NO LIMITE DO ATRITO
5 O Rugido Vermelho
Notas iniciais
Capítulo 5: O Rugido Vermelho
🏎️ POV Bella
O sol da manhã de segunda-feira parecia flutuar de forma mais mansa sobre a marina de Monte Carlo, como se o próprio Principado estivesse de ressaca após o desfile de adrenalina do domingo. Eu estava sentada à mesa da varanda do nosso hotel, sentindo o vento fresco do Mediterrâneo agitar as pontas do meu cabelo enquanto tomava um café preto forte. Renee estava ao meu lado, cantarolando baixinho enquanto passava uma geleia de frutas vermelhas na torrada, exibindo aquele brilho leve e radiante de quem finalmente sentia que o peso do luto estava dando espaço para o orgulho.
— Você foi magnífica ontem, Bells — Renee disse, estendendo a mão para apertar os meus dedos sobre a mesa com uma ternura que me fez relaxar os ombros. — O seu irmão estaria pulando naquele box até agora.
Antes que eu pudesse responder, a porta de vidro da varanda se abriu e Charlie passou por ela. Ele não usava o uniforme desgastado da Swan-Black, mas sim uma camisa polo simples. Seu rosto, geralmente sério e focado em telemetrias e pressões de pneus, exibia um sorriso misterioso que ele tentava, sem muito sucesso, conter entre os bigodes.
— Termine esse café, garota — Charlie disse, batendo com a mão de leve no meu ombro. — Eu tenho uma coisa para te mostrar lá embaixo. Billy e Jacob já estão nos esperando na garagem do circuito.
— O que foi, pai? Algum problema com o motor para a próxima etapa? — perguntei, franzindo o cenho e deixando a xícara de lado de imediato. O instinto de pilota falava mais alto.
— Só vem comigo.
Quando cruzamos os portões da garagem da Swan-Black no paddock, o ambiente normalmente caótico e barulhento de ferramentas estava imerso em um silêncio reverente. Jacob estava encostado na bancada com os braços cruzados, exibindo um sorriso de canto que eu raramente via em seu rosto focado. Billy Black, sentado em sua cadeira de rodas, tinha os olhos fixos no centro do box, onde uma imensa lona preta cobria o chassi do nosso carro. Ao redor, Leah e Alice seguravam copos de plástico com café, os olhos brilhando de expectativa.
— Pai, o que é isso? — perguntei, dando um passo à frente.
— O mundo da Fórmula 1 é um ninho de fofocas, Bells— Jacob tomou a palavra, descruzando os braços e caminhando até a lateral da lona. — Desde a madrugada de domingo, espalhou-se um boato fortíssimo pelo paddock de que alguns pilotos haviam feito um racha clandestino nas colinas de La Turbie na noite anterior à corrida. E a história que chegou aos ouvidos dos figurões da FIA e das grandes montadoras é que uma certa pilota da Swan-Black deu uma lavada histórica no intocável Edward Cullen usando uma Ferrari de aluguel.
Eu engoli em seco, sentindo minhas bochechas esquentarem de leve, torcendo para que ninguém notasse o meu sobressalto.
— A diretoria de Maranello ficou sabendo do boato — Charlie continuou, os olhos brilhando com uma emoção genuína enquanto ele caminhava até a frente do carro. — Eles viram o que você fez na pista no domingo, esmagando a Cullen Racing com uma estrutura privada. O marketing deles juntou as duas coisas e tomou uma decisão histórica. Eles decidiram patrocinar a Swan-Black Motorsport. Nós não somos mais uma equipe de garagem independente, Bella. Somos a equipe satélite oficial deles.
Charlie puxou a lona preta com um movimento brusco.
O ar sumiu dos meus pulmões. No centro do box, reluzindo sob as lâmpadas de LED da garagem, não estava mais o chassi preto e dourado customizado às pressas. Diante de mim repousava uma máquina de engenharia perfeita, pintada no mais puro, agressivo e lendário vermelho de Maranello. O escudo do cavalo empinado estava estampado orgulhosamente no bico do carro.
