NOS BRAÇOS DO ALFA
16 Capítulo 15 – Veneno e Vigilância
O dia estava ensolarado, o que em Yakutsk era raro o bastante para levantar até o humor dos mais ranzinzas — ou seja, até Dimitri esboçou um sorrisinho ao sair para a ronda matinal. Sofia, em casa, havia recebido uma notificação: “Encomenda entregue na porta”.
— Ué, eu nem pedi nada… — murmurou, franzindo o cenho.
Curiosa como sempre, desceu os três degraus da varanda e encontrou uma caixa marrom, sem identificação. Pequena, leve… silenciosa.
Ela a carregou até a cozinha e, com uma faca, cortou cuidadosamente a fita. Ao levantar a tampa…
— AAAAAH!
O grito foi estridente. Uma cobra preta e venenosa, com olhos brilhantes e língua bifurcada, deu um bote rápido, errando por milímetros.
Sofia jogou a caixa longe e, com o instinto de uma sobrevivente que odiava absolutamente cobras, subiu na mesa da cozinha com uma agilidade que deixaria qualquer atleta impressionado.
— DIMITRIIII! — ela gritou, os olhos arregalados e o corpo tremendo.
Em segundos, a porta foi aberta com violência e lá estava ele, arma na mão, olhar em chamas.
Ele avistou a cobra deslizando em direção à mesa e não pensou duas vezes. Com um movimento certeiro e brutal, ele a esmagou com a bota.
Logan rosnou alto, furioso:
“Isso não foi acaso. Isso foi aviso.”
Sofia, ainda sobre a mesa, tremia dos pés à cabeça. As lágrimas começaram a cair quando ela tentou falar, mas a respiração estava acelerada demais, presa na garganta.
Dimitri correu até ela e subiu também na mesa, segurando seu rosto com ambas as mãos.
— Ei, olha pra mim. Estou aqui. Você está segura. Respira comigo, pequena… assim, isso… inspira… isso. Agora solta. Isso… — sua voz era baixa, firme, mas carregada de preocupação.
Ela agarrou a camisa dele com força, como se ele fosse seu único porto seguro. E naquele momento… era.
— Eu odeio cobras… odeio, odeio! — sussurrou ela, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Eu vou encontrar quem fez isso. — ele disse, mais para si mesmo que para ela — E quando encontrar, essa pessoa vai implorar pra ter mexido com qualquer um, menos com você.
Uma semana depois...
Sofia saía de casa para trabalhar na biblioteca. Estava mais atenta que o normal, mas fingia certa normalidade. O susto da cobra ainda ecoava em sua mente, e ela revia a cena toda noite antes de dormir.
Mas havia algo novo: dois guerreiros discretos, sempre caminhando a uma distância segura, mas visível o suficiente para ela notar. Todos os dias.
— Estão me seguindo. — murmurou para si, mordendo o lábio. — Ou… me protegendo?
Daisy estava sentada na recepção da biblioteca naquele dia. Estava diferente. Mais rígida. Mais alerta. E com os olhos que pareciam varrer cada canto do ambiente.
— Está tudo bem? — Sofia perguntou, se aproximando.
— Tudo sob controle. — Daisy respondeu, o sorriso suave não disfarçando os olhos em modo caça ativado. — Só garantindo que nada rastejante ou sorrateiro se aproxime de você.
Sofia sorriu de canto, mas sentiu aquele arrepio na espinha.
Alguma coisa estava errada. E agora, ela sabia… estava sendo caçada.
~*~
Dimitri estava inquieto.
Enquanto os guerreiros finalizavam os preparativos para a missão fora da cidade, ele mantinha o olhar preso ao horizonte. Os punhos cerrados, a mandíbula tensa.
— Você está estranho — comentou Richard, ajustando a arma no coldre. — Quase… nervoso. Isso é raro.
— Não sei. Algo está errado. Sofia tentou me acalmar, mas... — Dimitri respirou fundo. — Logan não para de rondar.
Jonathan, sempre calado, apenas assentiu. Eles sabiam que, quando Logan se agitava… era porque o perigo estava perto.
E estavam certos.
Enquanto isso, Sofia tentava aproveitar a noite com Daisy. As duas estavam rindo de um filme qualquer. Até Daisy decidir fazer pipoca. Matias fazia ronda do lado de fora. Era uma noite tranquila.
Até o som de vidro se quebrando ecoar pela cozinha.
— Daisy? — Sofia chamou, já em pé.
Antes que pudesse alcançar o corredor, ela uma figura esbelta e com um olhar assassino se aproximar. Era Eleonor, arrastando Daisy desacordada por um braço, e Matias pelo outro, os dois algemados com prata, com leves queimaduras nos pulsos e colares de ervas ao redor do pescoço.
— BOA NOITE, queridinha! — disse Eleonor, com um sorriso arrogante e largando eles como se fossem sacos de batata — A vadiazinha do Dimitri... finalmente cara a cara.
Sofia congelou. O coração batia tão rápido que parecia doer.
— Como... como você conseguiu passar pelas rondas?
— Oh, Sofia — disse Eleonor, rodopiando como uma criança exibida. — Tudo é questão de planejamento. Uma ervinha bem colocada aqui, um descuido ali... E cá estamos! — Ela inclinou a cabeça. — Você realmente achou que ia manter o amor de Dimitri sem pagar o preço?
