NOS BRAÇOS DO ALFA

7 Capítulo 6 – Entre o Cheiro da Saudade e o Abraço do Destino


A biblioteca estava silenciosa.

Livros alinhados. Café feito. Sol filtrando pelas janelas. E Sofia, completamente entediada.

Sentada atrás do balcão, ela girava uma caneta entre os dedos e olhava para o relógio pela milésima vez.

Onde você se enfiou, Dimitri?

Já fazia uma semana que o Alfa havia saído numa missão com Jonathan, Richard e parte dos guerreiros. Ninguém sabia os detalhes, apenas que era uma situação importante envolvendo um território vizinho.

E Sofia... sentia falta.

Não só das broncas veladas. Do jeito rabugento dele ajeitando o gorro dela. Do olhar atravessado quando ela ria alto demais.

Mas do cheiro dele. Da presença dele.

Do lado oposto da sala, Daisy suspirou alto, o que arrancou um olhar solidário de Sofia.

— Você também está um zumbi emocional, né?

— Se Jonathan demorar mais dois dias, eu vou invadir o acampamento e arrastar ele pelos fundilhos da calça — disse Daisy, com um olhar sério.

— Seria icônico.

— Eu levaria você como escudo.

— Sou pequena, mas sou rápida.

As duas riram.

Mas, por dentro, sabiam que o vazio era real.

Ao final do expediente, Sofia decidiu ir pra casa a pé. O vento era frio, mas a caminhada podia ajudar a organizar os pensamentos — ou pelo menos fingir que não estava completamente apaixonada por um Alfa cabeça-dura.

Mas então... Ela ouviu.

Vozes. Risadas. Passos firmes. O som de botas táticas e de amigos reencontrando amigos.

Ela parou. E virou na direção do portão da cidade.

Ali estavam eles.

Dimitri. Jonathan. Richard.

Todos de volta.

Dimitri vestia a roupa tática escura, mangas arregaçadas, cabelo levemente bagunçado, e um leve sorriso convencido nos lábios. Estava de braços cruzados enquanto ouvia Richard contar algo alto demais.

Mas então... ele a viu. E parou de sorrir.

Os olhos azuis dele encontraram os verdes dela.

E naquele momento, não havia mais ninguém.

Sofia correu.

Sem pensar.

Sem ligar pros olhares.

Sem medo.

E, no meio da calçada, na frente de todos os guerreiros, ela o abraçou.

Com força.

Com carinho.

Com saudade.

Encostou o rosto no peito dele, inalando o cheiro dele como se aquilo fosse ar puro depois de dias sufocada. E sussurrou no ouvido dele:

— Senti sua falta.

Foi uma frase simples. Mas quebrou uma das últimas muralhas de Dimitri.

Ele a abraçou de volta.

Fechou os olhos.

Afundou o rosto nos cabelos dela.

E permitiu que Logan rugisse de alívio por dentro.

"O cheiro dela. O cheiro que me faltava. Estamos em casa agora."

A voz dos guerreiros voltou como um eco distante.

— UOU! — disse Richard, alto — E eu achando que era a pessoa favorita dela. Que traição, baixinha!

Sofia riu, ainda abraçada ao Alfa.

Dimitri não riu. Ele apenas rosnou, baixo, possessivo.

O suficiente pra todos entenderem.

Ela era dele.

E ninguém mais tocava nela daquele jeito.

Sem uma palavra, ele pegou Sofia pela mão e a levou com ele.

— Pra onde estamos indo? — ela perguntou, tentando esconder o sorriso.

— Pra casa.

— Mas eu tenho uma.

— Agora você tem duas.

~*~

A casa de Dimitri parecia ainda mais silenciosa do que o normal naquela noite.

Ele abriu a porta e, sem soltar a mão de Sofia, guiou-a com calma até a sala. O cheiro da floresta ainda grudava nas roupas dele, mas havia também o cheiro dela agora. Um misto que o deixava… em paz.

