NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
17 Soco fantasma
Notas iniciais
Pela manhã, em Las Vegas…
Assim que chegou à cidade, Gil Grissom não foi para casa, nem para o laboratório. Seguiu direto para o escritório do advogado, querendo resolver pendências rápidas antes de retomar a rotina.
Ele entrou, ainda com a postura tranquila de quem não fazia ideia do que estava prestes a ouvir.
— Bom dia, Mendes… o que precisa de mim?
O advogado levantou o olhar dos papéis, com um leve sorriso profissional.
— Bom dia, Grissom. Preciso que você assine esse documento da transferência de propriedade do Instituto Grissom. Sua mãe passou oficialmente para o seu nome.
Grissom assentiu, surpreso, mas ainda dentro do esperado.
— Certo…
Mendes continuou, já organizando outros documentos.
— E… para minha surpresa — acrescentou — também chegou até mim a documentação da guarda provisória do menino Augusto, que você solicitou. Preciso que assine esses papéis para incluí-lo no seu seguro saúde.
O silêncio foi imediato.
Grissom franziu a testa, sem entender.
— Que história é essa, Mendes? — perguntou, já mais sério — Quem pediu a guarda dele foi a Sara.
O advogado parou, confuso.
— Grissom… — disse, cauteloso — você disputou a guarda com a senhorita Sidle… e o juiz Phillips concedeu a guarda provisória a você… e à sua noiva.
O mundo pareceu girar.
Grissom ficou imóvel por alguns segundos, como se o cérebro estivesse tentando acompanhar algo completamente fora da lógica.
— Minha… noiva? — repetiu, quase sem voz.
Ele passou a mão no rosto, claramente abalado.
— Você pode, por favor… — pediu, tentando manter a calma — me explicar isso direito? Porque eu não estou entendendo absolutamente nada.
Mendes percebeu na hora que Grissom realmente não sabia de nada.
Com o semblante mais sério, o advogado começou a explicar tudo o que tinha: o processo, a decisão acelerada, os documentos apresentados… tudo apontando para uma disputa direta entre ele e Sara.
Antes de continuar, Mendes pegou o telefone e fez uma ligação.
— Capitão Jim Brass? Precisamos que venha até aqui… é sobre o Grissom.
Do outro lado, a resposta foi curta… e negativa.
Mendes desligou, olhando para Grissom.
— Ele não vem.
Grissom fechou os olhos por um instante.
Aquilo disse tudo.
— Meu Deus… — murmurou, passando a mão na nuca, inquieto — se o Brass não quis nem vir aqui… então é certo que a Sara…
Ele nem conseguiu terminar a frase.
Mas a imagem veio completa.
Sara… sozinha… acreditando que ele tinha feito tudo aquilo.
— Ela deve estar destruída… — completou, em voz baixa — e querendo me matar com razão.
Ele respirou fundo, tentando se recompor, mas a tensão era evidente.
— Eu vou ao laboratório — disse, decidido — preciso falar com o Ecklie.
Virou-se novamente para Mendes, agora mais firme, mesmo com o olhar ainda abalado.
— Esses documentos do seguro… eu assino por enquanto. O Augusto não pode ficar descoberto.
Pegou a caneta, mas antes de assinar, fez questão de deixar claro:
— Mas presta atenção no que eu vou te dizer… eu não pedi essa guarda.
Olhou direto para o advogado.
— E tudo que você puder fazer para reverter isso… para que a Sara fique com a guarda do Augusto… você vai fazer.
Assinou os papéis com firmeza.
— Primeiro eu preciso entender tudo o que está acontecendo… — completou — mas isso aqui… está muito errado.
E, pela primeira vez desde que chegou, Grissom saiu dali sem nenhuma dúvida:
Algo tinha sido armado.
E ele precisava correr… antes que fosse tarde demais.
O caminho até o laboratório em Las Vegas pareceu mais longo do que o normal.
A cada minuto, a dor de cabeça aumentava, pulsando nas têmporas de Gil Grissom como um aviso de que tudo estava saindo do controle.
