— Apartamento de Sara —

A acomodação havia sido orgânica da forma que só acontece quando um grupo de pessoas já passou tempo suficiente junto para não precisar de instrução: Nick e Warrick no sofá, Greg na poltrona que havia claramente escolhido como favorita nos primeiros trinta segundos, Catherine na cadeira perto da janela com a xícara já na mão como se houvesse chegado antes de todo mundo.

Sara estava colocando a bolsa na bancada o envelope visível pelo zíper entreaberto quando percebeu que Grissom havia desaparecido na cozinha.

E estava, com a naturalidade de quem conhece o espaço, abrindo armários com a desenvoltura de quem procura o que sabe que vai encontrar.

Sara ficou parada na entrada da cozinha por um segundo.

— Grissom.

— Tem farinha. — Ele anunciou, sem virar. — Ovos. Leite. — Fechou o armário. — Panquecas.

— Você não precisa—

— Café e panquecas. — Ele já havia pegado a tigela. — Senta com eles.

Sara ficou mais um segundo.

Foi sentar.

O que se seguiu foi, nos termos mais objetivos disponíveis, inesperado para pelo menos três dos presentes.

O cheiro começou a chegar da cozinha com aquela progressão traiçoeira que vai de algo está sendo preparado para por que ainda não está pronto em menos tempo do que deveria?!!

Greg foi o primeiro a levantar a cabeça do celular.

Nick foi o segundo.

Warrick o terceiro.

Os três olharam para a cozinha com a mesma expressão não combinada, completamente sincronizada de quem está processando que o supervisor do turno noturno está fazendo panquecas no apartamento da colega como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

Catherine bebia o café com a serenidade de quem sabia e não havia considerado necessário avisar.

As panquecas chegaram à mesa com uma eficiência que não era de principiante.

Warrick pegou a primeira com a cautela educada de quem não quer criar expectativa. Mordeu.

Parou.

— Grissom. — A voz saiu com uma seriedade que o assunto não exigia mas que o sabor justificava. — Você é bom na cozinha. Estão muito boas essas panquecas.

— Chefinho aliviou minha fome!! — Greg já estava na segunda, sem cerimônia nenhuma.

— Caraca. — Nick olhou para o prato com a expressão de descoberta. — Estão muito boas mesmo. — Ergueu os olhos para a cozinha onde Grissom ainda estava servindo o café. — Quero mais panquecas, Griss, por favor??

Grissom voltou para a sala com a cafeteira e havia no rosto dele algo que Sara raramente havia visto no laboratório.

Timidez.

Gilbert Grissom estava visivelmente sem graça diante de três colegas elogiando as próprias panquecas.

Ele ria baixinho a cada elogio com aquele riso que era mais reflexo do que performance, desviando o olhar para a cafeteira como se o nível do café fosse uma informação urgente.

Catherine observava a cena com a xícara na mão e o sorriso de quem está assistindo a algo que vai render comentários por tempo considerável.

— Vocês sabem — ela disse, com aquela cadência de quem está abrindo um arquivo há muito guardado — que na época que o Griss convidou eu e o Brass pra jantar em casa, a gente ficou na dúvida se ia ou não?

Nick parou de mastigar.

— Por quê?

— Porque ninguém sabia que ele cozinhava. — Catherine gesticulou com a xícara. — Achamos que ia ser aquelas coisas que os homens fazem quando convidam alguém pra jantar e na verdade pedem pizza e colocam numa travessa.

— Catherine. — Grissom foi seco, de costas para ela ainda.

— Estou só contando a história, Gil.

— Está contando com detalhes desnecessários.

— Todos os detalhes são necessários. — Ela virou para os outros três. — Aí chegamos lá e tinha entrada, prato principal, sobremesa. O homem tinha feito tudo. Com ervas frescas e tudo.

Greg abriu a boca.

— Ervas frescas??

— Ervas frescas. — Catherine confirmou, com a solenidade de testemunha ocular.

Sara estava com a xícara parada no ar ouvindo a troca com um sorriso que havia chegado sem avisar e estava mostrando tendência de ficar.

