NOSTALGIA (VERSÃO 2026)

37 Desfecho na Soleira 🚪


A rotina na casa dos Grissom começou a ganhar um novo ritmo, uma cadência mais suave que parecia curar as feridas invisíveis deixadas pela tempestade. O escritório, que antes era o refúgio solitário de Gil para suas pesquisas, tornou-se seu dormitório improvisado, mas seu coração permanecia no andar de cima.

As palavras de Beth ecoavam na mente dele como um mantra: "Tenha paciência". E ele teve. Grissom fazia pequenos gestos de presença. Ele estava lá em cada café da manhã, observando com um sorriso contido a empolgação de Augusto, que parecia radiante por ter os dois "pais" sob o mesmo teto, sem as tensões dos meses anteriores.

Sempre que o relógio marcava a hora do repouso de Sara, a cena se repetia.

— Grissom, eu já disse que as muletas estão... — Sara começava a dizer, sentada à mesa de jantar.

— E eu já disse que o meu sistema de transporte é mais eficiente e menos propenso a falhas mecânicas — ele respondia com aquele brilho leve nos olhos que ela não via há muito tempo.

Na terceira vez que ele a pegou no colo, Sara apenas suspirou e entrelaçou os braços no pescoço dele, desistindo de protestar. Havia um conforto familiar naquele contato; o calor do corpo de Gil e a firmeza com que ele a segurava transmitiam uma segurança que as muletas jamais dariam.

Certa noite, após Grissom acomodá-la cuidadosamente na cama, ele não saiu imediatamente. Ele parou por um momento, observando como o rosto dela parecia mais relaxado, a cor voltando às bochechas.

— Como está o tornozelo hoje? — perguntou ele, mantendo a voz baixa.

— Melhorando. A fisioterapia está ajudando — respondeu Sara, ajeitando o cobertor. — E como você está, Gil? O escritório não é exatamente o lugar mais confortável para dormir.

Grissom deu de ombros, um gesto humilde.

— É um pequeno preço para garantir que você e o bebê estejam bem. Na verdade... o silêncio do escritório me ajuda a pensar. A refletir sobre o que minha mãe disse.

Sara o olhou com curiosidade. — E o que ela disse?

— Que a paciência é uma virtude que eu aplico muito bem aos meus insetos, mas que às vezes esqueço de aplicar à vida real — ele deu um meio sorriso. — Estou aprendendo a esperar, Sara. No seu tempo.

Sara sentiu um aperto suave no peito. A arrogância que ele demonstrara no auge da crise parecia ter sido completamente lavada pelo susto no Mount Charleston. Ali, diante dela, estava o homem que ela amava: brilhante, mas vulnerável; mestre em evidências, mas um eterno aprendiz do coração humano.

— O jantar hoje estava ótimo — Sara mudou de assunto, mas seu tom era doce. — O Augusto está adorando ter você por perto nas refeições.

— Eu também estou — confessou Grissom. — É a melhor parte do meu dia.

Ele se inclinou e, por um breve segundo, Sara achou que ele a beijaria. Mas ele apenas tocou levemente a mão dela e fez um aceno respeitoso.

— Boa noite, Sara.

— Boa noite, Gil.

Enquanto ele saía e fechava a porta, Sara ficou olhando para o teto. A convivência estava tranquila, sim, mas o "nós" ainda era um quebra-cabeça sendo montado. No entanto, pela primeira vez em muito tempo, as peças pareciam finalmente pertencer à mesma caixa.

— Laboratório, CSI Las Vegas — turno da noite —

O tipo raro de noite em que as amostras estavam processando, os relatórios estavam em dia e o silêncio do lab era confortável em vez de tenso.

Catherine encostou na bancada ao lado de Grissom, segurando a xícara de café com as duas mãos, num daqueles momentos em que a amizade de anos dispensa introdução.

CW: Então... como estão as coisas em casa?