Assim que entrou no prédio, percebeu.
Os olhares.
Sussurros.
Julgamentos silenciosos.
Ele ignorou todos.
Sem parar, seguiu direto para a sala de Conrad Ecklie e abriu a porta sem bater.
— Grissom… — Conrad levantou o olhar, seco — acho que sua mãe te deu educação. Não bate na porta, não?
— Sem gracinhas, Conrad — rebateu ele, já tenso — não estou com humor pra isso.
O diretor fechou o semblante imediatamente.
— E quem aqui está brincando? — respondeu, firme — você devia era ficar bem quieto depois de tudo que aprontou.
Grissom travou por um segundo.
— Eu não aprontei nada — disse, controlando a irritação — na verdade… eu nem sei o que está acontecendo.
Conrad se levantou, encarando-o com incredulidade.
— Você e sua noiva retiraram o Augusto da Sara.
— Heather não é minha noiva! — cortou Grissom, mais alto do que pretendia.
— Não é o que consta aqui — respondeu Conrad, pegando alguns documentos — nem o que essa reportagem diz.
Ele jogou o material sobre a mesa.
Grissom pegou.
E, conforme lia… seu semblante mudava.
Surpresa.
Confusão.
Raiva.
As fotos… os textos… tudo construindo uma narrativa completamente distorcida.
Conrad então lhe entregou o pedido de guarda.
Ao terminar de ler, Grissom já não escondia a fúria.
— Conrad… isso aqui é mentira. — disse, com a voz carregada — Tudo isso.
Ele levantou o olhar, firme.
— A Sara é quem deveria estar com a guarda do Augusto.
Fez uma pausa, respirando fundo, como se finalmente colocasse para fora algo que estava guardado há tempo demais.
— E, se era pra eu ter uma noiva… — continuou — seria a Sara. A mulher que eu amo.
O silêncio foi imediato.
Conrad o encarou, surpreso.
— Você o quê?
— Eu amo a Sara. — repetiu, sem hesitar — Eu nunca faria isso com ela. Nunca.
Os olhos dele agora carregavam dor e urgência.
— Eu quero formar uma família com ela… com o Augusto. Antes de viajar, a gente se acertou. Estava tudo bem. A gente vinha falar com você.
Conrad cruzou os braços, absorvendo aquilo tudo.
— Vendo como ela ficou… — disse, mais sério — vai ser difícil você formar qualquer coisa com ela agora.
Ele respirou fundo, analisando as fotos novamente.
— Quer saber, Grissom? Olhando isso aqui… tudo o que a Heather fez… só foi possível porque você deixou.
Grissom franziu a testa.
— Ela te usa. Sempre usou. E você permitiu.
Aquilo bateu.
Forte.
Na mente dele, ecoou a voz do estranho… o alerta… a ideia de que uma “amizade” poderia custar sua família.
Ele passou a mão no rosto, sentindo o peso daquilo tudo.
Conrad suavizou um pouco o tom.
— Se quer um conselho… vai pra casa. Descansa. Esfria a cabeça.
Grissom balançou a cabeça, inquieto.
— Eu preciso falar com o juiz Phillips. Preciso consertar isso agora.
— Não. — cortou Conrad, firme — O juiz Phillips é cabeça dura. Se você aparecer lá dizendo que sua “noiva” não é sua noiva e que sua verdadeira companheira é outra… você só vai levantar mais dúvidas.
Deu um passo à frente.
— E o pior cenário? — continuou — ele tira o menino dos dois… e manda para um abrigo até tudo ser investigado.
Aquilo fez Grissom congelar.
— Grissom… — finalizou Conrad — vai pra casa.
Dessa vez… ele não discutiu.
A dor de cabeça já era quase insuportável.
Seguiu o conselho.
O trajeto até em casa foi um borrão. Cada passo mais pesado que o anterior.
Ao chegar, mal conseguiu se manter de pé. Pegou um remédio, tomou sem pensar duas vezes e caiu na cama.