— Uma Ferrari vermelha... — sussurrei, aproximando-me do cockpit com os dedos trêmulos, tocando a fibra de carbono polida que parecia pulsar com uma energia totalmente nova.
— É sua, Swan — Leah disse, soltando uma risada alta e batendo palmas junto com Alice, que já começou a planejar as novas cores do meu macacão. Renee abraçou Charlie de lado, e toda a equipe explodiu em uma comemoração barulhenta, estourando garrafas de espumante baratas que tínhamos guardado no frigobar.
Duas horas depois, eu já estava vestindo o meu novo macacão e com o capacete afivelado. O treino livre privado na pista vazia de Mônaco servia apenas para checar os sistemas do novo motor italiano. Quando o sinal dos boxes abriu e eu cravei o pé no acelerador, o rugido daquele motor V6 Turbo da Ferrari ecoou pelas paredes de Monte Carlo com uma força brutal. O carro tinha uma aderência absurda, uma resposta de direção tão cirúrgica que me fazia sentir como se eu estivesse pilotando um raio. Eu contornei a Piscina e a Rascasse rindo alto dentro do capacete, sabendo que, com aquela máquina vermelha nas mãos, o campeonato inteiro estava prestes a virar um campo de caça particular.
🏎️ POV Edward
O som do motor italiano ecoando pelas colinas de Mônaco durante a tarde tinha sido o suficiente para me deixar trancado no motorhome da Cullen Racing por horas, revisando dados de telemetria que eu já sabia de cor. A notícia do patrocínio da Ferrari para a Swan-Black tinha caído como uma bomba no paddock. O boato do racha clandestino havia se transformado na maior jogada de marketing da temporada, e a humilhação da minha derrota no domingo parecia ganhar novos capítulos a cada hora.
Eu caminhei em direção ao prédio da FIA para a primeira rodada de entrevistas oficiais da semana, com a calça social azul-marinho e o casaco da equipe pesando nos meus ombros. Eu precisava de ar. Decidi cortar caminho por uma das salas de apoio técnico desocupadas nos bastidores do auditório, um espaço isolado onde os pilotos costumavam descansar antes dos flashes.
Quando empurrei a porta, travei no mesmo instante.
Bella estava ali, sozinha. Ela estava de costas para mim, bebendo água de uma garrafa plástica, já vestindo o novo uniforme vermelho que exibia os patrocinadores italianos. A visão daquela silhueta me trouxe um soco direto de dopamina e irritação.
— Vejo que os boatos de rua agora têm o selo oficial de Maranello — disparei, fechando a porta atrás de mim com um estalo seco, fazendo-a girar os calcanhares de imediato. Meus olhos verdes fixaram-se nos dela com aquela fúria fria que eu não conseguia aplacar. — O marketing da Ferrari deve estar realmente desesperado para patrocinar uma pilota que precisa quebrar as regras da FIA na montanha para conseguir relevância.
Bella soltou uma risada de lado, aquela mesma risada cortante que ela usara no pódio. Ela caminhou na minha direção, parando a milímetros do meu peito, a arrogância exalando de cada poro do seu corpo.
— O marketing deles reconhece talento bruto quando vê um, Cullen — ela rebateu, a voz saindo baixa e perigosamente provocativa. — Eles viram o carro azul da Cullen Racing sumir pelo meu retrovisor no domingo e perceberam que o garoto de ouro da Inglaterra não passa de um obstáculo na pista quando o asfalto é real. Aceita que dói menos: agora eu tenho o braço e o carro para fazer você ficar em segundo lugar pelo resto da temporada.
— Você é insuportável, Swan — sibilou a minha voz, o meu maxilar travando enquanto a proximidade do corpo dela começava a sabotar o restante do meu controle, exatamente como na noite de sábado.
— E você é um babaca pretensioso — ela devolveu, erguendo o queixo, desafiando-me com o olhar.
