NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
41 A Força da Natureza e A Visita Inesperada
Catherine ficou no hospital para aguardar os resultados e levar Grissom para casa, enquanto Warrick, Sara e Nick seguiram em direção à casa de Heather. Como Marcus havia citado o nome dela, precisavam saber se ela tinha alguma ligação com o ocorrido.
O toque na porta ecoou pela madrugada silenciosa. Quando Heather abriu, o olhar foi de surpresa imediata e irritação.
— Ahhh, não!! O que vocês querem aqui? Sabiam que são quatro da manhã?
— Bom dia, Heather! — Sara respondeu, sem cerimônia. — Sabia que um amigo seu sequestrou a cúpula da polícia, tocou fogo em um restaurante e atirou duas vezes em Grissom com a intenção de vingar a sua honra?
O rosto de Heather mudou instantaneamente. A irritação deu lugar a algo que parecia genuíno choque.
— É o quê, Sara? Eu não estou sabendo de nada disso e nem mandei fazer nada. Não faria mal nenhum ao Grissom... — ela fez uma pausa breve, o olhar firme. — Pode não acreditar, mas eu o amo.
Nick soltou um som baixo, entre o sarcasmo e a incredulidade.
— Jeito estranho de amar, fazendo só coisas ruins com ele.
Heather não desviou o olhar, mas havia algo diferente na postura dela — menos armadura, mais peso.
— Fiz sim, e me arrependo. — Ela cruzou os braços. — Quem foi que fez isso tudo? Como está Grissom?
O nome claramente não era estranho a ela.
— Sim. Ele é ex-marido de uma ex-funcionária minha, Evelyn. Ela até veio aqui me avisar que ele estava obcecado por mim. — Heather respirou fundo. — Ele invadiu minha casa há alguns dias e disse que depois eu teria notícias dele. Só não sabia que seriam essas.
— Ele saiu da cadeia há poucos dias — disse Warrick. — Como ele sabia desse seu envolvimento com Grissom?
— Sinceramente, não sei. Como invadiu minha casa, ele devia estar me vigiando há dias. Nas câmeras, só encontrei dois momentos em que ele esteve perto daqui. — Ela hesitou por uma fração de segundo. — Ele estava aqui no dia em que liguei para Grissom e discutimos por telefone.
Sara ergueu o olhar.
— Foi no dia em que você reclamou porque eu estava com meu marido?
— Sim, foi. — Heather a encarou. — Por quê?
— Marcus disse que queria matar Grissom e Sara, mas foi preso antes de conseguir — respondeu Warrick, direto. — Bom, pelo jeito você não sabia de nada, mas agora sabe.
Heather absorveu as palavras em silêncio por um momento.
— Não sabia de nada — ela confirmou, a voz mais baixa. — Se soubesse, teria tentado demovê-lo da ideia. Como está Grissom?
— Ele está bem — disse Nick, já recuando um passo. — Foi só um susto. Bom, vamos embora, pessoal.
— Vamos! — Sara concordou, lançando um último olhar para Heather. — Espero não ter que voltar aqui. Então... tchau.
Os três saíram e as pegadas foram se perdendo na madrugada. Heather permaneceu na soleira da porta, imóvel, observando até que as luzes do carro desaparecessem na esquina.
Não disse mais nada.
Voltaram ao laboratório e, com o cansaço da madrugada ainda pesando nos ombros, fecharam o caso. Cada relatório assinado, cada evidência arquivada, um ponto final merecido numa noite que poderia ter terminado de forma muito diferente.
Foi quando Sara, já com a bolsa no ombro e as chaves na mão, anunciou que iria embora com uma pressa que não tentou nem um pouco disfarçar. A declaração arrancou risadas dos colegas. Ela queria correr para casa para continuar uma comemoração com o marido.
— Vai com calma, que o homem está convalescente — Catherine comentou, o sorriso largo e os olhos cheios de malícia.
Sara já estava quase na porta quando virou o rosto por cima do ombro, com um sorriso no canto dos lábios que dizia tudo antes mesmo das palavras.