Exausto.
Confuso.
E, pela primeira vez, com medo real de ter perdido tudo… sem nem saber como.
Na casa de Heather Kessler, o silêncio já não era apenas incômodo… era preocupante.
Augusto não saiu do quarto desde que chegou.
Não quis ir à escola.
Não quis comer.
Não quis conversar.
Nada.
A pequena mochila ainda estava jogada em um canto, intocada. Ele permanecia encolhido na cama, abraçado a um travesseiro, os olhos inchados de tanto chorar… mas agora em um silêncio doloroso, daqueles que machucam mais do que qualquer grito.
Do lado de fora, Heather caminhava de um lado para o outro, inquieta. Aquilo estava fugindo completamente do controle.
— Ele precisa reagir… — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.
Mas, no fundo, começava a perceber que não seria tão simples assim “substituir” o que Augusto tinha com Sara.
Ela parou por um instante, pensativa.
Grissom.
Pegou o celular e ligou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
A ligação só chamava.
Heather franziu a testa, impaciente, tentando novamente.
— Atende, Grissom… — disse entre dentes.
Mas do outro lado… silêncio.
Naquele momento, Gil Grissom estava completamente apagado, vencido pela exaustão e pela enxaqueca. O telefone tocava… mas ele não ouvia.
Heather abaixou o celular lentamente, o incômodo agora dando lugar a algo mais próximo de apreensão.
Porque, pela primeira vez…
Ela não tinha o controle da situação.
E, no quarto ao lado, havia uma criança que não parava de sofrer e que, claramente, não reconhecia aquele local como lar.
Conrad Ecklie chamou Catherine Willows de lado e contou tudo: a conversa com Gil Grissom, o choque, a confusão… e o estado em que ele havia saído da sala.
Catherine ouviu em silêncio.
Quando Conrad terminou, ela ficou alguns segundos parada, assimilando. Por dentro, era um conflito difícil de ignorar.
Grissom era seu amigo. Sempre foi.
Mas também era, naquele momento, o homem que tinha destruído Sara… e ferido Augusto.
Coração e razão travavam uma disputa silenciosa.
No fim… ela suspirou, pegou o celular e ligou.
Sara atendeu depois de alguns toques.
— Oi, Cath…
A voz dela ainda carregava cansaço emocional.
— Eu acabei de falar com o Conrad — começou Catherine, indo direto ao ponto — Ele me contou como foi a conversa com o Grissom.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— E aí? — perguntou Sara, cautelosa.
Catherine hesitou um segundo… mas decidiu ser sincera.
— Sara… eu acho que ele não sabia de nada.
O silêncio que veio em seguida foi mais longo.
— Você acha? — a voz de Sara saiu mais baixa, pensativa.
— Acho, sim — reforçou Catherine — Pelo que o Conrad descreveu… ele ficou perdido. De verdade. Não parecia alguém que estava fingindo.
Sara respirou fundo do outro lado da linha.
— Pode ser… — admitiu, mas sem convicção — pode ser mesmo.
Fez uma pequena pausa.
— Mas, Cath… — continuou, agora com um tom mais firme — mesmo que ele não soubesse de tudo… a atitude dela só aconteceu porque ele permitiu.
Catherine franziu levemente a testa.
— Como assim?
— Ele deu liberdade pra ela — explicou Sara — deu espaço… confiança… presença… o suficiente pra ela se sentir no direito de fazer isso.
A dor estava ali… mas agora misturada com uma lucidez amarga.
— Então, no fim das contas… — completou — pode até não ter sido planejado por ele… mas foi consequência das escolhas dele.
Catherine não respondeu de imediato.
Porque, no fundo… aquilo fazia sentido.
— Eu só… — Sara continuou, mais baixa — eu não consigo simplesmente inocentar ele. Não agora.
Catherine suspirou, apoiando a mão na testa.
— Eu entendo… — disse com sinceridade — E você tem todo o direito de se sentir assim.
