NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
9 A Janela dos Fundos
A sala de espera havia ficado para trás havia tempo.
Sara estava de pé no corredor quando Grissom e Brass chegaram.
Brass foi direto.
Mary havia sido encontrada na cabana. O que precisava ser dito foi dito com a objetividade cuidadosa que os dois haviam aprendido a usar para notícias que não tinham forma de ser suavizadas o suficiente.
Sara ouviu em silêncio.
Ficou assim por um momento depois que Brass terminou, olhando para o chão do corredor com aquela expressão de quem está processando a informação e ao mesmo tempo mantendo uma parede no lugar porque ainda não é hora, ainda tem coisas a fazer, ainda tem um menino no quarto ao fundo que precisa que ela esteja inteira.
— Precisamos saber como Augusto foi parar sozinho naquele quarto de hotel. — A voz saiu firme, direta, sem tremor. — Alguém está trabalhando nisso?
— Greg, Nick e Sophia estão nisso agora. — Grissom se aproximou um passo. — Vão puxar o máximo que conseguirem antes de voltarmos.
— Essa carta — ele pausou — estava no bolso da Mary.
Sara olhou para o envelope.
Ficou olhando por um momento com uma expressão que não era fácil de catalogar havia algo ali que era antecipação e medo e cuidado ao mesmo tempo.
— Vou abrir quando voltarmos para Vegas. — Ela o guardou com cuidado na bolsa, como se precisasse de mais tempo antes de estar pronta para o que havia dentro. — Quando estiver com mais... condições.
Ninguém questionou.
— Uma representante do Conselho Tutelar veio aqui enquanto vocês estavam fora.
— Sara continuou, o tom voltando ao prático. — Informei que vou levar Augusto para minha casa. Ela negou inicialmente.
— Como resolveu? — Brass ergueu uma sobrancelha.
— Conhecia o rapaz que trabalha com ela. Jack Wilson estudou comigo em São Francisco. — O menor sinal de algo que não era bem um sorriso apareceu por um segundo. — Ele conseguiu que Augusto fique comigo por 48 horas.
— E depois dessas 48 horas, Sara? — Brass perguntou com a gentileza direta de quem precisa que a pergunta seja feita mesmo que a resposta ainda não exista.
Ela ficou em silêncio por um momento.
— Me apeguei demais a ele. — A admissão saiu baixa, sem desculpa, sem drama, apenas honesta. — Vou ler a carta da Mary primeiro antes de tomar qualquer decisão. — Ela ergueu os olhos para os dois. — Uma coisa de cada vez.
— Certo. — Brass assentiu, sem pressionar.
— Sara. — Grissom esperou ela olhar para ele. — Se precisar de ajuda com qualquer coisa... estou à disposição.
Ela o olhou por um momento com aquela expressão que havia ficado fechada desde o apartamento e que, naquele corredor de hospital em Reno, tinha uma fresta de algo diferente.
— Obrigada, Grissom.
Uma pausa pequena.
— Vamos voltar? Augusto já está liberado.
— Quero vê-lo.
O quarto estava com a televisão ligada num volume baixo e Augusto sentado na cama de pijama do hospital, os cabelos bagunçados, com uma bandagem no braço onde havia sido o acesso e aquele olhar de criança que ficou num lugar desconhecido e está tentando processar sem ter vocabulário adulto suficiente para isso.
Quando a porta se abriu e ele viu quem entrava, o rosto mudou inteiramente.
O sorriso chegou antes de qualquer palavra, largo, genuíno, do tipo que Augusto tinha e que não sabia fazer pela metade.
— Tio Grissom!! — Ele abriu os braços da cama com a energia de quem claramente havia sido instruído a não pular mas estava fazendo o máximo possível dentro dos limites. — Você veio me ver!!
— Oi, amigão. — Grissom chegou até a cama e ficou na altura do menino com aquele gesto que havia se tornado natural, a mão indo para o cabelo bagunçado com um cuidado que não precisava de explicação. — Na verdade vim te buscar.