Havia algo completamente inesperado e completamente certo em ter aquelas pessoas ali, naquele apartamento, naquela mesa, com panquecas e café.

— Griss. — Greg levantou o garfo com solenidade. — Em nome da equipe, quero dizer que esse café foi o melhor que tomei.

— Obrigado, Greg.

— A partir de agora, você cozinha para a reunião de equipe todo mês.

— Isso não vai acontecer.

— Todo mês, Griss.

— Greg.

— Todo mês.

— Panquecas acabaram. — Grissom anunciou, com a finalidade de supervisor encerrando reunião.

— Tem mais farinha. — Greg apontou para a cozinha.

— Greg Sanders. — O tom chegou.

— ...Vou tomar mais café.

Sara finalmente deixou a risada sair.

A equipe estava suficientemente distraída. Nick e Warrick numa discussão sobre qual time havia jogado melhor na última temporada, Greg tentando convencer Catherine de que havia uma segunda leva de panquecas nos planos, Catherine não cedendo.

Ninguém notou Sara se levantar discretamente e ir para o quarto.

Ninguém exceto Grissom.

Ele esperou trinta segundos, tempo suficiente para não parecer imediato e foi atrás.

Sara estava parada perto da janela olhando para a rua e não esperava companhia.

— O que faz aqui, Grissom?

— Queria falar com você. — Ele fechou a porta com cuidado, a voz baixa. — Sara, eu não tenho nenhum relacionamento amoroso com Heather. Somos amigos, mas estamos juntos realizando uma ação. Estou ajudando ela com algo que não posso abrir agora, mas que...

— Grissom. — A voz de Sara saiu calma, segurando a raiva. — Poderia parar um segundo?

Ele parou.

— Primeiro. — Ela o olhou diretamente. — Você não me deve satisfação nenhuma. Sou apenas sua subordinada, é o que você sempre deixou claro.

Ele abriu a boca.

— Segundo. — Ela continuou, sem espaço para interrupção. — Eu e a Cath somos suas amigas. Boas amigas. E nem por isso ficamos beijando você. — Uma pausa pequeníssima. — Quer dizer... nós dois nos beijamos... — ela fez um gesto levemente frustrado com a mão — ...enfim. Não foi igual aos beijos que você troca com a Heather.

— Sara—

— Toda vez que os vejo juntos, vocês se beijam, Grissom. — A voz estava firme, sem drama, com aquela objetividade dolorosa de quem está apresentando evidência que preferia não ter coletado. — Então algum tipo de relacionamento vocês têm. Não adianta negar.

Ele ficou em silêncio.

Sara respirou fundo e quando continuou, a voz havia mudado de tom.

— Griss... eu te amo. — A admissão saiu simples, direta, sem ornamento. — Não vou negar isso. — Ela o olhou. — Mas me amo mais. E no momento, Augusto é minha prioridade. — Uma pausa. — A última coisa que quero é ficar me indispondo com, como você chama, sua amiga. Aquela cena no seu apartamento foi constrangedora demais. — Ela balançou a cabeça levemente. — Não quero passar por isso de novo.

O quarto ficou em silêncio.

Grissom a olhou por um momento, lendo o rosto de uma mulher que havia acabado de dizer eu te amo, mas me amo mais na mesma frase com a coragem específica de quem aprendeu a se proteger da forma mais difícil.

— Sara, dá para parar de falar por favor?

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Vou conversar com Heather sobre esses beijos. — Ele foi direto, firme, sem rodeio. — Mas ressalto, com toda a clareza que tenho, que não tenho nada com ela. — Ele deu um passo em direção a ela. — Minha querida, acredite em mim. Eu quero...

— Enrolar a Sara.

A voz veio da porta. Os dois se viraram.

Catherine estava na soleira com a xícara na mão e aquela expressão de quem chegou há tempo suficiente para ter ouvido mais do que foi convidada a ouvir e não está nem um pouco arrependida.

— E fazer com que ela e todo mundo acredite que você não tem nada com a Heather. — Catherine continuou, com a serenidade de promotora apresentando caso. — Quando na verdade está com ela sim.

