tudo bem, tio Jim…
Ele então se virou para a mãe, abraçando-a com força.
— Tchau, mamãe… eu te amo…
Sara o apertou contra si, como se quisesse impedir aquele momento de acontecer.
— Eu também te amo, meu filho… muito… — sussurrou, beijando o rosto dele repetidas vezes.
Com o coração em pedaços, ela o soltou aos poucos.
— Vai… a mamãe vai te buscar… eu prometo…
Augusto ainda olhou para trás uma última vez.
— Tchau, tia Cath…
Catherine forçou um sorriso, com os olhos marejados.
— Tchau, querido…
E assim, entre lágrimas contidas e promessas silenciosas, a porta se fechou…
Levando com ela uma parte do coração de Sara.
A porta se fechou… e o silêncio que ficou parecia ensurdecedor.
Por um segundo, Sara ainda ficou parada, olhando para a porta como se Augusto fosse voltar correndo a qualquer momento.
Mas ele não voltou.
O corpo dela cedeu.
Catherine Willows foi rápida, envolvendo-a em um abraço apertado, sustentando-a quando as pernas já não tinham mais força.
— Ei… ei… — sussurrou, passando a mão nos cabelos dela — você não está sozinha…
Sara então desabou de vez. O choro veio forte, sem filtro, sem tentativa de controle.
— Tiraram ele de mim, Cath… — disse entre soluços — tiraram o meu filho…
Jim Brass observava com o maxilar travado, claramente afetado, mas mantendo a postura firme de quem já estava pensando nos próximos passos.
— Sara… — ele chamou, com voz mais baixa, porém segura — fica calma. A gente vai trazer o Augusto de volta. Eu já tenho uma ideia de por onde começar.
Catherine ergueu o olhar, curiosa:
— Por onde?
Brass cruzou os braços, com aquele ar de quem tinha acabado de juntar peças importantes.
— O Ecklie comentou comigo… o juiz Phillips é ex-cliente dela.
O choro de Sara diminuiu por um segundo. Ela piscou algumas vezes, como se processasse a informação.
— Sério?? — perguntou, ainda com a voz embargada — Ele… era cliente dela? Nem parece…
Catherine arqueou uma sobrancelha e não perdeu a oportunidade:
— Olha só… até parou de chorar por causa da fofoca.
Por um instante, o silêncio pairou… e então, completamente fora de contexto, as três começaram a rir.
Uma risada leve, meio nervosa, meio desesperada… mas real.
Sara levou a mão ao rosto, ainda com lágrimas, mas agora com um pequeno sorriso surgindo.
— Só você mesmo, Cath… — disse, balançando a cabeça — pra me fazer rir numa hora dessas.
Ela respirou fundo, tentando se recompor, enxugando o rosto.
— Eu vou tomar um banho… — disse, já se levantando — e depois vou com vocês para o laboratório.
Catherine a olhou com cuidado.
— Tem certeza que não quer ficar em casa, Sara?
Sara parou por um instante, pensativa. O olhar dela ainda carregava dor… mas agora também havia algo mais: determinação.
— Não… — respondeu firme — ficar aqui só vai piorar.
Ela pegou um pouco de ar antes de completar:
— O trabalho vai me fazer bem… e eu vou ajudar vocês a conseguir provas.
Os olhos dela se encheram novamente, mas dessa vez não eram só de tristeza.
— Eu vou trazer meu filho de volta.
Brass assentiu, com um leve sorriso de aprovação.
— É assim que se fala.
— Sara… — chamou Jim Brass, com cuidado — o Grissom volta amanhã…
Sara, que até então parecia mais centrada, desviou o olhar por um instante. Respirou fundo antes de responder, como quem escolhe cada palavra para não desmoronar de novo.
— Vamos viver um dia de cada vez… — disse, firme, mas com um fundo de dor — amanhã eu penso nele… ou talvez nem pense. Talvez eu só… ignore.
Ela deu um leve riso sem humor.
— Ele foi quem agiu mais cruelmente nisso tudo.
Catherine Willows franziu a testa, surpresa.
— Por que você diz isso?
Sara cruzou os braços, como se estivesse se protegendo.
— Porque… há três dias… — começou, com a voz mais baixa — eu e o Grissom conversamos. De verdade. Nos acertamos.
Os dois se entreolharam, atentos.
— Ele me pediu em namoro… — continuou — e eu aceitei. A gente passou a folga juntos… eu, ele… e o Augusto.
Os olhos dela se encheram, mas ela não deixou as lágrimas caírem dessa vez.
— Foi um dia perfeito… — confessou — daqueles que você acha que só existem na cabeça da gente, sabe? Eu… me senti parte de uma família de verdade.
Fez uma pequena pausa, engolindo seco.
— E acho que o Augusto também sentiu isso.
Brass inclinou levemente a cabeça, observando-a com mais profundidade.
— Você disse… que se sentiu pela primeira vez em uma família?
A pergunta veio com cuidado, mas carregada de significado.
Sara ficou em silêncio por alguns segundos. O olhar distante… como se revisitasse memórias que doíam.
Então, aos poucos, ela começou a contar.