Augusto piscou.
— Buscar pra onde?
— Pra Vegas. — Grissom se levantou. — Vamos voltar no carro do tio Brass.
Os olhos de Augusto foram imediatamente para o capitão, que estava parado perto da porta com a expressão de quem estava se preparando para o que vinha a seguir.
— Tio Brass. — A voz tinha aquela urgência de ideia importante. — Você liga a sirene um pouquinho no caminho??
Brass ficou em silêncio por exatamente um segundo.
— Ligo sim. — Disse, com a solenidade de quem está fazendo uma concessão oficial. — Vamos lá?
— VAMOS!!
Augusto escorregou da cama com a agilidade de criança que se recupera mais rápido do que qualquer adulto nas mesmas circunstâncias, pegou a mochila que Sara havia buscado no hotel horas antes e foi em direção à porta com Brass, já perguntando sobre a sirene com detalhes técnicos que o capitão claramente não havia antecipado.
A porta fechou.
O quarto ficou mais silencioso.
Sara ainda estava com os papéis das recomendações médicas na mão, terminando de dobrar, quando sentiu a presença de Grissom parado ao seu lado.
— Está tudo bem? — A voz era baixa, só para ela.
— Ele pediu para ficar monitorando. — Ela dobrou o último papel e o colocou na bolsa ao lado da carta. — Se perceber sonolência excessiva, leva de volta ao médico imediatamente.
— Entendido. — Grissom esperou ela fechar a bolsa. — Vamos então.
Ela assentiu.
Foram em direção à saída e no corredor, o som da voz de Augusto chegava lá do elevador, ainda discutindo com Brass os detalhes técnicos da sirene com uma persistência científica que claramente não havia sido afetada pelo sedativo.
Sara ouviu e algo no peito afrouxou só um pouco, só o suficiente.
Uma coisa de cada vez.
A viagem de volta foi diferente da de ida.
Na ida havia urgência, silêncio tenso e o peso do desconhecido.
Na volta havia Augusto no banco de trás fazendo perguntas sobre a sirene que Brass havia ligado por exatamente quarenta e cinco segundos, tempo suficiente para o menino ficar satisfeito e para Brass estabelecer que havia sido uma concessão única e não um precedente.
— Mas por que só quarenta e cinco segundos?
— Porque é o suficiente.
— Quem determinou que quarenta e cinco segundos é o suficiente?
— Eu. Que sou o capitão.
— Mas o senhor poderia ter ligado por um minuto e..
— Augusto.
— Estou só perguntando.
Sara estava no banco do passageiro com a cabeça levemente inclinada para o vidro, escondendo o sorriso.
Grissom, no banco de trás ao lado de Augusto, estava com a expressão de quem está fingindo ler uma mensagem no celular mas está ouvindo cada segundo da negociação com uma satisfação considerável.
A parada no mercado havia sido ideia prática, a casa de Sara estava com a geladeira no estado de quem trabalha em turno noturno e não tem dependentes, o que significava condimentos, café e algumas incertezas proteicas.
O que não havia sido planejado era o que aconteceu dentro do mercado.
Augusto havia pegado um carrinho o tamanho adulto, que ele empurrava com as duas mãos e uma concentração que sugeria que havia assumido responsabilidade logística da expedição e seguia Sara pelo corredor de cereais com a seriedade de um assistente de compras muito pequeno e muito opinativo.
— Esse não, tia Sara. Esse aqui tem mais fibra.
— Augusto, eu compro esse há anos.
— Mas esse é melhor. Olha a tabela nutricional.
Sara olhou para Grissom.
Grissom olhou para a caixa de cereal.
— Ele tem razão sobre a fibra.
Sara os olhou de um para o outro.
— Vocês dois combinaram isso.
— Não combinamos nada. — Augusto empurrou o carrinho com dignidade. — É só ciência, tia Sara.
Grissom tossiu discretamente.
Brass, que havia entrado no mercado com a intenção de pegar água e havia acabado seguindo o grupo pelo corredor sem razão objetiva, parou perto da gôndola de biscoitos e ficou observando.