— Cath, pelo amor de Deus — Grissom virou para ela com a expressão fechada. — Falo sério quando digo que não tenho nada com ela.

— Hm. — Catherine tomou um gole de café com a imparcialidade de quem está avaliando a evidência.

— GENTE!!

Greg.

Na porta. Com Nick. Com Warrick.

Os três espremidos na soleira do quarto com expressões variadas: Greg claramente havia chegado atrás de Catherine por curiosidade; Nick com o constrangimento de quem sabe que não deveria estar ali ,mas está; Warrick com a expressão de quem está pesando seriamente as próprias escolhas de vida.

— Isso é uma invasão no meu quarto?! — Sara apontou para o grupo com uma firmeza que tinha humor nas bordas apesar de tudo.

— Viemos verificar se estava tudo bem. — Greg ofereceu, com a inocência mais fabricada do mundo.

— Verificar???

— Com as orelhas. — Nick murmurou, olhando para o lado.

— Gente. — Grissom foi seco, olhando para o pequeno grupo na porta. — Vamos trabalhar?

— Exatamente o que eu ia dizer!! — Sara pegou o envelope com um movimento decidido. — Vamos agitar os corpinhos e trabalhar. Todos. Para fora do meu quarto.

O grupo se desfez com a velocidade de quem foi dispensado por alguém com autoridade moral inquestionável naquele momento.

Greg foi primeiro.

Nick segundo.

Warrick com um desculpa silencioso direcionado ao universo geral.

Catherine passou por Grissom com o olhar que continha um essa conversa não acabou sem precisar de palavras.

Sara foi a última a sair, passando por Grissom com a postura impecável de quem tomou uma decisão e vai manter.

Ele ficou parado no quarto por exatamente três segundos.

Eu te amo, mas me amo mais.

Saiu.

E foi para a sala onde a equipe havia se reinstalado com a velocidade de quem nunca havia saído dos lugares, cada um no próprio assento, xícaras nas mãos, com aquela inocência coletiva que não enganava absolutamente ninguém.

— Então. — Sara ficou de pé na entrada da sala com o envelope na mão. — A carta.

E o apartamento inteiro ficou em silêncio.

Greg e Nick haviam assumido a narrativa.

Nick começou: o hotel, o telefonema anônimo, Augusto no quarto sozinho.

Greg continuou com o que havia sido reconstituído pela equipe sobre a noite, a sequência de eventos, o que Anthony havia feito antes de deixar o hotel.

Quando Greg terminou contando sobre Anthony fugir pela janela dos fundos da cabana e Mary, que nunca havia acordado, ter morrido tão estupidamente, o silêncio durou um momento longo.

Foi Catherine quem quebrou.

— Que horror. — A voz saiu baixa. — Ele deixou a criança dopada para o Sanches pegar??

Ninguém respondeu porque não havia resposta que melhorasse a pergunta.

— O bandido teve mais coração que ele. — Catherine pousou a xícara na mesa com um cuidado que era o oposto do que estava sentindo. — Sanches — homem do cartel, foragido, responsável por pelo menos dois corpos numa cabana, ligou para o laboratório para avisar onde estava o menino. — Ela balançou a cabeça. — Anthony Hentz largou o próprio filho num quarto de hotel pra salvar a própria pele.

— Filho adotivo. — Nick disse, com uma amargura. — Ele fez questão de deixar isso claro.

— Filho é filho. — Warrick foi direto, sem levantar os olhos do chão. — Não importa como chegou.

— Para ele importou. — Greg disse, mais quieto do que o habitual. — E essa é a parte mais difícil de processar.

A sala ficou em silêncio de novo.

A sala ficou em silêncio de novo.

Sara estava olhando para o envelope na própria mão — que havia pegado sem perceber em algum momento durante o relato, como se precisasse de algo concreto para segurar enquanto ouvia.

— O Augusto sabe de tudo isso? — Warrick ergueu os olhos para ela.