Do outro lado, Sara ficou em silêncio por alguns segundos antes de completar:
— Se ele realmente não sabia… então vai ter que provar.
Catherine assentiu, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— E a gente vai descobrir a verdade, Sara.
— Eu sei… — respondeu ela, mais firme — porque agora… não é só sobre mim.
Era sobre Augusto.
E isso mudava tudo.
Em outro ponto de Las Vegas…
Gil Grissom acordou ainda com a cabeça pesada, mas com uma certeza inabalável: precisava tirar Augusto dali.
Sem pensar duas vezes, foi direto para a mansão de Heather Kessler.
A porta foi aberta por um funcionário.
— Onde está o Augusto? — perguntou, direto, sem rodeios — Vim buscá-lo. Ele vai comigo.
O homem hesitou, claramente desconfortável.
— Ele está no quarto, senhor… mas talvez seja melhor aguardar a senhora Kessler. Vocês podem conversar e decidir juntos...
— Eu não quero conversar com ela! — cortou Grissom, a voz carregada de raiva — Quero distância daquela mulher.
Deu um passo à frente, já decidido.
— Eu vou buscar meu filho… e se ela vier atrás, eu não respondo por mim. Já passou de todos os limites.
Sem esperar resposta, subiu as escadas rapidamente.
Ao abrir a porta do quarto… a cena o atingiu em cheio.
Augusto estava encolhido na cama, abatido, com os olhos vermelhos e o rosto pálido.
Assim que o viu, o menino começou a chorar.
— Eu quero a mamãe… — soluçou — me leva pra casa, papai…
O coração de Grissom se partiu na hora. Ele se aproximou rápido, ajoelhando-se ao lado da cama.
— Ei… ei… — disse, com a voz suave, completamente diferente de segundos antes — eu vou te levar, filho. Eu prometo. Vamos embora daqui.
Ele o pegou no colo… e foi quando percebeu.
O corpo quente demais.
Febre.
Grissom franziu a testa, preocupado.
— Você tá com febre… — murmurou, já se levantando — não… isso não…
Desceu as escadas às pressas, o desespero agora substituindo a raiva.
— A criança estava trancada naquele quarto, com febre! — disparou, indignado — Vocês queriam o quê? Que ele piorasse?
O funcionário ficou sem reação.
— Eu não quero ninguém daqui perto do meu filho, entendeu?!
Sem esperar qualquer resposta, saiu praticamente correndo com Augusto nos braços.
Minutos depois, já estava a caminho do hospital.
O menino ainda chorava baixinho, agarrado nele.
— Calma, filho… — sussurrava Grissom, tentando acalmá-lo — o papai tá aqui… vai ficar tudo bem…
No hospital, em Las Vegas, Gil Grissom não saía do lado de Augusto.
Depois de várias tentativas frustradas de ligação, ele percebeu: Sara não atenderia.
O aperto no peito só aumentou.
Minutos depois, o médico saiu do quarto, retirando as luvas.
— Ele está com um quadro leve — explicou — desidratação, agravada por uma virose. Nada grave. Vamos deixá-lo no soro por algumas horas, ele vai precisar descansar.
Grissom assentiu, aliviado… mas ainda tenso.
— Obrigado, doutor.
Ao voltar o olhar para o menino, agora mais tranquilo, ele respirou fundo. Precisava agir.
egou o celular e ligou para Conrad Ecklie.
— Conrad… — começou, direto — eu estou no hospital com o Augusto. Ele estava com febre, desidratado… já está sendo medicado.
Do outro lado, silêncio atento.
CE: Como ele está?
GG: Agora esta bem, esta sendo medicado. Você poderia pedir pra Sara vir até aqui?
A resposta veio pesada:
— Grissom… a Heather conseguiu uma ordem de restrição contra a Sara.
Ele fechou os olhos, já sentindo a irritação crescer.
— Como assim?