Grissom estava dois passos atrás de Sara e Augusto com aquela postura relaxada de quem está exatamente onde quer estar, sem a armadura do laboratório, sem o paletó, com uma expressão que Brass havia visto poucas vezes em décadas de amizade.
O menino puxou a manga de Grissom para mostrar algo na prateleira de cima.
Grissom se abaixou para ver, explicou alguma coisa com gestos, e Augusto balançou a cabeça com a seriedade de quem está absorvendo informação importante.
Sara olhou para os dois por cima do ombro com um sorriso que não havia planejado ter.
Brass ficou parado com a garrafa d'água na mão.
Quem os visse.
E havia gente vendo: uma senhora que passou com o carrinho e sorriu para o grupo com aquele sorriso específico que as pessoas têm quando veem uma família sendo família em corredor de mercado. Uma criança que puxou a mãe pelo braço e apontou para Augusto empurrando o carrinho como se fosse o dono do estabelecimento.
Brass colocou a garrafa no carrinho deles sem que ninguém pedisse.
— Adicionei água. — Disse, e foi.
Grissom havia assumido a cozinha com a naturalidade de quem encontra um laboratório familiar e sabe exatamente o que fazer nele.
Augusto estava na sala com o caderno de anotações aberto no sofá — já em modo cientista, já registrando observações do dia com a letra aplicada que usava quando estava sendo sério — e Sara estava encostada na parede da cozinha observando Grissom mover-se entre a cafeteira e a bancada com aquele jeito dele de cozinhar que era concentrado e tranquilo ao mesmo tempo.
A casa cheirava a café.
Havia compras organizadas na bancada.
Havia um menino de sete anos no sofá escrevendo sobre sirenes de viatura e a tabela nutricional de cereais como se fossem igualmente importantes para a ciência.
Brass ficou na porta da cozinha por um momento.
Olhou para Grissom.
Olhou para Sara.
Olhou para Augusto no sofá.
Olhou de volta para Grissom.
— Sabe o que é, gente — ele disse, com aquela voz de quem está prestes a dizer algo óbvio que todos estão fingindo não saber — estou exausto. — Um bocejo que tinha mais performance do que necessidade. — Acho que vou indo descansar. Turno logo mais.
— Brass, o café está quase pronto. — Grissom não virou da cafeteira.
— Obrigado, mas... — o capitão já estava recuando em direção à porta com a habilidade de quem está saindo de cena há décadas. — Vocês três fiquem à vontade. Precisam de um tempo tranquilo depois de tudo isso.
Sara abriu a boca.
— Brass—
— Bom descanso, Sara. — Ele a olhou com aquele olhar que tinha eu sei exatamente o que estou fazendo escrito nele. — Tchau Gil!!!. — Uma pausa. — Tchau Guto!!
— Boa noite, tio Brass!! — Augusto acenou do sofá sem levantar os olhos do caderno.
A porta se fechou.
Brass desceu as escadas com o passo leve de quem acabou de fazer uma coisa boa e sabe disso.
Chegou ao carro, abriu, entrou.
Ficou sentado por um momento com as chaves na mão olhando para o prédio, para a janela iluminada do apartamento de Sara no andar de cima.
Pensou no mercado. No corredor de cereais. Na senhora que havia sorrido. No jeito que Grissom havia se abaixado para explicar algo para Augusto com aquela paciência que não era de supervisor.
No jeito que Sara havia olhado para os dois por cima do ombro.
Brass soltou um ar lento.
— Pelo jeito — ele disse, para o carro vazio, com o sorriso discreto de quem chegou numa conclusão que estava esperando há tempo — meu amigo Grissom quer mesmo formar uma família com Sara e Augusto.
Ficou assim por um segundo.
— Demorou, Gil. — Murmurou. — Demorou muito.
Girou a chave na ignição e partiu!!
Na cozinha da casa...
Sara e Grissom se entreolharam.