Falou sobre sua infância, sobre a ausência de estrutura, sobre o que viveu… e o quanto aquilo deixou marcas. Falou da sensação constante de não pertencer… de não ter um lugar seguro para chamar de lar.
E, no meio de tudo isso… falou de Augusto.
— Quando eu encontrei aquele menino… — disse, com a voz embargada — eu me vi nele. Era como olhar pra mim mesma… só que com a chance de mudar a história.
Catherine se aproximou mais, tocando o braço dela com carinho.
Brass apenas assentiu, agora entendendo muito mais do que antes.
— Então não é só sobre perder um filho… — murmurou Catherine — é sobre reviver tudo aquilo…
Sara concordou com um leve movimento de cabeça.
— Eu não vou deixar ele passar pelo que eu passei.
O clima ficou mais denso por alguns instantes… até que Brass quebrou o silêncio, tentando trazer um pouco de normalidade:
— Tá… antes que isso aqui vire um velório completo… alguém precisa comer.
Catherine soltou um leve riso.
— Concordo. E, considerando o dia que tivemos, eu voto por algo bem calórico.
— Justo.
A morena foi tomar uma ducha e eles fizeram um lanche rápido, simples… mas necessário.
Era mais do que comida, era uma pausa para recuperar forças.
Pouco depois, já mais recompostos, seguiram juntos para o laboratório.
Porque, agora… não era só um trabalho.
Era uma missão.
No laboratório, o clima era outro — mais focado, mais estratégico… mas ainda carregado de cuidado com Sara.
A notícia já havia se espalhado, e, aos poucos, cada membro da equipe se aproximava do seu jeito. Um toque no ombro, um café deixado discretamente na bancada, um olhar de apoio… ninguém precisava dizer muito. Ela sabia.
Sara respirou fundo ao vestir as luvas, tentando se reconectar com algo que sempre a manteve firme: o trabalho.
Entre um caso e outro, a equipe se organizava quase em silêncio. Não era oficial… mas todos estavam envolvidos.
Catherine Willows já estava levantando possíveis inconsistências no processo.
Jim Brass conversava com contatos, puxando informações que poderiam comprometer decisões ou relações suspeitas.
E Sara… fazia o que sabia fazer de melhor: observar, conectar, encontrar verdades onde ninguém mais procurava.
Cada intervalo virava uma pequena reunião improvisada.
— Se esse trâmite foi rápido demais, tem algo por trás — comentou Catherine, analisando documentos.
— E a gente vai achar — completou Brass, firme.
Sara assentiu, concentrada, os olhos já sem lágrimas… mas cheios de determinação.
— Qualquer detalhe importa — disse — qualquer falha… qualquer ligação que não deveria existir.
Ela apoiou as mãos na bancada, olhando para os dois.
— Eu não vou perder meu filho por causa de jogo sujo.
Houve um breve silêncio… não de dúvida, mas de acordo.
Eles estavam juntos nisso.
E, entre provas criminais e evidências forenses, começavam a montar outro tipo de caso, um muito mais pessoal.
Um que não terminaria até Augusto voltar para casa.
Na casa de Heather Kessler, o clima estava longe de ser o que ela havia imaginado.
O silêncio era incômodo.
Augusto havia se trancado no quarto desde que chegou. Não quis jantar, não quis conversar… não quis nada. Apenas se isolou, abraçado à própria tristeza.
Heather caminhava pela sala, visivelmente irritada, mas também inquieta. Aquela reação não fazia parte do “plano perfeito” que ela havia desenhado.
— Ele nem tocou na comida… — comentou a pessoa ao lado, observando a situação com certa preocupação.
Heather suspirou, cruzando os braços.
— É só uma fase de adaptação…
Mas, no fundo, ela sabia que não era tão simples assim.
Foi então que algo pareceu finalmente cair como um peso sobre ela.
Grissom.
Ele ainda não sabia de nada.
Ela parou de andar por um instante, o semblante mudando levemente.
— Quando ele descobrir… — a outra pessoa começou, cautelosa — ele não vai reagir bem, Heather. Ainda mais sabendo que você pediu judicialmente que a Sara não chegue perto do menino…
Heather virou o rosto rapidamente, incomodada.
— Eu fiz isso para garantir a adaptação — respondeu, tentando manter a postura.
— Ou para afastar a mãe dele… — veio a resposta, mais direta.
O silêncio que se seguiu foi tenso.
— Heather… essa loucura pode acabar te prejudicando no outro processo.
Ela respirou fundo, forçando um sorriso confiante quase ensaiado.
— Não vai. — disse, firme — O Grissom é muito coração… eu sei exatamente como lidar com isso.
Se aproximou um pouco, com aquele ar calculista de sempre.
— Eu faço o papel da mulher desesperada… fragilizada… — deu de ombros — e ele vai acabar comprando a minha versão. Vai querer “consertar” tudo, como sempre.
A outra pessoa ainda parecia insegura.
— Espero que você esteja certa…
Heather apenas voltou a andar pela sala, mas agora havia algo diferente no olhar dela.
Confiança… misturada com uma ponta de tensão.