Toda aquela troca de farpas e insultos desmoronou sob o peso do tesão reprimido que ainda queimava entre nós desde o banheiro do hotel. Eu não aguentei. Avancei o último passo, segurando o pescoço dela com uma das mãos e puxando-a contra o meu corpo com uma violência desesperada. Bella soltou um suspiro audível contra os meus lábios antes de se entregar ao beijo com a mesma fome selvagem de antes. Nossas línguas se encontraram em um ritmo frenético, as mãos dela agarrando os meus cabelos bronzeados enquanto eu a prensava contra a parede da sala, sentindo o calor do seu corpo vermelho queimar através das minhas roupas.
O beijo estava prestes a evoluir, minhas mãos já descendo para a cintura dela com a urgência de repetir o amasso insano daquela noite, quando o som estridente da maçaneta girando nos sobressaltou.
A porta se abriu de supetão.
— Bella, o Jacob mandou avisar que a coletiva vai começ... — a voz de Seth Clearwater sumiu no ar.
O jovem mecânico e piloto de testes da Swan-Black travou na soleira da porta, com os olhos arregalados e a boca aberta em um puro estado de choque ao pegar nós dois no flagra, com os lábios vermelhos e as roupas desalinhadas. Seth, que era o único membro da equipe da Bella que não nutria um ódio mortal pela comitiva da Cullen Racing por causa da sua natureza pacífica, olhou de mim para ela, piscando várias vezes como se estivesse processando um erro de sistema na telemetria.
— Eu... deuses... eu não vi nada! — Seth gaguejou, levantando as mãos em sinal de rendição e dando um passo para trás com o rosto completamente vermelho. — Eu vou fingir que a porta estava trancada! Cinco minutos para a coletiva!
Ele puxou a porta de volta com pressa, batendo-a e nos deixando novamente naquele silêncio tenso e carregado de eletricidade. Bella se afastou de mim com um empurrão firme, limpando a boca com as costas da mão e tentando recuperar a postura de pilota de elite, embora a sua respiração estivesse completamente desgovernada.
— Isso não aconteceu, Cullen — ela sibilou, ajeitando a gola do macacão vermelho antes de caminhar até a porta sem me olhar nos olhos. — Temos uma entrevista para dar.
🏎️ POV Bella
O auditório da FIA estava lotado para a coletiva de imprensa oficial que projetava as expectativas para a próxima etapa do campeonato mundial: o Grande Prêmio de Interlagos, no Brasil. Sentados à bancada estavam os três campeões do fim de semana: eu no centro, Edward à minha direita com a sua habitual máscara aristocrática recuperada, e Riley Biers, o piloto da equipe Volturi que havia conquistado o terceiro lugar, posicionado à esquerda.
No entanto, a atenção de toda a bancada de jornalistas internacionais estava voltada inteiramente para mim. O anúncio do patrocínio da Ferrari e a minha vitória histórica haviam quebrado a internet.
— Isabella Swan! — um repórter da Sky Sports levantou-se, apontando o microfone na minha direção. — A sua vitória em Mônaco mudou os rumos do campeonato, e agora com o suporte oficial do motor vermelho da Ferrari, você entra em Interlagos como a favorita absoluta. Mas além do desempenho nas pistas, as redes sociais foram inundadas nas últimas quarenta e oito horas por fotos de você e Edward Cullen no pódio. Os fãs ao redor do mundo estão obcecados pela química e pela tensão palpável entre vocês dois, e a hashtag #LinceSwan está nos trending topics globais. O que você tem a dizer sobre os boatos de que toda essa rivalidade esconde, na verdade, um romance nos bastidores?
Eu olhei de relance para o lado e vi Edward contrair sutilmente o canto dos lábios, mantendo os olhos fixos na bancada para não demonstrar nenhuma reação diante das câmeras. Suspirei, inclinando-me em direção ao microfone com o meu habitual sorriso gélido e focado.