— Sabe o suficiente. — Sara respondeu, devagar. — Mais do que deveria para sete anos. — Uma pausa. — Mas entendeu. Do jeito dele, entendeu.

— É inteligente demais esse menino. — Nick disse.

— É. — Sara olhou para o envelope. — E merecia infinitamente mais do que teve.

Sara ficou olhando para o envelope por um segundo.

— Vou ler a carta então. — A voz saiu firme, com aquela determinação de quem já esperou o suficiente. — Já que sabemos o que rolou em Reno.

Ninguém falou.

Ela abriu o envelope com cuidado, não pela fragilidade do papel, mas pelo peso do que estava dentro e desdobrou as folhas com movimentos lentos.

Respirou fundo.

E leu.

Sara Sidle,Se você estiver lendo esta carta agora, é porque as coisas comigo deram erradas. Espero que com o meu tesouro esteja tudo bem.Anos atrás sofri um acidente quando estava grávida. As consequências foram duras. Eu não poderia mais engravidar. Vi meu sonho de ser mãe ser apagado de uma vez e isso me entristeceu de um jeito que demorou muito tempo para eu conseguir carregar sem desmoronar.Um dia, uma amiga me sugeriu que visitasse abrigos. Que trabalhasse com a ideia de adoção. Conversei com Anthony e ele embarcou. Na segunda casa que visitei, encontrei Augusto.Foi amor à primeira vista.Esse menino foi um raio de sol na minha vida. Mas eu não correspondi à altura o amor que ele merecia. Prometi uma família para ele e não entreguei. Anthony esteve longe de ser um pai. Ele, em compensação, é o filho que eu sempre sonhei ter.Meu sonho de ser mãe se realizou com a chegada dele. Só levei tempo demais para entender isso completamente.Sabe quando eu vi felicidade de verdade no rosto do meu filho? Nos momentos em que estava junto de você, Sara. E também do Grissom. Vocês, em pouco tempo, cumpriram o papel que era dever nosso. Passaram para ele ensinamento, amor, carinho, acolhimento. Deram a ele o conhecimento do que é uma família.E por isso te peço, Sara.Se eu faltar para ele... o acolha. Fique com ele. Seja a mãe que ele merece e que eu não soube ser completamente.Diga para ele que me perdoe.E que eu o amo muito.Sejam felizes.Com amor, Mary Hentz

Sara abaixou as folhas devagar. A sala estava completamente em silêncio.

Foi Sara quem quebrou o silêncio.

— Ela sabia. — A voz saiu baixa. — Ela escreveu isso sabendo que poderia em algum momento acontecer algo com ela. — Ela olhou para as folhas. — E mesmo assim... a última coisa que fez foi pensar nele.

— É o que as mães fazem. — Catherine disse.

— Ela confiou em você. — A voz de Grissom saiu emocionada. — Para fazer parte da vida do Augusto daqui pra frente. Para ser a mãe que ele tanto procura.

— Saiba que vou brigar por isso. — A voz saiu com aquela firmeza que não precisava de volume para ter força.

— Pode contar com a gente, Sarita!! — Warrick se levantou, com aquela expressão de determinação tranquila que era a marca dele.

— Verdade, irmã. — Nick foi direto, sem enfeite. — Estamos juntos. Todos.

Greg abriu a boca.

— Greg— — Catherine começou.

— Ia dizer que também estou junto. — Ele foi levemente ofendido. — Às vezes digo coisas sérias, gente.

— Às vezes. — Nick concordou, com afeto.

— Obrigada. — Sara disse — Sério. Obrigada por tudo.

A discussão que se seguiu foi produtiva da forma que as melhores discussões são sem conclusão definitiva, mas com o mapa mais claro do que havia chegado com ela.

Foi Sara quem encerrou.

— Vai ser difícil. — Ela disse, com aquela honestidade que não pedia piedade. — Mas não vou desistir. — Uma pausa. — Bom. Vamos descansar? Turno logo mais.

Os amigos foram saindo com a gradualidade natural do fim de uma tarde que havia sido muita coisa ao mesmo tempo.