Sofia engoliu em seco. Tentava pensar, processar, encontrar brechas.
— Dois lobisomens… uma humana… Você deve estar se sentindo muito poderosa, hein? — disse Sofia tentando ganhar tempo
— Finalmente alguém que reconhece meu talento! — Eleonor gargalhou. — Foi fácil. Um toque dessa erva aqui, ó — balançou um sachê com cheiro adocicado e nauseante — e eles caem que nem mosquinhas. Uma delícia.
Sofia desviava o olhar, tentando medir a distância até a cozinha ou qualquer canto onde pudesse se esconder.
Mas Eleonor foi mais rápida. Em um movimento seco, a pegou pelo pescoço e a ergueu com facilidade.
— Você é tão frágil… tão delicada… Vai ser um prazer ver sua cara quebrada no chão.
Sofia tentou se soltar, as unhas cravando no braço da mulher, mas sem sucesso.
Foi quando um som cortou o ambiente.
Um rosnado. Feroz. Grosseiro. Desumano.
Eleonor congelou. Sofia também.
O som se intensificou. As paredes pareceram vibrar com a força dele. E então… Logan apareceu.
Dimitri não estava ali. Logan estava. As presas à mostra. Os olhos dourados como fogo líquido. O pelo eriçado. A forma de lobo completa e colossal, quase negra de tão escura.
Ele rosnou tão alto que os vidros estremeceram. Quando avançou, foi como um raio.
Eleonor soltou Sofia por puro reflexo e cambaleou para trás, mas Logan não esperou.
Num salto, ele a derrubou com brutalidade. Garras rasgaram a parede, os móveis foram estilhaçados. Eleonor gritou, mas logo o grito virou gemido quando ele a prensou no chão.
"Sua vida acaba hoje" — Logan disse com uma voz gutural, que fez até os ossos de Sofia tremerem.
Mas foi Sofia quem gritou.
— LOGAN! Não mate ela ainda!
Ele congelou, respirando pesado.
— Ela precisa pagar, mas precisa ser julgada. — disse Sofia, com a voz trêmula mas firme. — Pelo que fez com você. Pelo que tentou fazer comigo. Com Daisy. Com Matias. Com todos nós.
Logan deu um último rosnado feroz, e então se afastou, os olhos ainda cravados na mulher sangrando no chão.
Dimitri assumiu de volta o controle aos poucos. Sua forma humana se restabeleceu, nua e coberta de suor e fúria. Ele caminhou até Sofia e a abraçou como se nunca mais fosse soltar.
— Nunca mais. Nunca mais alguém encosta em você.
Sofia apenas chorou no peito dele.
~*~
Sofia ainda tremia nos braços de Dimitri. A sala destruída, Daisy começando a recobrar a consciência e Matias tentando levantar com dificuldade.
Eleonor, caída, cuspia sangue e ódio, algemada agora com prata e neutralizada por completo.
— Você acabou com tudo... — ela murmurava. — Você... me trocou por ela...
Dimitri se aproximou, com a calma de quem está prestes a explodir.
— Você tentou matar a minha Luna. Está viva porque ela pediu. Mas não pense que escapará do que te aguarda.
Foi então que Jonathan e Richard chegaram, alertados pela quebra do perímetro.
E antes de levarem Eleonor, Jonathan se abaixou ao lado dela e disse com frieza:
— Quem está por trás disso? Você não agiria sozinha. Nem com toda a loucura do mundo.
Eleonor soltou uma risada engasgada.
— Eu? Eu sou só uma peça menor… — sussurrou. — Ele queria que eu distraísse vocês. Porque o verdadeiro perigo… já está mais perto do que pensam.
Richard se aproximou, o corpo inteiro em alerta.
— Quem?
O silêncio engoliu todos por um segundo.
E então ela disse. Quase como um feitiço. Uma maldição.
— Vlad.
Dimitri franziu o cenho. Richard trocou um olhar confuso com Jonathan. Nenhum deles reconhecia aquele nome.
Mas então… Sofia deu um passo para trás.
O sangue deixou seu rosto.
O coração acelerou tanto que ela sentiu a cabeça girar.
— Não...
Dimitri virou-se para ela imediatamente, preocupado.
— Sofia?
Ela estava pálida. Os olhos arregalados. As mãos tremiam.
— Eu sei quem é — murmurou. — Ele… ele matou meus pais.
O ar se partiu.
— O quê? — Richard sussurrou.
Sofia olhou para Dimitri, com lágrimas se formando.
—Eu nunca esqueci o rosto dele. A voz dele. O cheiro. Era noite. Ele invadiu nossa casa, matou meu pai primeiro, depois minha mãe… e ele me olhou nos olhos antes de fugir. Eu achei que nunca mais fosse vê-lo de novo.
Logan soltou um rosnado gutural dentro da cabeça de Dimitri. A temperatura do ar parecia ter mudado.
Dimitri se aproximou dela, devagar, como se ela fosse quebrar.
— Por que ele voltaria agora? — Jonathan questionou, ainda sem entender a gravidade da conexão.
Sofia levantou os olhos, a voz fraca mas firme:
— Porque agora… eu fui marcada. Porque agora… eu sou a Luna do Alfa mais poderoso da região.
E ao longe, fora das muralhas da cidade, Vlad sorriu ao sentir o cheiro da reivindicação.
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