GG: Sara continua séria comigo. Mas amenizou um pouco os foras. Progresso.

CW: Progresso. Isso é bom, Grissom.

GG: Tenho me empenhado em mostrar que ela é a mulher que quero pro resto da minha vida.

Catherine ficou quieta um segundo.

CW: Olha você...

GG: Não precisa comentar.

CW: (rindo) Não vou comentar nada. A consulta de pré natal é hoje?

GG: Sim. Estou mega animado em poder ir.

Catherine abaixou a xícara e olhou para o amigo.

CW: Você vai ser um pai incrível, Gil.

GG: Espero muito que sim.

Quase perto do fim do turno, Grissom estava em sua sala quando Brass chegou.

JB: Heather Kessler foi liberada. Advogado dela trabalhou rápido.

Grissom não levantou os olhos dos papéis.

GG: Espero sinceramente que ela fique bem distante da minha família e de mim.

JB: Eu também espero.

— Residência dos Grissom — amanhecer —

Sara saiu pela porta da frente com cuidado, as muletas sob os braços, a bolsa no ombro, já calculando mentalmente quanto tempo levaria até a clínica.

E parou.

Na calçada. De pé. Com aquele sorriso que não era sorriso, era declaração de território.

HK: Gente... o que aconteceu com você? Pulou o muro errado?

— Na verdade, estou com essas muletas para melhor te acertar — rebateu Sara, sem hesitar um segundo. — O que quer aqui, Heather?

HK: Vim falar com Grissom.

SS: Na verdade veio infernizar. Porque você sabe muito bem que a essa hora ele está no trabalho.

HK: Vim também pra te dizer que voltei. E te quero longe dele. Você e essa...situação toda.

Sara abriu a boca, mas não precisou responder.

Um barulho de carro chegando parou a conversa. A interrupção de Grissom foi como um balde de água gelada em pleno deserto de Nevada. Ele saiu do carro com a fisionomia fechada.

— Eu quero você longe daqui! — a voz de Grissom veio firme. — Não quero te ver perto de ninguém da minha família, Heather, e muito menos perto de mim. Te quero muito longe!

HK: Grissom, eu já disse que me excedi. Mas foi por amor, você precisa entender...

GG: Chega. Não quero ouvir mais nada. Mantenha distância, por bem ou vou pedir à justiça.

HK: Você não teria coragem?

GG: Me desafie pra ver.

O "me desafie para ver" ecoou pela rua silenciosa, deixando claro que o Grissom que ela conseguia manipular com enigmas intelectuais havia ficado para trás no momento em que a vida de Sara e do bebê foi colocada em risco.

Enquanto Grissom ajudava Sara a entrar no carro com um cuidado redobrado, a perita mal conseguia esconder o sorriso de satisfação.

— "Me desafie para ver"? — sussurrou Sara, assim que ele fechou a porta do passageiro e deu a volta para o banco do motorista. — Gil Grissom, se eu soubesse que você tinha esse lado "xerife implacável" guardado, teria te dado um distintivo de latão há mais tempo.

Grissom suspirou, as mãos apertando o volante enquanto via pelo retrovisor a figura de Heather diminuir na calçada, furiosa.

— Eu só não tenho mais paciência para ela, Sara — ele respondeu, embora o rosto ainda estivesse levemente corado de indignação. — Além disso, ela foi extremamente mal educada em aparecer na nossa casa depois de tudo que fez.

Grissom estava radiante com a consulta, só ficando frustrado por não poder saber o sexo do bebê. De repente o médico resolveu dar uma informação ao "casal".

— Sei que não me perguntaram, mas digo pra vocês que o sexo está liberado, mas com cuidado Grissom.

O silêncio que se instalou na sala de exames foi tão súbito que se podia ouvir o som do gel do ultrassom secando. Grissom congelou com a mão no ar.