— Ela não pode se aproximar do Augusto — continuou Conrad — Se desobedecer, pode prejudicar ainda mais o processo de guarda. A gente precisa pensar em outra forma… algo discreto.
Grissom apertou o celular com força.
— Ela fez o quê?? — explodiu — Essa mulher tá completamente fora de si!
Passou a mão no rosto, tentando conter a raiva.
— Eu estou com tanto ódio dela agora…
Respirou fundo, olhando novamente para o quarto.
— Ele vai ficar em observação… e, por causa dos medicamentos, deve dormir por algumas horas.
Fez uma pausa, já decidindo os próximos passos.
— Eu vou dar um pulo no laboratório. Preciso falar com a equipe… esclarecer tudo isso. Depois volto pra cá.
Conrad respondeu apenas com um “cuidado”.
Grissom desligou.
Antes de sair, voltou até o leito.
Augusto já começava a adormecer, mais calmo.
Ele ajeitou a coberta com cuidado, passando a mão de leve nos cabelos do menino.
— Eu vou consertar isso… — sussurrou — custe o que custar.
E, com o coração dividido entre a culpa e a urgência… saiu do hospital.
Na mansão de Heather Kessler o funcionário relatava tudo: a chegada de Gil Grissom, a forma como ele entrou, o estado de Augusto… e, principalmente, a fúria que ele demonstrou.
Heather ouviu em silêncio.
Mas, ao invés de preocupação… um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Não se preocupe… — disse, com uma calma quase calculada — eu vou conseguir dobrá-lo.
O funcionário fez uma pausa antes da resposta vir, mais cautelosa:
— Senhora… do jeito que ele estava… eu não contaria muito com isso, não.
O sorriso de Heather diminuiu por um instante.
Mas ela não respondeu de imediato, mantendo o olhar fixo à frente.
Porque, pela primeira vez… havia uma pequena rachadura na confiança dela.
E, mesmo sem admitir… ela sabia:
Dessa vez, talvez… tivesse ido longe demais.
O relógio marcava o início do plantão quando Gil Grissom entrou na sala de convivência.
A equipe já estava reunida.
E, no instante em que ele apareceu… o silêncio tomou conta do ambiente.
Pesado. Incômodo. Cheio de coisas não ditas.
Grissom respirou fundo. Sabia que precisava falar.
— Eu sei que ninguém aqui quer falar comigo… — começou, com a voz firme, mas carregada de emoção — e, sinceramente, eu entendo.
Ninguém se moveu.
Ninguém interrompeu.
— Mas eu preciso que vocês saibam de uma coisa… — continuou — eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
O olhar dele percorreu a sala… até parar nela.
Sara Sidle.
— Eu peço perdão… por tudo que aconteceu.
Fez uma breve pausa, como se juntasse coragem para o que viria a seguir.
— Principalmente pra você, Sara.
Os olhos dela já estavam marejados… mas ela permaneceu em silêncio.
— Eu sei que você pode não acreditar em mim… — disse ele, com sinceridade — e talvez nem deva, agora.
Ele engoliu seco.
— Mas eu preciso que você saiba… que eu te amo. E não é da boca pra fora.
O silêncio ficou ainda mais denso.
— Você… — continuou, com a voz levemente embargada — minha mãe… e o Augusto… são as maiores coisas que eu tenho na vida.
Respirou fundo.
— Vocês são minha família.
Alguns olhares na sala suavizaram… outros ainda eram duros.
— Eu vou fazer de tudo pra consertar essa bagunça… — afirmou — pra trazer vocês de volta pra mim.
Ele fez uma pausa… e o tom mudou, mais baixo… mais honesto.
— Mas, se isso não for possível… — completou — eu vou lutar pela felicidade de vocês.
Os olhos dele voltaram para Sara.
— E pela guarda do Augusto… com você.
Aquilo quebrou algo dentro dela.
As lágrimas, que ela vinha segurando desde o início, finalmente escaparam.
Silenciosas… mas impossíveis de conter.
Sara desviou o olhar, tentando se recompor… mas era tarde.