O movimento no laboratório seguia intenso, mas, por um instante, tudo pareceu parar quando a notificação chegou às mãos de Sara.
Ela abriu o documento… e o mundo, mais uma vez, pareceu desabar.
— O que é isso, Sarinha? — perguntou Greg Sanders, se aproximando com curiosidade.
Sara demorou um segundo para responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa, carregada de incredulidade.
— Greg… isso é uma notificação judicial… — engoliu seco — me proibindo de chegar perto do Augusto.
— O QUÊ?? — reagiu Nick Stokes, indignado — Gente, eu ainda não consigo acreditar nessa loucura do Grissom!
Warrick Brown, que até então estava mais calado, cruzou os braços, pensativo.
— Vocês já pararam pra pensar… — começou, cauteloso — na hipótese dele não estar sabendo disso tudo?
Greg virou-se na hora, incrédulo.
— Warrick… como assim? Como que a Heather conseguiria tudo isso sem ele saber? — rebateu — E as fotos dos dois juntos? A gente viu! Você tava com a gente!
Warrick passou a mão no rosto, visivelmente dividido.
— Eu sei, Greg… eu sei — respondeu — é que… é difícil acreditar que ele tenha feito isso. Não bate com quem ele é.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Sara, que ainda segurava o papel, parecia distante por um momento. Então respirou fundo e falou, quase como um desabafo:
— Eu também não consigo acreditar… — admitiu, com os olhos marejados — Eu tô… muito confusa.
Ela apoiou o documento na bancada, passando a mão pelos cabelos.
— Parte de mim quer sentir raiva dele… quer odiar tudo isso… — a voz falhou levemente — mas tem alguma coisa… aqui dentro… que diz que tem uma peça faltando.
Ela olhou para os colegas, com um misto de dor e esperança.
— E que, quando a gente descobrir… tudo vai fazer sentido.
Greg suavizou a expressão, colocando a mão no ombro dela.
— Então a gente descobre, Sarinha.
Nick assentiu, firme:
— Pode apostar.
Warrick completou, com convicção:
— E ninguém vai mexer mais com você sem a gente reagir.
Sara respirou fundo.
Pela primeira vez desde que tudo começou… ela não estava só na dúvida.
Agora, ela tinha aliados e uma verdade para descobrir.
Antes de encerrar o turno, o laboratório já estava mais silencioso. A movimentação tinha diminuído, e o cansaço começava a pesar em todos.
Sara estava encostada na bancada, olhando fixamente para um ponto qualquer… perdida em pensamentos.
Catherine Willows se aproximou devagar, com dois cafés na mão. Entregou um deles para Sara sem dizer nada de imediato.
— Você tá com aquela cara de quem tá pensando demais… — comentou, de leve.
Sara soltou um pequeno suspiro, aceitando o café.
— Eu tô tentando entender em que momento tudo virou isso… — respondeu, com um sorriso triste.
Catherine encostou ao lado dela.
— Quer me contar?
Sara demorou alguns segundos, como se decidir falar fosse, por si só, doloroso.
— Há três dias… — começou — o Grissom me pediu em namoro.
Catherine virou o rosto.
— Sim, você falou e saiba que estou mega surpresa dele ter levantado o olhos do microscópio.
Sara assentiu.
— E eu aceitei… — continuou — A gente passou o dia juntos… eu, ele e o Augusto.
Os olhos dela se suavizaram ao lembrar.
— Foi… perfeito, Cath. Simples… leve… real. — deu um pequeno sorriso — Eu me senti… feliz de um jeito que eu nem lembrava mais como era.
Catherine observava em silêncio, deixando que ela continuasse.
— Ele estava diferente… mais presente, mais aberto… — Sara abaixou o olhar — parecia que, finalmente, a gente tava na mesma página.
Fez uma pausa, a expressão se fechando aos poucos.
— E aí… tudo isso acontece.
Catherine tomou um gole do café, pensativa.
— Você acha que ele estava fingindo? Porque eu não acredito nisso. Não condiz com ele.
Sara balançou a cabeça na hora.
— Não… — respondeu com convicção — aquilo não foi mentira.
Ela apertou levemente o copo nas mãos.
— É isso que mais me confunde… — admitiu — porque o homem que passou aquele dia comigo… não é o mesmo que faria tudo isso pelas minhas costas.
Catherine inclinou a cabeça, analisando.
— Então ou ele é um ótimo ator… — disse — ou tem alguma coisa muito errada nessa história.
Sara soltou um leve riso, sem humor.
— Eu tô apostando na segunda opção… — murmurou — porque, se for a primeira… eu não sei nem por onde começar a juntar os pedaços.
Catherine apoiou o ombro no dela, num gesto de apoio silencioso.
— Independente disso… — disse com firmeza — a gente vai descobrir.
Sara assentiu, olhando para frente, mais firme.
— Eu só queria… — começou, com a voz mais baixa — que aquele dia não tivesse sido uma mentira.
Catherine virou o rosto para ela, sincera:
— Então luta pra provar que não foi.
Sara respirou fundo… e, pela primeira vez naquela conversa, havia mais força do que dor em seu olhar.
— É exatamente isso que eu vou fazer.
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