— Terei todo o cuidado do mundo!
As risadas se espalharam pelo corredor enquanto a porta se fechava atrás dela.
A morena foi entrando em casa ao som de uma música clássica calma que preenchia o ambiente com uma suavidade quase irreal depois de tudo que a noite havia reservado. Entrou sorrateiramente, seguindo o som e o cheiro que vinha da cozinha.
Grissom estava de costas, completamente absorto, preparando panquecas como se fosse o coisa mais natural do mundo fazer aquilo às cinco da manhã.
Quando ele a sentiu e virou, não disse nada. Simplesmente foi em sua direção e, sem uma palavra, inclinou o rosto e a beijou demorado, intenso, como quem precisava confirmar com os próprios lábios que ela estava ali, inteira, em casa.
Abraçados, migraram para o sofá. Sara foi contando sobre a visita à Heather enquanto o clima da casa ia se transformando imperceptivelmente mais quente, mais carregado. Havia uma tensão no ar que nenhum dos dois nomeou, mas os dois sentiam.
Grissom tentava se concentrar na conversa. Tentava genuinamente.
Mas Sara mantinha a mão na coxa dele.
Foi um toque leve, casual, quase distraído. Mas ele sentiu os dedos dela queimando através do jeans como se não houvesse tecido nenhum entre eles, e precisou reunir uma concentração considerável para continuar acompanhando o que ela dizia.
Foi então que a morena notou os presentes sobre a mesa.
Uma pequena caixa chamou a atenção primeiro. Ela a abriu com curiosidade e encontrou um relicário de ouro, delicado, brilhante, perfeito.
— Que lindo, Gil! — os olhos dela acenderam com um carinho genuíno. — Vou colocar a foto da nossa família.
Depois seus olhos pousaram numa bonita sacola ao lado. Ao abrir, encontrou dois conjuntos de lingerie e o sorriso foi crescendo enquanto ele, levemente sem jeito, contava a história da compra.
Sara ouviu até o fim e então soltou uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— Cath está certa!! — ela disse, os olhos brilhando de divertimento enquanto segurava um dos conjuntos. — Você comprou para o seu bel prazer, querido... mas eu amei!!
A paciência do supervisor chegou ao fim de forma silenciosa e inevitável.
Ele a beijou fundo, ardente, sem nenhuma das hesitações que ainda restavam e o que se seguiu foi como uma força da natureza ainda sem nome, feroz e impossível de negar. Percorreram a casa em direção ao quarto como uma maré que não pede licença, levando tudo pela frente.
Com cuidado, claro. Ele ainda sentia a dor surda no peito onde os projéteis haviam encontrado o colete, e isso nunca saiu da cabeça de nenhum dos dois, mas havia formas de contornar a dor quando a vontade é grande o suficiente.
No quarto, as roupas foram para todos os lados sem cerimônia.
E então o tempo mudou de natureza.
Ele a beijou com a atenção total que só ele sabia dar, a língua raspando contra a língua dela, os lábios devorando os lábios dela, abafando suspiros que cresciam de acordo com a intensidade do momento. Cada movimento calculado com o cuidado que uma gravidez exige, mas sem perder nada da intensidade que os dois precisavam naquela noite a celebração que havia sido prometida e que nenhum dos dois estava disposto a deixar passar.
Três rodadas depois, eles finalmente capotaram.
Caíram exaustos entrelaçados, respiração ainda irregular, o silêncio da madrugada pousando sobre eles como um cobertor. A música clássica ainda soava baixinho em algum canto da casa, agora soando como a trilha perfeita para o fim de uma noite que havia começado com tiros e terminado assim com vida, com amor, com a certeza simples e absoluta de que valeu cada segundo.
Grissom foi o primeiro a despertar.
Por um momento, não se moveu. Ficou quieto, deixando a consciência chegar aos poucos, e então sentiu o calor do corpo de Sara junto ao seu, o peso leve dela contra ele, a respiração tranquila e compassada de quem dorme em paz absoluta.
Se sentiu nas nuvens.