A dor… o amor… a confusão…
Tudo estava ali.
E, naquele momento, ninguém disse nada.
Porque, pela primeira vez desde que tudo começou… a verdade parecia começar a aparecer, ainda que cercada de feridas abertas.
Grissom distribuiu os casos com a postura de sempre como se tudo estivesse sob controle. Sob orientação de Conrad Ecklie, não mencionou nada sobre o estado de saúde de Augusto.
Mas havia algo que ele não conseguiu esconder.
Os olhos.
Durante todo o tempo, Gil Grissom não tirou os olhos de Sara Sidle.
E todos perceberam.
Um olhar carregado de culpa, preocupação… e amor.
Quando os casos foram distribuídos, a equipe começou a sair em silêncio. Ninguém fez questão de encará-lo. Era como se ainda existisse uma barreira invisível ali.
Catherine esperou um pouco, até que só ela e Sara ficassem para trás.
Catherine Willows se aproximou, falando mais baixo:
— Amiga… vendo o estado do Grissom… e o que ele falou ainda mais sendo quem ele é, todo fechado… eu realmente acho que ele não sabia de nada.
Sara soltou um suspiro pesado, passando a mão no rosto.
— E é exatamente isso que está me deixando nervosa… — confessou — eu tenho vontade de bater nele… e ao mesmo tempo… beijar até perder o fôlego.
Catherine não conseguiu evitar um leve sorriso.
— Você ama ele, né?
Sara não hesitou.
— Amo… — disse, com sinceridade — eu amo demais.
Os olhos dela se encheram, mas agora não era só dor… era conflito.
— E esse sentimento… — continuou — está me bagunçando inteira. Não me deixa odiar ele… não me deixa simplesmente virar as costas.
Ela respirou fundo.
— E, pior… me faz acreditar que ele pode ser inocente nisso tudo.
Catherine assentiu devagar.
— Eu, como sua amiga… tô no mesmo dilema — admitiu — e, sendo bem sincera… tô inclinada a ir conversar com ele.
Sara ficou em silêncio por um segundo… depois assentiu.
— Vai… — disse, mais firme — fala com ele.
Pegou seus materiais.
— Enquanto isso, eu adianto as coisas na cena.
Catherine apertou de leve o braço dela, em apoio.
— Qualquer coisa, me chama.
Sara apenas assentiu.
E, enquanto cada uma seguia em direções diferentes… ficava claro:
A verdade estava cada vez mais próxima.
Mas os sentimentos… esses já estavam completamente expostos.
Catherine Willows seguiu direto para a sala do supervisor. Ao abrir a porta, encontrou Gil Grissom conversando com uma mulher… e levou um susto imediato.
— Beth??? — os olhos dela se iluminaram — Que surpresa boa te ver aqui!
Beth Grissom sorriu e respondeu em ASL, com gestos rápidos e emocionados:
BG : Eu não aguentei a ansiedade… vim conhecer meu neto… e minha nora Sara, a nora correta.
Catherine soltou um leve riso, surpresa com a firmeza da fala.
Beth então se virou para o filho, ainda sinalizando:
BG : Filho, vou ficar com Augusto no hospital. Depois conversamos.
Grissom assentiu, visivelmente grato.
— Obrigado, mãe…
Ela se despediu com um aceno para Catherine e saiu.
Assim que a porta se fechou, o silêncio tomou conta por um segundo.
Grissom passou a mão no rosto, ainda processando tudo.
— Surpreso de te ver de volta tão rápido… — comentou, olhando para Catherine — o que aconteceu?
Catherine cruzou os braços, mas o olhar já não era de julgamento.
— Eu falei com a Sara… — respondeu — e ela me incentivou a vir aqui. Ouvir o seu lado.
Aquilo pareceu aliviar algo em Grissom. Ele respirou fundo… e então contou tudo.
Desde o escritório do advogado… até o hospital.
A confusão.
A revolta.
O medo.