O olhar durou menos de um segundo, mas era o tipo de olhar que continha uma conversa inteira. Agora. Enquanto ele está calmo. Enquanto ainda há espaço para isso.
Grissom assentiu levemente.
Sara pegou as duas xícaras de café e foi para a sala.
— Augusto. — A voz saiu suave, com aquele tom que ele reconheceria não era o tom de tia Sara chegando com novidade boa.
Ele levantou os olhos do livro.
Olhou para ela.
Olhou para Grissom que havia chegado atrás, sem xícara, com as mãos no bolso.
Fechou o livro devagar.
— É sobre a mamãe. — Ele disse.
Não foi pergunta.
Sara ficou parada por um segundo e havia algo naqueles olhos pequenos e sérios que a desarmou antes que ela pudesse preparar qualquer coisa.
— Pode sentar aqui com a gente? — Ela se sentou no sofá, deixando espaço.
Augusto colocou o livro na mesa de centro com um cuidado que não era de criança manuseando livro era de criança preparando o próprio espaço para receber algo pesado. Veio para o sofá. Sentou entre os dois com aquela postura pequena e ereta de quem decidiu que vai ouvir de verdade.
Grissom se sentou ao lado dele.
Sara respirou fundo.
— Augusto, você sabe que nós te amamos muito. — Ela começou, com a voz no tom mais gentil que tinha. — E justamente por isso não vamos te contar mentiras ou meias verdades. Você merece saber o que aconteceu.
O menino ficou olhando para as próprias mãos no colo.
— A mamãe não vai vir me buscar. — A voz saiu pequena, mas não estava tremendo. Era uma constatação do tipo que dói exatamente porque já havia sido elaborada internamente antes de ser dita em voz alta.
Sara sentiu algo apertar com força no peito.
— Não, meu amor. — A voz saiu firme porque precisava ser. — A mamãe não vai poder vir.
Silêncio.
Augusto ficou olhando para as mãos por um momento.
— Eu sabia. — Ele disse, ainda baixo. — Quando o moço entrou no quarto do hotel e eu pedi pra chamar você... — ele pausou — ...eu sabia que alguma coisa tinha acontecido. Porque a mamãe nunca me deixaria num quarto de hotel sozinho. — Uma pausa menor. — Nunca.
A última palavra ficou no ar com o peso de uma certeza que uma criança de sete anos não deveria ter que carregar.
Grissom colocou a mão no ombro do menino — devagar, sem pressão, só presença.
Augusto não se afastou.
— A mamãe estava com o papai quando aconteceu? — Ele ergueu os olhos para Sara.
— Estava. — Sara não desviou o olhar. Ele merecia o olhar direto.
— E o papai?
Uma pausa.
— Ainda estamos procurando ele. — Grissom respondeu, com aquela honestidade cuidadosa de quem não mente para crianças mas também não despeja tudo de uma vez.
Augusto processou.
— O papai foi embora me deixando no hotel. — Não era pergunta também. — O moço que entrou no quarto falou para o chefe dele, em espanhol, que como um pai abandona o filho assim. — Ele olhou para Grissom. — Eu entendi. Aprendi espanhol no ano passado.
Grissom ficou imóvel por um segundo.
Sara fechou os olhos brevemente.
Sete anos. Sete anos e já carregou isso o tempo todo.
— Augusto. — Sara colocou o braço ao redor dos ombros dele com cuidado, e ele não resistiu — deixou, com aquela naturalidade de criança que ainda aceita colo quando o colo vem da pessoa certa. — O que o seu pai fez não tem nada a ver com você. Absolutamente nada. — Ela o olhou. — Você entende isso?
Ele ficou em silêncio.
Depois:
— A mamãe me amava de verdade. — A voz estava mais pequena agora, mas havia algo sólido por baixo.
— Vamos comer? — Grissom anunciou da cozinha com aquele tom que não era bem pergunta.
Augusto fechou o livro de física quântica com a velocidade de criança que estava esperando exatamente isso.