Catherine deu um abraço que durou um segundo a mais do que o habitual e um olhar que dizia nos falamos depois, só nós duas.

A sala foi ficando mais silenciosa.

Sara estava recolhendo as xícaras quando percebeu que Grissom não havia se movido em direção à porta.

Ela o olhou.

— Sara. — Ele tinha aquela expressão de quem vai pedir algo e já sabe a resposta, mas pergunta do mesmo jeito. — Será que eu poderia ficar um pouco com o Augusto? — Uma pausa. — Eu levo ele pro laboratório mais tarde.

— Sim, claro. — Ela assentiu, genuína. — Vou aproveitar e arrumar as coisas no quarto dele enquanto isso.

— Então... — Grissom pegou o casaco com movimentos calmos. — Até mais tarde.

E então com a naturalidade completamente calculada de alguém que havia planejado aquilo, ele se inclinou e depositou um beijo no rosto dela.

Não era beijo de despedida.

Era lento. Próximo demais da boca para ser inocente. Com uma pressão que durou exatamente o suficiente para ser impossível de ignorar e insuficiente para ser contestado.

Sara ficou completamente imóvel.

O arrepio desceu pelo pescoço, pelos ombros, pela espinha, com uma velocidade impressionante.

A porta se fechou.

O apartamento ficou em silêncio.

Sara ficou parada no meio da sala por um momento — com as xícaras na mão, o arrepio ainda presente, o rosto no ponto exato onde o beijo havia pousado com intenção claramente criminosa.

— Ele faz de propósito. — A voz saiu para o apartamento vazio, com uma mistura de indignação e rendição que ela não havia autorizado. — É muita provação!!

Sara soltou um ar longo, colocou as xícaras na pia e foi arrumar o quarto de Augusto.

Com o rosto ainda levemente quente.

— Parque — Tarde —

O parque tinha aquela energia boa de fim de tarde: crianças nos balanços, cachorros perseguindo bolas, o sol de Las Vegas perdendo a intensidade e ficando naquela luz dourada que tornava tudo mais tolerável.

Grissom estava sentado num banco com a coleira de Hank na mão o que era, na prática, uma ficção, já que Hank havia decidido que o raio de exploração permitido pela coleira era sugestão e não regra.

Augusto corria atrás dele com a energia de quem havia dormido bem, comido panquecas e estava com um cachorro disponível, ou seja, combinação que produzia níveis de animação difíceis de conter.

— HANK!! HANK, VEM CÁ!!

Hank foi na direção oposta.

Naturalmente.

Grissom observava os dois com a expressão de tranquila, satisfeito, sem pressa de estar em qualquer outro lugar.

— Gil.

Ele se virou.

Lady Heather caminhava em direção ao banco com aquele porte de sempre elegante sem esforço aparente, o sorriso chegando antes dela.

— Fui na sua casa. — Ela se sentou ao lado dele com a familiaridade de sempre. — O porteiro me disse que havia saído com o Hank. Imaginei que estivesse aqui. — Os olhos foram para Augusto que havia finalmente conseguido segurar o cachorro e estava recebendo lambidas. — Quem é este menino lindo?

— EU SOU AUGUSTO!! — O menino apareceu como se houvesse ouvido o próprio nome do outro lado do parque, o que provavelmente havia. Ficou na frente de Heather apresentando uma felicidade ímpar. — Se der tudo certo, vou ser filho do tio Gil e da tia Sara!!

Heather ficou completamente imóvel por um segundo.

Então olhou para Grissom com uma expressão que havia saído do sorriso habitual e estava processando informação nova.

— Vai adotar uma criança com a Sara?

— Sara é quem vai adotar. — Grissom corrigiu. — Mas quero dar meu apoio a ela. Na verdade queria estar junto dela nisso. Mas...

Ele não terminou a frase.

Não precisou.

Heather ouviu o mas com a atenção de quem lê entrelinhas profissionalmente e o que havia naquele mas era suficiente para montar um quadro completo que ela não havia antecipado completamente.

Algo se moveu por dentro dela que ela reconheceu, identificou e tratou de arquivar com a eficiência de quem tem prática.