E, por fim:
— Eu entrei com uma petição em um plantão judicial pedindo medida protetiva pra mim e pro Augusto contra a Heather… — completou — agora eu tô esperando a decisão.
Catherine ficou em silêncio por alguns segundos, claramente impactada.
— Eu tô chocada… — admitiu — então quer dizer que a Heather armou tudo isso…
Ela estreitou os olhos, pensando mais fundo.
— E aquele caso do promotor? — continuou — será que ela não te usou também pra manipular o júri?
Grissom soltou um riso sem humor.
— Dela… eu não duvido mais de nada.
Catherine assentiu, já entrando no modo investigativo.
— Eu vou falar com o Brass — decidiu — a gente precisa revisar esse dia. Ver se a versão dela se sustenta.
Grissom a encarou, sincero.
— Cath… obrigado.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Por vir aqui… — respondeu — por me ouvir… e por acreditar em mim.
Catherine suavizou o olhar.
— Eu vim por causa da nossa amizade… — disse — e pela Sara.
Fez uma pequena pausa, deixando o impacto da próxima frase acontecer.
— Porque, no fundo… ela acredita em você.
Os olhos de Grissom brilharam.
— Ela… acredita?
Catherine sorriu de leve.
— Ela te ama muito.
Grissom abaixou o olhar por um instante, visivelmente tocado.
— Você não faz ideia do alívio que isso me dá… — confessou — a Sara é a minha vida… e eu não sei como vou viver sem ela.
Catherine deu um leve empurrão no braço dele, quase brincando.
— Então trata de resolver isso logo.
Ele soltou um pequeno sorriso, pela primeira vez mais leve.
— Pode deixar.
Catherine já se afastava quando virou novamente, com um ar malicioso:
— Vou contar essa conversa pra uma certa morena… vamos ver que efeito isso causa.
Grissom soltou um riso baixo.
Os dois trocaram um abraço sincero.
E, pela primeira vez desde que tudo começou…
Havia esperança.
No hospital, em Las Vegas, o clima no quarto de Augusto era completamente diferente do restante daquele dia pesado.
Beth Grissom estava sentada ao lado da cama, visivelmente encantada.
Augusto havia acordado.
E, apesar do soro no braço e do cansaço ainda visível, o sorriso dele voltava aos poucos especialmente agora, curioso com a presença da avó.
Como Beth se comunicava em ASL, eles encontraram um jeitinho próprio de conversar: bilhetes.
"Pode! Eu sempre quis ter uma vovó!"
Beth levou a mão ao peito, emocionada, os olhos brilhando. Em seguida, fez um sinal em ASL e depois escreveu:
"Você é igualzinho ao seu pai quando era pequeno."
Augusto riu baixinho.
"Ele era bagunceiro?"
Beth segurou o riso e respondeu:
"Muito curioso… igual você."
O menino sorriu, orgulhoso.
Por alguns minutos, eles seguiram assim… trocando bilhetes, pequenos desenhos, risadinhas silenciosas.
Um momento leve… puro… em meio ao caos.
Em determinado momento, Augusto ficou mais quietinho. Pegou o papel novamente e escreveu:
"Eu quero minha mamãe…você conhece ela?"
Beth leu devagar.
O sorriso dela suavizou, cheio de carinho.
Ela assentiu e escreveu:
"Conheço sim. Ela te ama muito."
Augusto abraçou o papel por um instante, como se aquilo fosse um pedaço de conforto.
"Eu amo ela também…" — escreveu, com a letra um pouco tremida.
Beth estendeu a mão e acariciou de leve os cabelos dele, com um olhar cheio de ternura.
Sem precisar de palavras, deixou claro:
Ele não estava sozinho.
E, mesmo naquele cenário difícil…
Algo bonito começava a nascer ali.
Ela escreveu com cuidado e mostrou para ele:
"Eu sou sua avó. Posso te chamar de meu neto?"
Augusto leu, arregalou os olhinhos e rapidamente pegou o papel, escrevendo com letra ainda meio tortinha:
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