— Eu agradeço o entusiasmo dos fãs e o respeito pelo nosso desempenho na pista, mas essa história de romance é um verdadeiro delírio coletivo — respondi, mantendo a voz firme, pausada e perfeitamente limpa. — A única coisa que eu e o piloto número dezessete dividimos é o mesmo asfalto e a obsessão por chegar em primeiro lugar. O que os fãs chamam de química é apenas a eletricidade de dois competidores que se odeiam o suficiente para não aliviar o pé na primeira frenagem de Interlagos. No Brasil, o foco da Swan-Black vai ser um só: manter essa nova Ferrari vermelha na liderança e deixar a Cullen Racing exatamente onde eles pertencem... atrás de mim.
O clima de guerra fria que se instalou no auditório da FIA arrastou-se até o brunch oficial oferecido aos pilotos no salão imperial do hotel de Mônaco. O ambiente estava repleto de taças de cristal, pratarias reluzentes e o som baixo de um piano clássico ao fundo, mas a atmosfera entre as mesas continuava pesada. Eu estava de pé perto da mesa de doces, segurando uma xícara de café e fingindo ignorar os olhares curiosos dos patrocinadores, quando a silhueta alinhada em azul-marinho de Edward Cullen se materializou bem ao meu lado.
Ele pegou uma taça de champanhe da bandeja de um garçom, mantendo os olhos fixos na linha do horizonte através das imensas janelas de vidro antes de disparar o seu primeiro ataque, com a voz baixa e carregada de veneno aristocrático.
— Aproveite o topo do pódio enquanto pode, Swan — Edward murmurou, sem nem ao menos se virar para mim, embora a rigidez do seu maxilar denunciasse a sua obsessão. — Porque a sua queda vai ser um estouro traumático. Vai ser a visão mais linda do mundo ver você perder o controle dessa sua nova Ferrari e despencar no campeonato.
Girei o corpo lentamente na direção dele, cruzando os braços sobre o meu novo uniforme vermelho e sustentando o seu olhar com um sorriso cortante de pura superioridade.
— Baixa a bola, Cullen, porque do primeiro lugar eu não saio — respondi, minando a empáfia dele com cada palavra pausada. — E a única visão que você vai ter em Interlagos é a visão privilegiada da asa traseira da minha Ferrari vermelha.
Edward soltou um riso safado, aquele som rouco e descarado que fez o meu estômago dar uma volta completa. Ele deu um passo à frente, quebrando o protocolo de distância e eliminando o espaço entre nós em meio ao salão cheio. Inclinando-se com uma lentidão calculada, ele aproximou os lábios do meu ouvido, deixando que a sua respiração quente roçasse na minha pele antes de sussurrar:
— Isso é um convite, Swan? Porque eu já vi seu traseiro e confesso... ele é bem gostoso...
O insulto misturado com audácia pura fez o meu sangue atingir o ponto de ebulição instantaneamente. Sem pensar nas câmeras, nos patrocinadores ou nas consequências para a Swan-Black, eu agi puramente por instinto: desferi um tapa estalado e violento diretamente na cara dele, fazendo o som do impacto ecoar discretamente entre os sons de talheres do salão.
— Babaca! — sibilei, os dentes cravados de fúria.
Edward virou o rosto lentamente de volta para mim. A marca vermelha dos meus dedos já começava a desenhar-se na sua pele clara, mas, em vez de fúria, os seus olhos verdes brilhavam com um divertimento sombrio e perigoso. Ele passou os dedos pelo maxilar agredido, exibindo um sorriso cínico que me deu náuseas e tesão na mesma proporção.
— Esse tapa vai ter volta... — ele sussurrou de volta, a voz saindo como uma promessa mortal contra o meu rosto. — E vou amar dar ele em você ouvindo você gemer meu nome...
Ele deu um último gole no seu champanhe, piscou para mim com uma audácia insana e caminhou de volta em direção ao lounge da Cullen Racing, deixando-me sozinha no meio do salão com a mão ainda formigando e a certeza absoluta de que o Brasil seria um verdadeiro inferno na Terra.
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