Ciúme.

Genuíno, incômodo, completamente inoportuno.

Ela respirou imperceptivelmente e recompôs.

— Essa ajuda não vai atrapalhar no seu depoimento a meu favor para o juiz Walters, né? — A voz saiu com a leveza calculada de quem mudou de assunto com habilidade.

— Não, claro que não. — Grissom foi direto. — O juiz do caso do Augusto é o Phillips. São processos completamente separados.

Heather ficou quieta por um momento.

— Conheço o Phillips. — Ela disse, devagar, como se a ideia estivesse tomando forma enquanto falava. — Bem, na verdade. — Ergueu os olhos para ele. — Posso falar com ele. Dar uma força no caso.

Grissom a olhou.

— Heather, você não precisa—

— Quero. — Simples, direto. — Sabe como gosto de você, Gil.

E então com aquela naturalidade que havia se tornado padrão e que Grissom havia falhado sistematicamente em interromper, ela colocou a mão no rosto dele e o beijou.

Au. Au.

O latido foi seco, único, com a autoridade de Hank que havia localizado a cena e decidido opinar.

Grissom e Heather se afastaram.

E Grissom viu.

Augusto estava parado a dois metros, com Hank ao lado, olhando para o supervisor com uma expressão que havia visto algo, processado e chegado a uma conclusão que não estava gostando.

O silêncio durou um segundo longo.

— Quer sorvete, Augusto? — Grissom perguntou, com a casualidade desesperada de quem está tentando mudar o rumo de uma situação que saiu do controle.

Augusto ficou olhando para ele por um segundo.

— Quero, tio. — A voz saiu sem a animação habitual.

— Já volto.

Grissom foi em direção à sorveteria no canto do parque com passos um pouco mais rápidos do que o necessário deixando Heather e Augusto no banco.

Heather olhou para o menino.

O menino olhou para Heather.

— Vou ajudar o Grissom a te adotar. — Heather disse. — E saiba que poderíamos morar juntos lá em casa. — Uma pausa. — Logo, logo minha netinha também vai morar lá com a gente.

Augusto ficou olhando para ela.

— Você está namorando o tio Gil?

— Estou. — Ela disse, com uma naturalidade que não deixava espaço para contestação. — Mas é segredo. Não pode falar pra ninguém, tá?

Augusto ficou em silêncio por um momento com aquela expressão que Sara havia aprendido a reconhecer como processamento sério e Grissom havia aprendido a reconhecer como conclusão chegando.

— Eu não vou morar com você. — A voz saiu quieta, firme, sem raiva — com algo mais difícil que raiva. Certeza. — Vou morar com a tia Sara.

Heather o olhou.

— Veremos. — A palavra saiu suave, com um sorriso que não chegava aos olhos.

Augusto não respondeu.

Ficou olhando para o caminho por onde Grissom havia ido com Hank colado ao próprio lado, como se o cachorro houvesse escolhido um time e não estava com dúvida sobre qual era.

Grissom voltou com dois sorvetes e o semblante de quem havia aproveitado o trajeto para recuperar a compostura.

Chegou até o banco, estendeu um para Augusto.

O menino pegou.

— Tudo bem, amigão?

Augusto olhou para o sorvete.

Depois para Grissom.

Fez um sinal de positivo com a cabeça pequeno, sem convicção e voltou a olhar para o sorvete.

Grissom ficou parado por um segundo.

Conhecia aquele silêncio. Havia passado semanas aprendendo os silêncios de Augusto: o de curiosidade, o de processamento, o de cansaço, o de felicidade contida.

Esse era outro.

Esse era o de criança que sabe de algo que o adulto não percebeu que ela sabe.

Ele se sentou ao lado do menino no banco.

Heather havia se levantado discretamente com aquele timing elegante de quem sabe quando uma cena terminou.

— Ligo mais tarde, Gil. — Ela disse, lhe deu um selinho e saiu caminhando.

— Certo.