A felicidade que o tomou foi simples e avassaladora ao mesmo tempo, do tipo que não precisa de palavras para existir. Ali estava o amor da sua vida dormindo tranquilamente, um verdadeiro anjo, completamente entregue ao sono depois da noite que haviam tido. Ele a contemplou por um momento que não soube medir.
Depois, calmamente, começou a beijar seu pescoço.
Suave. Sem pressa. Apenas o suficiente.
Sara foi saindo do sono com um sorriso que apareceu antes mesmo dos olhos abrirem.
— Que jeito maravilhoso de acordar...
— Estava pensando — a voz dele era rouca de sono, quente — se você não quer me acompanhar naquela banheira maravilhosa.
Ela abriu os olhos e o olhou com uma expressão que misturava deboche e desejo em partes iguais.
— Eu seria louca se negasse. — Uma pausa dramática. — Tenha cuidado com uma mulher grávida louca de desejo! — e soltou uma gargalhada.
Ele riu junto, e os dois foram para o banheiro ainda rindo.
E claro que não foi só um banho.
A banheira maravilhosa cumpriu um papel muito além do higiênico, e a água encontrou todos os cantos do banheiro que jamais havia visitado. Quando finalmente emergiram, satisfeitos e completamente sem arrependimentos, o banheiro parecia ter sobrevivido a uma pequena enchente.
Grissom ficou encarando o estrago com uma expressão entre o divertido e o resignado, pegou a toalha e começou a secar o chão enquanto Sara, ainda rindo, amarrava o roupão e seguia para a cozinha.
Ali ela tomou as rédeas da situação com a eficiência de quem sabe exatamente o que dois corpos exaustos e felizes precisam e começou a montar uma refeição reforçada, capaz de repor toda energia que haviam investido tão bem naquela madrugada e avançado ao longo do dia.
Ambos resolveram não se dar ao trabalho de se vestir de verdade. Ficaram só de roupão, confortáveis, como se o mundo lá fora pudesse esperar mais um pouco.
A cozinha foi tomando vida aos poucos. O cheiro do suco de laranja se espalhando pelo apartamento, a torrada dourando, frutas na mesa. Sara conduzia tudo com uma leveza que só aparece quando a alma está descansada de verdade, mesmo que o corpo ainda carregue o cansaço da noite anterior.
Estava tão absorta nisso que não ouviu os passos.
Levou um susto quando sentiu os braços dele chegando por trás, e o beijo no pescoço que se seguiu fez o susto virar um sorriso instantâneo.
— Eu te amo muito! — a voz de Grissom era baixa, quente, colada ao ouvido dela.
Sara se acomodou por um segundo contra ele antes de virar o rosto.
— Eu também te amo demais, meu marido.
O beijo que veio a seguir tinha todo o gosto de um dia perfeito...
Até a campainha soar.
Sara se afastou rindo, lançando para ele um olhar divertido que ele entendeu perfeitamente, e foi até a porta ainda ajeitando o roupão, sem a menor pressa.
Abriu.
E parou.
O sorriso não sumiu, mas os olhos arregalaram com genuína surpresa estampada no rosto enquanto encarava quem estava do outro lado da soleira.
— Você?? — a voz saiu entre o espanto e o incredulidade. — O que faz aqui??
O casal olhava abismado para a figura parada na soleira sem conseguir acreditar na audácia daquela visita.
Heather sustentou o olhar dos dois com a compostura que lhe era característica, mas havia algo diferente nela naquele momento. Tinha menos armadura, mais peso.
— Olha, sei que não sou bem-vinda... — ela começou — mas poderiam pelo menos me convidar para entrar? Gostaria de falar com você, Grissom.
— Nem pensar. — A voz dele saiu firme, sem hesitação. — Heather, com todo respeito, o melhor que você tem a fazer é ir embora.
— Grissom, prometo que serei rápida.
O silêncio que se seguiu tinha a textura de um impasse e Sara observava o ping pong com os braços cruzados, a mente trabalhando mais rápido do que qualquer um dos dois percebia.