Sara, ainda deitada na maca, sentiu o rosto esquentar instantaneamente, atingindo um tom de vermelho que faria qualquer sensor de calor do laboratório disparar um alarme de incêndio.

— Com cuidado, Grissom — o médico repetiu, com aquele tom profissional e descontraído.

— Sim... claro. Compreendo perfeitamente a... hã... — Grissom respondeu.

Sara soltou um riso nervoso, cobrindo o rosto com uma das mãos. — Gil, por favor, não tente explicar a fisiologia disso agora. Apenas... diga "entendido".

— Entendido — ele prontamente obedeceu, parecendo um recruta diante de um general.

Ao saírem do consultório, o corredor parecia ter quilômetros de extensão. Grissom caminhava ao lado de Sara com uma postura tão rígida que parecia ter engolido uma régua de metal.

— "Com cuidado", ele disse — murmurou Sara, quando já estavam no elevador, incapaz de segurar o humor da situação. — Acho que ele notou o jeito que você estava me olhando, "homem inseto".

GG: E como eu estava te olhando Sara?

SS: Com olhar de desejo!!

Grissom finalmente relaxou os ombros e deu aquele sorriso de canto de boca, voltando a olhar para ela com a intensidade que o médico tão bem percebera.

Sara sorriu, puxando a mão dele e entrelaçando os dedos. — Mas confessa: depois de despachar a Heather e ouvir que o bebê está bem, essa foi a recomendação médica mais interessante que você recebeu em anos, não foi?

— Digamos que, é sempre bom saber que os... certas atividades estão autorizadas.

O carro deslizava pelas ruas de Las Vegas sob o sol forte do deserto, mas o clima dentro do veículo era de uma eletricidade enorme. O riso leve de Sara ainda ecoava quando ela se ajeitou no banco do passageiro, lançando um olhar de soslaio para Grissom, que mantinha as mãos firmes no volante.

— Então... — Sara começou, a voz um pouco mais grave, quebrando o silêncio. — Quando o médico disse que as atividades estavam liberadas, o que passou pela sua mente?

Grissom pigarreou, sentindo o colarinho da camisa subitamente apertado. — Bom, o Dr. Miller foi... funcional em sua recomendação.

— Funcional? — Ela arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso brincando nos lábios. — Ele foi explícito. E o jeito que você ficou vermelho na hora... confessa, você já estava pensando nessas atividades antes mesmo de sairmos da sala.

Grissom parou no sinal vermelho e finalmente se permitiu olhar para ela. O humor de Sara estava de volta, mas havia algo mais no brilho dos olhos dela. Uma provocação que ele não sentia há dias, uma tensão que fazia o sangue correr mais rápido.

— Minha mente é treinada para antecipar cenários, você sabe disso — ele respondeu, a voz baixando um tom, tornando-se mais aveludada. — E devo admitir que, após o estresse do Mount Charleston, a ideia de... testar sua recuperação física de forma mais próxima me pareceu um excelente plano de ação.

Sara sentiu um calafrio percorrer a espinha, mas não de medo. Ela esticou a mão e tocou a nuca dele, os dedos brincando levemente com os fios de cabelo grisalhos. — "Com cuidado", Gil. Lembre-se das instruções.

Grissom engoliu em seco, sentindo o toque dela como uma descarga elétrica. O sinal abriu, mas ele demorou um segundo a mais para reagir. — Eu sou um cientista, Sara. A atenção aos detalhes é minha especialidade. Eu sei exatamente onde aplicar a pressão... e onde ser delicado.

O comentário, carregado de um duplo sentido que ele raramente se permitia, fez Sara prender a respiração por um segundo. A tensão sexual que sempre existiu entre eles, muitas vezes mascarada por jargões técnicos e casos criminais, agora estava ali, nua e crua, protegida pelo ambiente seguro do carro.