Sofia se sentou no sofá, observando enquanto ele retirava a jaqueta tática.

— Foi difícil? — ela perguntou.

— Foi intenso. Território vizinho, tentativa de invasão. Lidamos rápido. Jonathan quase perdeu a paciência com um elfo boca aberta.

Sofia riu, inclinando a cabeça.

— Aposto que foi Richard quem resolveu com diplomacia.

— Richard tentou resolver com uma pedra. Diplomacia pra ele é força bruta com um sorriso.

— E você?

Dimitri a olhou.

— Eu... observei. Esperei. E usei o medo natural que eles já têm de mim.

— Inteligente. Estratégico. Intimidante. Um combo e tanto.

Dimitri ergueu uma sobrancelha.

— Está me analisando?

— Estou te elogiando. Mas se preferir, posso continuar chamando de esquisito e rabugento.

Dimitri sorriu. De verdade.

Ela me faz sorrir sem forçar nada. Ela apenas… é.

Mas antes que ele pudesse responder, Sofia se levantou.

— Você está cansado. Vai tomar um banho, tá com cara de quem lutou contra uma parede. Eu vou preparar o jantar.

— Ah, vai invadir minha cozinha agora?

— Você que disse que eu tenho duas casas. Tarde demais pra reclamar.

Ele soltou uma risada baixa, aquela que ela aprendeu a amar em segredo, e sumiu no corredor obedecendo — sim, obedecendo — sua pequena.

Na cozinha, Sofia separava os ingredientes com o sorriso bobo no rosto.

Tomate, massa, queijo… Ela não estava só cozinhando. Estava cuidando dele. Da forma como sabia fazer.

Quando ele voltou, já com roupas casuais — uma camisa de algodão escura e calça de moletom —, ela quase deixou a colher cair.

— Você... fica bonito em qualquer roupa. Mas a roupa tática tem um... charme extra.

Dimitri ergueu a sobrancelha, divertido.

Sofia corou violentamente.

— Digo... enfim! O jantar! Está quase pronto! Que fome, né?

Ele se aproximou devagar, sorrindo como quem sabe exatamente o efeito que causava.

— Pensamentos nada puros esses seus, hein?

— C-cala a boca, Dimitri.

Ele riu e a abraçou por trás, encostando o queixo no ombro dela.

"Beija ela."

Logan...

"Ela tá derretida. Você tá derretido. Eu vou morrer se não encostar nessa boca hoje."

CALADO.

Sofia, percebendo a mudança nos olhos dele — aquele azul mais profundo, quase brilhante — virou-se devagar, a testa ainda corada.

— Dimitri… posso te perguntar uma coisa?

— Sempre.

— Por que os olhos mudam?

Ele hesitou, mas respondeu:

— Quando o lobo se aproxima da superfície. Quando sentimos algo forte. Emoção, raiva, desejo… ou o vínculo.

— E a primeira transformação? Como foi?

— Aos dez. Sozinho. Dolorido. Mas libertador. Selene disse que era o destino me chamando cedo demais.

Sofia o observava com atenção. Os olhos suaves. Quase reverentes.

— E o vínculo? Quando começa?

— Às vezes, aos 18. Outras, só quando o corpo e o lobo encontram o destino. Ele reconhece. A alma... reage.

Sofia mordeu o lábio, baixando os olhos.

— E... você acha que... consegue se abrir? Deixar alguém entrar? Cuidar de você?

Dimitri congelou.

A pergunta era baixa. Mas atingiu direto as paredes que ele construiu por anos.

Ela levantou o olhar.

— Porque... se você quiser, eu quero estar aqui. Não pra consertar. Mas pra estar. Pra cuidar das suas feridas — se você me deixar.

Dimitri não respondeu por um instante.

Logan segurou o fôlego.

E então, ele encostou a testa na dela e sussurrou:

— Eu tô com tanto medo de deixar... Mas com mais medo ainda de não ter você perto.