— Gil. — A voz dela cortou o ar com calma cirúrgica. — Por mais que não me agrade... acho melhor vocês conversarem para que alguns pontos sejam acertados de uma vez.
Grissom virou para ela como se tivesse ouvido errado.
— É o quê, Sara?? Ficou doida??
Ela não respondeu à pergunta. Apenas se virou para Heather.
— Entre e espere um pouco. Nós vamos nos trocar rapidamente.
No quarto, com a porta fechada, Grissom encarou a esposa com uma expressão que misturava incredulidade e confusão genuína.
— Por que você quer que eu converse com ela?
Sara já estava escolhendo a roupa, mas parou. Respirou. Quando falou, foi com a honestidade direta que ele tanto amava e às vezes temia.
— Gil, não vou negar que tenho uma raiva danada de Heather. Mas muitas coisas que ela fez... foram devido à liberdade que você deu.
Ele abriu a boca. Fechou.
— Sara... tudo bem, fui um babaca. — A admissão veio sem enrolação. — Mas depois eu caí na realidade, vi quem ela é de verdade, e com isso o que mais quero é distância.
— Você disse isso pra ela? — Sara o encarou. — Você falou isso da primeira vez e deixou que ela te enrolasse de novo. — Ela fez uma pausa curta, mas carregada. — Você precisa definir o que realmente quer, Gil. De uma vez.
Grissom ficou quieto por um momento. Quando falou, a voz era baixa mas segura.
— Sara, não duvide jamais do amor que sinto por você. — Ele respirou fundo. — Acho que sei o que você quer dizer. E mesmo não estando completamente firme nisso... vou conversar com ela. Você vem?
Sara balançou a cabeça devagar.
— Não. — A resposta foi tranquila, sem drama. — Isso é uma coisa que você deve fazer sozinho. Te espero aqui.
Ele a olhou por um segundo a mais e no olhar havia gratidão, e respeito, e amor antes de virar e sair em direção à sala.
O supervisor voltou para a sala e encontrou Heather de pé, olhando atentamente uma foto sobre a estante. Ele soube qual era antes mesmo de chegar perto: ele, Sara e Augusto, os três juntos num momento de felicidade simples e verdadeira.
Ao notar o retorno dele, ela não se virou imediatamente. Ficou mais um segundo olhando para a imagem.
— Você nessa foto está com um brilho no olhar que jamais vi.
— Porque estou junto de pessoas importantes pra mim. — A voz dele era calma, sem agressividade, mas absolutamente firme. — Pessoas que amo muito. Meu filho e minha esposa, que logo vai me dar um novo presente. Sem eles não sou ninguém. — Ele fez uma pausa. — O que você realmente quer aqui, Heather?
Ela finalmente se virou. E por uma vez, a Dominatrix não usou nenhuma máscara.
— Grissom, pode não acreditar, mas saiba que tudo que fiz foi por amor. Tudo bem que usei métodos pouco ortodoxos para tentar alcançar meus objetivos... porém foi a forma que encontrei para lutar por você.
— Posso te dizer que foi uma forma doentia. — Ele não elevou a voz, mas cada palavra pesou. — Causar sofrimento a todos com o intuito de alcançar seus objetivos é egoísmo, Heather. Puro egoísmo.
— Grissom... — ela escolheu as palavras com cuidado — havia momentos em que achava que você estava a fim de termos algo mais. Você nunca refutou nenhum beijo que lhe dei. Sempre estava disponível para mim, quase transamos na minha sala...
— Nisso foi onde eu contribuí para te ajudar a cometer esses erros. — Ele assumiu sem hesitar. — Ao dar a entender que estava a fim, quando não era isso. — Grissom respirou fundo. — Heather, sempre gostei de te ter como amiga. Suas conversas afiadas, a forma como você me entende... mas nunca foi além disso. Eu amo profundamente a Sara, e ficar longe dela só me traria sofrimento. Atacar o meu relacionamento foi o seu maior erro, e por isso peço, imensamente, que possamos ficar longe um do outro. Nem amizade quero manter.