— É bom saber disso — ela murmurou, voltando a encostar no banco, mas sem tirar os olhos dele. — Porque, depois de tudo o que passamos, eu acho que merecemos um pouco de "ciência aplicada" sem interrupções de assassinos ou dominatrixes.

Grissom deu um sorriso de canto, aquele sorriso que dizia que ele aceitava o desafio. — Considere isso uma prioridade na minha agenda.

Ao entrarem na garagem de casa, o humor e a tensão pareciam ter selado um pacto. Eles ainda tinham feridas para curar e conversas sérias pela frente, mas naquele momento, o desejo que queimava silenciosamente era a prova final de que a conexão entre eles, assim como um bom experimento, era resiliente e impossível de ser ignorada.

— Grissom? — Sara chamou, antes de ele abrir a porta.

— Sim?

— Esquece as muletas. Me carrega.

Ele não precisou ouvir uma segunda vez.

Chegou a noite e supervisor estava de folga. Augusto sugeriu de verem um filme no quarto, o que foi aceito pelos dois.

O som da chuva batendo ritmicamente contra a vidraça do quarto criava um casulo de isolamento perfeito do resto do mundo. Dentro daquele espaço, o brilho da televisão iluminava o rosto de uma família.

Grissom estava encostado na cabeceira da cama, servindo de apoio para Sara. Ele sentia o peso suave dela contra seu peito e o calor que emanava de seu corpo. Ver as trapalhadas de Adam Sandler na tela era o pano de fundo ideal; apenas risadas. Cada vez que Sara soltava uma gargalhada, Grissom sentia uma vibração em seu próprio peito, uma ressonância que valia muito.

Suas mãos, agindo quase por instinto, desceram até a barriga de Sara. Ele começou a fazer carinhos circulares, lentos e cuidadosos, sentindo a curvatura que carregava o futuro deles. Ele esperou um sinal de desconforto, um movimento dela para se afastar ou uma mão retirando a dele, mas nada veio. Pelo contrário, ele sentiu Sara relaxar ainda mais contra ele, soltando um suspiro longo que indicava total entrega àquele momento.

— Você está muito quieto, Gil — ela sussurrou, sem tirar os olhos da TV, mas inclinando a cabeça levemente para sentir o rosto dele perto do seu.

— Estou apenas coletando dados sobre o nível de felicidade deste quarto — ele respondeu perto do ouvido dela, a voz grave misturando-se ao barulho da chuva. — E os resultados são estatisticamente impossíveis de ignorar.

Sara sorriu, fechando os olhos por um segundo. Ela estava adorando aquela versão "participativa" de Grissom. O homem que antes parecia viver apenas no mundo das ideias e dos microscópios agora estava ali, presente, tátil e focado exclusivamente neles.

Augusto já começava a pescar. A cabeça do menino pendia para o lado, e o ritmo da comédia na TV foi perdendo a batalha para o cansaço. A chuva lá fora aumentou, criando uma barreira sonora que convidava ao sono profundo. Sem que percebessem, a luz da TV continuou brilhando sobre três pessoas que finalmente haviam encontrado o caminho de volta para casa.

Beth acordou cedo, como era seu costume. O cheiro de terra molhada vindo do jardim era revigorante. Ela preparou o café e, ao notar o vazio absoluto da casa, subiu as escadas em busca de seus moradores.

Ao abrir a porta do quarto de Sara, ela parou. A cena era uma pintura de redenção. Sara dormia profundamente, abraçada a Augusto como se o protegesse de todo o mal. Atrás dela, Grissom era o guardião; seus braços envolviam Sara e o filho, uma moldura de proteção e amor. O rosto de Gil estava completamente sereno.

Augusto abriu um dos olhos, percebendo a presença da avó. Ele viu Beth na porta, com um sorriso que iluminava o corredor escuro, levando o dedo aos lábios no sinal universal de silêncio:

— Shhh... — ela sinalizou com os olhos brilhando.