A mesa estava simples — ovos, pão, manteiga, o que o mercado havia fornecido e o que Grissom havia transformado em algo que cheirava muito melhor do que os ingredientes individuais sugeriam.
Augusto sentou, olhou para o prato, pegou o garfo.
E não parou mais.
— Tio Grissom. — A voz saiu entre uma mordida e outra, com a solenidade de avaliação séria. — Está muito bom esse ovo. O pão. Tudo, tudo.
— Você estava com fome, hein. — Sara olhou para ele com um sorriso que não tinha como segurar.
— Muita fome, tia. — Ele levantou o garfo para enfatizar. — Muita mesmo.
— Fico feliz que gostou, Augusto. — Grissom tomou um gole de café com aquela satisfação discreta de quem cozinhou e foi bem recebido. — Ahh — ele pausou, casual demais para ser completamente casual — se você quiser, pode me chamar de Gil.
Augusto parou de mastigar por um segundo.
Processou.
— Tá bom, tio Gil. — Voltou ao ovo como se a questão estivesse resolvida, o que estava.
Sara olhou para Grissom por cima da xícara.
Ele não devolveu o olhar imediatamente, mas o canto da boca traiu o suficiente.
O jantar terminou com Augusto na fase final de um pedaço de pão com manteiga que ele havia solicitado com a mesma seriedade com que havia avaliado cereais no mercado, os olhos já pesados de um cansaço que havia esperado educadamente até a comida acabar para se fazer presente.
— Tia Sara. — Ele pousou o pão com o ar de quem tomou uma decisão importante. — Estou cansado. Posso deitar um pouquinho?
— Pode sim, meu amor. — Ela já estava se levantando. — Vem.
— Griss, já volto. — Ela disse por cima do ombro.
— Pode ir. — Ele acenou levemente com a cabeça.
O quarto que Sara havia improvisado para Augusto era o seu próprio — ela havia decidido isso enquanto arrumava, sem fazer anúncio, com a naturalidade de quem não vê outra opção razoável. A cama era grande o suficiente, o travesseiro estava no lugar certo e a mochila com o caderno de anotações e o microscópio pequeno estava no chão ao lado como sentinela.
Augusto deitou com a cooperação imediata de quem estava no limite.
Sara puxou o cobertor até os ombros dele.
— Tia Sara. — A voz já estava arrastada, a meio caminho do sono.
— Hm?
— O tio Gil é bom cozinheiro.
— É. — Ela ajeitou o travesseiro levemente. — É bom em muitas coisas.
— Você gosta dele.
Sara ficou parada por um segundo.
— Dorme, Augusto.
— Já estou dormindo. — Ele fechou os olhos. — Mas você gosta.
Ela ficou olhando para ele por um momento com o rosto já relaxando para o sono, a respiração ficando mais lenta, aquela expressão específica de criança que finalmente baixou a guarda completamente.
Apagou a luz de cabeceira.
Ficou mais um segundo na porta.
E voltou para a sala.
A cozinha estava quase em ordem quando ela chegou.
Grissom estava de costas para ela, terminando a louça, cada coisa lavada com atenção, cada peça posta para secar no lugar certo, como se a cozinha de Sara fosse tão familiar quanto a dele.
— Não precisava, Griss. — Ela se apoiou na soleira, os braços cruzados, com um tom que tinha mais carinho do que repreensão. — Você já havia feito o café. E o jantar.
— Que isso, Sara. — Ele não se virou imediatamente, terminando o último copo antes de secar as mãos. — Não foi nada.
Então se virou.
E ficaram assim por um momento, ele com o pano de prato na mão, ela na soleira da cozinha, a casa quieta ao redor dos dois com o silêncio específico de quando uma criança dorme e os adultos ficam com o espaço e não sabem completamente o que fazer com ele.
A louça estava lavada.
O café havia sido feito.
O jantar havia alimentado um menino de sete anos que havia chamado Grissom de tio Gil com a naturalidade de quem não havia combinado nada com ninguém.
Havia muita coisa ainda por dizer.