Heather ficou em silêncio por um momento que pareceu longo.
— Certo. — A voz saiu mais baixa, mas ainda inteira. — Acho que não posso competir com o sentimento que vocês nutrem um pelo outro. — Ela cruzou os braços, não por arrogância, mas como quem precisa se segurar por dentro. — Não estou arrependida do que fiz, confesso. Os homens não são os únicos com amores escondidos é que as mulheres disfarçam bem melhor o proibido. — Uma pausa carregada. — O meu maior castigo foi ver o meu amor amando outra pessoa. Você tem noção do quanto isso doeu? Doeu... doeu muito.
— Heather, desculpe se dei a entender que compartilhava do mesmo sentimento. — A voz dele era honesta, sem crueldade. — Creio que sempre deixei claro que meu coração sempre pertenceu à Sara. Gostava de conversar com você sobre ela quando ainda não tinha coragem de assumir esse sentimento, de vivê-lo. Hoje me sinto completo porque a tenho ao meu lado.
Ela o encarou por um longo instante. E então, algo nela assentou como uma batalha que finalmente se reconhece perdida, não por fraqueza, mas por lucidez.
— Eu sei. — A voz saiu quase suave. — E por isso tenho que entender, mesmo não querendo, que perdi. Não tem jeito, existe entre vocês um sentimento muito forte que pode enfrentar várias barreiras, mas não ruirá. — Ela respirou. — Seja feliz, Grissom.
Ela se aproximou e tentou dar um selinho nos lábios dele.
Ele virou o rosto.
Sem drama, sem palavras. Apenas virou o rosto.
Heather encontrou sua bochecha, depositou ali um beijo silencioso e se afastou. Era a primeira vez que um beijo havia sido rejeitado e ela não disse mais nada. Não havia mais nada a dizer.
Caminhou em direção à saída com a mesma compostura de sempre, mas algo havia mudado para sempre naquela postura.
E foi exatamente nesse momento que Sara apareceu no corredor.
Os olhos das duas se encontraram por uma fração de segundo, a que ficava e a que ia embora. Heather não parou. Apenas seguiu, passou pela porta, e desapareceu.
Grissom virou-se para a esposa.
E no silêncio que ficou, havia um capítulo finalmente encerrado.
Sara observou a porta fechada por um momento.
— Sabe que fiquei com pena dela? — a voz saiu baixa, genuína. — A tristeza no rosto...
Grissom chegou até ela, e havia no olhar dele uma leveza que não existia antes daquela conversa como quem finalmente depositou um peso que carregava sem perceber.
— Bom... — ele disse, e o tom já havia mudado completamente — não vamos mais falar nisso. — Uma pausa calculada, os olhos percorrendo o rosto dela com uma intenção absolutamente clara. — Agora, onde foi que paramos mesmo?
Sara o encarou por meio segundo.
E então os dois caíram na risada ao mesmo tempo , aquela risada boa, leve, de cumplicidade total antes de seguirem de volta para onde as comemorações havia sido tão rudemente interrompida.
Do lado de fora, o ar fresco do fim do dia, quase noite, encontrou uma mulher ruiva parada na calçada.
Heather não estava com pressa. Ficou ali por um momento, respirando fundo, deixando o silêncio da rua fazer o que conversas não conseguem.
Lá dentro, ela sabia, havia ocorrido o ponto final de uma fantasia. De momentos alegres que pertenciam a outro tempo. De conversas cúmplices que ela guardava como pequenos tesouros, aquelas em que ele falava de Sara sem perceber o quanto a amava, e ela ouvia fingindo que aquilo não doía. De momentos calientes que existiram de verdade, anos atrás, e que ela havia alimentado na memória por tempo demais.
Quase haviam revivido aquilo. Quase.
Mas quase era tudo que restava agora.
Ela ergueu o rosto para o céu da manhã e deixou o ar entrar devagar nos pulmões.
— Vou sentir sua falta, Grissom.
A frase ficou suspensa no ar por um instante sem destinatário, sem resposta antes de se perder na brisa.
E então Heather virou as costas e foi embora.
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