O menino, escorregou para fora das cobertas sem acordar os pais. Ele se aproximou de Beth na ponta dos pés, dando uma última olhada para a cama antes de sair.

— Eles parecem felizes, vovó — Augusto sinalizou, assim que fecharam a porta suavemente.

— Eles estão, meu querido. Eles estão finalmente aprendendo a ser uma família de novo.

Lá dentro, alheios ao mundo e à conspiração carinhosa de Beth e Augusto, Grissom e Sara permaneciam entrelaçados.

O quarto, ainda mergulhado na penumbra da manhã chuvosa, tornou-se o cenário de uma urgência que nada tinha de científica. Sara sentia o calor da pele de Grissom contra a sua, e aquele "despertar animado" dele foi o gatilho final para que qualquer barreira de mágoa que ainda restasse fosse incinerada pelo desejo.

Quando ela se virou e selou seus lábios nos dele, o mundo lá fora deixou de existir. Grissom, pego de surpresa pela iniciativa dela, soltou um gemido baixo contra a boca de Sara, entregando-se instantaneamente àquela conexão. O beijo não era apenas uma troca de carinho; era uma conversa profunda e faminta, um pedido de desculpas e uma afirmação de posse, tudo em um só movimento.

As mãos de Grissom, antes tão cautelosas, agora mapeavam as curvas de Sara com uma precisão febril. Ele subiu sobre ela, distribuindo o peso com o cuidado que o médico recomendara, mas a intensidade de seus movimentos traía a sua necessidade. Quando Sara rompeu o contato apenas para puxar a blusa dele, os olhos de Grissom encontraram os dela e oque seu viu foi luxúria e pela adoração.

— Sara... — ele sussurrou, a voz rouca, enquanto se desfazia da peça de roupa com a ajuda dela.

— Não fala nada, Gil — ela respondeu, puxando-o de volta para um beijo ainda mais profundo, suas unhas cravando-se levemente nos ombros largos dele. — Apenas... não para.

Grissom desceu os beijos pelo pescoço dela, sentindo o pulsar acelerado da jugular, enquanto suas mãos encontravam o caminho sob a camisola de seda de Sara. O toque da pele nua foi como um curto-circuito. Ele era o mestre dos detalhes, e cada centímetro de Sara estava sendo estudado com uma devoção que beirava o sagrado.

A respiração dela tornou-se curta, entrecortada, enquanto ela guiava as mãos dele para onde mais desejava. O clima no quarto estava carregado, o oxigênio parecia escasso, e o único som audível era o da chuva persistente e o dos batimentos cardíacos de dois amantes que, após atravessarem o inferno, finalmente se reencontravam no paraíso de seus próprios corpos.

Grissom parou por um segundo, olhando-a nos olhos, a testa encostada na dela. — Com cuidado... — ele murmurou, lembrando-se da recomendação médica com um sorriso pecaminoso.

— Eu confio no seu método, querido — ela provocou, puxando-o para si novamente. — Agora mostre-me o que você...

O quarto estava na penumbra. O mundo lá fora não existia. Tinha sido Sara quem tinha chegado perto primeiro e Grissom que havia respondido sem hesitar. Poucos toques e ela já estava completamente entregue, o primeiro orgasmo chegando antes mesmo que ele percebesse o quanto havia esperado por esse momento.

E então o telefone. Uma vez. Duas. Cinco.

SS: (a voz rouca, a respiração ainda irregular) Gil. Atende.

GG: (grudado no pescoço dela, murmurando contra a pele) Não é importante.

SS: (sorrindo apesar de tudo) Atende.

Ele esticou o braço sem olhar. Pegou. Viva voz por descuido.

GG: Grissom.

E a voz que surgiu era inconfundível.

HK: Grissom... sou eu, Heather. Estou com tanta saudade de você. Por favor, venha até minha casa. Podemos conversar com calma sobre tudo. Me excedi nas ações... mas foi por amor a você.