E foram ficando os dois e Hank, que havia decidido que o sorvete de Augusto merecia atenção aproximada num banco de parque com o fim de tarde passando por cima deles.

Grissom olhou para o perfil do menino.

Tudo bem, amigão?

O sinal de positivo havia sido a resposta menos convincente que Augusto havia dado desde que o conhecia.

E Grissom, que passava a vida lendo o que as pessoas escondiam, sabia disso muito bem.

A cena do parque estava sendo registrada.

O fotógrafo havia sido contratado para registrar o encontro.

As fotos do parque haviam sido tiradas sem que Grissom percebesse e foram a pedido de Heather.

Ele com Augusto. Ele com Hank. E as que Heather havia providenciado: o beijo, a mão no rosto, a proximidade que contava uma história específica para quem as visse sem contexto.

Que era exatamente o ponto.

A história havia começado antes do parque.

O caso de Heather no tribunal havia sido aberto pelo ex-marido, um homem com recursos suficientes para contratar advogados bons e rancor suficiente para usá-los sem reserva. A acusação central envolvia a noite anterior à primeira audiência. Ele alegava que Heather havia passado aquela noite com o promotor do caso. Uma alegação que, se provada, contaminaria o processo inteiro.

O problema era que havia um grão de verdade ali.

O promotor havia estado na casa de Heather naquela noite. Havia ficado. E havia, não coincidentemente, trabalhado a favor dela na primeira audiência com uma dedicação que ia além do profissional, o que havia rendido a Heather uma vitória na primeira batalha do processo.

Grissom havia estado na casa também mais cedo, por conta do caso que estava ajudando a investigar, e havia acabado dormindo no sofá sem planejamento, cansaço tendo vencido a intenção de ir embora.

Sem saber que, depois que ele adormeceu, o promotor havia chegado.

Sem saber que tinha sido o álibi perfeito. A presença dele na casa, documentada pelo porteiro, por ele próprio e por pelo menos dois vizinhos que o reconheceram, havia dado a Heather a narrativa que precisava: não havia ninguém além do meu namorado.

Namorado.

A palavra havia saído da boca de Heather diante do juiz Walters com a naturalidade de quem diz algo verdadeiro e havia sido recebida com a credibilidade que o nome de Grissom carregava no sistema judiciário de Las Vegas.

Grissom não sabia de nada disso.

Não sabia que havia sido apresentado como namorado. Não sabia que o ex-marido estava agora questionando a veracidade do relacionamento e que Heather estava, metodicamente, construindo um arquivo de provas para sustentar a narrativa diante do juiz.

As fotos do parque eram parte desse arquivo.

O pedido ao juiz Phillips, a oferta de dar uma força no caso de Augusto era outra parte. Não por generosidade. Por moeda de troca, por vínculo, por mais um fio tecido na teia que estava construindo ao redor de um homem que confiava nela como amigo e não havia percebido que a amizade estava sendo usada como material de construção.

Heather queria passar uma imagem específica diante do juiz Walters, mulher respeitada, estável, num relacionamento sólido com um homem de reputação impecável. E havia poucos homens em Las Vegas com a reputação que Gilbert Grissom havia construído junto ao sistema judiciário ao longo de décadas.

E Grissom, que havia dedicado a carreira a encontrar o que estava escondido sob a superfície das coisas, estava completamente dentro do esquema sem saber que o esquema existia.

Heather chegou em casa, colocou a bolsa na mesa e abriu o envelope com as fotos impressas.

As examinou uma por uma.

O beijo no parque havia ficado bom. A mão no rosto, melhor ainda. A foto com Augusto ao fundo era um bônus que não havia planejado, mas que servia. A imagem de uma família imagem.

Ela colocou as fotos de volta no envelope.

Havia uma parte do plano que estava funcionando exatamente como havia calculado.

E havia uma parte que não havia calculado — e que havia aparecido hoje no parque com sete anos, olhos sérios e uma frase dita com a convicção de quem não negocia:

Eu não vou morar com você. Vou morar com a tia Sara.

Heather ficou olhando para o envelope por um momento.

Augusto não era parte do plano, mas agora se tornou.