Mas naquele momento específico — naquela cozinha, naquele silêncio — nenhum dos dois pareceu com pressa de ir a lugar nenhum.
— Obrigada. — Sara disse, por fim. — Por tudo hoje.
Grissom dobrou o pano de prato e o pousou na bancada.
— Não foi nada. — Repetiu.
Mas desta vez os dois sabiam que era mentira.
E nenhum dos dois contestou.
— Vem cá. — Grissom gesticulou em direção ao sofá com aquela autoridade tranquila que ele usava quando havia decidido algo e não estava aceitando contestação. — Senta um pouco. Você também está cansada.
Sara abriu a boca para dizer que estava bem.
Fechou.
Porque estava cansada. E o sofá estava ali. E Grissom tinha aquela expressão que tornava a resistência um esforço desnecessário.
Ela foi.
Sentou.
E antes que pudesse se orientar completamente, ele havia se posicionado atrás dela no sofá e as mãos haviam encontrado os ombros com uma pressão que era exatamente — exatamente — onde o cansaço havia decidido morar nas últimas horas.
Sara fechou os olhos involuntariamente.
Ficou assim por um momento, deixando.
— Além de cozinheiro é massagista? — A voz saiu com aquela leveza de quem está relaxando mas não vai admitir completamente. — Essa faceta sua eu não sabia.
As mãos continuaram o trabalho com a atenção de quem está fazendo algo com cuidado.
— Tenho algumas. — Grissom respondeu, simples.
— Nossa. — Ela deixou a cabeça inclinar levemente para frente. — Você é bom. — Uma pausa calculada. — Tenho certeza que a Heather deve gostar.
As mãos pausaram por exatamente meio segundo.
Depois continuaram.
— Se você me deixar — a voz chegou baixa, próxima, com aquele tom que havia estreado no vestiário e claramente havia decidido ficar — te mostro outras facetas. Tudo que sei fazer. — Uma pausa deliberada. — Mas somente para você. Não tenho nada para mostrar pra Heather.
Sara ficou quieta por um momento.
— Está tentando me enrolar de novo, Gilbert Grissom. — A voz saiu com mais firmeza do que o estado de relaxamento permitia completamente. — Desista.
— Não estou tentando te enrolar. — As mãos subiram levemente, encontrando a tensão que havia sobrado na base do pescoço com uma precisão que era quase irritante. — Quero me juntar a você. — Uma pausa que tinha peso. — E ficar pro resto da vida ao seu lado.
O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade diferente de todos os outros do dia.
Sara ficou completamente imóvel.
As mãos de Grissom continuaram mais suaves agora, menos massagem e mais presença e havia algo no ar da sala que estava mudando de composição de um jeito que a química conseguiria medir, mas as palavras não dariam conta completamente.
Ela abriu a boca.
Diiim. Dom.
A campainha.
Grissom soltou um ar longo e controlado pelo nariz, do tipo que contém uma série de coisas que é melhor não dizer em voz alta.
— De verdade. — A voz saiu baixíssima, com uma resignação que tinha humor nas bordas mas estava genuinamente chegando no limite. — Estou começando a ter trauma de campainha.
Sara deixou escapar uma risada — pequena, involuntária, do tipo que aparece quando o corpo decide que rir é a única resposta razoável para a situação.
— Vou lá atender. — Ela se levantou, ajeitou o cabelo com aquela compostura de quem está recuperando o controle da própria expressão facial. — Não vá a lugar nenhum.
— Não tenho a menor intenção. — Ele disse, para as costas dela.
Sara caminhou em direção à porta com passos que eram um pouco mais rápidos do que o necessário porque havia uma resposta se formando lá dentro, para o resto da vida ao seu lado, e ela precisava de exatamente o tempo do trajeto até a porta para decidir se estava pronta para deixá-la existir em voz alta.
Abriu.
E ficou parada.
Do outro lado estava alguém que ela não esperava ver ali, naquela hora, naquele dia, depois de tudo que havia acontecido.
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