Os dois pararam simultaneamente. Como se o ar tivesse saído do ambiente.

SS: Não estou acreditando que essa mulher está ligando pra você.

HK: É a Sara? O que você está fazendo com ela, Grissom?

Sara saiu da cama. Pegou o roupão do chão. Foi em direção ao banheiro sem dizer uma palavra.

A porta não bateu. Fechou com cuidado.

O que era pior.

Grissom ficou sentado na beirada da cama. Olhou para o telefone. Respirou fundo pelo nariz.

GG: Sara está onde deve estar. Que é comigo. Porque é minha esposa. E quero que entenda de uma vez por todas, ela é a mulher da minha vida. A mulher que amo. A mãe dos meus filhos.

HK: Seus filhos, Grissom? Esqueceu? Você é estéril, então a criança que ela carrega...

GG: Isso foi mais uma das suas muitas e inescrupulosas tramoias. Fiz novo exame. O primeiro estava errado. A criança de Sara é minha. Adeus. E até nunca mais.

Desligou.

O clima de romance, que segundos antes parecia uma cena de filme, foi subitamente atropelado pela realidade ácida que atendia pelo nome de Lady Heather. Grissom sentiu o sangue ferver não mais de desejo, mas de uma indignação pura ao ouvir a voz da ruiva saindo pelo alto-falante. O impacto do "balde de água fria" foi tão grande que o silêncio que se seguiu à saída de Sara foi quase ensurdecedor, quebrado apenas pela voz insistente de Heather do outro lado da linha.

A resposta de Grissom foi um tiro de misericórdia nas ilusões da Dominatrix. Ele não apenas reafirmou seu amor por Sara, como destruiu a última mentira que Heather tentava sustentar. Ao desligar o telefone, ele não sentia vitória, apenas um desejo urgente de recuperar o que aquela ligação quase destruiu.

Ele caminhou até a porta do banheiro, encostando a testa na madeira fria, ouvindo o som da água e tentando controlar a própria respiração.

— Amor, me escuta, por favor! — ele pediu, a voz transbordando sinceridade. — Eu não tenho, não quero, não pretendo ter nada com ela. Eu amo você! Vamos voltar para a cama... estávamos tão bem.

Dentro do box, a risada de Sara ecoou por cima do barulho do chuveiro. Era uma risada de quem reconhecia o tom manhoso e quase desesperado do marido, um lado dele que pouquíssimas pessoas no mundo, talvez só ela, conheciam.

— Gil Grissom, você é impossível — Sara disse, desligando o registro da água. — Você despacha a "Rainha do Deserto" e vem fazer manha na porta do banheiro?

Ela abriu a porta, envolta em uma toalha branca, com o vapor do banho deixando sua pele viçosa e os cabelos molhados. Ela olhou para ele, que ainda parecia um pouco transtornado pela raiva da ligação.

— Ela tentou usar a infertilidade contra você de novo — Sara comentou, aproximando-se e colocando as mãos nos ombros nus dele. — Mas você deu o xeque-mate. "Até nunca mais" foi a minha parte favorita.

— Eu não podia deixar aquela mentira no ar nem mais um segundo — ele murmurou, envolvendo a cintura dela. — Mas agora o que eu realmente quero é retomar o nosso "experimento" de onde fomos interrompidos. Se o supervisor permitir, é claro.

Sara sorriu, puxando-o para um beijo rápido, mas carregado de promessas.

— O supervisor está de folga, lembra? — ela sussurrou contra os lábios dele. — Mas a esposa dele está muito interessada em ver se você ainda lembra como aplicar aquela "atenção aos detalhes" que você mencionou no carro.

Grissom não precisou de mais nenhum incentivo. Ele a pegou no colo mais uma vez, para deleite de Sara e a levou de volta para o calor das cobertas. Dentro daquele quarto, o fogo que Heather tentou apagar apenas ardia com mais força, selando de vez o destino dos Grissom.